Sanzalando
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11 de abril de 2011
na praia
Esta não é a minha praia e nem é uma praia que eu conheça. Mas hoje não posso estar na minha praia nem em praia nenhuma que conheça. Hoje apenas posso sonhar com uma praia e por isso penso numa qualquer mas vejo apenas a minha praia. Vejo a mar azulzinho a rebentar devagarinho e se espraiar na areia com doçura, molhar os pés dela e eu a nadar até à jangada onde vou mergulhar os saltos mortais e encarpados que nunca dei na vida, mas que darei hoje porque hoje apenas posso sonhar com a praia e já agora aproveito a minha para sonhar os meus impossíveis todos. Eu a nadar como se fosse um experimentado e não um quase afogado nadador.
Eu a mergulhar num perfeito estilo, quando na realidade mergulho baixinho, de pé e tapando o nariz.
Eu a olhar o biquini azul que de lá da toalha colorida me olha como que a pensar quando é que eu vou acabar com as piruetas seguidas de estatelado.
Eu a gargalhar na jangada.
Afinal de contas hoje nem posso ver o mar.
Sanzalando
10 de abril de 2011
para além
Me recosto na areia da praia neste dia de primaveril verão ou verão primaveril. Em resumo, que é para eu não me tropeçar nas palavras que quero usar para te dizer que está sol mas está fresco. Vim para a praia que é aqui que eu me reencontro, me revejo e te falo diálogos de memória e se tiver que gritar para me ouvires eu lhe faço e se alguém me perguntar se louquei eu vou apenasmente dizer que estou a ver se as ondas do mar fazem eco como eco fazem as nossas montanhas do nosso deserto, e assim despensam esses absurdos de mim.
Mas aqui recostado hoje tenho umas coisas para te dizer, para além de te dizer que hoje chove dentro de mim, para além dessa chuva miúda que chamam de saudade e que se me chove sempre, hoje pintei-te um quadro na minha memória, cores garridas, árvores floridas que tanto podem ser acácias como outras quaisquer que eu não sou exigente, mas sei que não são casuarinas porque nessas eu nunca lhes vi flor. Nesse quadro de cores garridas, para além de parecer estar sol, está aquele tipo de dia que chove para se ver melhor, chove para assentar poeira e eu te ver com maior nitidez.
Aqui recostado me olho nos teus olhos rebuscados na imaginação para além de ter ver te viver.
Sanzalando
7 de abril de 2011
sentado por aqui, parte finita
Sentado no fundo da alma, olhando o mar que lacrimejo, sinto que deve haver um lugar onde o amor nunca acaba. Pelo menos eu faço um esforço para manter a minha cara de ar sorridente e gente feliz quando te penso, quando te desejo e quando te vejo de memória. A minha vida e o meu sonho têm o mesmo valor desde que eu esteja com a memória virada para ti nesse lugar onde o amor nunca acaba.
Sentado por aqui, julgando-me esperto, mais sabido que a sabedoria, mais maduro que o conhecimento sou o somatório do medo que este amor acabe e que um dia te olhe como quem olha para um infinito desconhecido.
Sentado por aqui, vou à memória buscar o teu perfume, calor e até um sabor amargo de desprezo.
Sentado por aqui continuo a sentir que mesmo assim esse amor não vai ter fim apesar de talvez eu achar que tu nunca soubeste da minha existência e persistência.
Sentado por aqui, no fundo da alma, olhando o mar que lacrimejo, olho-te com sabor a desejo.
Sanzalando
6 de abril de 2011
rompimento com o esquecimento
Abri as cortinas na minha memória duma forma abrupta que até parece eu queria rebentar com elas. Ou comigo, que seria a mesma coisa no caso. Acho me pareceu eu estar com falta de ar e fui assim brutamontemente abrir espaço e poder olhar mais além. Mas a memória afinal é limitada e tem coisas que só assim numa aguarela de vagamente se consegue perceber que ali existia qualquer coisa. Mas mesmo assim procurei ver mais além, rebusquei estantes que teiavam perfumes mofos, e nem uma imagem mais clara consegui ver. Afinal de contas eu apenas queria ver o teu sorriso e já me estou a esquecer como é que ele é, ou era. Acho vou ter de levar na lavandaria essas cortinas ou comprar nova memória, mesmo que seja numa segunda mão e rebuscar memórias alheias, enquanto isso vou ouvir no meu radio de pilhas as músicas que ele me quer dar e sonhar memórias futuras de manhãs de cacimbo.
Sanzalando
5 de abril de 2011
hoje teve um hoje
Nesta praia de descanso mental e areal de assentos, virgulas e pontos, que me invento em cada vez que aqui paro, me deixo embalar naquilo que em perfeito juízo eu jamais diria, pensaria ou falaria.
Hoje, carregado de palavras soltas, tricoto frases que troco à distância em que nos encontramos, sem as pensar, filtrar ou apenasmente soletrar. Falo-te como se estivesses aqui a ouvir-me num escutar atento, como que a querer marcar o espaço que nos ocupamos, como que a dizer-te para pensares em mim numa constante obsessiva, matraqueada de saudade e coberta de nostalgia.Hoje, recheado de certeza que o teu amor se me abraçou com a fortaleza que imagino, aguardo apenas o teu sorriso, uma tua palavra ou um pequeno aceno como se fosse o último.
Hoje, na praia da minha imaginação, me sento e te aguardo como sempre tenho feito, embrulhado em palavras, imagens de memória e olhos em ti à espera de ver o sonho que em perfeito juízo jamais sonharia.
Hoje, carregado de amor, olho o mar como sempre o olhei e me embalo no dançar das ondas.
Sanzalando
3 de abril de 2011
sentado por aqui
Sentado numa pedra desta praia, que imaginei, me pergunto se no dia em que nos reencontrarmos eu te perguntarei se valeu a pena ter sofrido tanto, se tu me esqueceste na exacta proporção que eu te implorei, se a tua ausência é puro fingimento carregado dum faz de conta só para bancar é forte que nem preciso verter uma lágrima que ele me rasteja?
Sentado numa pedra desta praia, que inventei, relembro a areia branca onde te deitas bronzeando o teu bronzeado corpo redondo esculpido pelo deuses e me pergunto como é possível que ainda haja quem me suporte ouvir falar-te como se estivesses aqui onde as ondas do mar rebentam e se espraiam na areia que circunda esta pedra inventada.Sentado por aqui, sufocado pela dor da saudade, imagino ver-te implorar para que eu não me afaste de ti.
Sentado por aqui imagino-me a encostar-me no teu ombro como se tu estivesses estado sempre aqui, nos momentos bons e nos maus que eu tive, nas horas que te esqueci e nas noites longas em que o meu túnel era mais longo que a luz que tu me podias mostrar.
Sentado por aqui vejo esbatido um tempo chamado de perdido que pintei com palavras cinzentas e aguarelei com lágrimas por caminhos que esqueci.
Sentado por aqui imagino que o tempo muda tudo mas me engano, apenas envelheço, o resto tem de ser feito e um dia ele vai ser feito e se vai misturar na água desse mar que se espraia por aqui na praia que eu inventei.
Sanzalando
2 de abril de 2011
sonhei e agradeço
Por um momento sonhei. Acho foi um instante que durou a noite inteira porque acordei parecia ainda não tinha dormido. Estava cansado mas sorria. Por um instante sonhei e sorri. É, eu sonhei que tu tinhas me dado importância, te recordaste de me olhar e me chamar. É, eu deixei de ser apenas mais um, números tantos que te procuram. Já contavas comigo e isso seria meio caminho para me teres. Foi um instante que durou o tempo de eu me despedir e ver gente infeliz com lágrimas a me ver partir, outros felizes por me reverem. E eu sorria de boca e olhos.
Afinal de contas foi apenas um sonho que durou um instante, momento de ver que eu não estava preparado para outra vez, assim na paixão de começar dum novo zero. Foi um sonho que me fez sorrir e quando acordei ainda sorria e o dia passei-o a sorrir. Sonho que te agradeço porque não sonhei que me tinha untado de azeite, que tinha saltado do abismo, que tinha mergulhado no mais fundo dos fundos oceânicos. Sonhei contigo a chamar-me, e pelo nome. Ainda sorrio enquanto te espreito por um canto da memória.
Sanzalando
1 de abril de 2011
tem dias e outros
Saltitando dias cá vou aparecendo. Umas vezes transportando carradas de nostalgias, outras, paletes de raiva e outras ainda sem nada na alma como se alma penada fosse, noutros, que chamaria de dias sim, parece que acordo com um sorriso no corpo e os lábios balbuciam palavras doces mesmo quando se mantêm em silêncio e nos dias não, outros dias de mim, o suor nocturno me afoga num lago de imaginação vazia.Tudo depende do dia, destino predestinado dum acaso tirado à sorte. Tem dias.
Tem dias que caminho pelas areias do deserto tentando conter a ânsia que me devora nos delírios febris duma qualquer doença instalada num coração marcado.
Tem dias em que viajo de alucinação em alucinação até que dou comigo a chorar-te nos braços que imagino me abraçam.
Saltitando dias cá vou aparecendo na esperança de ver o teu pôr de sol instantâneo momento de prazer imaginário.
Sanzalando
30 de março de 2011
às vezes tem vez
Caminho na minha linha de vida, umas vezes traçada por mim, outra ziguezagueada por destinos, não querendo ser juiz ou réu, apenas vivendo um dia de cada vez, aceitando as pessoas ou a mim mesmo tal e qual somos. Mas tem dias que a linha se apaga e o improviso impera, cresce a falta de espaço, a falta de tempo, falta a paciência e chego a ser o meu pior inimigo e reinvento o ódio amargo de boca, torresmo duro de indigestão.Depois, no calar dum pôr de sol, retorno-me ao regresso do dia a dia e sorriso no rosto canto aleluias no silêncio duma voz que não sabe cantar, entro na linha, que às vezes é desenhada por mim e outras vezes ziguezagueada por destinos sem que eu seja vítima, sem que eu verta lágrimas fáceis, sem que eu tenha medos.
Caminho para lá dos Andes, Himalaias, Pirenéus, Alpes ou Kilimanjaro, mas quase sempre na linha que eu tracei sobre valores presentes assentes no passado.
Caminho à vez por carreiros de formigas ao som das cigarras num regresso a mim de sabores presentes como quem caminha certo, absoluto e com destino traçado num ziguezague de tempos perdidos e apagados da memória.
(Hoje vou na Kipola dizer adeus a Março)
Sanzalando
29 de março de 2011
hoje tintei-me
Hoje escolhi o dia para me autoflagelar mentalmente. Não cozinhei para ti, não te disse os bons dias, não decorei nenhum recado para ti e não atendi os teus telefonemas. Fiz-me de contas que não contavas e nem me lembrei de te comprar flores nem de inventar jogos para jogarmos na solidão dum fim de tarde.
Hoje não me existes, não sei a cor do teu sorriso, a cor do teu crepúsculo nem a cor da tua cara quando deres conta de tudo isto. Tintei-me em ti hoje e vou comer chocolate, lambuzar os dedos e saltar os muros das minhas prisões.
Hoje me sentei apenas comigo para me prometer ser ainda melhor, para mim.
Sanzalando
28 de março de 2011
27 de março de 2011
26 de março de 2011
hoje ensurdei-me em silêncios
Arrepios de frio, vento bate forte parece quer levar-me com ele, mas ele não sopra para sul mas sim de sul. Invernei-me num repente quando me mentalizei que ia receber o calor. Por isso amuei-me comigo e calei-me atrás dos vidros da janela que dá para lugar nenhum. Gritei-me até desaparecer a voz e mergulhei-me em silêncios mudos que me ensurdessem a alma.
Afinal é Sábado num pais do norte e não tive pachorra de acordar para gastar o dia com vida, gasto-o sornamente num silêncio surdo como o tempo.
Sanzalando
25 de março de 2011
eu e o meu rádio de pilhas
Ligo o meu rádio de pilhas numa estação à toa. Parei nesta porque está a dar uma canção que lhe gosto. Não sei o nome de quem lhe canta mas sei que se chama Because I Love You, porque ele diz isso muitas vezes e eu me delicio a ouvir. O meu rádio de pilhas não tem ecran para ler o nome das músicas, nem o ano nem nada. Tem mesmo só um botão que se chama volume e outro que diz tunning. Mas dá para me acompanhar nos meus silêncios. E eu ouço Because I Love You e voei de pensamento em pensamento e imaginei um confabulação cósmica que me criou até viver este momento em que ouço o meu rádio de pilhas. Olho para trás e vejo o caminho que percorri, algum do muito lá para trás está tão nublado que quase esqueci mesmo como é que foi esse caminho. Olho para a frente e não tem caminho. Quer dizer que eu vou ter de caminhar e inventar o caminho para andar? Só poder ser confabulação misteriosa dum texto escrito e não lido que me deram para viver.O meu rádio de pilhas mudou de música e agora toca uma que não tem letra e eu não faço a mínima que é que está a tocar e continuo a deixar-me levar nas ondas do pensamento confabulado até ao sentido de responsabilidade que é eu ter de escolher a minha vida. Acho mesmo vou só ficar de olhos abertos e deixar o caminho se fazer à minha frente enquanto eu ando.
Sanzalando
24 de março de 2011
ar gingão
Me apresentei com o meu melhor ar gingão, fato de domingo, novo de acabado de passar a ferro, colei na cara um ar de quem sabe para onde quer ir e como o quer fazer e entrei no gabinete. Cumprimentos de circunstância e ar de quem quer distância. Me mandaram sentar. Falei as respostas das perguntas feitas parecia eram tiros de metralhadora. O ar de decisão estava colado na cara parecia era cola de sapateiro para nunca mais descolar. Opinei opiniões de ensaios feitos no espelho. Ouvi com os ouvidos mais atentos do mundo. Acenava sim e não com a cabeça, mostrava estar mesmo a par de todas as palavras ouvidas e ditas pela minha voz firme.
O meu ar gingão estava a ganhar peso na conversa, me soltava a língua e já dizia não com as palavras certeiras de quem não quer nem perder tempo.
E o tempo passou que nem relógio parece ter tido tempo de lho marcar.
Quando o meu ar triunfal se levantou para o aperto de mão de despedida quase caiu no chão, num estrondo ouvido lá para os lados dos morros o azuis. Me disseram num soletrar bem audível que sim mas não era nem preciso.
O ar gingão entrou no saco, a cola se descolou e a vida continuou num viver à espera que o tempo tenha tempo de ter um relógio a marcar a hora.
Sanzalando
22 de março de 2011
a nossa praia
Sonhei na praia um sonho em que tu paraste para pensar em mim. Estava sol como está sol nesta altura na nossa praia. O mar, um pouco castanho da chuva que teima em cair furiosamente lá nos altos morros, estava calmo como não costuma estar nestas alturas na nossa praia. Os mapundas que agora têm que dar a volta pela estrada velha, já não vêm à nossa praia porque arranjaram outras praias um pouco mais a norte e nos deixam esta só para a gente.Ai, acordado num repente me pergunto onde estou. Sonho lindo docemente sonhado e tristemente acordado. Sonhei com a nossa praia onde não estava a nossa casa porque nunca tivemos uma casa, muito menos uma casa de praia.
Sanzalando
21 de março de 2011
Falta-me o tempo para perder tempo.
Tanto que fazer no pouco tempo que me restou num dia gasto de horas a passarem despercebidamente. Não senti fome, nem sono e a falta de tempo não me tirou a vontade de desligar do mundo por segundos. Antes pelo contrário, quase me apeteceu gritar que desisto e arrear os braços desmoralizado. Mas um qualquer click, que não faço a mínima ideia de onde apareceu, fez-me ver que há mais mundo para além do que os meus olhos vêem, para além do meu umbigo, para além das minhas silabas mortas em monólogos de surdos. Acreditei que posso ter ainda um lindo dia nas poucas horas que me separam de amanhã e por isso sorri, brilhei nos olhos o brilho duma juventude que faz tempo gastei e aproveitei as rugas para fazer uma cara feliz. Olhei à volta, estava um luar, já não é o mesmo luar porém ainda tem mosquitos a me picar e a me fazer palavrear silêncios em obscenidades mentais, quando dei comigo a dizer que não devo viver de recordações futuras porque isso futuramente me mata, que as pessoas partem num partir definitivo, que as memórias se apagam e se desligam num furtivo esquecimento e que eu não serei a semente que vai ficar para apagar a luz.
Enfim, é o que faz a falta de tempo para não ter tempo de perder tempo.
20 de março de 2011
lua cheia
Aproveitei a luz da lua e cantei que nem lobo uivando noite inteira. Esqueci pudores, arranquei fragmentos de passado à memória e reinveitei um corpo a partir dos sonhos e com as minhas mãos inventei a tua cintura que agarrei com quanta força tinha e disse-me que jamais te largaria. Foi violência verbal esta luta que também foi desigual. A minha impaciência esbarrou na tua indiferença e os meus lábios sangraram silêncios enquanto eu suei angustias. Me disseram era lua cheia, de lobos e eu feito cordeiro mais uma vez.
Em silêncio cantei-te poemas que inventei, contei-te estórias que gostava de ter vivido, falei-te de personagens que gostava de ter sido. Mas a lua cheia carregada de luar pôs-me nu frente à tua realidade e eu mais uma vez chorei silêncios e recriei novos horizontes em que atravessei fronteiras e nasci numa nova vida em que os meus olhos deixaram de chorar.
Sanzalando
19 de março de 2011
Dia do meu Pai
Tinha 4 anos e sem dizeres adeus, por falta de tempo, só pode, desapareceste da minha vida. Não me consigo lembrar se depois do carro preto do Dr. teu amigo, dono dessa foto em que lhe roubei o teu pedaço, que foi lá em casa dizer que tu tinhas viajado para sempre, e que eu me lembro como se fosse hoje dessa hora de almoço desse domingo, eu chorei muito, eu desesperei, birrei ou que é que fiz. Se apagou tudo da memória e ao longo dos tempos, quando eu comecei a juntar pensamentos e ideias na minha cabeça fui juntando fragmentos e fui fazendo a tua história. Me lembro de para aí ao 12 anos ter 'assaltado' aquela caixa de madeira que a mãe guardava zelosamente e quase que parecia secretamente na garagem e ter tirado de lá o Advogado do Diabo e lido como se estivesse a cometer um crime. Me lembro de me dizerem que te escondias em casa se o teu clube perdia lá terra que não conhecias e parece que até nem gostavas, para que os teus amigos não brincassem com essa tua 'doença'. Sorte que nesse tempo até parece que não te acontecia muito, pois se fosse hoje eles iam pensar que tinhas hibernado ou que a tua águia tinha deixado de voar. Me lembro que me disseram que tinhas tanta certeza que o teu primeiro filho ia ser um másculo e te saiu uma fêmea e por isso te escondeste uns tempo. Me disse a mãe que andavas sempre de gravata, só que amarrotada no bolso porque a lei não dizia onde é que ela tinha de estar.
Me contaram que nas terras do Lobito escreveste porque as mulheres começaram a andar de calças e tu não gostaste de ver, hoje estavas feito na azia porque onde quer que olhes não ias ver saias.
Me contaram que salvaste pessoas do primeiro balcão no dia do incêndio no cinema que até parecias eras herói.
Pai, tanta coisa mais me contaram e eu não te posso perguntar se é verdade, ou foi só coisas para me encher o ego. Eu sei que por aí se ouve tudo e por isso estás a ouvir o que eu estou aqui a te falar e assim me vais dizer que a tua falta de tempo nestes tempos todos foi só porque estavas ocupado a ser como sempre foste: boa gente e um dia vais me contar tudo e voltar a ser o meu Pai.
Sanzalando
18 de março de 2011
no meu caso de malha
Passeio ao longo da praia, ainda transportando um casaco de malha, que não sei se foi a minha mãe que fez ou apenas mandou fazer à vizinha que vai vivendo de fazer estas coisas. Se eu lhe colasse um jacaré ele passava a ter marca, mas este é mesmo um casaco de malha feito na minha rua. Acho me fica bem e estas riscas lhe dão um ar de que estou mais magro, mesmo que a balança diga que não é verdade. Tenho mesmo é que aprender a andar de costas direitas.
Mas dizia eu que estava a passear ao longo da praia e sinto que a minha cara transpira um sonho adiado e nunca esquecido, que me leva por caminhos ilimitados que não consigo descrever com as mil palavras que um dia aprendi a escrever. Mas me olhando na sombra eu vejo que não encontrei ainda esse caminho, mesmo que eu olhe para todos os lados até para o meu lado infantil. Eu passeio e passam os dias e o sonho continua marcado na minha cara como se fosse um carimbo dum dia que não devia ter esquecido.
Passeio na praia com o meu casaco de malha feito pela vizinha que vive destes trabalhos encomendados, sei lá se com lãs de outros casacos que já foram novos e continuo atrás deste sonho adiado.
Sanzalando
17 de março de 2011
os meus quedes novos
Hoje calcei os quedes último modelo duma marca que eu nem sei como é que se lê, porque ainda estou no tempo em que as marcas não assim um importante que mereça eu gastar minha capacidade de gastar conhecimento nessas coisas. Não são LaFinesse, nem Wrangler porque isso é marca de calças. Mas não interessa perder tempo neste conhecimento calçado porque importa é que com estes quedes eu vou conseguir correr mais rápido que o vento que hoje sopra do contra, me vou conseguir desviar das gotas grossas da chuva que teima em me manter abrigado e me vou cansar num aquecimento que não vai ter frio capaz de me gelar nem a alma.
Com estes quedes eu vou só correr direito ao sul, esperar te ver passar na rua, encostada ao banco de trás do lado direito num fim de tarde, e depois ainda vou chegar a casa a tempo de te ver chegar.
Com estes quedes eu vou saltar as ondas do mar e nem lhe tocar como se fosse um salto de altura comprida e chegar lá, onde um dia chegaste ainda na alcofa e te olhar e dizer que o tempo não nos passou rasteiras e vou encontrar aquele esboço de sorriso que mostras quando estás feliz.
Com estes quedes novos eu vou simplesmente escrever que te tenho saudades.
Sanzalando
15 de março de 2011
gaivota da Ilha
Ouço o Ritmo da Ilha, através dos África Show, enquanto vejo as gaivotas me voarem por cima como que a me gritarem que são livres. Será que elas sabem que lhes chamam de gaivota? De repente até me deu vontade de ser pássaro assim.Se eu tivesse asas eu me ia curar num instante desta doença de te ver desde aqui num esforço até lá, sobrevoava amores perdidos na esperança de lhes encontrar e depois me estendia no sofá a ver os meus olhos brilharem um azul mar.
Já sei que vais pensar eu louquei-me em querer ser pássaro porque só um louco quer ser bicho. Mas eu apenas queria ser num instante uma gaivota mesmo que depois eu não soubesse que tinha voado num voo sem regresso.
Reouço o Ritmo da Ilha vezes sem parar apenas para deixar de sonhar em ser pássaro e voar. Me disseram que a vida é melhor sem fantasia... desacredito. Desligo-me do som, dou uns passos na areia, olho as gaivotas e dei por mim a voar num planar interminável de imagens e sons que me levam aos amigos.
Sanzalando
14 de março de 2011
Parabens a mim que tenho amigos
Aderi às novas tecnologias e de phones nos ouvidos vou ouvindo uma e outra canção dos meus tempos de adolescente. Ouço o Baby Blue, Because I Love, outras que já não me lembro o titulo nem quem lhes deu vida. Vantagens das novas tecnologias associadas a velhas nostalgias. Me embalo no teu sorriso de quem adivinha que acabei de receber uma prenda, mesmo que não consiga ver a tua cara e nem tu a minha. Mas sabes, sorri, como se diz, de orelha a orelha numa felicidade de poder dizer que nem as milhas nos separam e como dizia um outro, os amigos ficam quando todos foram embora só porque chuviscou.
Me embalo no teu sorriso de contentamento de saberes que hoje adicionas mais um ano na tua pessoal contabilidade e eu não tive tempo, desculpas, de te enviar pelo correio um livro que ainda não escrevi.
Me embalo ao som dos Deep Purple no Smoke on the wather e me lembro que tu estás em casa a estudar e eu estou para aqui a vaguear no meio das mapundeiras que vieram ver o azul do mar que hoje carregou de pica pica e se encheu de castanho vindo do Bero abarrotado de lama desde lá do Virei.
Me deixo cambalear a cabeça num quase adormecer só porque me lembrei que tenho amigos e traquilamente ouço uma Muxima velha e sempre nova a bater-me no coração.
Parabens a mim que tenho amigos
Sanzalando
13 de março de 2011
Regresso lentamente
Abrigado do chuvisco que teima em cair, dou por mim a olhar a linha recta que é curva e que teimam em chamar de horizonte, quando lhe deviam apenasmente chamar de barreira entre o lado de cá e o de lá e ficava por aqui.
Mas aqui começam a saltar-me à memória recordações vividas, sonhadas, fantasiadas, imaginadas ou somente inventadas com a esperança de vir a ser feliz. E me embalo e me dou a te falar todas as vezes que o meu silêncio me afoga numa tina de solidão. Tu, esse ser vagamente vago, criatura dos meus sonhos, autora dos meus pesadelos, ritmo das minhas gargalhadas, sal das minhas lágrimas, brilho dos meus olhos, nem sabes que existes e eu aqui a falar-te tantas vezes, que qualquer dia até tu vais acreditar na tua existência.
Aqui me tens regressado para silenciosamente te falar, te fotografar ou apenas te olhar de memória.
Sanzalando
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