recomeça o futuro sem esquecer o passado

Programas K'arranca às Quartas no Blog

7 de outubro de 2025

na noite que amanheceu

Havia, numa cidade perdida entre o deserto e o mar, escondida por uma enorme baía, onde as raras nuvens pareciam descansar nos meus ombros. Nessa cidade vivia eu e mais uma dezena de milhar de gente, nunca contei, mas havia uma menina de olhos curiosos e passos silenciosos que eu amava perdidamente. Todos diziam que ela tinha nascido durante o último nascer do sol que houvera, pois, desde aquele dia, o Sol nunca mais amanhecera ali. Pelo menos para mim.

As noites eram eternas, silenciosas, doridas. Eu vivia à luz das trevas, outros viviam à luz das lanternas e das estrelas, que pareciam se cansar de brilhar nas noites longas da insónia.

Mas eu acreditava que o amanhecer não tinha desaparecido, apenas se tinha escondido na paixão da minha existência..

Certa noite, subi a falésia, no seu ponto mais alto mais alto, levando comigo uma lanterna feita com vidro e carregada de esperança. Lá no topo, encontrei uma pedra onde me sentei e não sei de onde veio uma voz que me disse:

- O amanhecer dorme no coração de quem ainda acredita nele.

Então destapei a lanterna e ela não tinha luz, mas estava carregada de coragem. Como se fosse um sopro,  saiu um fio dourado que subiu ao céu e se espalhou entre as poucas nuvens e despertou o primeiro amanhecer em muitos anos.

Desde então, digo que, quando o Sol nasce muito bonito, é porque ela se lembrou de mim, mesmo contra a sua vontade férrea


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Sanzalando

6 de outubro de 2025

o meu fm

Era eu ainda criança de calções e suspensórios, tinha para aí 12 anos e um sonho: queria trabalhar na Rádio.

Não pensava no público, no delírio de fãs, apenas em gravadores, gira discos e muitos botões para mexer. 

Tudo começou num dia de chuva. Não chuva séria, mas na chuva no rádio portátil que se chamava transistor. Porque raio daquilo hoje não dava o nosso palco é o mar? O rádio a tocar fazia de conta era sol que não queima nestes dias de cacimbo.

Um dia, ou dois depois que isso é irrelevante e eu não me lembro, deu corda às pernas e lá foi ao Rádio Clube pedir emprego.

Olharam-me. Perguntaram muitas perguntas e disseram para eu falar ou ler qualquer coisa. Não, quero mesmo é trabalhar com os aparelhos. A minha voz está maluca que deve ser da idade. Tanto está grossa como fina que nem desafinador crónico. E no meio desta conversa lá apareceu o Sousa Santos que disse, anda daí para eu te começar a ensinar. E assim estive uns dois meses a ir para o Rádio Clube nas horas que estava ele ou o Mendes. Não me lembro mesmo quando foi que me disseram que agora eu ia começar a ganhar e a ter um horário. Trás o horário do Liceu e fazemos o teu horário. Se chumbares vais para a rua. Disto eu me lembro que nem agora tenha sido.

Por acasos do destino foram alguns anos naquela função. Uns dias tudo corria bem, noutros havia uma ou outra branca. Às vezes recebia um raspanete via telefone porque às horas bem marcadas tinha de passar a publicidade X e passou a não sei quê. Mas eu estava a dizer que por acasos do destino falhou alguém. O miúdo abriu o microfone e inventou.

O coração deu pulos, a cara ficou vermelha que nem o sangue todo tinha ido para lá. Mas correu substancialmente bem que passei a ter dois trabalhos, mas um só ordenado. Mas era feliz.

A mãe em casa ouvia. Tinha sempre uma ouvinte infalível. Lia algumas notícias, até do movimento marítimo, que quando por lapso próprio não era actualizado lia os navios que já tinham ido embora e tudo. Divertia-me até com as repreensões que a direcção às vezes dava. Eles faziam o trabalho deles. 

Cheguei a sair do estúdio e fui fazer o hóquei, o futebol do Independente, mas aí sempre como técnico. A minha voz não tinha velocidade para dizer aquelas coisas todas conforme estavam a acontecer. 

Às vezes, chamava os amigos que tocavam umas músicas e lá se fazia um programa ao vivo. Eles alinhavam e e o tempo passava numa correria que até cansava. 

Um dia esse tempo acabou e outros tempos aconteceram.

Já crescido, cabelo ralo e muito branco o sonho renasceu. Outros sonhos sonhados que se realizam em cada dia que vou imaginando o próximo. Afinal de contas eu só tenho de ouvir o coração e sintonizar o meu fm.


Sanzalando

4 de outubro de 2025

Bom Dia Mercado 7 - 04-10-2025



Programa de Rádio feito no Mercado Municipal de Portimão - 04 de Outubro de 2025
Uma alegria ter a rádio em directo. Mercado super Cheio e nós cheios de coisas boas. 
Ouça-nos e visite-nos



Ouça em diferido o directo de hoje


 





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1 de outubro de 2025

Autor - Alda Espírito Santo - K'arranca 87


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Esta Música tem uma História 29 - Marisa Monte e Roberto Carlos - Ainda Bem - Programa 87


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Tesourinhos Musicais 72 - Gonçalo Lucena e Nova Onda - K'arranca às Quartas 87


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Crónica 75 - K'arranca às Quartas 87


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Programa 87 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 1 de Outubro - Diam Mundial da Música, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica e foi sobre o Diam Mundial da Música.
Falei de Alda do Espírito Santo, autora de S. Tomé e Príncipe; Esta Música tem uma história, com o tema Ainda Bem num dueto de Marisa Monte e Roberto Carlos, numa colaboração de José Leite; 
não faltaram os Tesourinhos Musicais com Gonçalo Lucena e Nova Onda, 
POESIA - «A Propósito Das Estrelas», de Adília Lopes, na voz de Fernando Alvim
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

30 de setembro de 2025

outono

As folhas já começam a cair quando resolvo sair mais cedo de casa, porque me apetece passear. O ar tem um frio suave, carregado do cheiro de terra e um certo ar de antigo. Caminho pela berma da estrada, sentindo o chão estalar sob os pés, coberto por folhas douradas e avermelhadas que o vento espalha em pequenos redemoinhos à minha passagem.

Paro num banco de madeira vazio, olho os poucos carros que passam. Dali, vejo o céu, cinzento claro a dar para o nublado, aparentando um tristonho ar. Há algo de melancólico, mas também de reconfortante, neste cenário.

Enquanto espero o anoitecer, tiro do bolso uma carta antiga que encontrara em casa, escrita pela avó, anos atrás. Era um bilhete simples, mas cheio de ternura: “Outono é tempo de lembrar que tudo se transforma, e que cada mudança guarda uma beleza escondida.”

Sorri. Percebi que, assim como as folhas que deixavam as árvores, eu também podia deixar para trás o que já não fazia sentido. Ali, cercado por contrastes e pelo frio suave, entendi que o outono não era só o fim, mas podia ser o início de algo novo.


Sanzalando

29 de setembro de 2025

eu tinha um segredo, de memória

Tinha para aí uns 16 anos e passava todos os dias no mesmo trajeto para a escola. No caminho, sempre esperava ver a, que vou chamar de Clara, porque claramente não poderei nunca revelar seu nove de verdade. Às vezes vi-a rindo com as amigas, outras vezes ia no carro do levada pelo pai, distraída olhando o céu. Para mim, cada detalhe dela parecia digno de um filme que filmava com a memória.

Só que Clara nunca soube. Nunca poderia saber

Guardava os meus sentimentos como quem esconde um tesouro frágil demais para ser mostrado. Eu dizia que podia entrar areia na engrenagem e estragar o que nunca tinha começado. Nos cadernos, as primeiras páginas eram cheias de rabiscos com o nome dela, com os desenhos desenhados mais com o coração do que com o jeito; nas músicas que ele ouvia nas noites da rádio, era sempre os ouvidos dela que ele imaginava estarem a ouvir. 

Conversávamos pouco — “oi”, “até amanhã”, "como estás?", "e a família?", às vezes uma ajuda em matemática ou em ciências, quanto mais não seja era só para ela me explicar o que às vezes eu também já sabia.. Clara , acho, nunca percebeu o brilho nos meus olhos quando falava com ela, nem os silêncios em que queria dizer tudo, mas não dizia nada.

Eu sonhava que, um dia, ela descobriria, obra do acaso, palavra de um deus maior, milagre. Qualquer coisa lhe chegasse ao ouvido. Talvez no intervalo, talvez em uma carta anônima, ou talvez no último dia de aulas. Até lá, continuava apaixonado em segredo, vivendo cada olhar escondido como se fosse suficiente.

O tempo passou, uns dias a voar e outros lentamente e daquele tempo apenas ficou o filme que um dia foi feito com películas de memória



Sanzalando

28 de setembro de 2025

O médico que receitava gargalhadas

Na pequena cidade de um sul havia um médico conhecido não só pela arte das suas mãos e curas, mas também pelas piadas e humor constantes. Tinha nome feito mas muitos apelidavam-no simplesmente de “o médico brincalhão”.

Os doentes entravam no consultório com dores ou preocupações, mas quase sempre saíam a rir. Em vez de começar com a clássica pergunta “O que sente?”, doutor Américo perguntava:

- Então, veio cá porque está com falta de humor?

Se a pessoa se queixava de dores de estômago, ele prescrevia:

- Duas sopas de legumes e três gargalhadas antes de dormir, e faça o favor de se deitar antes de adormecer, pois é muito difícil a sua senhora levá-lo para a cama.

Se era criança, e quase sempre criança tem medo de médico ele fazia mil piruetas, outras tantas caretas e só depois é que se aproximava e só depois de todos rirem é que palpava ou fazia o que tinha a fazer, quase sem dor.

Acho que ele também auscultava as saudades e os sons da tristeza.
- Hum… este coração aqui bate forte por alguém que faz falta, estou certo?

Claro que o doutor levava a sério os tratamentos. Nunca deixava de receitar os remédios necessários, mas dizia sempre que a melhor medicina era a alegria. “Corpo sem humor”, afirmava, “adoece mais depressa do que corpo sem remédio.”

No fim, ninguém sabia se a fama do médico vinha das curas ou das gargalhadas. Mas todos concordavam numa coisa: quem saía do consultório sentia-se sempre um pouco mais leve – e talvez fosse esse o seu maior segredo.



Sanzalando

27 de setembro de 2025

A Criança, o Deserto e as Estrelas - um sonho

Havia uma criança que caminhava sozinha por um deserto imenso, mesmo que o tamanho fosse pequeno aos olhos dos adultos. Para ela era um deserto que não tinha fim.

A areia parecia-lhe um mar dourado, e as dunas subiam e desciam como ondas paradas no tempo. Quando ela olhava para trás ela via as ondas do mar, só que essas eram azuis. Ela adorava o contraste. Ela perdia-se em contemplação, ora de um lado ora do outro.

A criança tinha coragem, muito para lá da vontade.
Enquanto caminhava, avistou uma miragem e os seus olhos se tornaram brilhantes.

Até que enfim vou poder beber água - pensou.

Mas a miragem mantinha-se sempre distante. 

Anoiteceu e com a noite chegaram as estrelas e ela decidiu segui-las.
À noite, o céu escureceu e milhões de estrelas acenderam-se como lanternas.

Uma delas pareceu ter caído devagarinho, pousando na palma da mão da criança.
Era fria como a brisa e leve como poeira.

- Se me guardares no coração, nunca estarás só - sussurrou-lhe a estrela.

A criança sorriu.
Seguiu caminhando e, ao longe, encontrou um oásis escondido: palmeiras, água fresca, e pássaros cantando.
Deitou-se à sombra, agradecida, com a estrela no peito.

Quando acordou, reparou que não tinha saído do seu quarto. Tivera apenas um sonho

E desde aquele dia, ficou a dizer sabia que até no deserto mais vazio há amizade, esperança e magia.



Sanzalando

26 de setembro de 2025

na cidade imaginada

Era uma vez, e era assim que começavam as estórias da minha infância, um menino magro, que morava numa pequena cidade rodeada por mar azul por um lado e por areia dourada do deserto por outro. Ele não tinha muitos brinquedos, mas guardava com muito carinho uma coleção de carrinhos de madeira que alguém lhe tinha oferecido num natal qualquer

Os carrinhos não tinham cores brilhantes nem rodas de metal, mas eram mágicos. Cada um tinha um formato diferente: um parecia um camião, outro lembrava um carro de corrida com listas e números, e havia também um que ele dizia ser um  machimbombo grande.

Todos os dias, depois da escola, espalhava os seus carrinhos no chão de terra batida do quintal. Com pedrinhas e estradas feita com o raspar dos sapatos, construía estradas, pontes e até túneis que agora poderiam ser chamados só de viadutos. A imaginação dele transformava o lugar numa verdadeira cidade em miniatura: os carrinhos faziam filas no trânsito, paravam para abastecer no posto feito de latinhas e até transportavam passageiros invisíveis.

Às vezes, o avô sentava-se na varanda para ver. Com um sorriso, dizia:
- Esses carrinhos só andam porque lhes dás vida.

E era verdade. No mundo da imaginação, os carrinhos corriam mais rápido que o vento, atravessavam montanhas inventadas e sempre chegavam ao destino certo. Não precisava de nada além de sua imaginação e do amor que sentia pelos brinquedos simples que guardava como tesouros.

Com o tempo, cresceu, mas nunca se esqueceu das tardes em que a sua cidadezinha de terra e madeira ganhava vida. Os carrinhos ficaram guardados numa caixa, mas cada vez que ele a abria, podia ouvir o eco das risadas de criança e o barulho dos motores que só existiam dentro do coração dele. Com esse mesmo tempo a sua cidade foi ficando cada vez com menos gente, gente que ele ia esquecendo ou ia sendo levada pelo vento



Sanzalando

24 de setembro de 2025

Livro e autor - Chico Buarque de Holanda - K'arranca às Quartas 86


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Esta Música tem uma História 28 - Sérgio Godinho - A noite passada - K'arranca às Quartas 86


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Tesourinhos Musicais 61 - Trio Odemira - K'arranca às Quartas 86



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Crónica 74 - K'arranca às Quartas 86


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Programa 86 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 24 de Setembro, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. Mas recordámos duas ouvintes assíduas e participativas. 
Fizemos o primeiro programa de Outono ainda com roupa de verão.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica e voltámos a falar de aulas e a sua abertura.
Falei de Chico Buarque da Holanda como autor de livros; Esta Música tem uma história, indo buscar Sérgio Godinho e A Noite Passada, numa colaboração de José Leite; 
não faltaram os Tesourinhos Musicais com o Trio Odemira, 
POESIA - ARIANE, Miguel Torga na voz de Inês Veiga Macedo
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

23 de setembro de 2025

uma velha e suas estórias

Numa vila escondida entre mares e areias desérticas, vivia uma senhora chamada D. Adélia, famosa porque as histórias que contava pareciam mais reais do que a própria vida. Diziam que ela tinha uma caixinha de madeira guardada no quintal e que dentro dela estava o segredo para tornar qualquer história verdadeira.

Um dia, uma menina curiosa chamada Maria, decidiu perguntar-lhe diretamente:

- Dona Adélia, é verdade que a senhora pode transformar palavras em realidade?

A velha sorriu, os olhos brilharam como estrelas escondidas em noites de lua cheia:

- Não, minha querida. Quem faz isso não sou eu. É quem acredita nas palavras que eu digo.

Naquela noite, Lúcia sonhou que abria a caixinha da velha. Dentro dela saíam borboletas de luz, que pousavam em cada canto da vila e transformaram as casas em cores vivas e os sonhos dos moradores em jardins. Quando acordou, encontrou uma borboleta dourada no beiral da janela.

E nunca mais duvidou do poder das histórias.


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22 de setembro de 2025

perdi-me de amores

Perdi-me de amores em Moçâmedes, quando o tempo ainda corria devagar, quando eu não sabia que amanhã ia ser um futuro, quando o vento do deserto beijava o mar e eu ainda não tinha aprendido que o coração não cabe em fronteiras.

Era adolescência, era descoberta, eram os olhos dela refletindo as mesmas águas azuis que guardavam os barcos, era o sorriso dela que não sorria, era simplesmente ela. Eu não conhecia o naufrágio, nem a avalanche nem outros desastres que causassem despedida.

Hoje, ao lembrar, ainda sinto o calor da areia nos pés descalços, a brisa salgada que confundia saudade e esperança, e aquele instante eterno em que me perdi para me encontrar num agora de memórias feito.


Sanzalando

21 de setembro de 2025

A Rádio saiu à Rua

Era manhã de sábado, e a cidade ainda espreguiçava-se entre o cheiro a café e o barulho das carrinhas a descarregar pão, fruta fresca e outras iguarias. Eu, de auscultadores na cabeça e aparelhos digitais e computador à frente, montava uma pequena mesa improvisada no que já fora um talho no mercado já apinhado de gente. Um estúdio portátil, quase ao ar livre, porque o mercado é grande porém é coberto, com mais ruído de vida do que cabos organizados.

Transmitir rádio em directo na rua é como abrir a janela da casa para deixar entrar quem passa. Não há paredes, não há isolamento acústico, só a vida a acontecer, sem filtros e sem rede de protecção. Enquanto ajustava os botões e revia ligações, uma criança parou para olhar, um amigo mais velho indignado perguntou o que eu fazia ali, outro veio mesmo dar-me um abraço. Chegaram os músicos. Um casal que se comprometeram a tocar umas quantas músicas para animar a emissão ao vivo e a cores de uma rádio que saiu à rua. Mais ligações e novo teste de som. Tudo pronto para ir para o ar quando for hora de o fazer,

Alguém desconhecido e um pouco atónito disparou:

- Isto é televisão?

Sorri. Expliquei-lhe que não, que era rádio, que se ouvia mas não se via. Ficou intrigada: "Então fala-se para o ar e alguém do outro lado ouve?" Era isso mesmo. Rádio a sério. Ainda a há. Embora também estivéssemos a transmitir com imagem para uma rede social. Mas não é essa a minha praia

Toca o genérico mas o som não sai da minha mesa e não entra no computador e portanto não chega ao estúdio. Improviso e mando uma música para o ar. Refeito do susto, resolvido o botão que se havia desligado por obra e graça dum qualquer fantasma, estávamos no ar, como se diz na gíria radiofónica. Apresentações feitas. A rádio na rua é assim: agenda-se uma coisa, e acontece outra ainda melhor que obriga a pensar, imaginar e resolver.

O primeiro entrevistado foi a convidada agendada, contou ao que vinha, o que queria. Falava bem e se prolongou no tempo, fazendo esquecer que o tempo é contado quando o programa tem hora para começar e outra marcada para acabar. A gente entusiasma-se e segue livre, animado e despreocupado.

As pessoas, de saco carregado paravam, olhavam, sorriam e seguiam, o trânsito pedonal à nossa frente de vez em quando engarrafava. Por sorte nossa ninguém levou buzinas nem outros barulhos que poderiam virar vírgulas inesperadas, e a branca às vezes fazia o microfone engolir-se num silêncio inesperado. Mas a verdade é que esse caos é a beleza: é o som da vida a misturar-se com a voz. Outros convidados foram aparecendo, falaram livre e claramente e por vezes tinham de ser cortados porque o tempo é inimigo da gente.

Os músicos, pacientes tocaram duas músicas numa harmonia de espanto. Aplausos e mais umas quantas entrevistas. Alguém olha para o relógio e o mercado cheio a passar despercebido. Estava onde eu queria estar. A fazer Rádio na Rua e em directo.

Fazer rádio em directo na rua é estar vulnerável, aberto ao imprevisto, um vizinho que reclama, um aplauso espontâneo de quem ouve e reconhece a sua própria história a passar nas ondas, um amigo que te acena. Uma opinião que se regista.

Quando desliguei o transmissor, horas depois, ficou um eco dentro de mim: a sensação de que a rádio não pertence só ao estúdio, mas à rua, às pessoas que não pedem para ser ouvidas mas que têm tanto para contar.

Naquele sábado, mais do que uma emissão, senti que tinha aberto uma praça invisível, onde todos cabem.


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20 de setembro de 2025

Bom dia Mercado nº 6 - 20 de Setembro de 2025



Programa de Rádio feito no Mercado Municipal de Portimão neste dia 20 de Setembro de 2025
Uma alegria ter a rádio em directo desde onde estão as pessoas. 
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Não Sabia Pescar

Eu em menino, que morava à beira do mar cheio de peixes, não sabia pescar. Todos os dias via os homens da terra regressarem a casa com os baldes cheios e as mulheres a sorrirem ao ver o jantar assegurado.

Um dia, cheio de coragem, peguei numa cana de caniço, um barbante comprido amarrado na ponta, um anzol semi torto e já com muitas idas ao mar e que tinha apanhado na velha ponte e corri até à marginal. Arranjei um dos hexágonos que faziam de barreira para não entrar cidade dentro. Atirei o anzol à água… e esperei. Esperou uma hora, depois duas. Nada de peixes mas muitas ideias me passaram na cabeça. Muitos retratos fiz, muitas estórias me lembrei. Apenas as ondas que batiam na muralha hexagonal parecia riam de mim como se se gozassem da minha impaciência.

- “Não sei pescar…” — murmurei desanimado, olhando para o anzol vazio. Cabeça rica e anzol vazio.

Um velho observador, que observava à distância, aproximou-se devagar, se calhar com medo de me importunar nos pensamentos, e não na pesca porque eu não pescava nada.
- “Não sabes… ainda. Mas o peixe não se apanha com pressa. Tens de aprender a ouvir o mar e a pôr um isco, alguma coisa no anzol para o peixe vir.”

E ensinou-me a escolher o isco certo, a lançar o fio com calma, embora tenha dito que aquilo não era cana de pescar, mas que era assim que se começava a reconhecer o movimento da água, os truques e magia da arte de bem pescar. Tentei de novo, seguindo cada instrução. No início, errei várias vezes, a descoordenação motora era patente: o isco arranjado ali à pressa, umas lapas que o velho arrancou com seu presente canivete, no caía ainda antes do anzol cair na água. Mas o velho sorria:
-  “Cada erro é só mais uma forma de aprender.”

Ao cair da tarde, quando o sol já pintava o céu com cores de fogo, senti finalmente um puxão. O coração bateu forte. Puxei a linha devagar, cada braçada uns centímetros de fio que vinha, como o velho me tinha ensinado, e lá vinha o peixe, pequeno mas brilhante, a saltar de alegria, porque acho ele sabia era o primeiro peixe que eu apanhava.

Sorriu como nunca antes o tinha feito. No passeio o peixe pulava e com ele pulava eu. O velho se aproximou mais um bocado, tirou o anzol da boca do peixe e deu-mo. Alegre lhe olhei, olhei para o velho e atirei o peixe na água. 

O velho sorriu-me, não por causa do peixe, mas porque tinha visto que percebera algo maior: aprender é como pescar, precisa de paciência, humildade e de alguém que nos ensine.

Naquela noite, ao chegar a casa contei a estória do meu primeiro peixe, fui aplaudido, acarinhado e deixei de ser o menino que não sabia pescar. Era o menino que aprendera a esperar, a tentar, e a acreditar. Nunca mais fui pescar na marginal mas sempre olhei com magia para aquele lugar mágico



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