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A Minha Sanzala: Sentado no tempo
recomeça o futuro sem esquecer o passado

8 de julho de 2007

Sentado no tempo

Me sento no tempo e descanso.
Olho e lá estou eu vagueando em palavras como quem procura o norte, ou o sul ou outro ponto cardeal qualquer que eu não sou ligado a essas coisas de fixações directivas ou organográficas hierarquias terrenas ou celestiais.
Até fiquei cansado de tanta correria oratória.
Mas estava eu vagueando nas palavras, sentado no tempo, dizia eu, quando me lembrei que faz muito tempo que plantei uma flor dentro de mim. Quando lhe plantei não sabia mesmo que flor estava ali naquela semente. Podia ser a mais linda das rosas como o mais espinhoso dos cactos. Queria transformar-me num jardim, de espécies vulgares, raras e até silvestres, pelo que outras sementes fui plantando, ao longo do tempo que o tempo permitiu. Umas flores foram crescendo, outras nem deram sinal e outras ainda depois dum início verdejante até parece lhes deu praga e se foram num secar quase instantâneo.
Umas vezes eu próprio esquecia o jardim e me só lembrava dele quando algo de estranho eu lhe detectava ou nas horas da reunião interior eu lhe sentia o perfume das flores.
Uma das vezes, as coisas que me lembro quando me sento no tempo, eu vi um cacto, desamparado e como que esquecido porque estava isolado das outras flores. É, o cacto não precisa cuidados, quase não lhes é preciso alimentar, não se podam e apenas necessitam de terra abandonada para se desenvolverem fortes e sãos. Me pensei livrar dele, arrancá-lo e deitar fora bem longe de mim, não lhe arranjando um lugar ainda mais isolado. Esse cacto não devia fazer parte deste meu interno jardim, muitos picos lhe saíam do seu verde tronco, assim numa espécie de ouriço caixeiro verde e vertical. Sem mais nenhum adorno, sem ponta por onde lhe pegar. Só me picava, mesmo sem lhe tocar ficava logo com um arrepio que até parecia tremor de terra na escala máxima dessas coisas escaladas.
Mas lhe deixar estar ali, desamparado no seu isolamento social vegetativo. Me fui esquecendo dele, cada vez mais distante de mim. Mas em cada verão, ano após ano, ele me chamava a atenção. Se não me fazia falta eu lhe notar durante tanto tempo porque me fazia esta surpresa de todos os anos lhe regalar horas de olhar e espanto? Eu sei que nesta altura ele dá uma flor lindíssima, harmoniosa, que contrasta com a sua feiura de vertical verde porco espinho e que dura pouco mais do que uma dúzia de horas.
Sentado sobre o tempo, me sinto curioso nas transformações que nos mostram as plantas e as suas flores, a beleza efémera que pode vir duma planta horrorosamente feia e que me faz todos os anos lhe acarinhar numa relação assim tão próxima, quando durante um ano eu não lhe ligo mesmo nenhum segundo.
São as flores e são os sonhos.

Sanzalando

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WebJCP | Abril 2007