recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de dezembro de 2021

uma carta a São Correia, uma amiga incomparável

São Branca/São Correia:
Desculpa só eu ficar assim num de espanto que nem figura de desenho animado quando os olhos saem das orbitas e os membros se esticam parecem têm câimbras. Te liguei, te ligaram e nada nem de volta havia resposta. Que aconteceu. Ninguém disse e ninguém sabia. Em Lagos te perguntei e que não sei. Cabeça piruetou nas mil invenções de pode ser. Silêncio e tudo foi passando um dia e outros e mais uns tantos por cima da última vez que nos vimos lá para os lados de Barão de S. João.
Fizeste anos e o habitual parabéns foi por vias do tal de Facebook. Nada. Por mensagem uma amiga comum diz qualquer coisa que obriga a uma investigação apurada. 
Tu, a mulher de mil ideias, a mulher de sete ajudas e outros tantos ofícios, imparável, incomparável, estavas imobilizada por causa duma doença que não mata mas mói, como alguém escreveu por ti. Pensas e vez. Comunicas com o olhar e eu sei que sabes que agora estão mil cérebros a puxar por ti, desde a Angola que não conheces mas muito fizeste, desde este cantinho da Europa, norte a sul, desde as ilhas atlânticas que tanto amas através das tuas meninas de Cabo Verde. 
Ainda não acredito e de mãos e pés atados aqui estou, como me disse o Ondjaki: a pensar em ti nas minhas preces

Sanzalando

#flores


11 de dezembro de 2021

#comida


O Som das Nossas Vozes - Uma Memória Angolana


Solou por estas bandas e na minha cabeça a banda tocou um sorriso na cara. Um livro chegou na caixa do correio e um vento me levou a ler num quase sem parar. Tem estória da minha terra, tem História da outra terra, tem Realidades que eu nem sabia estavam tão perto de mim que eu nem vi. Tem lágrimas e tem alegrias. Confusão e calmaria. Foram todas as paginas devoradas num ar que se lhe deu. 
Meu amigo Eduardo Ribeiro obrigado por escreveres O Som das Nossas Vozes - Uma Memória Angolana como quem escreve uma carta ao filho.
A Belinha Macau me voltou à memória assim como as estórias que ela me contou. O teu mano, meu colega de liceu, regressou à memória que não tinha esquecido. 
Eduardo, temos de voltar à ZAZÁ comer a cataplana e verter muitas palavras de conversa. Estou a dever-te e porque estou-te grato por esta aula de História contemporânea que quase me passou ao lado.


Sanzalando

10 de dezembro de 2021

desenho-me

Nestes caminhos de vai e vem sem saber onde e como parar dou comigo a conversar a sós. Se alguém me olha acho vai achar eu doidei, mas na verdade é só porque eu arranjei forma de destruir barreiras sem desvendar os meus segredos, sem divulgar os meus medos e sem sentir vontade de me atirar dos altos penedos da idade passada. 
Eu tenho cicatrizes e nelas desenhei poemas, criei obras de arte, mosaicos, aguarelas, esculpi kiandas e alcancei com isso um ponto de liberdade que me permite sorrir quando outros queriam que eu chorasse. Na verdade alcancei o ponto que me deixa intacto de desilusões e frustações.
De um ser frágil, naif, tornei-me numa tarde tranquila de verão, um postal estrelado duma noite de luar. Desenho-me das múltiplas formas que tenho de ser feliz


Sanzalando

#momentos #livroseleitura


9 de dezembro de 2021

#abacate


fui na Quipola

Ontem fui na Quipola. Minha mãe me levou no comboio. Ela me levou a mim, à minha irmã e uma cesta que tinha frango assado e gasosas. Fomos de comboio até na parte de trás da Sofrio, mesmo junto da casa dos rapazes. Enquanto o padre Noronha dizia a missa eu fui nos meus nonkakos até na ponte do rio Bero que está quase parece é um ribeiro. Isto quer dizer que na serra da Chela não está de chuva. Ali, visto daqui da cancela que separa os carros dos comboios, estão as salinas e muitos dos caranguejos das horas que o Mamede vende a lhe acompanhar a cerveja. Dizem porque eu não conheço porque ainda não tenho idade para essas coisas. 
Aqui na ponte eu me estou a lembrar que me disseram, desconheço se é verdade ou mentira e não tenho espírito para ir investigar, foi construída com dinheiro falso mandado fazer pelo tal de Aves dos Reis. Se o dinheiro era falso eu não sei, o que eu sei é que a ponte está aqui e faz passar comboios e carros para o Saco ou para o planalto da gente fina que no verão se vem banhar aqui nas águas frias da terra quie me viu dar os primeiros passos e também os trambolhões. 
Fui na Quipola e vagabundei-me por terras que só vejo de vez em quando


Sanzalando

#lugaresincriveis


8 de dezembro de 2021

desnudo-me em palavras

Vou escrever uma carta de despedida sem porém me despedir. Vamos, faz de conta, eu me cansei de caminhar estas palavras por tempos idos do meu antigamente na vida. Vamos, faz de conta ainda, eu fartei de dizer como é que eu era antes de ser o que sou hoje. Vamos, mantem-se o faz de conta, eu não trouxe nada para o dia de hoje de todos os meus ontens e por isso parei de caminhar palavras sobre palavras por este caminho longo aqui tão perto.
De verdade que todas as palavras que caminhei são pedaços duma autobiografia que não escrevi e apenas lhe vivi. Tudo são referências emitidas ou recebidas pela gente, nós mesmo. Daí que hoje eu sou uma mistura disso tudo sem ter a haver nada com isso. Larguei o ontem para estar no hoje, porém o ontem ainda está comigo, faz de conta ainda, é tudo uma confusão da minha cabeça, todas as palavras são caminhos afilhados da minha imaginação, cães de rua que me perseguem faz de conta eu vou na bicicleta. 
Todos estes caminhos palavreados carregam muitas escuridões e clareiras da minha existência ficcionada na memória ou imaginação. Mantendo-me no faz de conta, desde o zulmarinho até a este norte onde me encontro, nas minhas palavras se misturam imagens reais com imaginações delirantes, características não misturáveis, óleos e águas, cores fortes e fracas, transparências e opacidades, tudo fazendo sentido na minha cabeça e tropeções no meu caminho. E eu aqui desnudado em palavras. Faz de conta até eram belas de se caminharem e olharem.
Afinal de contas, estes caminhos palavrados, carregados de emoções e ficções, estes eus, são capazes de terem sentido, transformaram os meus cacos num ser pensante, num mosaico de cores vividas, garridas e berrantes, misto de nostalgia e insano de inocências.
Como poderia eu me despedir destes fragmentos aleatórios que fizeram um desenho que se mistura no meu eu?!


Sanzalando

7 de dezembro de 2021

recordações

Neste quase parar de caminhar não me dá para ler caminhos velhos. Nunca um caminho é igual duas vezes. Posso olhar, decorar e até gravar, se o repetir não é a mesma coisa, não tem o mesmo sabor, faz conta tem sal a mais ou a menos. Frases velhas não têm o mesmo significado. Lhes falta o sentimento de outrora. Mas eu vou seguindo o meu caminho. Vezes muitas, exaustão possível, mas sempre passos diferentes, cansados, leves ou pesados, arrastados, soltos que nem moço no baile. Eu sou assim e vou caminhar mais por onde? As frases velhas vão-se qualificando, apurando, mesmo que o significado já não seja mais o mesmo. Estão apuradas. 
Eu hoje caminho sobre leituras velhas, apenas para recordar o que fui para ser agora.

Sanzalando

#comida


6 de dezembro de 2021

sigo

Sigo tantas vezes por caminhos errantes, errados ou apenas interrompidos. Mas o mais importante para mim é seguir, caminhar em direcção ao futuro, por mais curto que seja com o passar do tempo. Ter passado e presente sem perspectiva de futuro é um beco sem saída e eu não gosto de ter de caminhar para trás, tal como o água de um rio não passa voluntariamente duas vezes pela mesma ponte.
Sigo sempre com a ideia que ainda não fiz o caminho suficiente pelo que vou sempre mais olhando o futuro e espero não ver o fim deste. No dia que ele chegar que surja assim num relâmpago de instante. Não por medo, não por tristeza, apenas para eu não ter tempo de ver o caminho que ainda me faltava gostar. 
Sigo por aí, olhando o mar, esse zulmarinho que me carrega esperança, que dá união aos meus inícios e meios, que me liga ao todo de hoje.


Sanzalando

#lugaresincriveis


5 de dezembro de 2021

#momentos


Vou

Vou por aí, um dia após outro, sempre fugido de uma vida que possa se asfixiante, sempre tentando arrancar pela raiz o que me possa trazer infelicidade ou simples tristeza.
Vou deambulando por cascatas de sonhos, caminhos de ideias e auto-estradas de desejos. 
Vou, sabendo que o prémio era eu e tu o ganhaste. Vou imaginando-te feliz, saltitando contente com o prémio, como se o tivesses ganho numa barraquinha de feira, numa rifa de quermesse ou num jogo de lencinho.
Vou, sabendo que o mundo possa parecer um inferno, que seja necessário falar mal para se estar bem, que seja preciso rebaixar para subir.
Vou por aí, feliz por um dia ter nascido e o meu coração ainda não ter parado de bater.

Sanzalando

4 de dezembro de 2021

licitudes

Tem dias em que mesmo o frio não me impede de desnudar-me, intelectualmente. O frio, matéria inorgânica e subjectiva, que evolve corpos e mentes duma forma equacionável e por vezes anarquicamente, obrigando a pensamentos erróneos e quantas vezes a frases arrependíveis, surge de nadas em todas as estações do ano, a todos os quantos se consideram ser pensantes. É esse frio, questionável, que nos faz ouvir apenas o que queremos, a dizer tantas vezes o que não queremos e a fazer o que não devemos. 
Não é lícito que eu morra de amor, mas morro.
Não é lícito que eu acorde preocupado com situações futuras, mas acordo.
Não é lícito que me pese na consciência erros não propositados ou inconscientemente cometidos, mas pesam.
Não é licito que eu sofra de saudade quando me sinto bem com o meu passado, mas sofro.
Não é licito que o mundo não siga a minha linha de pensamento, mas não segue.
Não pretendo que o mundo me entenda no que sinto mas aceito que era lindo que eu mesmo entendesse esse sentimento.


Sanzalando

#comida


3 de dezembro de 2021

#momentos


#mangueira


Neste caminhar

Neste caminhar para o inverno já deambulei por tantos caminhos que já nem sei o carreiro a seguir. Neste meu caos tem vezes nasce uma luz a me dizer onde ir. Hoje não me apetece ir por lado algum. Hoje fico mesmo só aqui a olhar as palavras que uma vez eu pensei e não sei onde arrumei. Quantas palavras eu terei perdido na adolescência e que agora me fazem falta? Quantos silêncios eu perdi e que agora eu devia usar? Eu sei o quanto me dói querer falar as coisas e não saírem as palavras só porque a cabeça se ligou no coração. Eu sei quantos silêncios eu não devia ter usado porque hoje eles me mostram as palavras que os substituía. 
Neste caminhar para o inverno eu descubro que o princípio do outono é resguarda-me das dores, é treinar-me para os passos pouco práticos duma senilidade espectável que o inverno trás com o seu frio gelado. 
Neste caminhar para o inverno vou-me resguardando das tempestades reais e ficcionadas.


Sanzalando

1 de dezembro de 2021

#comida #momentos


eu, o brilho e o gosto

Tremendo de frio me sento no lancil do passeio como que a meditar à beira da estrada, nem que seja a da vida. Vagabundo que se preze tem momentos assim.
Se me pedissem para fazer uma lista das coisas que gosto, eu vinha em primeiro lugar. Não por narcisismo, por isto ou por aquilo mas simplesmente porque gosto do meu brilho interior, o meu cintilar de estrelas que brilham no meu universo interior. Até dos meu pensamentos pedidos, gosto. Eu não tenho essa coisa da luta entre coração e mente. Eu é um. Único. Simplesmente simples. Eu que transporto para todo o lado o amor, incluindo o próprio, não me deixo levar por céus nublados, por tempestades secas ou dilúvios mentais. 
Simplesmente eu.

Sanzalando

#momentos


#lugaresincriveis #