recomeça o futuro sem esquecer o passado

13 de julho de 2006

Hoje te olho na tua ausência

Caminho sereno porem coxeando, sinto o desequilíbrio de não te ter aqui a meu lado. Hoje não vieste me ouveler nas estórias de encatar, engatar, enganar, embalar. Hoje estou coxeando porque hoje a areia de mil cores me parece diferente, mais uniforme nos uniformes dos que aqui se espraiam espalhando ais e uis, ou olhar mortiços em gritos abafados pelo silêncio.
Hoje o zulmarinho não me manda o seu perfume de marzia nem me conta os seus segredos no marulhar das ondas.
Hoje limito-me, na solidão, a ver os filmes das horas que passámos juntos, os sons que ouvimos, as fotos que o nosso olhar captou.
Hoje te olho na tua ausência e sinto-me com saudades de ti.

Sanzalando

Vivência

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12 de julho de 2006

No fundo te direi outra coisa

Caminhando nesta praia de areia de mil cores, tendo à direita ou à esquerda o zulmarinho, mesmo depende se vou ou se venho, falando coisas para o ar para ver se tu apanhas, ver se fazes delas as tuas palavras, os teus caminhos, a tua essência, a tua estória, umas de embalar outras de zarpar, eu não me perturbo, estarei calmo enquanto conseguir ouvir o marulhar do zulmarinho, recebendo as mukandas que ele me dá de desde lá do início dele. Ainda que seja tarde, chova e faça mais que muito vento, olho tranquilo o zulmarinho e com o olhar de esperança vou remando o meu barquinho de papel de imaginação. A luz do sol ou da lua distrai a escuridão das horas marcadas num qualquer relógio a destempo. Atento a um milagre, à voz doce de uma kianda vou seguindo neste meu caminhar como se estivesse na porta da maternidade da vida.
Tem dias que neste caminhar verto umas e outras birras estupidamente geladas, não para toldar o cérebro, mas somente para refrescar e olear as cordas vocais que são o meu instrumento de contador de estórias.
Manda-me aí mais umas quantas tantas por modos que eu consiga falar sem enroucar e descaracterizar esta voz concessionada à emoção.
Tenho, assim num súbito, como que uma enorme vontade de gritar: contra a escuridão da noite dos pensamentos, do perigos da ignorância, do desconhecido que quer ser conhecido sem ter feito nada de jeito a não ser ter deixado crescer o perímetro circular da barriga. Mas para quê gritar? Suponho que nunca serei capaz de te dizer que sou aquele que escandalizou, que sou o absoluto.
No fundo, te direi outra coisa. Terei sempre alguma coisa a dizer-te, sim. Mas se, se jamais ouvires, jamais saberás que, ainda assim, tive alguma coisa a dizer-te
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Solidão

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11 de julho de 2006

Chuva tropical

Caminho na areia de mil cores aproveitando esta morna gratidão de fim de tarde, desconseguindo ouvir o marulhar do zulmarinho espreguiçando-se na areia que piso, já que o barulho do trovões tudo abafam. Chove forte, tropicalmente forte, numa chuva que me afaga o pescoço, me molha o cabelo escorrendo-o pela minha cara. Selvaticamente chove e eu continuo a caminhar e a sentir-te lá do outro lado.
Mas que mal faz a chuva de verão?
Molha, tens razão.


Mas como o calor que faz lhe vai secar, vou fazer mais o quê? Me irrita porque quase não posso ter os olhos abertos e ver a chuva que cai, tão forte ela me bate na cara e no corpo. Com eles fechados, não nos entrando a chuva pelos olhos adentro até parece que chove menos. Mas daqui a pouco vai abrir o sol, me vai secar rápido e até vou sentir a falta dessa chuva selvaticamente tropical.
Afinal de contas, ela é algo como que um afago no pescoço ou um leve toque de mãos que deslizam perdidas na escuridão dos meus cabelos cada vez mais raros.
É assim como se novamente menino eu lhe fosse, inconsequente e irresponsável, próprio da idade de criança.
Mas agora me sinto como forte, remando num frágil barquinho de papel em direcção ao outro lado da linha recta que é curva. Quem me guia é um sol, um sol que imagino, um sol que eu não vejo mas sei que tem o brilho forte, um sol que é só meu. É como quem vem de um pesadelo e como se a distância fosse levada embora, desaparecesse. Já não me sinto como quem da vida só tivesse provado a desolação da coragem, o abandono de um destino distraído. Sórdida satisfação a minha.
Sanzalando

O meu poema

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10 de julho de 2006

Merengue de amor

Seria para mim mais fácil, caminhar na areia de mil cores, fechado no meu silêncio, vendo os filmes do meu pensamento a correr na tela gigante em polifonia e coisas e tal. Punha-te a ler um texto do Pablo Neruda e a ouvir uma música de Ali Farka Touré e tu ficavas a saber o mesmo que eu penso. Porque eu já vi que o que tu queres é mesmo saber só isso, mesmo antes de eu pensar. Tu sabes que é o amor que move cada projecto de um homem. Não é por acaso que é esse amor, esse íman que nos faz despegar do chão e nos leva ao sítio onde a gente quer dizer que é aqui que eu quero estar?
Te digo na sinceridade que é esse amor que nos faz renascer, nos faz bailar um merengue, um semba, e nos faz fazer com que os nossos pés se colem nesse solo de amor. Um merengue bem dançado é aquele que faz com que teus pés voem no amor de ficar pregado num solo.
Assim, eu me sinto como que a farrar num merengue como nunca tinha farrado.
Te danço no meu pensamento o merengue do amor.
E mais te vou falar com as palavras que saiem da minha boca na velocidade do pensamento, no ritmo arritmado deste zulmarinho que nos afasta, mas que afinal nos liga numa ligação inquebrável.
Sou daqueles que dizem que o amor não conhece fronteiras, culturas ou lugares.
Vivo as tuas letras como a minha terra e o meu amor.
Me entendeste ou queres que eu faça um desenho?
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Gandhi

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9 de julho de 2006

Para o que der e vier


Faz sol e faz silêncio entrecortado pelo marulhar mais suave de todos os dias até ao de hoje. Sentado na minha poltrona de rocha esculpida pelas ondas zangadas deste zulmarinho que hoje parece ter caído num caldo de calma gelada. Tou sentado como que a remar a minha vida deste lado. Remo o meu barco de Magia com ganas de chegar ao lado de lá, ao outro lado da linha recta que é curva. É tarde, mas vou navegar, porque nunca é tarde para renascer. Daqui finjo que vejo o meu destino; o que se foi, o que se gastou antes de eu chegar aqui, o que ainda está distante e até parece que não o consigo lhe ver. Mas neste mar não se navega sozinho, é perigoso e se precisa de muita energia para se combater a inércia do repouso.
Daqui sentado olho a falésia e me parece que o mundo fica em ruínas; é um quase o nada com tanto de podia ter sido.

Crianças fazem a roda na areia de mil cores da praia, buracos imitando piscinas, os adolescentes jogam a bola exibindo seus corpos e, principalmente, seus sorrisos nas moças como se quisessem dar uma qualquer música.
E esta água aos pés, que me salpica de gotas salgadas lembra-me uma coisa ausente porém sempre presente, sempre constante.
Tu, teimosamente sentada a meu lado, me escutas nos devaneios, me aparas as lágrimas, me afagas o pescoço com um leve toque das tuas mãos, como que a dizer-me que estás aqui. Para o que der e vier.

Sanzalando

Entre o acaso e o mistério

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8 de julho de 2006

Não me percas de mim

Hoje corro, chapinhando lágrimas por todos os lados.
Hoje me apetece recuperar todo o tempo perdido. Por isso corro a ver se ele se deixa encontrar.
As gotas do zulmarinho me encharcam, da cabeça aos pés. Todo eu pareço que choro. Gotas de suor numa mistura de lágrimas do zulmarinho.
Será que tu vens atrás de mim a me ouvir? Não posso olhar para trás que meus olhos estão fixados num amanhã.
Não me percas. Por favor, não me percas. Não deixes que se afaste do meu pensamento esse lugar incerto e vago que substitui o meu corpo na minha mente. Não percas os meus olhos, a minha boca, as formas e delicadezas em que me compuseste, nem me deixes violar os meus sentidos. Não percas os meus gestos mesmo que eles fiquem longe do teu âmago.
Não me percas. Por favor, não me percas.
Não permitas que eu me desprenda dos teus cabelos, que o teu nome seja um silêncio triste em minha boca, que os meus dedos esqueçam a medida do teu dorso, a textura da tua pele, o teu perfume.
Não me percas. Por favor, não me percas de mim.

Sanzalando

ESPEREI POR TI

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7 de julho de 2006

Deixa para lá

Olho o zulmarinho. Caminho na beira-mar, aproveito para respirar enquanto deixei os cigarros lá para trás na bolsa junto com a tolha, fazendo uma ilha no meio de gente barulhenta e com medo que a vida acabe no próximo segundo, tal é a velocidade que querem viver aqui nesta areia de mil cores, fazendo exercício de absorção de sol de um ano inteiro em meia dúzia de dias.
Caminho trazendo os meus pensamentos e diálogos entre o mim e o eu. Tu vens comigo. Tu vens sempre comigo. Vives-me com a intensidade devoradora de um sonho.
O zulmarinho marulha na sua calma, que se não fosse salgado, eu te teria dito doce calma.
Olha só como a natureza humana é um monte de complexidades complexas e incrivelmente confusa dentro da própria confusão. Observa como é gritante a capacidade humana para dificultar a sua própria vida, te digo mais, olha para a capacidade de tornar o processo da sua existência muito mais desgastante do que ele deve de ser. Observa como as pessoas têm uma capacidade enorme para complicar tudo, quando sabem que existem caminhos interessantes para facilitar os acontecimentos. Existem pessoas que, por mais absurdo que possa parecer, preferem tornar o difícil em impossível, quando esse difícil poderia ser transformado em fácil. Te ensino que a humanidade é uma espécie que vive em evolução. O processo da nossa existência ocorre pela evolução enquanto vivemos. Não nascemos por mero acaso, existe uma razão de ser para isso, e se nos negamos a evoluir como necessitamos, a tendência é só regredir. Ou seja, não somos donos da verdade e jamais o seremos. Somos todos seres imperfeitos e jamais atingiremos a perfeição. O que somos é eternos, no intervalo entre o nascer e o morrer, aprendizes. Enquanto vivemos, enquanto existimos, aprendemos. E só paramos de aprender a partir do momento em que termina a nossa eternidade.
Olha só como o ser humano é muito vaidoso, muito arrogante, quando se quer mostrar superior aos seus semelhantes. Essa superioridade, definitivamente, não existe para ninguém.
Olha, deixa para lá que o fim de semana vai chegar.

Sanzalando

Corremos

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6 de julho de 2006

contratempos

Sento-me na minha poltrona de rocha esculpida pelo zulmarinho e olho para a linha recta que é curva e tento ver o que se passa atrás dela.
Tas a ver, né? Yah, respondeste-me no teu silêncio.
Pois enquanto tou aqui o tempo não existe.
Só não percebo porque é que os cabelos vão rareando e clareando que até parece é neve. Só não cabe no meu entendimento porque as forças vão faltando.
Se não existe tempo porque existe este contratempo?
Vais ver é do cacimbo que faz do lado de lá da linha que me cacimba a cachimónia.
Sanzalando

Paul Gauguin

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5 de julho de 2006

Desculpa só

Senta aí e me escuta que eu só posso dizer isto uma vez só, ou pode acontecer dizer-te outras mil vezes. Insisto porque sim ou desisto porque nunca desisto. Falo-te porque me apetece falar, te apetece ouvir num diálogo de uma só voz.
Olha só para ti. Olha só para mim, olha para esse mundo aí na tua volta, nesse mundo que se espraia a ouvir o marulhar do zulmarinho. Olha-nos bem na cara e diz-me o que consegues ver.
Todos passamos uma vida presos, como pássaros em gaiolas. Estamos rodeados de medos que são a rede que nos engaiolam. Medo de amar, de olhar a vida de frente, medo de seguir a liberdade que temos de navegar nos sonhos, na nave mágica do pensamento. E vivemos neste pequeno espaço em que torneamos a vida. Com maior destaque cantamos as nossas dores e tristezas, as nossas perdas e derrotas. Os sonhos ficam para os pequenos sorrisos que às vezes libertamos, como que a pedido e quase nunca de nossa livre vontade.
Muitas vezes, as portas das nossas gaiolas se abrem mas nós permanecemos ali, acostumados, encolhidos nas nossas vontades e sonhos. Não tenhas dúvidas que devias, na primeira oportunidade, lançar o teu o voo de falcão, calmo, confiante e determinado em direcção ao teu limite.
Não devemos ter medo dos rochedos. Sobre as falésias e rochedos devemos estender as nossas asas corajosas de falcão e voar ao sabor da corrente da imaginação e vontade.
Devíamo-nos soltar ao vento e deixarmo-nos levar ao sonho sonhado nas horas de desejo.
Como o condor, tentemos ver as pequenas coisas na nossa volta e saibamos senti-las e apreciá-las, dando um sentido novo à nossa vida.
Não devemos ser passarinhos de gaiola, mas falcões e condores do céu. A cada dia existe uma renovação constante, e nunca um dia é como o outro. Não há dores eternas, lágrimas eternas, perdas eternas.
Há sorrisos, dias de sol, o abraço dos amigos e tantos sonhos sonhados e desejados.
A vida é um recomeçar diário de um voo sem limites.
E gaiolas não foram feitas para pássaros.
Desculpa só, que agora tenho que limpar esta gota de zulmarinho que escorre na minha cara e parece é lágrima.
Desculpa só, que agora tenho de libertar mais umas quantas grades desta gaiola e lançar-me, no sabor de uma birra gelada, ao vento que sopra vindo da linha recta que é curva.
Desculpa só, que agora tenho de ir viver os meus sonhos.
Enquanto eu faço isso tu aproveita para dares umas braçadas no zulmarinho, te conheceres na leveza do teu corpo flutuante.
Sanzalando

Gabriel, o Pensador

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4 de julho de 2006

Mundial 2006 - uma visão diferente

Mundial de futebol 2006. Bem, este é o único assunto que se fala por este Mundo. E eu posso fazer mais como? Quarta feira são as meias finais. O País já está parado e os outros poucos como eu vamos mesmo fazer mais como? Se não é possível vencer o inimigo, só resta unir-me a ele.
Desde antes do início do campeonato mundial de futebol que esse é o único assunto abordado por toda a imprensa nacional na qual também incluo as revistas cor de rosa. Ainda bem que a FIFA só o realiza de cada quatro em quatro anos.
É bem verdade que há o lado festivo, a confraternização entre os países e povos, o espírito de fair play incentivado pelos organizadores.Mas sobressai o lado mau. Enquanto durar o campeonato, esse é o único assunto que a imprensa abordará e como o tema é realmente bastante limitado temos de nos conformar com ridículas peças que abordam desde as bolhas nos pés de um jogador, ao dia a dia da mediáticas esposas e namoradas, a dúvida cientifica de saber se o jogador X está ou não em condições de jogar, se deve ou não jogar. Um dia destes estava a assistir ao telejornal e a apresentadora fazia a previsão do tempo na Alemanha para o dia seguinte. Chego assim à conclusão que se este país fosse um pouco mais culto o referido o jornal seria apresentado totalmente em alemão, já que foi quase todo feito de lá.
O futebol assumiu uma postura tão importante que podemos defini-lo como um verdadeiro processo ideológico, extremamente poderoso, acredito que o mais poderoso, neste país. Nenhum meio de controlo é tão eficaz como o futebol, nada escraviza tanto a nossa mente do que vinte e dois homens a correr atrás de uma bola durante noventa e mais alguns minutos por causa dos tempos perdidos ou mortos.
Um dia ainda hei-de ver alguém a procurá-los no relvado como em tempos de um brinco.
Um dia Karl Marx afirmou que a religião é o ópio do povo, quando concluiu que a religião é apenas uma ideologia burguesa para conter qualquer revolução. Disse isso pelo facto do ópio ter efeito alucinógeneo que prejudica a percepção dos sentidos. Trazendo Marx para o Campeonato do Mundo eu diria que o futebol funciona como o ópio do nosso povo tornando-nos mais passivos e inertes do que o habitual.
Posso afirmar que neste momento o futebol assumiu uma postura de elevada importância na sociedade ocidental que seria possível classificá-lo como algo análogo a uma divindade.Esta comparação de Deus-futebol não é nenhuma novidade. O que me preocupa é o facto de o futebol estar a ganhar muita relevância nos países em que até pouco tempo atrás este passatempo domingueiro não tinha essa importância toda, tornando-se, literalmente, num método ideológico em escala mundial, visto que segundo expectativas da FIFA, cerca de três biliões de pessoas viram a abertura do campeonato do mundo.Outra coisa que me deixa de certa forma constrangido é o 'nacionalismo no campeonato do mundo'. A maioria das pessoas não cultiva nenhuma espécie de nacionalismo (em linhas gerais, o amor pelo seu país), mudando essa situação totalmente de figura nestas quatro semanas. Roupas com as cores da bandeira nacional, bandeiras em tudo o que seja haste, antena de TV ou varanda. Por todo lado onde andamos é possível encontrar espalhadas bandeiras nacionais. Terminado o campeonato, esse nacionalismo desaparece com uma velocidade incrível.
Realmente, de tudo que este mundial já deu, pelo menos isso poderia permanecer

Sanzalando

Umberto Eco

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3 de julho de 2006

Delírios

Sigo o meu caminho. Umas vezes parado, em pé ou sentado, outras vezes a caminhar. Sempre pertinho do zulmarinho. Esse que termina aqui mas começa lá, do outro lado da linha recta que é curva. A maresia, o marulhar e a quantidade de azul são coisas essenciais na minha vida. Tu podes estar aqui sentado a me ouvir. Ou não. Falo para que eu me ouça, falo porque gosto de falar. Eu não tenho que te escolher. Tu é que escolhes o que e quem queres ouvir. Eu falo para mim, para o meu dentro. Se te sentas aí é porque afinal gostas de me ouvir. Desde que tragas uma ou outra birra estupidamente gelada pouco importa quem sejas tu, desde que mantenhas o silêncio de me ouvir, mesmo quando eu não falo. No meu silêncio estou a conversar com o zulmarinho que me conserva.
Eu aqui sonho, contemplo e tenho os meus delírios. Eu e eu. Tu és assistente porque teimas em estar aqui. Problema teu, se é que é problema. Tento adivinhar o que vai dentro da tua cabeça e desconsigo por completo, pois parece ela está mais vazia que o oco da cabaça esvaziada. Mas teimas em querer me ouvir, então me ouve no teu silêncio sem ocupar espaço da tua insignificância.
Falo assim porque estás aqui, sinto-te mesmo quando não te vejo.
Quem nunca viu ou sentiu algo de que se gosta partir ou ficar para trás?
Olha que esse é dos momentos mais tristes da vida, mas é um dos únicos que te ensina uma montanha enorme de lições.
Impossível não parar para pensar: O que foi que eu fiz de errado? Na primeira coisa é logo te culpares de um erro. Se consegues ultrapassar essa barreira do primeiro pensamento vais entrar numa certeza de cascatas pensativas.
Mas no continuar dos pensamentos vais descobrir um número indefinido de motivos, cada qual provavelmente mais esquisito, complexo, esdrúxulo, mas cada um com seus fundamentos de importâncias.
Alguns partem por estarem insatisfeitos, outros porque estão saturados, outros porque se sentem só mesmo estando acompanhados, outros por terem interesse em outros, outros porque o sentimento simplesmente se evaporou na neblina dos dias, e assim vai mesmo no ir!
Ficar sem o quem se gosta é ruim, dói, é triste, pois além do sentimento de posse, que é inerente ao ser humano, nada se iguala à tristeza de ver que o que estava no teu lado não tem mais os mesmos objectivos, a mesma vontade, os momentos acabam e fica apenas a memória. Ainda sim, tens sorte se o que se foi sente um carinho de amigo por ti. Azar têm aqueles que se vão e deixam um rasto de incompreensão, feridas sangrantes. Neste grupo se situam os traídos, os enganados, os que foram abandonados e, fundamentalmente, os burros.
Ir embora vem da necessidade de felicidade, de ser feliz.
Essa felicidade pode estar num virar de esquina ou a uma milhas largas de distância. Só precisas mesmo ter a coragem de a seguir seja por onde quer que ela siga.Tas a ver como é fácil delirar contigo aqui a meu lado?
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Essência

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2 de julho de 2006

Domingo


Domingo. Um dia sem destino destinado a ser passado em contemplação.
Tu não dizes nada. Ouves as estórias no teu silêncio interrompido apenas pelo ar da tua presença. Estás estátuariamente petrificada me ouvindo. Se não te olho nem sei que estás aqui. Se intervalo para beber uma birra gelada, noto na leve brisa que pestanejas. Eu sei que ficas aqui a ouvir-me apenas porque queres saber que do outro lado da linha recta que é curva existe um lugar. Existe uma paixão. Existe um ar, que se o respiras, ficas agarrado nas kiandas como quem mergulha num interior de si mesmo, te vês no espelho do lado de dentro. Te corre uma lágrima que eu sei que é uma gota perdida do zulmarinho, solta quando ele nos veio acariciar com a sua espuma branca.
Domingo. No início do zulmarinho, sentado na beira dele está alguém a me ver, a olhar por mim e a contar-me os seus segredos, as suas narrativas, os seus sonhos. Eu aqui, no fim dele, lhe escuto e lhe dou os meus olhos e a minha boca para te contar os sons que a maresia me envolve num suave perfumar.
Domingo!

Sanzalando

Vivre

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