recomeça o futuro sem esquecer o passado

Programas K'arranca às Quartas no Blog

30 de junho de 2025

Cheguei ao Porto 13 e se calhar acabei aqui

E quando penso que já não sei mais nada do tempo que esqueci, esquecendo a fome, a saudade, as tristezas de amor imperfeitos, amuos por carência ou por birra, risos porque algo inesperado aconteceu, vem à memória como uma fotografia um flash.

O relógio da Torre dos Clérigos marcava uma hora qualquer de uma tarde encalorada na frieza das tardes do Porto, eu brincava com a BIC, a bata já cinzentamente branca porque faz quatro anos que deixara de ser nova e respirei fundo. Ainda sentia na garganta o cheiro a éter e a desinfetante que mais não era um conservante cadavérico, o formol, esse odor que se entranhava na roupa, na alma e se respirava até desparecer da memória. Era o quinto ano de Medicina na Universidade do Porto e, naquela tarde de outubro de 1983, tinha acabado de assistir à minha primeira autópsia.

No anfiteatro anatómico, nas bancadas gastas de madeira estavamos, demasiado perto mas suficientemente afastados e era o silêncio, só interrompido pelo arranhar das canetas no papel em apontamentos dos mais ousados. Eu trazia sempre o mesmo caderno azul, comprado numa papelaria da Rua de Cedofeita. A capa já se esfolava nos cantos, mas ali dentro estavam todos os apontamentos que não confiava à memória nem à perfeição da letra que mais tarde me esforçaria para ler, se me lembrasse.

A autópsia marcara-me. Não pela violência do corpo exposto, mas pelo rosto sereno que parecia quase sorrir, como se o rapaz deitado na mesa de aço tivesse chegado a algum entendimento com as milhentas lombrigas vivas que ondulavam quando a monitora abrira o intestino.

Alguém ao meu lado parecia tinha caído de elevador, assim numa câmara lenta que nem deu para percebe e ter reflexos para a apanhar no meio do caminho. Estava inerte no chão sujo, ou velho, daquele anfiteatro quando lhe atirei o olhar. Não, não socorri porque logo vieram dois colegas mais velhos fazê-lo. Eu estava hipnotizado naquela cena macabra de abrirem um intestino ao mesmo tempo que eu via um rosto sereno que até parecia sorrir

Depois da aula, atordoado e com a mente cheia de filmes sem película, sentei-me no Piolho, reabri o meu caderno de apontamentos e só deus poderia saber o que lá estava escrito. Eu gatafunhei e acho que nem eram palavras nem desenhos. Bebi uma Cimbalino e fui para o lar. À hora do jantar, cerca das 19, na cantina de Engenharia entrei e o cheiro a sopa de legumes fez-me lembrar o formal e desconsegui comer. Pousei o tabuleiro e pela Alferes Malheiro regressei ao lar. Em jejum mas com sabor a formol. Sentei-me perto duma janela, abri o caderno e escrevi, na folha da aula da:

“Para viver com a morte ao lado, é preciso ter coragem e algum amor.” Se calhar era o princípio de um romance. Mas se era, ali acabou porque só resta essa frase.

Nos dias seguintes passei horas a observar médicos que pareciam não ter medo de nada. Na minha cabeça mantinha-se a cena fixa do anfiteatro da Aula de Medicina Legal. Àquela imagem juntei o meu receio: o dia em que não pudesse fazer nada por alguém.

Fazia tempo que essa dúvida não aflorava o cérebro. Agora martelava e ainda por cima com fotografia mental.

À noite, frente à telenovela prometi-me que havia de aprender a nunca ficar indiferente. Porque ser médico, mais do que decorar nomes latinos ou saber palpar um abdómen, era guardar humanidade, mesmo que, às vezes, doesse.

Fechei o caderno azul e nunca mais o abri até hoje onde me fui buscar no armazém da memória.



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28 de junho de 2025

Cheguei ao Porto 12 - nem imagino de quantos

A tradição não perdoa. Mesmo que com exame marcado para um dos dias a seguir, dava pelo menos uma volta à Ribeira, bebia um copo no Palácio de Cristal. Era um ritual sagrado comer sardinha assada e pão, bater com o alho-porro na cabeça de estranhos, lançar um sorriso tímido ao amor eterno daquela noite, e fingir que o cansaço das noites de estudo não pesava. E naquela altura pesava. Deslembo-me.

Naquela noite, deixávamos a bata, como quem queria dizer ao mundo: “Hoje, sou só mais um.” No meio das marteladas, ninguém se lembrava das tensões arteriais, dos exames de bioquímica ou das rondas nas enfermarias. Éramos jovens, invencíveis, com os corações cheios e os bolsos vazios.

Recordo-me de uma noite de São João em que um dos nossos — Armando, sempre mais poeta do que futuro médico, decidiu fazer um brinde em pleno tabuleiro inferior da ponte D. Luís. Gritou para o Douro, copo de plástico em riste:
"À saúde dos doentes e à loucura dos sãos!"

E rimos todos, com aquele riso fácil que só os 20 anos e uns tantos finos depois permitem.

Havia um encanto em ver a cidade acesa, em ver as varandas com manjericos e quadras tolas, os velhos a dançar com as crianças, os namorados a perderem-se nos becos. E nós ali no meio, entre a responsabilidade que se aproximava a passos largos e o desejo de sermos, por mais um instante, apenas estudantes com cheiro a sardinha na roupa e fogo no coração.

No dia seguinte, voltávamos à rotina com olheiras fundas e cheiro a fumo no cabelo. Mas sabíamos, sabíamos mesmo, que aquela noite nos curava de um ano inteiro de cansaço. Acordávamos como que renascidos.

Afinal, também isto é Medicina: saber quando parar, rir, dançar, viver. E São João, naquele Porto dos anos 80, era a nossa melhor receita para esquecer tantos amores sofridos, tantas sebentas lidas, tantas noites de fome e saudade.

Um dia voltarei para me visitar, como se fosse fazer um safari pelos caminhos do meu passado, pelos rostos que olhei, pelas lágrimas que chorei, ou fiz chorar, como se as lágrimas tivessem criado um mar interior da minha alma e eu pudesse agora visitar como se fosse uma atração turística e mostrar que um dia eu passei ali momentos de felicidade, degraus do meu caminho.


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27 de junho de 2025

Cheguei ao Porto 11 de não sei quantas

Fora do hospital, o Porto continuava a ser Porto: cinzento, encantador, húmido, cheio de cafés onde discutíamos doenças e poesia como se fossem a mesma coisa. A vida era-nos barata porque o mês era sempre mais comprido que a bolsa, o que nos obrigava a viver sem gastar e o tempo era nosso, a esperança andava à solta, como uma bicicleta sem travões nas calçadas ingremes da cidade, nos passeios da Ribeira ou nos jardins dos Aliados.

Faz pouco tempo, passei pelos mesmos corredores, agora reformados e cheios de tecnologias, procuro aquele cheiro do éter — não por nostalgia, mas porque me lembra quem fui: um estudante perdido, apaixonado, pela ideia de cuidar e pela vida em si mesmo. E lembro-me que, apesar de tudo o que mudou, a essência da Medicina continua a ser a mesma: estar ali, de verdade, para o outro. Foi um tempo que gostei-me, mas que agora prefiro ver do lado de fora, de modo a ter tempo de apagar os fogos que incendiei nos momentos em que não fui suficiente. Cicatrizo-me devagar, célula a célula como se me regenerasse em humano ser.

Mas regressemos a 1980, ao tempo dos sonhos e grande efeitos e pensamentos, ser estudante de Medicina no Porto era como viver entre dois mundos: de um lado, o rigor dos corredores frios do Hospital de São João; do outro, a cidade vibrante, cheia de segredos e excessos e em nenhuma noite isso se tornava mais claro do que na véspera de São João.



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25 de junho de 2025

Livro - O Livro, ele mesmo - K'arranca às Quartas


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Esta Música tem uma História 15 - Clã e Sérgio Godinho - Espetáculo - K'arranca às Quartas


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Tesourinhos Musicais 48 - Nelson Ned - Programa K'arranca às Quartas


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Crónica 61 - K'arranca às Quartas


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Programa 73 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 25 de Junho, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense ( o som ainda não recuperou do apagão de 28 de Abril pelo que peço desculpa)
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, falámos do LIVRO, ele mesmo, tivemos Esta Música tem uma história, com Os Clã e Sérgio Godinho no Espetáculo - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com o Nelson Ned, tivemos a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira bem como o poema - AS PALAVRAS INTERDITAS, Eugénio de Andrade -  Adriana Faria

 

Tudo imperdível, menos a qualidade do som.
Mesmo assim vale a pena

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Cheguei ao Porto 10 de não sei mais quantas

E foi no meu cérebro que me encontrei a pensar num parece que até foi ontem, mas era 1980 e o mundo girava com outra cadência. Os corredores do Hospital de São João, cheiravam a éter, desinfetante e café requentado  e um certo odor bafiento, uma mistura curiosamente familiar que acabaria por se tornar a fragrância da minha juventude.

Entrávamos de bata branca, ainda engomada pela mão zelosa funcionária do lar que achava que Medicina era sinónimo de dignidade. Não sabia, ainda, que a dignidade se ia buscar nos gestos pequenos, no toque calmo ao auscultar um peito aflito, ou no olhar que pede desculpa por não ter mais para dar a um doente terminal. Éramos estudantes de Medicina. Íamos de sebenta na mão e olhos bem abertos, sonhando com bisturis, diagnósticos brilhantes e salvações de última hora. Achávamos que sabíamos mais do que sabíamos. E, no fundo, era isso que nos movia: a ilusão de que o saber tudo era apenas uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde iriamos salvar o mundo. A tristeza teria cura, a solidão seria uma virose passageira e as vezes impossíveis deixariam de existir.

Lembro-me de uma aula prática em que o professor, um homem seco, de voz firme e olhar de quem já tinha visto demasiada dor, lançou-nos uma pergunta simples sobre insuficiência cardíaca. Silêncio. O coração, símbolo do amor e da vida, escapava-nos entre fórmulas e nomes complicados. Foi aí que aprendi que Medicina não é apenas decorar: é ver, escutar, repetir, errar e, sobretudo, estar presente.

O Hospital era um microcosmo do mundo. Lá dentro havia uma hierarquia invisível: os doutores, os internos, os estudantes, os enfermeiros, os auxiliares. Mas, nos momentos certos — num parto difícil, numa paragem cardíaca, numa notícia trágica — tudo isso desaparecia, e só restava a urgência de ajudar alguém.


Sanzalando

24 de junho de 2025

eu e o deserto

O mais longe que fui a corta mato no deserto foi ir quase até aos Morros Azuis. Nesse caminhar pelo deserto do Namibe, encontrei mais do que areia e silêncio. Encontrei-me a mim mesmo e com medo da solidão. Olhava em frente e eles parece fugiam de mim. Olha para trás e o Aeroporto parece ficava mais longe também. Só, tive medo e regressei pensativo. Pelo caminho reparei que o vento sussurrava estórias antigas e o calor parecia querer derreter o meu cérebro. O coração acelerava e eu sentia ele bater cada vez com mais força. Inexplicavelmente tremia. Já não me apetecia conhecer o deserto, já não queria ser mais um explorador de caminhos mais que conhecidos para outros e totalmente desconhecidos para mim. Eu ouvia contar que os Morros Azuis eram assim e assado. Eu, ali tão perto e só os conhecia como conhecia a lua, de ver de longe.
Parei. Pensei e respirei. Já nem sei qual foi a ordem das coisas. Mas de facto senti-me uma estrela. Mesmo sem ninguém me ter visto eu aventurei-me sozinho deserto fora. Eu, menino de alcatrão andei na areia quente do deserto.
Acho só que tinha escolhido dia mau para o fazer. Não podia sentar à sombra e repensar, pois o deserto não tem isso e a minha sombra me acompanhava em cada gesto.
Chegado ao Aeroporto sorri-me e vi que afinal eu não era tão doido como pensava que era.

Sanzalando

23 de junho de 2025

Cheguei ao POrto parte 9 de não faço ideias quantas

Nesse ano e nos seguintes, seis, devo ter escrito o meu primeiro livro de leitura única e pessoal. Poemas de amor. O vento, o tempo e outros ares levantaram voo e nunca mais os vi. Foi um livro devorado pelo tempo, página a página, verso a verso, amor em amor. Fui escrevendo outras páginas na vida, umas com letra legível e outras totalmente ilegíveis. Era um jovem adulto, levado por paixões e que várias vezes morreu de amores, mas devido a desconhecidas divindades sempre ressuscitou, rejuvenescido e pronto a morrer, sempre que o amor lhe quiser.

Sem tropeçar o curso feito e o sonho cumprido. Nunca mais fui à Areosa nem por lá perto passei enquanto estudante. Muitos mais anos depois lá fui, não à rua que me recebeu, mas perto. Nunca mais soube do que foi feito das primas cujo o grau desconheço.

Curti cinco S. João, andei de alho porro e martelinho de plástico. Bebi cerveja e fiz mais passos nessas noites que em cada dia do curso. A cidade estava tomada de festa e alegria.

Um dia, levado carro para trazer a tralha, me prometi que um dia voltaria e várias vezes voltei, porém não aos mesmos lugares onde tinha passado mais tempo. Nem na Areosa passei, nem à Cristal fui e nem na Trindade comi. Porém procurei o Carvoeiro, onde calhava comer aos domingos ou dias santos e em vez de encontrar o dono e a sua filha, cuja contabilidade era fácil, fazendo ele contas, o resultado era sempre os mesmo 18 escudos, se a memória não me falha, e encontrei o Carvoeiro para gente fina. O Piolho estava igual, a Galiza estava na mesma, mas fiquei a saber que fechou posteriormente. O CICAP deixou de ser a reitoria e o lugar de ensaios do Orfeão e Tuna. Que eu frequentava, não pela minha linda voz , mas para alegria dos meus olhos.

Na verdade não voltei ao Porto com vontade de ver o que eu me tinha gasto em seis anos que lá vivi intensamente. Só mesmo porque me desapego dos lugares porque os meus caminhos são em frente e os lugares de passado são isso mesmo, passagens por onde passei e guardei na memória de cada palavra que escrevo no meu cérebro.


Sanzalando

20 de junho de 2025

Cheguei ao Porto, parte 8 e não faço ideia de quantas

No lar da Álvares Cabral, Reino das Águias Carecas, para subsidiar o mês mais longo que a bolsa ou mesada, tinha gente que fazia encadernações de sebentas. Todos os cursos solicitavam os serviços do Cavacas e do Lajoso. Impecável trabalho e bom cheiro a cola nas horas de maior labuta. Tinha ping-pong e grandes campeonatos. Namoradas? Deu-me assim uma amnésia útil neste instante. Não me lembro e nem vou falar disso que eu sou muito leal à minha palavra e muito desapegado à memória.

E com mais ou menos coisas, Junho chegou e com ele os exames. Eu era rígido comigo, sempre depois da novela brasileira que dava depois do telejornal, eu ia estudar. Mas a novela era imperdível. Jantava na Cantina de Engenharia que estava sempre com ar de quem estava em obras, bebia café no Cristal e depois sentava-me na sala do lar a ver o Telejornal que começava às 20 horas em ponto e a seguir era hora sagrada. Gabriela, Cravo e Canela e Senhorzinho Malta era imperdível. Na minha terra não havia televisão e eu estava apaixonado por aquilo. Depois sentava-me e estudava sem hora marcada. Ritual cumprido à letra mesmo nos dias de festa. Excepto a cantina que feriados e Domingos não havia. Estudante faz jejum ou inventa.

E por falar em festa cometi a proeza de recusar sair do lar no primeiro S. João que lá passei. Leonor e companhia usaram e abusaram de argumentos, mas eu não estava virado para festas que não tinham um significado para mim. A verdade que o barulho era tanto que mesmo tendo ficado em casa desconsegui dormir. Todos invadiram o lar perto das 6 da manhã. Alguns com um pouco de bebida a mais no corpo, mas com o quarto grande e o soalho a servir de colchão, ninguém reclamou. Não se nega um poiso a ninguém. Apesar de ser manhã, dormiram a noite toda pois o mais cedo a acordar deve tê-lo feito às 2 da tarde. Eles estavam felizes e contentes e eu com a birra amarrada dentro de mim por não ter ido na folia.


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18 de junho de 2025

Ministros da Noite - Ana Barradas - Livro - K'arranca às Quartas


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Esta Música tem uma História 14 - Tom Jobim - Dirim - K'arranca às quartas


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Tesourinhos Musicais 47 - Jáfumega - K'arranca às Quartas


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Crónica 60 - K'arranca às Quartas


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Programa 72 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 18 de Junho, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense ( o som ainda não recuperou do apagão de 28 de Abril pelo que peço desculpa)
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, falámos de Ana Barradas, escritora moçambicana e o seu livro Ministros da Noite  tivemos Esta Música tem uma história, com Tom Jobim e Dirim - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com o Conjunto Jáfumega tivemos a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira bem como o poema Cântico Negro de José Régio por Pedro Lamares e também entrevistámos Goçalo Castel-Branco, o organizador dos Chefs On Fire em Vilamora

 

Tudo imperdível, menos a qualidade do som.
Mesmo assim vale a pena

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Cheguei ao Porto parte 8... não faço ideia de quantas

No Reino das Águias Carecas, vulgo lar da Álvares Cabral, quase todos eram oriundos de paragens distantes, três do norte de Portugal, dois da Madeira e o resto, bem, esses eram o mundo à parte, tinham vindo de Angola e tinham trazido essa característica na maneira de ser e estar. Eu estava como peixe na água. Primeiro clandestino e depois com o Serviço Social definido em bolsa e alojamento, ali estava de maneira legal. Mas de clandestinidade estava o reino cheio. Era por um ou dois dias, era a semana ou outros ‘desprotegidos’ como eu, iam ali buscar conforto e amizade. Ninguém tinha falta de amizade e apoio. Havia sempre um ombro, um amigo, uma conversa, uma companhia na hora.

Certo certo é que nunca mais voltei à Areosa, na morada da prima cujo grau desconheço ainda hoje e também deixei de parar na pastelaria onde me habituara a tomar o matabicho e onde aprendi a dizer CIMBALINO. Esta não só porque não me apetecia sair do autocarro, mas porque o lar tinha pequeno almoço. Passei a privilegiado. O curioso é que o dia com maior frequência de pequeno-almoço era o sábado logo às 8 da manhã… Se calhar em vez de chamar pequeno almoço eu diria que era a refeição antes de deitar.

Até o curso começou a parecer fácil. Mantive os dois grupos e fui-me acrescentado ao do lar, onde prontificavam quase todos os cursos da Universidade do Porto. Além da lerpada das sextas havia muito mais mundo para lá da secretária. Havia sempre motivo para comemorar, desde que isso não implicasse gastar dinheiro, que não havia. Pois todos tínhamos mais mês que dinheiro.

Aos Domingos, que não havia cantina, havia alguém pronto para salvar com um cozinhado. Solidariedade não tem preço e no lar garanto-vos que nunca faltou. Mais um bocado de arroz e o frango dava para dúzia

No final do semestre, ali para os lados de Maio, sentei-me à beira do Douro, tendo ao meu lado a minha amiga Leonor, com um caderno, de capa vermelha, no colo, escrevi:
"Cheguei ao Porto e não conhecia nada nem ninguém. Agora, conheço a cidade pelo nome dela, pelos cheiros e pela beleza das casas e vilas."



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17 de junho de 2025

Cheguei ao Porto parte 7 ... de não faço ideia quantas

Na faculdade ia gerindo o meu tempo entre ambos grupos. Aos poucos foram-me fazendo perguntas, convidar para sair à noite e começaram a reparar que eu escondia qualquer coisa. Mas o mais importante é que notavam a instalação de um de ar de ser infeliz quando se aproximava a minha hora de Cinderela. Depois de um rigoroso inquérito, ao que não resisti nem um só segundo, os desamparados e madeirenses resolveram ajudar-me a arranjar casa que não me acorrentasse.

Fala-se aqui, conversa-se ali, era o Lima, era o PêPê, era o Beça, João Prata,  todos mais velhos da Medicina e mais uns quantos que se foram solidarizando, quer de engenharia quer de economia, e em dois dias eu tinha uma casa que me acolhia no centro da cidade. Só precisava de bater à porta depois das 17 horas com malas e bagagem. Eu aguardava resolução do Serviço Social pelo que me aconselharam a estar calado e não divulgar o meu novo poiso. E assim renasci mais uma vez e no Reino das Águias Carecas, que me recebeu com pompa e sem circunstância, mas com muito carinho.

Nasceu uma nova personagem. O taciturno vespertino da Areosa deu lugar ao alegre morador na Rua Álvares Cabral. 


Sanzalando

16 de junho de 2025

Cheguei ao Porto ... 6 de não sei quantos

Também pela tristeza que sentia por ter deixado para trás tanta coisa que eu tinha gostado de paixão, estava difícil viver ali. A vontade de ser gente só existia das 6 às 17, depois entrava a escuridão e a solidão.  No silêncio do quarto nascia a vontade de voltar atrás e deixar aquele mundo, apagar aquele sonho. As primas de grau que eu desconheço, cada vez mais de cerco apertado, impediam que tomasse o meu banho diário. Hábito nascido, penso eu, no dia em que nasci. Mas no dia seguinte, quando entrava na pastelaria da Areosa eu adormecia essa tristeza e renascia ao ponto de esquecer a solidão que me cobria naquele silêncio chamado casa das primas cujo grau desconheço.

Num assim lembrado de repente, no primeiro fim de semana que lá passei, ambas me pediram para ir à pastelaria comprar uma regueifa, que seria para o almoço. Claro está que, chegado à pastelaria, nunca mais me lembrei de tal palavra que só tinha ouvido uma vez e fora logo ali naquele instante. Como sabia que o que queriam era pão, eu levei aquele que mais se parecia com o pão que sempre houve na minha casa e era comprado na Padaria em frente à papelaria Couto. Mas mal cheguei a casa, desembrulharam o cartucho e quando viram que eu trazia pão que era pão, falaram tanto e tão mal, num português vernáculo, que mais tarde vi era linguagem corrente e vulgar, agarrei em mim, voltei à pastelaria e contado o que eu se tinha passado me vendaram a tal regueifa, guardei o pão no meu quarto e recusei almoçar. As primas cujo grau desconheço tinham atingido o meu patamar de bruxas de cujos filmes me ia lembrando ao ver o velho casario.


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14 de junho de 2025

Chegeui ao Porto ... 5 de não sei quantos

- És novo aqui? - perguntou-me sem cerimónia.

- Sou. Cheguei faz mais de uma semana,  mas ainda estou aprender a pedir café sem errar.

Ela riu. Ensinou-me que no Porto, pedir um “cimbalino” era coisa séria. Já na Madeira era mais habitual pedir-se uma Chinesa, que era assim como uma meia de leite, que é o mesmo que café com leite como se bebia na minha casa ao lanche. E que o melhor café vinha acompanhado de conversa. E de conversa em conversa eu já tinha dois grupos. Nalgumas conversas deste segundo e novo grupo tinha altura que eu tinha de perguntar por legendas, pois a pronuncia não me deixava adivinhar o contexto da frase.

Éramos da mesma turma e começamos a estudar juntos. Depois a passear. Depois também simplesmente a caminhar pela cidade como se a cidade também fizesse parte dos conhecimentos universitários. Aos poucos, fui conhecendo o Porto pelo cheiro do rio, do mar gelado da Foz e pelas conversas perto da ponte D. Luiz I ou nos jardins do Palácio de Cristal. Era uma amizade firme que nascia sem outras intensões ou quereres.

Não demorou para que Leonor fosse mais familiar que qualquer rua, e que a cidade deixasse de me parecer estrangeira, fria e distante. Mas a hora do recolher a casa estava a impedir-me de conhecer outro Porto. Eu não conhecia o Porto ao pôr-do-sol e eu tinha saudade do meu pôr-do-sol.


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12 de junho de 2025

cheguei ao Porto - 4 de não sei quantas

Da Areosa ao Hospital eu apanhava um autocarro daqueles de primeiro andar e logo às 6:30 da manhã, depois do pequeno-almoço tomado na pastelaria da esquina da Areosa, que se estava a tornar vício ou necessidade. Todos os dias a mesma água cafeinada porque eu não sabia pedir um Cimbalino, coisa que aprendi uma semana depois, farto de beber o tal de café de saco. Aprendi no dia em que cheio de coragem eu disse hoje quero um café como aquele senhor ali. O empregado soletrou e então eu compreendi a pronuncia do norte a dizer Cim Bá Li No. Tanta silaba para um café. Um biju e um cimbalino por favor, era o pedido diária na madrugada desta minha vida.

Mas a vida em casa não estava a ser fácil. Porque demorava um pouco mais na casa de banho, porque ontem a luz ficou acesa até tarde. Porque… na verdade, carregando cadernos e incertezas, tentando entender como se vivia numa cidade que parecia perdida na sua própria memória, incompreendendo a vida daquelas duas mulheres não estava a ser fácil aguentar a monumentalidade do curso, o frio, a solidão temporal e espacial que estava a cumprir por obrigação.

Foi num daqueles dias, ao entrar numa das salas frias da Faculdade, que a conheci. Leonor. Cabelos caracolados como ondas de mar revolto, sotaque que nem era do norte nem de nenhum sul que eu conhecesse. Era do grupo da Madeira. Um grupo de gente rara, tal qual o grupo que eu havia iniciado. Mas aquele era um grupo coeso e um pouco fechado, contrariando o meu grupo de solitários perdidos e desachados, que aos poucos se iam achando e a reduzir-nos…


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