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A Minha Sanzala: 30 - Estórias no Sofá – Telefone
recomeça o futuro sem esquecer o passado

29 de novembro de 2007

30 - Estórias no Sofá – Telefone

É mais que certo que quando o telefone toca noite dentro é porque vem associado uma notícia má.
A bem da verdade não é sempre assim, às vezes pode ser só o pronuncio da má sorte.
Esta noite quase madrugada, horas em que as pestanas de cima brincavam com as pestanas de baixo e o meu subconsciente voava através dos sonhos, me apareceu ouvir a trim trim do meu velho telefone, quase desusado porque ligado à parede por um fio preto não elástico e dono de um peso e volume consideráveis incompatíveis com a portabilidade dos tempos modernos, que tocava de forma consistente e irritante que até parecia irreal. De principio parecia que esse som fazia parte do sonho que navegava no subconsciente da noite, porém pouco a pouco fui tomando consciência que era bem real e desapareceu da minha imaginação e passou a fazer parte das coisas palpáveis da vida.
- Caraças, toca o telefone fixo. disse resmungando enquanto, com esforço, me deshorizontalava do quente do edredão.
Vociferando cobras e lagartos salto da cama e parto em busca do ruidoso aparelho que a estas horas da noite quase madrugada é insuportável. Vou abrindo portas e acendendo luzes. O trim trim cada vez mais insuportável. Os pés descalços na tijoleira fria apresentam um deficit de aderência. As curvas são mais fechadas nesta hora da noite quase madrugada. Na última curva, a pouco mais de um metro do ensurdecedor aparelho, a aderência foi nula, a corrida se transformou em patinagem artística. Saiu um mortal seguido dum estatelado. Ombro esquerdo contra a mesa, cabeça directamente no assento duma cadeira, tornozelo direito assim a modos que articulado para o lado errado do sei eixo de mobilidade. As cobras e lagartos foram ouvidas nas redondezas, acho que em tom mais alto que o trim trim irritante que não parava.
Com dificuldade me levantei na quase impossibilidade de mexer qualquer segmento de mim após este acidente a altas velocidades da noite quase madrugada.
Levantei o auscultador e pi-pi-pi de quem estava desligado naquele preciso instante.
Sentei-me no chão e esperei que voltasse a tocar enquanto me recompunha.
Efectivamente ele voltou a tocar.
- Sim?! disse eu com a voz mais simpática desta hora da noite quase madrugada.
- O Serafim está? ouvi eu a voz feminina e chorosa do outro lado da linha.
- Desculpe… desconcertado proferi
- O Serafim está aí? continuou a voz soluçante.
- Acho que se enganou a marcar. tentei eu dizer com voz reconfortante.
De imediato o pi-pi-pi de desligado me entrou ouvido dentro.
Pousei e de imediato levantei o auscultador do telefone enquanto dirigi o meus dedos para o disco e disquei 112 saboreando o som do retorno do disco ao seu lugar após cada marcação.
Agora tenho um pé direito engessado, o braço esquerdo ligado ao corpo e a cabeça lateja como a querer crescer sobre o lado esquerdo.
Que sorte que tive que o telefonema naquela hora da noite quase madrugada não estava associado a notícia ruim.


Sanzalando

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WebJCP | Abril 2007