Navega à vontade que a Sanzala é segura, mesmo que te pareça lenta!
A Minha Sanzala: Novembro 2007
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de novembro de 2007

o meu poema

Me sento aqui num deus dará, lugar encontrado ao acaso nas deambulações da minha mente.
Chegas por um longo caminho à minha recordação, num chegar de novo despertando sonhos de prazer e saber, trazendo sombra às minhas palavras, tornando-me cálida a voz com que te falo, embrulhando-me em saudades que me empurram para o abismo da minha alma.
Vens e te colas no brilho do meu olhar como fazes desde há séculos, quando me invades num abrupto tempero de saudade e nostalgia.
O teu silêncio de aurora contrasta com as minhas palavras com sabor das cores garridas com que percorro as horas do dia.
Fazes-me abrir o misterioso baú dos desejos, desvendar os caminhos do destino, erguer-me das cinzas e esvoaçar ao sabor da brisa ao som dos cantares dolentes dos trabalhadores de algodão.
E quando partes, deixas-me o frio do fim da tarde e as lágrimas com que salgo a minha vida.



Sanzalando

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Nebulosa Trifid

29 de novembro de 2007

30 - Estórias no Sofá – Telefone

É mais que certo que quando o telefone toca noite dentro é porque vem associado uma notícia má.
A bem da verdade não é sempre assim, às vezes pode ser só o pronuncio da má sorte.
Esta noite quase madrugada, horas em que as pestanas de cima brincavam com as pestanas de baixo e o meu subconsciente voava através dos sonhos, me apareceu ouvir a trim trim do meu velho telefone, quase desusado porque ligado à parede por um fio preto não elástico e dono de um peso e volume consideráveis incompatíveis com a portabilidade dos tempos modernos, que tocava de forma consistente e irritante que até parecia irreal. De principio parecia que esse som fazia parte do sonho que navegava no subconsciente da noite, porém pouco a pouco fui tomando consciência que era bem real e desapareceu da minha imaginação e passou a fazer parte das coisas palpáveis da vida.
- Caraças, toca o telefone fixo. disse resmungando enquanto, com esforço, me deshorizontalava do quente do edredão.
Vociferando cobras e lagartos salto da cama e parto em busca do ruidoso aparelho que a estas horas da noite quase madrugada é insuportável. Vou abrindo portas e acendendo luzes. O trim trim cada vez mais insuportável. Os pés descalços na tijoleira fria apresentam um deficit de aderência. As curvas são mais fechadas nesta hora da noite quase madrugada. Na última curva, a pouco mais de um metro do ensurdecedor aparelho, a aderência foi nula, a corrida se transformou em patinagem artística. Saiu um mortal seguido dum estatelado. Ombro esquerdo contra a mesa, cabeça directamente no assento duma cadeira, tornozelo direito assim a modos que articulado para o lado errado do sei eixo de mobilidade. As cobras e lagartos foram ouvidas nas redondezas, acho que em tom mais alto que o trim trim irritante que não parava.
Com dificuldade me levantei na quase impossibilidade de mexer qualquer segmento de mim após este acidente a altas velocidades da noite quase madrugada.
Levantei o auscultador e pi-pi-pi de quem estava desligado naquele preciso instante.
Sentei-me no chão e esperei que voltasse a tocar enquanto me recompunha.
Efectivamente ele voltou a tocar.
- Sim?! disse eu com a voz mais simpática desta hora da noite quase madrugada.
- O Serafim está? ouvi eu a voz feminina e chorosa do outro lado da linha.
- Desculpe… desconcertado proferi
- O Serafim está aí? continuou a voz soluçante.
- Acho que se enganou a marcar. tentei eu dizer com voz reconfortante.
De imediato o pi-pi-pi de desligado me entrou ouvido dentro.
Pousei e de imediato levantei o auscultador do telefone enquanto dirigi o meus dedos para o disco e disquei 112 saboreando o som do retorno do disco ao seu lugar após cada marcação.
Agora tenho um pé direito engessado, o braço esquerdo ligado ao corpo e a cabeça lateja como a querer crescer sobre o lado esquerdo.
Que sorte que tive que o telefonema naquela hora da noite quase madrugada não estava associado a notícia ruim.


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Redemoinho de olhos 'furiosos' de duas galáxias


28 de novembro de 2007

é tempo do tempo

Me sento por aqui e caminho sobre palavras, pensamentos gesticulados pela minha boca destinados a permanecerem a pairar nas ondas do vento até se gastarem.
Me delicio a perder tempo, entrar num café esquecer o tic tac, entrar num loja qualquer e esquecer o mostrador e os seus dois ponteiritos que teimam em comandar-me, sentar-me num comboio e deixar o meu banco vazio num estação escolhida ao acaso, ir a uma biblioteca e esquece-me na poeira dos livros.
Que posso mais fazer se gosto de perder tempo quando não estou contigo? Mas a verdade é que sempre tenho tempo porque me forçam a força dos minutos e me derruba a insistência dos segundos, na sua tenacidade de cumprir as minhas obrigações.
Bem, na verdade o tempo passa por mim gritando-me com a força do vento que já é tempo de deixar de lado pensamentos e ócios.



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Tempestade Perfeita

27 de novembro de 2007

esperança

Aqui sentado estou, muro da minha infância, raízes do meu crescimento, memórias do meu futuro a caminhar por pensamentos e palavras caídas da minha boca, umas carregadas de cores berrantes outras cinzentas e com sabor a sal.
Já não me importam as vezes que não consigo respirar nem as noites acordadas incapaz de adormecer, assim como não me importam os dias que pergunto atrás de perguntas sobre meu futuro com olhos de passado longínquo.
O que me importa mesmo é o que eu sinto porque há momentos, mesmo que não queira, em que penso que a tristeza durará para sempre e será eterna e outros momentos em que um simples sorriso adornado de poucas palavras me devolve a energia para abrir todas as janelas do meu caminho de modo a que a leve brisa agite todos os sentimentos e eu consiga voltar a ser o eu que sempre quis ser.
A esperança não está no fingir, no não acreditar que não existem problemas mas sim no saber que eles não são eternos.

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Nebulosa do Cone

26 de novembro de 2007

sombras

Me sento por aqui como com medo da noite. Procuro um lugar que me traga a recordação do cheiro da terra molhada, o pôr-do-sol cor de fogo antes do regresso da noite e das suas sombras.
Mas vá lá que as palavras e os sentimentos não têm sombras.
O silêncio é tão escuro como as sombras e deixam um rasto de saudade.
Bem, eu às vezes me sinto uma sombra com o peso das palavras que falam de sentimentos rasgados em saudades e nostalgias. Eu às vezes me sinto noite e falarei até que as sombras não existam.

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Nebulosa Ampulheta

25 de novembro de 2007

29 - Estórias no Sofá – Árvore

Conheces-me? Eu sou a árvore da margem do rio. Conheço as primaveras e as àguas perfumadas de madresilvas e jasmins, fui abrigo de pássaros que nos meus ramos fizeram os ninhos. Conheço também as tormentas de Inverno, galhos partidos pelo vento, aguaceiros e trovoadas. Conheço casais de namorados que me golpearam corações. Conheço a dor de pedradas e outros objectos arrastados na fúria do rio. Conheço o calor tórrido do verão.
Sempre aqui estive, agarrada a este pedaço de terra, sempre a ver o passar das águas.
Hoje já não temo nada disso, nem a força dos ventos e nem a das águas, nem as pedradas e nem os pássaros que me abandonaram. Já fui vida em vida. Quando caí sei que caiu o meu tronco, os meus ramos e as minhas raízes. Mas aquilo tudo que vivi, não!


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Nebulosa da Formiga

24 de novembro de 2007

discurso de amor

Desejo chegar-me a ti com as minhas palavras e transmitir-te os meus desejos com os meus verbos. Quero ver-te sentir prazer enquanto falo cama, rosas e pétalas. Quero ver-te desejar-me enquanto traduzes os meus sinónimos, ver os teus gestos enquanto ouves os meus adjectivos e chorando enquanto recordas as minhas recordações.
Eu falo-te dos sonhos que brilhavam, do despertar sorridente da madrugada, do equilíbrio instável das palavras nas ondas do vento.
Desejo chegar a ti com as minhas palavras.
Em cada frase, oração e parágrafo eu recorro ao sótão das recordações, ao vazio interior do maiúsculo, ao destino incerto de predicado para te ver sorrir.

Tu sabes que eu sei que os grandes amores e os grandes sofrimentos são mudos e quando lhes damos forma de palavras eles diminuem, ou pelo menos sentimos que pesam menos.
Afinal de contas eu escrevo para ti e me defino em cada ponto final.





Sanzalando

sexta? sábado? tanto faz!

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23 de novembro de 2007

o teu nome que nunca disse

Sento-me com ar descontraído. Não quero nem pensar no hoje, quanto mais no amanhã. Me sento e vou falando em voz baixa palavras para mim. Hoje apetece-me ouvir-me e por isso me vou fazer a vontade, às vezes eu também me mereço.
Mais um dia que não vou dizer o teu nome, porque o teu nome provoca um sorriso no meu olhar, um brilho na cara e logo alguém que passa poderia descobrir este meu amor platónico. Por isso calo o teu nome e esquecerei as palavras que calei, os silêncios que me falaste em momentos de calma e que me fizeram sentir feliz e capaz de sonhar.
Por isso falo-me sem dizer o teu nome. Por isso sonho-me sem referir o teu corpo, o teu perfume e a tua magia.
Estou colado ao nada, agarrado ao vazio e transporto o sorriso da nostalgia. Olho-me e fico surpreendido com o som de cada palavra esquecida. Rio-me levemente como voa uma borboleta, me abraço de interrogações agrestes e baças e calo o teu nome com medo de me denunciar.
Vejo-te no retrato da memória, ouço-te nos teus silêncios e sinto os tremores do medo em todas as partes de mim. Procuro rasgar as dificuldades, romper as distâncias e palavrear sem limites balizados no tempo. E calo o teu nome mais uma vez.
Me levanto e descubro uma ponte que une o amanhã até a um dia qualquer de depois do amanhã e antes da morte e sorrio com vontade de dizer o teu nome.



Sanzalando

até nem é um mau blog


Na sequência duma corrente iniciada no Nós por Cá, o Nothingandall nomeou sete blogs que até nem são maus blogs, incluindo A Minha Sanzala (Um blog numa escrita diferente e agradável com o calor e o ritmo de África)
Quero aqui deixar o meu apreço e agradecimentos, colocar aqui o selo respectivo e passar a nomear sete blogs que acho que nem são maus blogs. É certo que muitos outros SETE poderiam estar aqui, mas hoje virei-me para estes. Assim aí vão as vítimas, desculpem os felizardos:
1- às vezes desorganizo-me em palavras: Um blog 'incómodado' com sóbrio grafismo. Não só não é um mau blog como é... excelente!
2- Attelier das mangueirinhas: O querer, o insistir e o não desistir mesmo quando a maré não está de feição
3 - As fadas não usam baton : Um blog que defende o amor... mesmo quando ele aparenta não ouvir.

4 - O Blogue da Magui : Um blogue que me tem mostrado um outro Brasil que não está nos panfletos das agências de viagens.
5 - Pensar e Falar Angola: Um blog colectivo que se tem imposto pelo rigor, sem dogmas e pelo saber. Uma referência sobre Angola.
6 - Estados Gerais: variado, irreverente e politizado quanto baste. Pena mesmo é que esteja em pausa prolongada. Já é tempo de se 'sacar' o autor desta pausa!

7 - O Blogue Aberto: o verdadeiro, autêntico. Uma ideia genial e original




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Nebulosa NGC2392, conhecida por Esquimó

22 de novembro de 2007

renascer

Caminho em passos imaginários enterrando os pés na duna para me segurar da força do vento. Me senti como se estivesse suspenso no vazio. Ergo as mãos em forma de garra e tento segurar-me às ondas do vento. Sinto ondular-me entre o céu e a terra. Grito em desespero separando-me do corpo, peço clemência e como resposta ouço o eco. Suplico carícias e ofereço a minha boca para um beijo. Sinto-me um pássaro ferido. Entro em turbilhão e caminho a passos largos para as fronteiras do abismo.
Dum lugar que não adivinho me surge a calma, a quietude e a paz de espírito. Abro os olhos e pouso o olhar no horizonte promissor bordado a azul celeste. O sol rompe por inexistentes nuvens, oferecendo-me um sorriso de amanhecer e secando-me a tristeza que se solta dos meus olhos ao mesmo tempo que apagava a amargura dos meus lábios.
Olho para trás e vejo ao longe os sinais da tempestade. Catalogo-os como o meu desértico naufrágio na estante das recordações. Deponho um ramo de rosas e faço um discurso de silêncios.
Medito.



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Nebulosa Olho de Gato

21 de novembro de 2007

28 - Estórias no Sofá – Sr.Vento

O Sol e a Brisa tinham sido muito amigos quando esta era pequena. A Brisa gostava do quente do Sol quando este a acariciava e da cor amarelada da sua pele quando este se dispunha acordá-la anunciando o começo dum novo dia. Mas também gostava de brincar às escondidas com o Sol tentando descobri-lo por entre as nuvens através dos pequenos raios que dele se escapavam na impossibilidade de estarem quietos.
Durante anos foram amigos inseparáveis e a Brisa tornava-se mais forte quando as nuvens se zangavam umas com as outras, se escureciam e discutiam com grande estrondo e muitas lágrimas o amor pelo Sol. Ela tentando por um fim à briga se empapava dessas lágrimas mas depois se estendia ao Sol recebendo as suas secas carícias.
À noite, quando o Sol se retirava para o merecido descanso, deixava a sua amiga Lua a zelar pelos sonhos, pelo que a Brisa nunca teve medo da escuridão e se sentia segura a receber aquela ténue luz cinzenta.
Um dia, assim num sem dar conta, a Brisa se tornou adulta, começou a fazer novos amigos, conheceu alguém muito especial e mudou de casa. Sempre muito ocupada foi-se desligando dos seus tempos de menina.
Hoje, quer faça Sol, nuvens ou com a luz do luar, ela se mostra mudada e sopra forte, travestindo-se de Sr. Vento.



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20 de novembro de 2007

de quem é a saudade

Aqui vou eu caminhando por caminhos de fantasia, de faz de conta, numa rota de enganar-me a saudade e afogar a nostalgia.
Afinal de contas quem é mesmo a dona da minha saudade? Quem foi que lhe deixou na porta da minha alma? De certeza não veio na mão do vento e entrou por uma janela entreaberta de mim inundando-me de aromas nostálgicos.
Mas quem é mesmo a dona da minha saudade? Porque não respondes à minha pergunta? Porque deixas o meu coração arrastar-se pelas calçadas da tristeza? Esperas, cobardemente, que a saudade murche e me deixe a sensibilidade nua e gelada? Esperas que ao ver uma rosa de porcelana meus olhos se inundem de lágrimas? Porquê este duelo sem sedativos nem escalas de gravidade? Esperas que eu grite aos quatro ventos que me largues e me deixes a mente intacta?
Não, prefiro levar de saudades a pele impregnada e o coração a arrastar-se pelas calçadas da tristeza!


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19 de novembro de 2007

Novo caminho

Aqui estou sentado a olhar o horizonte com um olhar que nada vê. Nestas ruas engarrafadas de sonhos e pensamentos existe uma neblina que não me deixa ver para além da curva, para além de mim.
Terá alguma importância que eu mude?
Já sei, esta pergunta é incorrecta porque eu sou o resto da humanidade.
Mudar um deserto e convertê-lo num lugar habitável pode ser um objectivo utópico, porém para algumas poucas pessoas o deserto é a sua vida, o seu lugar.
Olhando uma foto dum deserto posso ver a areia sedenta e a beleza das suas curvas suaves, sentir como se fosse a sua pele recoberta de óleos aromáticos, sensual.
Mudar-me é quase o mesmo. Utópico! É abandonar-me, descobrir espaço, sem movimentos bruscos, é sonhar, é olhar e confundir o meu olhar com a música suave da alma, é recuperar a vitalidade e energia sem poder parar de dançar ao ritmo da vida.
È neste momento que dou conta que iniciei um novo caminho.



Sanzalando

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18 de novembro de 2007

segredo-me

Me sento aqui e ouço o bater abafado do coração a segredar-me confidências que a distância do tempo impôs na dor de promessas esquecidas.
Hoje o sentido da minha vida são gritos de nostalgia que se despregam em cada centímetro da minha pele, recordações de sonhos estranhos sonhados na noite da vida. As minhas palavras são cânticos incompletos duma sinfonia abstracta.
Se algum dia te atreveres a cruzar com a minha alma, encontrarás oceanos intermináveis de tristeza intercalados com caminhos de flores de consciência angustiada onde as ternuras se convertem em culpas e as alegrias se transformam em pecados numa espiral de inacabadas mudanças.
Hoje me sento aqui a segredar-me.

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17 de novembro de 2007

quando se trata de ti

Aqui vou caminhado por ruas e vielas de pensamento ao sabor da claridade da imaginação, abrigado dos ventos da tristeza e das chuvas da depressão. Aqui vou eu caminhando disfarçado, umas vezes de nostalgia outras de insensível existência de ser.
Aqui vou eu caminhando pensando em ti e em dedicar-te alguma coisa. Mas que dedicar-te-ei?
Quando se trata de ti não é falar umas quantas palavras, escrever um livro, caminhar sobre estrelas, ultrapassar oceanos e percorrer milhas de lágrimas, não é construir um mundo novo, não é lutar-te cada dia como me mereces, não é salvar minha alma de pecador que eu me sinto satisfeito.
Quando se trata de ti não é importante salvar a minha alma de ti, maldita bênção que me atingiste o coração, nem saber que não te posso abraçar neste momento.
Quando se trata de ti é-me suficiente sentir que te amo.


Sanzalando

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16 de novembro de 2007

hoje

Me sento por aqui e penso que eu gostaria de estar a cumprir uma promessa que fiz para mim mesmo. Hoje queria ter reunido todas as minhas forças e estar a sorrir, sentado naquele muro que afinal de contas, se tivesse olhos, me tinha visto crescer. Hoje queria estar engalanado de corres garridas e gargalhadas sonoras a usufruir do que me gastou tantos anos a amadurecer.
Gostaria mas não estou e portanto um ponto final provisório no assunto.
Assim posto me resta ficar aqui sentado e fazer uma serenata mental, pegar na viola virtual e com voz romântica cantar-te um filme que imaginei.
Hoje aqui sentado me resta recordar o livro de quem só li umas 20 páginas quando tinha para aí uns 15 anos e que faz tempo o queria ter terminado mas já nem me recordo do título nem do autor.
Hoje, aqui sentado já nem sei bem se o filme foi por mim imaginado ou existe mesmo ou se o livro existe ou foi por mim imaginado.
Hoje aqui sentado me apetece perguntar por ti mas não ouso fazê-lo porque não sei se tu existes ou se existes só mesmo para mim.
Olha, me sento por aqui e espero que a chuva dos teus olhos pare e te animes, até que sejas capaz de sorrir.

Sanzalando

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15 de novembro de 2007

páginas em branco

Me transporto por aqui e por ali, carregado de sonolência que me acaricia as pálpebras e me afoga o apetite de ler. Fecho os olhos como para ver se estou acordado, ou não, já que não consigo ter uma certeza como que absoluta. Na verdade quando os quis abrir novamente eles não me obedeceram.
Agora penso que estava a sonhar um sonho em letra especial e desenhos que mostravam uma vida já vivida, como se fosse um livro aos quadradinhos. Comecei a ler, de início por curiosidade, depois com ansiedade e avidez, com lágrimas e com sorrisos, com paixão e com tristeza, por sonhos perdidos e por ilusões. As palavras e desenhos apareciam impressos ao mesmo tempo que eu olhava para uma folha em branco como se eu estivesse a reviver o reflexo da minha própria estória.
Eu podia sentir o perfume da terra molhada das primeiras chuvas de verão, eu podia sentir o calor de cada beijo, o sentimento de cada abraço. Leio sem pensar, vivendo cada palavra e desenho, até que dou por mim a ler algo que não identifico, alguma coisa que não me pertence, momentos que eu não tinha vivido.
Encontrei vários desses quadros, tristemente muitos. Entrei em matutação e conclui que eles representavam pedaços em branco da minha vida, momentos que não havia vida, eram assim como espaço publicitário entre vidas.
Tentei apagar mas isso não me estava atribuído, eu só os podia ler. Não podia apagar ou corrigir. Deixei cair uma ou outra lágrima sobre as páginas deste livro que eu lia de olhos fechados e sucedeu então que iam aparecendo muitas páginas em branco.
Sanzalando

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14 de novembro de 2007

Coração aos círculos

Cá vou eu caminhando por ruas de fantasia. Um dia eles estão engalanadas como se fossem dias de festa, outras estão cinzentas como se esperassem o carro fúnebre. Eu lá vou calcorreando esses empedrados ao sabor dos dias, das horas, respirando fragrâncias como se elas fossem nutrientes da vida.
Mas o que eu sei mesmo é que um coração desenhado na areia da praia é um símbolo do amor. Eterno, porque nenhuma onda é capaz de apagar o sentimento do seu desenhador. Entoamos palavras, pensamentos, sonhos, momentos, olhares, sorrisos e parte da nossa paisagem interior ficam ali na areia desenhados. Esta obra não necessita assinatura, nem protecção à cópia, como em tantas ocasiões está submetida a nossa vida, por pessoas sem escrúpulos que tentam manchar o que nos pertence ou por quem se esquece de assumir a autoria talvez porque identificados noutra vida escura e fria.
Mas nesta caminhada fui aprendendo que o perímetro do coração desenhado não é um lugar fechado onde cabe apenas o que já lá está dentro e que não é necessário rompê-lo para se sair dele. Descobri que existem corações abertos em que o estar dentro ou fora depende unicamente da disposição.


Sanzalando

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13 de novembro de 2007

Pensar sem pensar

Sentado no muro desta casa abandonada, meio defeito pelo tempo, meio ocupado pelo capim que tudo invade, caminho por pensamentos já que as pernas estão cansadas para percorrer outros caminhos, que mais não são que íngremes subidas.
A minha cabeça é assim como que nem um poço sem fundo em que é acumulado uma montanha de pensamentos em que a maioria mais não é que um gastar desnecessário de energia que me levam a lado nenhum, assim como que os resíduos tóxicos de um mar interior, que sabemos ser nocivos mas que nos custa afastar deles.
Acho está na hora de tomar consciência do que penso, de como construo meus sonhos, assim como que fazer a comparação do que penso com o grau de satisfação da minha vida, de modo a não me surpreender.
Bem, na verdade, caminhar sem um propósito, pensar sem pensar, pode afastar do destino, mesmo que ainda não saibamos qual que é ele, mas ao menos desfrutamos da paisagem no trajecto.



Sanzalando

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12 de novembro de 2007

Nas ruas da fantasia

Caminho por ruas de fantasia imaginado ouvir o marulhar nas vozes caladas dos que se cruzam comigo em passo apressado como quem vai para lado nenhum com horas perdidas num relógio sem pilhas.
Caminho e recordo-me que sonhei contigo. Recordo-me ou estou a sonhar agora, pouca diferença faz.
Estamos sós e os meus dedos exploram as tuas linhas, sentem a tua textura, os meus olhos regalam de ver a tua beleza e o meu nariz inspira o teu perfume. Misturamo-nos um no outro sem encontrar o princípio final, sem perder o desejo de o encontrar. Sinto-me ser beijado pela tua alma enquanto sou atraído pelo teu corpo. A minha pele é a tua pele e vice-versa.
Escuto a minha respiração ofegante numa ânsia que me invade. Aperto-te contra mim num medo de te perder.
Sussurro-te promessas feitas, canto-te esperanças enquanto o meu corpo se eleva.
Se isto é um sonho eu não quero acordar. Quero continuar este caminho por ruas de fantasia.
Este momento parece eterno, o nosso corpo transformado num só. Te abraço mais e em silêncio enquanto deixo este fogo arder-me.
Desperto-me transpirado e pouco a pouco vou saindo do meu sonho mas continuo a sentir que os teus olhos estão a olhar para mim.

Sanzalando

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11 de novembro de 2007

Aqui sentado festejo

Me sento aqui neste muro desta casa velha e abandonada e caminho por pensamentos de festa. Faz hoje anos que eu estava lá na festa rodeado de amigos, vertendo umas e outras, trocando palavras e dizeres heróicos.
Hoje, nesta luta de palavras que mais não são que orações de ervas daninhas crescendo sobre o sal do silêncio, vivo de recordações nas poucas letras que são olhadas como carícias. Talvez porque as poucas palavras nos comovem a alma e nos cicatrizam as feridas num orgasmo de tímido sorriso.
Aqui sentado, embrulhado em solidão, recordo os filmes da vida como um lago salgado de sentimentos, uma mescla de algazarra festiva e dor de nostalgia.
Aqui sentado atiro palavras transformadas em brisa marítima sob o sol escaldante de um verão que se inicia no filme das recordações.
Aqui sentado festejo, à minha maneira.

Sanzalando

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10 de novembro de 2007

Uma manhã de Sábado

Dou um salto da cama como se me faltasse o ar. Faz um frio de rachar. Ouço um galo no seu galinheiro a cantar, o que me irrita porque eu queria era dormir. Eu daria um cigarro e as chaves do meu carro mas na verdade os galos não fumam nem conduzem. Afinal de contas o melhor é cada um no seu lugar, ele no galinheiro e eu a conduzir a esta hora da madrugada já manhã.
Sinto-me a patrulhar o silêncio da cidade que ainda dorme. Percorro ruas e acendo o meu novo último cigarro. Não deve ser o último dos últimos mas é um último. Assim penso eu.
Sinto que o coração me saltou pela janela e no seu lugar eu coloco um mental cartaz que diz: ‘coração fechado para obras e reformas’. O meu médico me disse que eu devia ter muito cuidado, que ando muito delicado pelo que me enumerou um cem número de proibições e medidas de choque.
Mas eu percorro as ruas da cidade como um vigilante desatento. Quantas vezes já passei por aqui?
O fumo sai pela janela deixada aberta com um propósito. Sai o fumo e entra o frio. Trocas neste mundo de comercio livre...
Saio do carro como se me faltasse o ar e me meto na cama a pensar no galinheiro.

Sanzalando

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9 de novembro de 2007

Talvez amanhã

Caminho em passos pequenos para poder saborear o marulhar que me chega num som apagado pela distância.
Quantas vezes eu terei olhado para um amigo e tenha pensado ou sentido que essa pessoa convida à calma, à beleza, à sensualidade e tranquilidade? Que essa pessoa me fizesse despertar um reflexo de mim que eu havia esquecido, perdido?
Lhe agradeço para dentro e desejo que ela consiga me ler os pensamentos.
Quantas vezes ouvi alguém a falar e senti tanta afinidade que até parece sou que digo aquelas palavras permanecendo no meu silêncio de ouvinte?
Eu sei que a grande dificuldade é em nos ouvirmos a nós mesmo.
Quantas vezes terei perdido a oportunidade de oferecer um bom momento a um amigo, uma parte da sua história, umas palavras da minha voz, talvez pensando que ele saiba o que penso e o que sinto ao me olhar nos olhos? Quantas vezes me dei conta que calo o meu próprio reflexo?
Talvez amanhã eu já não lhe possa oferecer tudo que eu lhe devia ter oferecido antes, porque talvez o amanhã não exista ou talvez amanhã eu me continue esquecendo escudado no silêncio.

Sanzalando

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8 de novembro de 2007

Tempo do tempo

Ouço lá ao longe o marulhar do zulmarinho se espreguiçar na areia.
Caminho em passo incerto na certeza de pensar coisas acertadas, de sonhar sonhos possíveis e de acreditar que amanhã vai ser melhor aqui, ali ou acolá.
Eu sinto que há uma nuvem no deserto, nesse espaço de ilusão, onde se pode ver mais além os sonhos nascidos no momento perfeito em que o tempo se detém. É o tempo das estrelas que recordam os sorrisos dos tempos de criança em que se queria contá-las tendo cuidado por causa das verrugas que podiam nascer no dedo que apontava o céu. 100, 200, sei lá quantas já contei.
Mas há momentos tão nossos como essa nuvem do deserto que apaga o sorriso com uma lágrima. Há uma nuvem em cada um de nós tapando o tempo que se detém atrás do sorriso disfarçado. Há sempre uma nuvem passageira.
Mas também há o tempo de esperança nos sonhos da manhã trazidos no sorriso inocente dos tempos de criança.
Há tempo de dar tempo ao tempo.

Sanzalando

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7 de novembro de 2007

27 - Estórias no Sofá – Estória do avô de Catete

Caminho longe do zulmarinho, mas suficientemente perto para lhe ouvir o marulhar e lhe adivinhar a maresia.
Pé depois de pé, lá vou caminhando com o pensamento a fervilhar. Eu sei que não há nada mais interessante que a conversa de dois seres que se amam e que permanecem calados. Eu, caladamente caminho ouvindo-me estórias.
Ela se aproximou dele trazendo a angústia desenhada na cara. Ele olhou-a sem esforço de movimentar a cabeça, apenas os olhos se dirigiram para ela e sentiu vontade de chorar. Ela esboçava lágrimas naqueles olhos castanhos claros, os mesmos olhos que lhe haviam dado a volta à cabeça faz tempos idos.
Ela lhe abraçou e ao ouvido lhe falou:
- queres ouvir uma estória que me contou o meu avô?
- qual avô?
- o velho de Catete.
- ok. Conta-me!

Havia uma sanzala pequena que era atravessada por um rio que não era fundo. Os habitantes da sanzala tinham necessidade de atravessar todos os dias esse rio, mas te lembro que nenhum deles gostava de molhar os pés, pelo que caminhavam pulando de pedra em pedra como se elas fossem uma intermitente ponte entre as suas margens.
Quando chegava a época das chuvas, tudo se enublava e o rio crescia de águas turvas revoltosas, pelo que não se via o caminho das pedras pelo que não podia ser usado.
Era nestas ocasiões que as pessoas que precisavam de atravessar o rio se socorriam de um homem muito alto que lhes punha nos ombros e os levava de margem a margem, tantas e quantas vezes fosse necessário.
Assim se foram passando os anos até que um dia, em plena época de chuva o gigante resolve mudar-se e não mais querer regressar a esta sanzala. A sanzala ficou triste porque as pessoas tinham de ficar do seu lado da sanzala. A única coisa que lhes ocorreu foi sentar-se choramingando e esperar semanas inteiras com a esperança que o gigante voltasse e devolvesse a comodidade nas suas vidas.
Conforme os dias iam passando as suas lavras se iam perdendo, as colheitas não eram vendidas, os panos se iam rasgando, a fome aparecia no ar.
Todos concluíram que não havia mais razão para viver ali. A mudança de sanzala se tornou tema obrigatório em todas as conversas.
Uma manhã todos se surpreenderam ao ver chegar um forasteiro. Olhando de alto a baixo verificaram que a sua roupa estava seca.
- como cruzaste o rio? perguntou o mais velho.
- daquele lado aprendemos a caminhar sobre a água pelo que não
necessitamos do gigante para chegar até onde queremos. Basta molharmo-nos de vez em quando e se for necessário caminhar sobre as águas. As coisas nem sempre são fáceis, mas sempre podemos ser o que queremos. Quando se fecham as portas logo se abre uma janela que por certo é uma grande janela.
- heim?
- ainda que a gente não aprenda a caminhar sobre as águas sempre podemos nos molhar, nadar ou boiar até passar a tormenta. Não dá para esquecer que a chuva um dia vai parar.

Se beijaram, secaram as lágrimas e eu continuei o caminho tentando adivinhar a cor do zulmarinho.
Sanzalando

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Sanzalando

6 de novembro de 2007

Memória em pic-nic

De quando em vez, assim numa de surpresa, a minha memória sai em pic-nic. É, me esquece de avisar e me deixa assim numa paragem vazia. Lhe procuro num vagar nervoso e desconfio que foi numa festa.

Eu hoje tinha de fazer mais o quê? Me esqueci.

Eu hoje te vou falar de mais o quê? Hum, não lembro mesmo.

Olha, afinal vou continuar na paz do silêncio até que a memória venha da sua festa.


Sanzalando

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5 de novembro de 2007

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4 de novembro de 2007

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3 de novembro de 2007

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2 de novembro de 2007

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1 de novembro de 2007

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WebJCP | Abril 2007