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A Minha Sanzala: Novembro 2005
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de novembro de 2005

Uma estória verdadeira(7)




"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (7) Hoje, 18:21
Forum: Conversas de Café
Acabado o repasto, barriga cheia, consciência lavada, é hora de fazer outras romagens, outros cantos a serem tocados, outros caminhos a percorrer. Ilha é imperdível. Ver de perto o zulmarinho no seu início em busca de uma kianda que me abrace e me instigue na fixação de ser um sereio calcorreando ruas, praças e vielas. Passagem na Boavista. Milhões de casas de adobe geometricamente anárquicas, num exagero pecado por defeito, ruas estreitas para corpos felinos. Gente. Muita gente. Um coração que ali bate numa frequência pouco frequentada. Pensamentos recalcados, medos cimentados nas histórias ouvidas. Se arrisca num percurso curto, como que a sentir a pulsação, como a querer ver até onde o coração é capaz de ser forte. Problemas, nem vê-los. Barreira do medo ultrapassada. Sorriso recalcado na cara de espanto, estranheza colorida de novos conhecimentos. Agora sim, destino pode ser a Ilha. A famosa, mais conhecida até que eu. Eu não lhe conhecia de lembrança vaga de um passado mais que distante. Marginal. Ei-la! Igual aos postais que lhe conheci de outras épocas e histórias. Isto é aquilo e isto, como vês, é o Banco de Angola e coisas que tal. Edifício grande que já não diz que Bai Continuar Ainda. Outras torres novas se vão erguendo. Uma cidade que afinal mostra que tem vida que não é colada com cuspo ou cola de fraca potência. Fortaleza no seu ar de cara lavada querendo mostrar naquela baía que quem manda ainda é ela.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Uma estória verdadeira(6)





"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (6) Hoje, 16:56
Forum: Conversas de Café
Mas hoje é dia de homenagem. Agradecer-te ter chegado até aqui.
Primeiro passo de gente importante é prestar homenagem aos heróis.
Como eu sou importante, pelo menos sou-o para mim, e as honras cabem aos generais, diz o velho ditado, mas estes louros, às vezes, são conseguidos à custa do sacrifício de soldados, aquela gente que hoje continua no anonimato e que a 9 de Novembro defendeu-se com unhas e dentes para que o Sr. Presidente no dia marcado, à hora marcada dissesse o que disse no largo 1º de Maio que hoje tem uma estátua dele mesmo, grande como ele que merece, eu fui visitar o Memorial aos Heróis de Kifangondo. Desconheço por completo um só nome. Para mim mesmo o mais importante foi terem travado a coluna que vinha de sei lá onde com canhões de outras paragens. Mas o que conta foi mesmo que o travão foi ali travado perto da ponte que já tinha caído.
Depois de te ter feito aquela simples homenagem que me ficou bem na consciência e me honrou ter honrado os heróis, foi hora de partir para o almoço. Gente importante tem também necessidade de coisas básicas tal como comer. Restaurante de muitas estrelas. Se fosse jantar se via a quantidade de estrelas do referido dito cujo restaurante. Estrada do Cacuaco em direcção a Caxito, beira da estrada, mesa corrida, banco corrido. Menu variado que consta só mesmo de Cacusso grelhado com molho de cebola que é um pitéu de se lhe tirar o chapéu, que acompanha mesmo com cará, banana pão e, fundamental, feijão com óleo de palma. Te conto que aqui foi regado com a boa pomada que é a Cuca quando estupidamente gelada. Só te posso dizer que foi coisa de ainda agora estar a salivar só de lembrar. Serviço de qualidade, vista para o mato e estrada, numa constante mutação de coisas moveis carregadas de gente em ambas as direcções caté parece tá haver excursão.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

29 de novembro de 2005

Uma estória verdadeira(5)




"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (5) Hoje, 18:34
Forum: Conversas de Café
Amanhecer ainda não amanheceu mas toca a retribuir beijos e abraços que são horas de ir pôr o corpo na horizontal porque depois de amanhecer muita coisa há para fazer, mesmo que seja Domingo. Não vim aqui só para te ver na superficialidade duma área limitada pela capacidade dos meus olhos já cansados de chorar as lágrimas que não caíram, por causas que sabes bem porquê. Eu vim para te ver toda, no mais que eu te puder pôr a vista em cima. Tu sabes bem como é que é. Tens recebido a visita de muitos ilustres desconhecidos que te conhecem bem e que tu sabes bem quem eles são e ao que te vêm cá fazer. Para ti, eu sei, que sou só mais um. Para mim eu sou o mais importante e isso é que me é importante.
Por isso, não é hoje que te vou ver o Sol nascer. Vou mesmo ter que ir pôr o corpo na horizontal e recapitular de cabeça os filmes vividos e os que há para viver. Dormir para acordar deste sonho em que me encontro.
Eu sei que esses cambas são cinco estrelas, mas eles sabem que eu preciso ter os sentidos todos no sentido de um militar em prontidão. Eles me compreendem e por isso cada um vai na vida que mais logo a gente se vê outras vezes mais.
Não sei se houve toque de alvorada ou não. Dormi que nem calhau rolado, nem mexi um músculuzinho qualquer, foi tiro e queda.
No programa de hoje, sendo que te sou importante, na minha óptica como já te disse, tenho que ir prestar a minha homenagem ao heróis de Kifangondo, cerca de 15 km, mais coisa menos coisa que não ando de fita métrica nas medições nem outras coisas mais modernas, da bonita cidade de Luanda, que encontro neste Domingo, despida de trânsito, vazia para mim, mostrando as suas curvas e rectas sem cerimónias, largo da Maianga, Kinaxixe e outras praças bem nuas para eu poder olhar nelas com olhos de ver bem vistas as coisas. Não encontro uma cidade suja nem desarrumada de coisas. Me diziam que tinha sítios que era preciso ser alpinista para poder passar sobre o monte de lixo. Desconsegui de ver por completo esse monte. Te digo que te vi a necessitar de maquilhagem numa ou outra ruga, de um pintar de cabelo aqui e ali, mas nada do que eu não sabia que era assim. Te conheço mesmo não estando contigo faz mais anos que eu já nem lembro.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

25 de novembro de 2005

Uma estória verdadeira(4)








"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (4) Hoje, 18:56
Forum: Conversas de Café

Seguiu-se um cortejo como quem vai num casamento ou coisa parecida, rumo à Maianga. Isto é isto, isto é aquilo. Isto que vês aqui vai ser assim e assado. Visita guiada nuns tempos perdidos no tempo. Isto era aquilo agora é ou vai ser aquilo. Tas a ver? Eu a ver-te pela primeira vez. Beber-te, usar-te nas tuas ruas, subidas e descidas, plano inclinado de emoções. Ali estava eu pronto a sentir cada centímetro teu, sem capacidade de absorver tudo naquele instante. Se alguém tivesse dito “patego olha o balão”, não estaria a mentir. Era mesmo. Chegados à Maianga grande festa de recepção me esperava. Mais cambas ali. Pôpilas que eu não mereço assim tanto nem mais ou menos. Palavras não sabem como devem ser ditas tal o nó que se apertava na garganta. Só ouvidos e os sentidos de sentir estão despertos. Bebo uma Cuca. Segue-se uma Simbila, não há ali Nocal nem Eka. Mas ambas estas que me dão são boas e continuam as melhores do mundo. Se acende uma AC. Olha-se a lua, aquele satélite que mais não é que a representação celestial da sua imagem. Filma-se e fotografa-se com olhos, câmaras, emoções. Tudo serve para guardar aqueles instantes. Tudo serve para esquercer os medos passados. Tudo tem uma seta que indica mesmo o rumo que tem de ser seguido. Cruzamentos de alma com coração.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Uma estória verdadeira(3)




"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (3) Hoje, 23:40
Forum: Conversas de Café
Passada que estava aquela porta, ainda olhei para trás para ver se via o avião que me havia trazido.
Lá continuava ele no seu lugar. Sereno, impávido, insensível ao que me acontecia.
Pouco mais consegui ver, alguns pontos luminosos espalhados por uma área que o olhar não chegava para ver tudo, tinha que rodar o corpo, mas estava perdido num lugar desconhecido. Olho para dentro do edifício e…surpresa! Ali estavam uma série de cambas à minha espera. Me fizeram sofrer e ainda por cima estão a rir. Mas tão a rir porquê mesmo? Minha cara dá para mostrar o quê que eu tinha passado? Pois devia estar mais branco que nem cal. Mas aqueles abraços, aqueles beijos, a troca de sorrisos, que toda aquela cena de qualquer filme de terror foi apagada naquele mesmo instante. Toda aquela eternidade passada na frente da escada da frente dum avião mais não foi que um instante, segundos contados num qualquer relógio suiço, mas que para mim foram mais que séculos. Foram uns míseros segundos da vida, que se esfumaram na baforada de um cigarro não ficando nada registado qualquer registo, afogados na alegria de ver os avilos que tinham preparado toda a coisa. Uma lágrima aqui, outra ali, caindo pela cara de forma rebelde, relembrando-me o sabor salgado do final do zulmarinho. O referido matulão afinal não era tão grande assim, a sua cara mostrava alegria, a sua voz uma simpatia de doçura e correcção. Era mesmo mais um amigo que lhe não conhecia. E tinha nome, era mesmo o Senhor Oliveira. Cumpridas todas as formalidades, há que ir levantar a bagagem. Eternidades quando são coisas já sem importância, queria entrar em ti a todo o momento, já se tal fosse possível. Queria sair dali, ir abraçar os cambas todos, ir tocar-te e sentir-te. Ter-te! Tantos amigos esperavam fora do edifício que me julguei mesmo mais importante que a importância. Montes de abraços. Me ergueram do chão, voava nos sonhos da alegria. Carinho trocado num passeio de uma praça com a estátua do Dr. Agostinho Neto como testemunha. Festa na cidade, numa cidade que lhe desconhecia por completo. Criança que se estava nas tintas para turismo ali havia estado. Bairro pobre da periferia que nem sei em que lado é ele. Mutamba. Ilha. Banco de Angola, passeios feitos na altura de uma autocarro de dois andares, acho eu. Poucos significados para uma cidade que me surgia ali, gigante, fervilhando movimento nas todas as suas direcções.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Fotos enviadas por António José Seabra



Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Uma estória verdadeira(2)

Os responsáveis
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"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (2) Hoje, 18:19
Forum: Conversas de Café

Mas tás a ver, né? Os autocarros de pista seguem o seu rumo e eu ali especado na frente das escadas da frente do avião que acabava de me trazer. Te juro que não sei quanto tempo passou, mas sei que foi uma eternidade que deu para ver quase todo o filme da minha vida à procura de falhas assim tão grave. Era medo e já conformismo. Aquele latagão ali a meu lado no seu colete fluorescente e cabeça rapada. Não era ninguém conhecido ou aparentemente conhecido. Não lhe tinha falado nunca e nunca lhe tinha posto a vista em cima. Desse eu tava com medo. Bem, não era dele. Era mesmo de só te ter visto assim de relance. Nisto aparece assim vindo não sei de onde, um mini-autocarro com a palavra protocolo escrita na sua frente. Os faróis me farolinavam. Mas onde foi mesmo que eu errei? Vais ver ainda viro crente, faço promessas e vou no culto e coisas do género. Faz favor de entrar, me disse ele na sua voz de quem sabe bem o que está a fazer. Hesitei um tempo, que mais uma vez não sei quanto foi. Ali, naquela situação não tem relógio biológico ou sei lá o quê que valha. Mais nenhum passageiro entrou no dito cujo referido autocarro miniatura. O motorista, o matulão e eu. Silêncio que nem cerimónia de enterro. Chego no edifício que diz com letras cheias de luz: Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro. Pelo menos já vi qualquer coisa mais para além de uma placa de alcatrão e um avião que teimosamente parecia que não se queria ver livre de mim. Não anima mas já dá desconto. Faz favor de sair, me voltou ele a dirigir a palavra, desta vez me pareceu mais simpático. Ou seria porque eu já estava por tudo, pronto para tudo, que um homem não é de pau? Desconsigo saber agora. O filme nunca mais tem fim?, me perguntava eu para mim mesmo. Passada a porta...
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca


Sanzalando

24 de novembro de 2005

Uma estória verdadeira(1)

fotos by me
Os responsáveis...


"Fio": Um café na Esplanada
carranca
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Uma estória verdadeira (1) Hoje, 19:14
Forum: Conversas de Café
Tenho certeza que vou-te reencontrar. Não sei o dia e a hora, mas sei o lugar.
Sabes, seguindo em frente, sem GPS, sem estrelas, sem luar, eu vou-te encontrar. Encontrei-te uma vez depois de muito tempo sem te ver, sem te sentir, sem poder tocar-te. Estavas ali, igual a ti, porte altivo. Tu mesmo na tua essência, na tua mistura de cores, nos teus olhos de muitos olhares. Estavas ali como que à minha espera. Sei que te parece pretensiosismo da minha parte, mas era o que me pareceu e pronto.
Sabes, quando sai daquela avião, olhar-te, tocar-te, foi assim como uma coisa que nos bate no peito, nos faz rolar uma lágrima, nos faz sorrir de chorar. Entendes-me? Pois foi isso que quase não senti. Não, não é por ser insensível ou coisa do género. Foi mesmo pelo susto. Tás a ver, yah, sair de várias horas de voo, querer esticar o corpo, querer respirar fundo o ar que era teu, descer as escadas e encontrar um matulão, colete reflector, cabelo rapado, segurando um papel A4 com a tua fotografia ali bem à vista? Pois é.
Tremi por dentro e por fora. Não sabia se da comoção se dos medos todos que me vieram à cabeça. Timidamente, em voz quase silenciosa lhe disse que aquele ali, apontando para a foto, era eu. Ele, de dentro de todo aquele corpo diz-me para caminhar para ali, apontando a escada da frente do avião. Tás a ver, não tás? Todos os passageiros do lotado avião seguem para os autocarros de pista. Eu ali parado, frente à primeira escada do avião que sabia que horas depois regressaria às suas origens. Tudo me passou na tola, qual filme de terror, qual filme de paixão enganosa em marido desconfiado. Tou feito, pensei eu cá para comigo. Será que só te consigo ver este bocadinho, sentir-te aqui tão perto e afinal estavas tão longe?
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

23 de novembro de 2005

Cascalhudo e ácido

Pôr-do-Sol visto da Praia do Cacuaco
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Fio": Um café na Esplanada
carranca
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Cascalhudo e ácido Hoje, 20:01
Forum: Conversas de Café
Uma parte de mim gosta de sofrer. É essa parte de mim quem mais constantemente escreve neste sítio. Essa parte acredita que amores imperfeitos são as flores da estação em que se encontra, apeadeiro de uma vida, ponto de passagem para lugar algum. Essa parte de mim remexe feridas nunca cicatrizadas, ama o que, se calhar, merece muito mais que amor, não ama como deveria amar as coisas todas que ama e desenterra lembranças pelo simples prazer de sofrer duas vezes.
Há quem lhe possa chamar saudade, nostalgia e outros significativos adjectivos. Essa parte de mim limita-se a ser a transparência de uma alma vagueando entre dois pontos a que convencionaram chamar início e fim, caminho intermédio da vida que se vive entre sonhos.
Se amanhã fosse o dia dos namorados e eu tivesse que passá-lo desacompanhado desse amor sentir-me-ia quase como um maboque numa banca de kitanda na feira. Cascalhudo e ácido.
Faço uma breve análise dos factos e concluo que se não pudesse passar esse dia de amanhã com o que eu realmente desejo, preferiria mesmo ficar enrolado numa mortalha alguns palmos abaixo do nível do zulmarinho. Não sei se para sempre mas nesta altura deste campeonato da vida sim.
Se eu não tenho sorte no amor, então seguirei esperançoso jogando no euromilhões, pois não é possível que eu não tenha direito à minha quota parte de sorte num jogo. De vida ou azar.
Definitivamente, eu não poderei ser enrolado em mortalha sem antes sonhar o sonho que trago dentro de mim, sem antes saborear os ares que trago em mente, sem antes degustar o gosto que trago sempre presente.
Eu não preciso de data específica para ser piegas.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

22 de novembro de 2005

O Amor deve ser Expresso


"Fio": Um café na Esplanada
carranca
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O Amor deve ser expresso Hoje, 18:18
Forum: Conversas de Café
Hoje deparei-me com uma frase que parece tão simples, mas por incrível que pareça é pouco utilizada, quer pela nossa pressa diária, quer pelo querer ser-se prático no dia-a-dia.
A frase simplesmente dizia: "*O Amor deve ser expresso...*" Simples, curta e no entanto com um significado tão grande.
Conheço pessoas que amam, amam muito e guardam este amor dentro de si por vergonha de expressá-lo.
Conheço outras que amam, amam muito mas não têm tempo de dizê-lo e, muitas vezes quando o fazem, não dão a ênfase necessário para que neles se possa acreditar.
Conheço uns que amam, amam muito, mas uma decepção amorosa do passado não lhes permite que o façam outra vez, por medo de o fazer à pessoa errada mais uma vez.
E são tantos os porquês que levam a que se guarde em si um *Amor que deve ser expresso* que passam-se os dias e deixamos de fazê-lo por este ou aquele motivo!
Olhando o zulmarinho, agarrado a uma garrafa côr de âmbar, estupidamente gelada, olho para lá da linha recta que é curva, sem medos, sem raivas, sem preocupações de ser correcto ou incorrecto comigo.
O meu olhar leva-me para onde quero, como quero e com quem quero. Não me apetece gritar, nem falar, nem sussurrar. Não sou estrela, não sou satélite, grão de areia insignificante num planeta que gira sobre si à estonteante velocidade de 24 horas .
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

21 de novembro de 2005

Dundo - Lunda Norte






Dundo - Lunda Norte
Foram tiradas a 11 de Novembro 2005 --- DIA DA DIPANDA -- por FCoelho (Cavirosso)


Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Mas eu continuo a pensar

foto by me
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carranca
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Mas eu continuo a pensar Hoje, 18:12
Forum: Conversas de Café

Mermão, continuo ermitando nesta esplanada, olhando para lugar nenhum sabendo que a cabeça está lá, no outro lado dessa linha recta que é curva. Hoje apetece-me ir buscar coisas ao caixote dos pensamentos menos úteis que vou tendo, na sensação feliz de ser um ser pensante. Penso no quanto aprendi com alguns desequilíbrios que tenho vivido...Temos, por hábito, acreditar que os desequilíbrios, que os tropeções que muitas vezes damos na vida, conduzem-nos ao fracasso!
Se reflectirmos um pouco, vemos que a fome é um sinal de desequilíbrio e é, ao mesmo tempo, a manifestação do organismo dizendo que é preciso comer!A sensação de frio é a manifestação do corpo em desequilíbrio, dizendo que o calor que ele é capaz de gerar, não é suficiente para nos aquecer!
A sede indica que há um desequilíbrio, pois o líquido existente no corpo não é suficiente, naquele instante, para o bom funcionamento dos órgãos.
E o que dizer do andar? Nós nos equilibramos sobre as duas pernas, mas a deslocação do nosso corpo só acontece através do desequilíbrio das passadas das pernas.
Tas ver, não é, mermão, que a vida se manifesta numa sucessão de desequilíbrios, que acontecem para nos equilibrar de novo!
Porque então temos de fazer dos eventuais insucessos um fracasso definitivo?
Porque transformarmos uma iniciativa que não deu certo, numa catástrofe?
Haverá alguém que nunca tenha errado?
Se nos pântanos e entre as pedras nascem flores, podemos, nos meio da crise, assimilar lições, mudando o foco dos nossos planos!
Acredita, mermão: tudo na vida contribui para a nossa evolução.
Muitas vezes, os problemas não são tão grandes e complexos. É só a maneira dos encarar...
O nosso olhar é que precisa ser modificado.
E mudar a maneira de ver as coisas também causa um certo desequilíbrio.
Por isso, iluminemo-nos a cada desequilíbrio, mermão, e lembra-te: não há nenhuma árvore que o vento não tenha sacudido.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

20 de novembro de 2005

Equimina - Província de Benguela

fotos by FCoelho (Caviroso)


Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Eu queria não pensar

Tundavala
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"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Eu queria não pensar Hoje, 18:51
Forum: Conversas de Café
Sento-me na Esplanada, a coberto da chuva e do vento frio que sopra dum lado qualquer. Nada trago comigo além de mim. Nem um livro para ler, nem um lápis para escrever. Nada! Eu e o zulmarinho num combate de silêncios.
O meu maior problema é pensar. Não é que eu pense coisas que prestem. Penso algumas que realmente valem a pena e outro caixote de coisas sem o menor sentido. O meu pensamento domina-me por completo, agride-me pelo seu constante martelar, condiciona-me na alegria de estar, faz-me escravo e refém. Eu queria não pensar tanto! Pouparia na dor crónica da gastrite, nos ansiolíticos, no ranger de dentes e nos murros virtuais.Eu queria não pensar tanto em dinheiro, pois eu me contento com o pouco que tenho e com o pensar na remota possibilidade de ganhar bastante. Eu queria não pensar tanto em linha, colesteróis e provas de função hepática, pois assim eu poderia beber as birras loiras e estupidamente geladas sem remorsos e sentimentos de culpa. Eu queria não pensar tanto no futuro, assim eu dançaria despreocupado em frente ao espelho, como antigamente. Eu queria não pensar tanto nas coisas que não dão certo, pois assim eu nunca mais ficaria deprimido. Eu queria tanto não pensar no risco de apanhar uma pneumonia, pois assim eu tomaria banho de chuva numa trovoada. Eu queria não pensar tanto em fazer o que os outros esperam que eu faça, pois assim a esta hora eu estaria a morar num morro pacato para lá da linha recta que é curva, mesmo que fosse numa casa de pau-a-pique, adobe ou coisa que o valha. E sem culpa, o que seria infinitamente melhor.
Como eu queria!
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

19 de novembro de 2005

Hoje acordei com dor de saudade

Na casa branca eu nasci
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"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Hoje acordei com dor de saudade Hoje, 20:09
Forum: Conversas de Café
Hoje acordei com dor de saudade...
Uma saudade absurda das minhas raízes, dos primórdios de minha história, do início de mim... Hoje acordei com dor de saudade…
Estou a morrer de saudades de minha terra, do meu povo, dos seus costumes, da minha cultura...
Hoje acordei com Saudades Gerais.
Estou com saudadite aguda e profunda...
Estou com uma enorme saudade de mim na minha terra natal ou na terra que me viu crescer...
Hoje me sento à beira do fim do zulmarinho, inspirando com quanta força tiver para poder receber o perfume que vem do início dele, para lá da linha recta que é curva.
Hoje me sento à beira do zulmarinho com os ouvidos em alerta máximo para ouvir os sons que vem de lá do início dele, de lá do outro lado da linha recta que é curva.
Hoje acordei com dor de saudade…
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

18 de novembro de 2005

Uma por outra

foto by me


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma por outra Hoje, 23:37
Forum: Conversas de Café
Mermão, não te assustes que não morri, não fugi nem me falta electricidade. Foi mesmo só parar para pensar pois tu sabes que o que aqui te conto é verdade mesmo que não tenha acontecido. Sabes, mermão que ainda estou obnubilado com o perfume do início do zulmarinho, com o sal que me abraçou quando me atirei nele com toda a gana que eu tinha. Tu sabes, mermão, que depois fica a ressaca e a gente tem que a carpir até se sentir com coragem para enfrentar aquilo que não é a vida querida mas a que tem que ser.
Sabes, mermão, fosse eu missionário de Maria ou de José ou lá de quem seria e a coisa piava de outra forma que não a forma de pão que alimenta o corpo, mas o espírito levitaria atrás do referido e imaginário arquitecto.
Como sabes, mermão, aqui se sentam todas as formas, as ovais, quadradas, barrigudas, narigudas, os calados, os que falam, os que ouvem e nem respiram. Mas aqui se sentam todos os que têm o dito cujo para pôr sobre a cadeira. Todos estão aqui com a esperança de ouvir as estórias, com a vontade de saborear as salgadas lágrimas que salpicam das ondas do final do zulmarinho que tem o seu início lá depois da liha recta que é curva.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Sou contra


"Fio": Café do Contra...

carranca
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Eu sou contra Hoje, 23:12
Forum: Conversas de Café
Sou contra a falta de imaginação. Sou contra o copy-past, contra a falta de exercício mental que nem professor de ginástca consegue fazer exercitar. Sou contra membros, que não sejam isso mesmo, membros erectos e racionais. Sou contra as marteladas que a água mole em pedra dura não faz mais nada senão molhar. Sou contra o K porque me faz lembrar o um anúncio televisivo de uma esbelta vestida de vermelho encostada a uma parede, sou contra o P porque me lembra pedinchões ou outras palavras começadas por P e acabadas em ões tais como avionete. Sou contra porque me lembro dos Sandinistas.
Sou conta a Mapunda porque é lá que se fabrica a N'Gola.
Sou conta mim porque não tenho pachorra para cair na Jamba e reler o que escrevi montado num equídeo.
Sou simplesmente contra a corrente aternada e rebobinada em cassete pirata.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Morro Maluco visto do Bimbi

E o Morro é que é Maluco...
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Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Paixão de urgência

A grande graça do começo de uma paixão é sofrer daquela indecisão absurda sobre passar ou não passar, ligar ou não ligar, olhar ou não olhar. É perguntar ao vizinho do lado se ela está a olhar, se ela foi à festa, como, com quem e se ficou sozinha. É ter premonições sobre onde ela vai estar. É lembrar a matrícula e o barulho do motor do seu carro de cor. Ficar inseguro, comprar roupas novas, escrever bilhetinhos, cartas que não se manda. Comer chocolate ao quadrado, fingir encontros casuais, disfarçar as tremuras, desenvolver a arte de tirar informações dos amigos dela sem que eles percebam. É ficar mudo quando há um cara a cara não esperado. Fazer caminhadas em ruas antes desconhecidas. É dizer alguma idiotice para quebrar um silêncio e depois condenar-se por ter dito aquela bronca. É identificar o amor nas letras das músicas. É desejar perdidamente o primeiro beijo. Frequentar lugares que nada têm a ver connosco, só porque ela vai estar lá. É a maneira mais fácil de se voltar a ter 15 anos, não importando a idade com que se esteja. É discordar das convicções mais sólidas e criar as nossas próprias regras sobre amar e viver.
Ficar apaixonado é viver intensamente. Por isso mesmo é que eu preciso apaixonar-me de novo. Com a máxima urgência.

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Carlos Carranca

16 de novembro de 2005

O mais curto conto de fadas

Uma vez um rapaz perguntou a uma linda garota:
- Queres casar-te comigo?
Ela respondeu:
- NÃO!
E o rapaz viveu feliz para sempre, foi pescar, jogou futebol, conheceu muitas outras garotas, visitou muitos lugares, estava sempre a sorrir e de bom humor, nunca lhe faltava dinheiro, bebia cerveja com os amigos sempre que tinha vontade e ninguém mandava nele.
A garota envelheceu, teve celulite, varizes, os peitos caíram e ficou sozinha.


depois de escrever este post verifiquei que havia uma petição dirigida às mais altas instâncias mundiais a indagar a verdadeira verdade do facto de eu não ter nascido mas sim ter sido inventado

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

retratos soltos

Sigo pela ruas sujas de poeiras milenares misturadas com flores e folhas secas, interrompidas aqui e ali por buracos geometricamente anárquicos, por debaixo das árvores seculares, pisando o chão salpicado de sombras, luzes e surpresas, olhando para as paredes das casas aquecidas pelo sol, para os becos escuros de estradas irregulares, para os buracos precariamente tapados com terra, para as nesgas de céu por entre os prédios, para a fumaça sufocante dos carros, para os meninos de rua, para os mendigos, atento aos esbarrões das pessoas, aos sinais fechados, aos azuis e brancos mais que lotados, tentando não perder cada segundo do meu olhar, fixando cada pormenor, cada rosto, cada olhar, numa aparente tarefa hercúlea. Sigo pelas grandes avenidas onde tudo se vende, desde pilhas às mais sofisticadas coisas supérfluas, pelos mais estreitos becos onde passar é já de si um acontecimento. Sigo absorto na capacidade de apreensão de cada milímetro.
No meio disto tudo, deste mundo de cores, cheiros e movimentos digo uma simples frase:
- também tu aqui?
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

15 de novembro de 2005

Equilibrio

Sinto a necessidade de voltar um pouco às minhas origens, sentir a areia do deserto nos pés, o vento frio do anoitecer, a vida passando e eu fazendo parte dela.
Sinto a necessidade de desligar as tomadas, esquecer todos os problemas do dia-a-dia, a casa na praia ou no campo.
Necessito sentir o perfume de um fogão a lenha preparando a comida.
Sinto a necessidade das 24 horas bastarem, e dentro delas harmonizar: família, trabalho, amigos...
Eu quero isso, eu quero a vida que me pertence sem esse ritmo alucinado que nos conduz ao fim precoce e vazio.
Eu quero o equilibrio.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

14 de novembro de 2005

Não gosto de bacalhau e pronto


Parem de me oferecer!!
Eu digo aqui uma vez: não gosto de bacalhau. Aquele bicho feio, fedorento e hirto de se escaldar ao sol nunca me convenceu como comida. Não gosto e pronto. Mas o problema com o bacalhau não é só aquele gosto péssimo que tem. Há muita coisa com gosto mau no mundo e a existência delas não tem a menor importância para mim. O grande problema é todo mundo idolatrar uma coisa com um gosto tão mau.Porque será que as pessoas não vão a um restaurante, pegam a ementa, pedem um prato bem grande de bacalhau assado com alho e óleo e comem normalmente? Mas não... Elas ficam a emitir aqueles sons "hummm", "ohhh" e dizendo "que delícia" a cada mastigadela, como se estivessem a saborear a primeira maravilha comestível do mundo.
E o maior problema é que os adoradores de bacalhau não conseguem conceber que existem pessoas neste planeta que não apreciam o gosto daquele ser nojento, sujo, salgado e hirto. "Não gosta? Não acredito!"; "Isso é impossível, você deve ter comido algum estragado."; "Prove este aqui que eu tenho certeza que vai gostar." E outras frases que já ouvi por aí. Eu cheguei até a inventar que sou alérgico para que ninguém me ofereça. E ainda digo: é tão ruim quando a gente não pode aproveitar uma coisa tão saborosa assim.
Mas essa táctica já não funciona. Ninguém acredita. O jeito é continuar a fazer força para que a lista dos extintos aumente e, só assim, conseguir viver em paz.
este texto é escrito no livre propósito de Homenagear aqui o meu amigo Fernando Pereira - Karipande - que foi barrado, isto é, impedido de escrever num site chamado Sanzalangola, porque se "passou dos carretos" com um rosário de insultos e perseguições que meia dúzia de marrecos intelectuais lhe têm vindo a fazer, aparentemente de forma concertada e que o administrador do site 'caiu' como um patinho inocente, ou não.


Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

13 de novembro de 2005

Final de férias

Hoje é o último dia de férias.
Hoje é o primeiro de muitos outros dias que virão.
Amanhã retomo as actividades, incluindo o iniciar aqui o contar, não sei ainda nem a forma nem o conteúdo, de como foram as minhas férias, como fotos para mais tarde recordar. Prometo...

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

8 de novembro de 2005

Pôr do Sol na Equimina

Foto do pôr do Sol na Equimina
foto by F.Coelho - Caviroso

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

11ª telegráfica

"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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11ª telegráfica 07-11-2005 17:35
Forum: Conversas de Café
Mermão, tavas que pensar que eu tinha desaparecido? Te enganaste mesmo. Só me engasguei de emoção e fiquei assim como que paralelipipedo de arquitecto escultural de natureza morta cheio de vida. Passei dias de fantasia maravilhosa nos lados de Lubango, onde galinha em cima de televisão dá azar no clube da tuga, onde senhora directora tem sorriso que contagia alma que parecia estar petrificada. Depois de descer as miles curvas da serra fui mesmo lá no início do zulmarinho pôr o corpo de molho de modos a que cada célula deste corpo franzido se molhasse de vida, se revivesse de um nascimento adiado nos tempos de ontem.Me vou mantendo nas telegráficas, agora no regresso à capital onde conduzir se pode dizer é desporto radical tal a adrenalina que corre nas veias que até parece que vai sair das órbitas celestiais.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

10ª telegráfica

"Fio": Um café na Esplanada
carranca
Respostas: 1813
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10ª telegráfica 31-10-2005 14:36 Forum: Conversas de Café

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Ainda 'raptado' no planalto do Lubango, mermão, desconsigo ver se a Leba faz parte do morro Maluco ou se o maluco faz parte do morro. O facto de estar aqui trás um reforço na alegria de estar vivo que nem sei como te vou contar um dia as estórias que tenho de contar em prato de sobremesa, quando nem cabe em terrina de sopa.
Mermão, eu sempre que tiver ocasião te venho mini-contar o que sinto




Sanzalando em Angola
Carlos Carranca


WebJCP | Abril 2007