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A Minha Sanzala: Dezembro 2005
recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de dezembro de 2005

Até pró-ano!

foto by Di, hoje

foto retirada dum site qualquer

Até pró-ano!
Como devem saber, todos aqueles que se preocupam mais em fazer-me um exame psicológico em vez de lerem apenas o que escrevo, nunca fui muito fã de festas. Do Natal, gostei enquanto fui criança, não por ser o dia do nascimento e dessas coisas e tal, mas por ser o dia em que se jantava mais tarde e se abriam prendas que, na maioria das vezes lá em casa, era roupa. Roupa de Domingo. Nesse tempo era um sacrifício viver o dia seguinte. Ver os brinquedos, as camionetas com guinchos, as bicicletes, os carros a pedal, dos vizinhos e oolhar-me ao espelho ver-me vestido ainda com goma. Já o Ano Novo pouco ou nada me entusiasmou. Aliás, sempre me deixou deprimido.Acho válidas todas as comemorações, todas as festas, acho bonito ver todo mundo vestido de roupas especiais conforme as cerimónias. Mas ter que participar nelas por ‘obrigação’ é arrepiante.Mas, falando da passagem do ano, ver a azafama do passar das horas até às ditas badaladas deixa-me em baixo. O facto é que este dia não tem muito sentido para mim. Não sei se a culpa é do Gregório, já que o calendário actual foi promulgado pelo Papa Gregório XIII a 24 de Fevereiro do ano 1582 para substituir o calendário juliano, que fora instituído por Júlio César no ano 46 a.C., segundo as indicações do astrónomo alexandrino Sosígenes, tendo vigorado por 1600 anos. Pelo que me ‘cheira’ a artificialidade. Parece haver uma conspiração para obrigar todos a serem felizes e esfuziantes nesta data, e considero este movimento um tanto forçado.Tenho para mim que o ano só muda de verdade no dia do nosso aniversário, quando realmente mais um ano terá passado em nossas vidas. Sendo assim, eu, que nasci em 28 de Outubro, estou em finais de Fevereiro, no meu calendário cronológico.Não faço as clássicas ‘promessas de fim-de-ano’, aquelas que se fazem, mesmo sabendo que não poderemos cumprir. Pelo menos, não planeio coisas impossíveis, ou que não estejam dentro de condições de viabilidade rápida.Fico, portanto, comprometido apenas com os pequenos sonhos do dia-a-dia, pois dessas pequenas realizações quotidianas é que se derivam as alegrias mais puras. Posso dispor-me a ler um livro, assistir a um filme, ou a uma peça de teatro, ou a conhecer um lugar novo. Isso, com certeza, ir-me-á proporcionar um enorme prazer, pois está dentro das coisas que gosto e que fazem meus dias melhores, mais ricos, mais alegres.Talvez o segredo da felicidade seja não a querer encontrá-la sempre, e em coisas distantes. Talvez seja não prometer a mim próprio coisas inatingíveis, o que gera frustrações e faz nossa vida andar três casas para trás, como em qualquer jogo da glória.Buscá-la no que há de mais simples vale mais a pena, porque traz mais resultados positivos. E, de momento em momento, vai-se construindo um ano ou uma vida de felicidades, como numa colagem de episódios memoráveis.É certo olhar para o futuro e desejar que ele seja melhor. Mas para que AQUELE sonhado futuro chegue, ainda é preciso viver aquele “futurinho” que está logo ali adiante, daqui a um minuto, no virar daquele instante.
Por isso eu desejo a todos os amigos que conheci este ano, através deste site/blog*, que em 2006 vivam e aproveitem cada um de seus minutos, produzindo seus futuros da melhor forma possível. Tenham um Feliz Ano Novo e até o ano que vem!

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

30 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(29)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (29) Hoje, 19:28
Forum: Conversas de Café
Não sei porquê, mas o raio das noites aqui passam na velocidade da luz. Parece acabei de adormecer e já está na hora de levantar, assim diz o telemóvel transformado em despertador. Olhando pela luz que me entra na janela vejo que o sol está mesmo com ar de dia de sol, apesar das horas ainda serem cedo. Não, hoje não é dia de ir bulir nos departamentos e serviços, nem dia de fazer das ruas um escritório ou pensamentódromo. Há que despachar para ir ter no encontro e reencontro esperado como desejado. Tem de se passar ainda no Cruzeiro. Se não é assim que se chama não faz mesmo mal que a Rua da Guiné é lá que a gente vai, buscar camba que aproveita a boleia para ir bem para lá da praia do Bispo apanhar transporte para o ponto de encontro combinado nos montes de telefonemas recebidos ontem. Se passa ao lado do Aeroporto Internacional, se desce o Rocha Pinto. Quem mesmo ia dizer que num sábado tem trânsito que nem outro dia. Estes carros não têm nem dia para descansar? Como é que eles vão mesmo aguentar assim uma vida de chamada de útil por muito tempo. O pára arranca se torna um vício nos motores deles e depois eles se habitual e deitam fumo quando têm espaço para andar assim livremente. Mas a gente lá foi andando na velocidade do possível. Outra vez que parados os carros. Se ouvem tiros. Se vê gente que corre e olha para os barrancos que serpenteiam ao longo da estrada. Se vê carros azuis com cores cintilantes e sirenes. Mais carros de apoio que chegam. Um senhor, simpaticamente diz para a gente ‘persiga’ e a gente segue viagem sem compreender o que foi aquilo. Mas a verdade é que não sei se queria mesmo perceber o que foi aquilo. O carro foi andando até que se parou, assim como que definitivamente, perto do Clube náutico militar, acho eu que era assim mesmo que estava escrito no muro. Afinal ainda era cedo. Só mesmo menos de metade tinha chegado. Se foi no Flamingo beber uma bica ou uma birra gelada que o calor já estava mesmo a começar a fazer o seu efeito nas securas labiais. Se aproveitou este tempo para continuar conversas antigas interrompidas por questões que já nem eu me recordo. Outros, assim como gota a gota, que é o mesmo que dizer lentamente foi chegando. Os barqueiros já ali estavam como alguém com capacidade de organização já tinha combinado não sei de véspera se mais dias antes. Coisas metidas nos barcos, pessoas se dividem de forma anárquica que a gente é toda boa e não faz diferença se vai com A ou com B. A gente lá no ponto de destino vai mesmo ficar toda junta. Os atrasados chegaram. O meu coração se aperta quando vê o mesmo miúdo de outras eras, igual que nem sempre, acrescentado de barba a dar para a cor cinza, mas o mesmo físico que lembra toda uma família e que nos anos que passaram parece que por ali ficou mesmo congelado no tempo. Voz e cabeça se lembra das peripécias de outras eras, quando a adolescência mandava mais que a consciência. Abraço mais forte não podia ter havido. Se fosse dia de chuva se calhar naquele instante se ia ouvir um trovão de abraço caloroso. Dois amigos do coração se reencontram com apenas 30 anos de diferença. Troca de olhares e a escrita ficou em dia. A cumplicidade se retomou no ponto em que foi interrompida assim como que para intervalo

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

29 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira (28)


"Fio": Um café na Esplanada

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Uma estória verdadeira (28) Hoje, 23:49
Forum: Conversas de Café
Combinação para amanhã. Gentes que aprendeu a ler que nem eu, na mesma altura que eu, nas mesmas escolas que eu. Gentes que me viram gatinhar, andar e crescer. Gente que nem eu cresceu ao sabor do vento do deserto e agora estão aqui, debaixo da Lua de Luanda. Todos telefonam mesmo para combinar como é que vai ser amanhã. Todos mesmo querem que perece eu não esqueça que amanhã é dia de encontro e reencontro. E eu só penso que amanhã tem que estar que nem sol abrasador para ver se meu coração não arrefece numa paragem de emoção e comoção.
Sentados na varanda, saboreando o ar quente do norte de Luanda, esperando que ali os dois avilos façam o fogareiro produzir fogo para eles mesmo fazerem a comida. Hoje as mulheres e eu estamos de ordens e orientações. Eles, esses dois matulões aí é que vão mesmo trabalhar para a gente comer. Eu abro garrafas e de preferência só mesmo para mim. Uma ou outra para eles e já vão com sorte.
Sentámos na varanda. Churrascámos. Conversámos, misturámos planos com desejos e coisas que tais. Vertemos umas e outras mais geladas que as primeiras e assim sucessivamente. Já tínhamos visto o pôr-do-sol faz algum tempo e até lhe tínhamos fotografado para não esquecer mesmo como ele é que é. Mosquitos zumbem nas orelhas mas lhes falta a coragem para ferrar mesmo. O ar de amizade que paira no ar faz com que eles tenham mesmo mais que medo de vir ferrar nos corpos desprotegidos nas franquezas da amizade. É bom mesmo ter amigos. A gente não olha no relógio e esquece que o sangue corre nas veias que com o gastar do tempo estão já meio entupidas. É só falar e gastar o tempo nas trocas de palavras. É bom mesmo ter amigos.
Noite escura para os lados do mar e nós aqui a conversar, gastar palavras salpicadas de paixão.
Pálpebras pesadas dizem que são horas de ir para a cama do quarto referigerado. Se bebe antes um chá de hortelã. Desconsigo lembrar para que serve mas que cheira bem é visto e notório.
Boas noites ditas em voz arrastada, não das birras bebidas mas do sono que se instalaou faz tempo e faz tempo é contrariado.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

28 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(27)



"Fio": Um café na Esplanada

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Uma estória verdadeira (27) Hoje, 20:05
Forum: Conversas de Café
Depois de devolver o cartão da lapela e receber o documento novamente é hora de voltar na Maianga. Arrumar as coisas, as toneladas de coisas que amarfanhadas em mala vieram desde lá do fim do zulmarinho e que aqui se juntaram a outras coisas. Tem de caber tudo que eu não gosto de sacos, saquinhos e saquetas. Arruma-se tudo. Uma lágrima teimosamente desliza na cara. Já é saudade? Tristeza de deixar este refugio que foi de mais estrelas que qualquer hotel do Dubai, de qualquer outro sítio do mundo?... Não posso mostrar esta minha face. Secamente é mesmo como eu sou. Frio neste calor de muitos graus. Mas eu sei que depois no outro kimbo vai que ser mais igual outra vez. Quando for hora de mudança vai ser mais igual que nem outra vez. Que é que me está a dar? Tem juízo pá! Se arruma coisa a coisa numa vagarozidade que nem parece de quem detesta fazer malas. Camba que me veio buscar já veio. Sorriso nos lábios contrastando com caras que ficam. Abraços interligados com silêncios. Agradecimentos misturados com segredos de gostar muito. Hora de partir num fim de tarde que ainda não começou. Vintena de quilómetros vai ser a viagem. Um saltinho eu estou aqui. No caminho nova passagem no Jacaré para levar o definitivo boné que já estava à espera.
Lá vou eu nesta fila interminável de carros que vão na minha frente. Olho para todos os lados. Decoro rostos. Filmo com os olhos paisagens, recantos, árvores seculares, passeios, buracos. Num misto de tristeza e alegria. Mudanças são sempre dolorosas mesmo que elas não tenham significados no dia a dia. Maldito vício da habituação. Tudo hoje me parece mais cinzento. Os rostos não me mostram os sorrisos. Sabem eles que eu vou de mudança?
Assim, viajando no corpo e pensamento fiz a viagem de pouca distância métrica e muita distância temporal.
Já passei por aqui muitas vezes, vi muitas vezes as casas, as lojas, as muitas pessoas que usam a estrada que nem passeio porque passeio foi coisa que o vento levou, e muita coisa parece que estou a ver como se fosse a primeira. É porque vou meditando ou é porque a atenção hoje está mais afiada devido à humidade que teima estar nos meus olhos castanhos?
Forço um sorriso. Sai a coisa mais desoriginal que possas ver. Hoje parece que tou mesmo com prisão de ventre. Não vale a pena esforçar caras ou rostos. Uso o meu mesmo. Amanhã ou mais logo sei que vou estar igual a ontem. Sentimentos mistos que resolvem existir só mesmo para baralhar a cabeça das pessoas que sentem.
Eu lhes gosto e eles sabem. Para quê mais ficar assim. Aos novos cambas eu lhes adoro e eles também sabem. É mesmo melhor esquecer que este fim de tarde existe. Esta mistura de saudades, gostos, alegrias e tristezas afinal acompanham sempre cada partida. É mesmo melhor desapagar este fim, de tarde do calendário da tua visita.
Desfeitas as malas, parece mesmo que eu sempre estive aqui. Doces de gente me recebem. Doces de gente me ficaram lá atrás. Me sento debaixo da Mangueira na espera que caia uma. Eu me prometi comer a primeira que vier de lá desde cima dessa grande mangueira que está aqui à espera que eu lhe chegue com a mão e eu desconsigo por completo. Melhor mesmo é ficar sentado à espera. Primeira comida foi logo comida que nem teve tempo de se habituar a estar na terra relvada. Cumprida a promessa foi hora de ir no bar comprar uma coisitas para o jantar. Se aproveita para dar uma vista de olhos na piscina e se verter logo ali uma bem geladinha e estupidamente loira. Ou vice conversa. Parece aqui vou ter engarrafamento no telemóvel. Ele toca e toca outra vez mal eu desligo.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

27 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira (26)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (26) Hoje, 20:43
Forum: Conversas de Café
Os desencantos são poucos porque já lhes estou a dar o desconto por ver que toda a máquina está a funcionar e que daqui a pouco tempo tudo estará diferente e os desencantos serão estórias de outras eras, motivos de conserça em salão, café e coisas do antigamente. Algumas poucas horas dormidas na velocidade contrária à do trânsito que me espera e já é hora de preparar a jornada. Assim mesmo como posso estar de cara sem olheiras, ter força para acompanhar dona amiga na ida ao Benfica ver os artistas de rua ou a rua dos artistas que está combinado para um buraco na agenda? Vais ver não vai ser hoje que o tempo está mais apertado que cinto em gordo. Se começa o dia com ida ao prédio do Jacaré que mais não é que o Jacaré da Lacoste, ver se está tudo a correr conforme o tabelado. Uma falha. Aqui não está a ser cumprido o horário de entrega. Só mesmo depois do almoço, me disseram num sorriso como que a quase garantir que também nessa hora a minha vinda vai ser em vão. Seguimos depressa, porque o tempo aqui é medido sem ser no relógio, para o prédio onde tem mesmo que deixar a identificação. Desta vez parece tudo foi mais fácil. Parecia era já da casa. Cartão com mola na lapela e lá sigo pelo cuidado jardim até que na escadaria lhe vejo alguém que eu pensava ia ter uns quase dois metros de altura. Tantas as estórias que ouvi dele contarem nestes muitos anos que passaram, que, sem nunca lhe ver a foto ou me lembrar de a ver, lhe fiz um retrato virtual. Saiu mesmo foi um desenho todo errado. Pequeno, sem peso, seco de ossos, cabelos grisalhos, sorriso fácil e verbo simples e rápido. Afinal os heróis são mesmo como a gente, pensei para mim. Lhes falei das minhas coisas, lhes ouvi as respostas que estava à espera e que eram tal e qual eu queria. Lhes falei de outras coisas. Lhes falei do musseque vertical, falei de tantas outras coisas. Em todas recebi respostas. E lhes disse, parecia eu estava já a fazer parte deles, que lhes ia cobrar as promessas que me estavam mesmo ali a fazer. Resposta rápida numa aposta que quem não cumprir vai pagar jantar. Despedida já não foi mais de aperto de mão, foi mesmo de abraço. Troca de cartões e números de telefone. Ficou combinado encontro já no início do próximo ano. Me vieram mesmo que trazer até nas escadas. E eu não levei nem gravata nem milhões de notas de cores diversas. Foi mesmo só registos de cabeça, transferidos em resmas de papel branco com ajuda de uma impressora sem valores. Ideias, unicamente. Resplandecentes, penso eu e pelos vistos eles também.
As vias de comunicação, com aposta forte nos caminhos de ferro, vai resolver muito problema. Realojamentos. Educação. Saúde. Justiça. Transparência.
Eu lhes vou cobrar e eles sabem que eu vou mesmo.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

26 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(25)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (25) Hoje, 19:54
Forum: Conversas de Café

Como eu gosto de ti, ó Luanda. Já conheço cada cartaz que tu tens em rua e em cada esquina. Já conheço os teus habitantes habituais nas horas de vender coisas aproveitando as velocidades vertiginosas dos tempos parados contados em centímetros por hora. Na curva apertada lá está o cartaz da cerveja Cintra dizendo que quem a beber se Cintra melhor. Verdade verdadeira não conheci até hoje um sítio que lhe tenha e já percorri vários mundos sem sair de ti, ó Luanda. Já lhes conheço um a um os vendedores dessa curva e já sabem que tabaco lhes compro e já lhes digo olá na hora de os ver e com o seu sorriso mais puro eles respondem com um olá de encher o coração. Vais ver me enganaram e eu sou mesmo é daqui e daqui parece que nunca sai. O sono está a custar de entrar e eu fico aqui deitado a rever todos estes cantos, todas as tuas curvas e rectas, todos os teus encantos e todas as tuas coisas que deixei de gostar ou nunca gostei. Me vem à memória estar sentado na calçada da marginal em verdadeira hora de ponta que é a qualquer hora do dia, e de costas viradas para a baía olhar os mais de muitos carros, desde os do tempo de antes da dipanda até aos que parece que saíram ontem da fábrica. Vidros claros e vidros escuros. Vidros abertos e vidros fechados, mostrando a existência ou não do ar condicionado. Lá vão eles na velocidade estonteante do pára arranca constante para além de irritante. A organização anáquica dos carros que até parece vão chocar frente com frente e me lembro que ainda não vi um acidente. Cheiro o fumo do escapes na mistura das poeiras que não consigo ver porque é que tem tanta se vejo sempre alguém a varrer as tuas ruas. Estou eu a imaginar que ela vem agarrada nas rodas dos carros que vem da volta da cidade, dos miles musseques que circundam a cidade, casas de adobe com parabólicas e carros de vários modelos e anos que depois entram na cidade trazendo a areia das suas ruas para as ruas da cidade do asfalto. Penso sem ter a certeza do que penso. Penso na vontade que tenho que o sono venha e em vez dele vem a recapitulação dos dias anteriores. Agarro o livro como que com vontade de o ler, mas cada linha que tento ler rumo em direcção ao que penso e que não encontro letras. Desisto desta tentativa de chamar o sono. Preocupa-me deixar este canto. Preocupa-me não estar já no outro canto. E ainda há tantas voltas a dar na cidade grande que me engole nos seus engarrafamentos. Será que eu dei trabalheira e agora vou partir para dar trabalheira noutras paragens? Sono vem depressa pois está-me a parecer que daqui a pouco estou a entrar em delírio. Vais ver não durmo na preocupação de sair e ficar. Desconsigo deslindar deste enigma. Voltas e revoltas na cama que tem tamanho de campo de futebol. Grito em silêncio pelo sono. Amanhã logo desvendo o enigma e sigo o curso natural do meu rio, sem barreiras, cheias ou secas. Já não estou a seguir a tabela pré-fabricada no antes do ir. Vem sono e deixa para lá esta preocupação. Acabo por adormecer sem saber no que estava a rever neste filme de encantos e desencantos.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

24 de dezembro de 2005

Como é Natal, pensei numa prenda

Como estamos numa quadra de compras e coisas assim mais ou menos que feitas em frete porque o que a gente quer é mais caro do que podemos ou porque a gente já tem, ou porque...
Assim sendo, não havendo progresso na 'Uma estória Verdadeira' porque o seu autor também precisa de relaxar, saborear os momentos vividos em boa companhia, resolvi imaginar uma prenda genial:

Uma coisa é inegável, eu viajo muito quando estou a conduzir o meu velho carro neste trajecto casa-trabalho e vice-versa. Dou por mim a pensar, a maior parte do tempo enquanto estou na estrada, em coisas que eu mesmo acho que são baboseiras geniais, e não é que muitas vezes consigo desenvolver ideias tão completas que seriam perfeitas quer para um romance, quer para a utilidade doméstica, quer sei lá mais para quê. O grande problema é que me esqueço de quase tudo quando chego a casa.
Por isso estou a pensar seriamente em meter uma cunha para uma dessas empresas de tecnologia, assim tipo SISTEC, Microsoft ou outras, sugerindo o fabrico de um aparelho electrónico que facilitaria muito a minha vida e, acredito, a de muitas outras pessoas que sofrem do mesmo problema que eu: um gravador de pensamentos! Ele viria de fábrica com um adaptador para o isqueiro do carro, um cabo USB e capacidade para cerca de duas horas de gravação de pensamentos - desde músicas e imagens, desde filmes e baboseiras do quotidiano, passando por pessoas esquisitas que vemos nas ruas. Não seria bom? Depois era só chegar a casa, ligar a USB e assistir às suas lembranças como se estivesse pensando nelas naquele exacto momento, com possibilidade de downloads para o computador e publicação na web do conteúdo que quiser.
Claro que uma coisa seria indispensável no pack do gravador de pensamentos. Um sistema desegurança com senhas com vinte e oito caracteres - incluindo espaços, aspas duplas e caracteres chineses - associado a leitor de impressão digital e identificação pupilar. É que nem tudo o que se pensa deve sair de nossa cabeça. Por uma questão de segurança e integridade física até...

Ah! Bem que poderia funcionar também com pilhas alcalinas do tipo AA. Seria muito útil naquele momento de rei, quando estamos sentados no trono do wc e os nossos pensamentos vão com a descarga.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Uma estória verdadeira (24)

"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória veradeira (24) Hoje, 00:20
Forum: Conversas de Café

Depois das despedidas é mais uma hora para ir para a cama. Amanhã o sol nasce outra vez e é dia de mudança. Mudança de kimbo. Aqui algures na Maianga fiquei que nem em casa. Lhes gosto e me está a custar dizer que é amanhã a mudança de sede da minha campanha por estes campos luandinos. Não é que eles não saibam. Foi-se adiando dia após dia mas amanhã tem mesmo de ser. As promessas são para ser cumpridas e têm de ser. Lhes olho na cara e fico a ver nos seus olhos que estão tristes. Ainda não falámos sobre isso mesmo mas se nota no ar um sabor a despedida. Mesmo que seja só para ali ao lado, lhes posso ver todos os dias e todas as horas, se calhar. Mas o coração aperta sempre na despedida quando lhes gostamos de gostar com todo o coração. Sei, sinto, que o meu lugar no coração deles também está gravado, um cantinho grande está reservado mesmo para mim. Mas amanhã, depois de acordar é rumar para outra casa onde sei que já vou chegar atrasado de dias, pois me disseram, nas palavras e no olhar que eu devia já lá estar. É verdade, eu tinha mesmo que prometido na promessa de ir logo para lá. Mas apareceu esta divinal paragem. Eu sei que vou para outro paraíso, rodeado de gente mais que boa. Mas a gente não é de pau e não tem culpa de gostar. Não é que goste mais de um ou de outro. É mesmo só gostar com o coração. Mas como eu já disse eu tenho mesmo de virar homem elástico. Acho mesmo que vai ficar muita coisa para fazer, muita visita para visitar. Muito beijo para dar, muitos abraços para distribuir. Vais ver eu me sinto mais importante que a importância que eu tenho. Mas é esta a minha maneira de ver as coisas que estão mesmo a me acontecer num ritmo alucinante que até parece vou viajar mais na velocidade da luz que do som. Mas agora é mesmo hora de subir, de ir arrumar umas coisitas e depois deitar e deixar o corpo enrolar-se nas montanhas russas dos sonhos.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

22 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(23)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (23) Hoje, 18:14
Forum: Conversas de Café
Olha mesmo se eu tenho algum encontro combinado para hoje. Havia de ser o bom e o bonito. Ou dizia a tudo que sim ou dizia que não. Hoje parece dia de não haver meio termo. Ou termo no sentido de palavra. Capacidade para pensar hoje mesmo é nula. Mas …
Apanho boleia e resolvo ir, palas tuas ruas menos congestionadas a caminho do aeroporto. Não, não é para apanhar avião para destino nenhum. É mesmo só para ir ver um treino de futebol e encontrar miúdo que joga ali e lhe conheço de outros lugares, mesmo do meio do Oceano Atlântico. Miúdo de muitas estrelas quer com a magia da bola nos pés quer como amigo. Bob me reconhece e parece que esfrega o olho só para ter a certeza que não é miragem nem pesadelo que lhe está na frente, mas uma imagem real que corresponde à minha pessoa de mim mesmo. Abraço prolongado no tempo. Palavras ditas, soltas e simples. Olhos de cumprimentos com respeito, admiração e amizade. Como é bom ter amigos assim. Lhe bombardeio com perguntas. Me responde com olhar de emigrante na simplicidade que lhe reconheço faz mais anos que muitos. Fica combinado um encontro para mais falações. Mais lições. Assisto ao treino. Meu amigo que é mesmo treinador me dize que lá na tugália se eles trabalhassem como estes miúdos aqui te digo que não havia nem brasis nem outras terras. Dá-lhes só condições e vais ver onde vão parar. Olho para ele embevecido. Será mesmo que quando chegar na Alemanha eles vão ter essas oportunidades e condições. Pelo sim pelo não, já me foi dado uma camisola, comprado um boné e um cachecol. Só falta agora mesmo fazer a festa. Mas lá nos outros lugares eles vão ter condições também? Perguntei eu a pensar mesmo no meu Kimbo. Vais ver que sim, foi muito importante este apuramento. Mesmo até para a identidade Nacional, rematou ele como que a dar-me treino que eu compreendi. Ficou marcada nova visita, mesmo no Final da final da Taça.
Mais um encontro na agenda que parece que também vai ter de ser revista e aumentada.
Regresso a casa. Não me lembro se tenho alguma coisa combinada pra jantar. Lhe acho que sim mas mais vale prevenir que remediar.
Chego e não há programa. Mas vai passar a haver. Casal amigo telefonou a dizer que vai passar aqui para me ver e apertar meus ossos.Mais coisa menos coisa, chegaram a horas. Bebe-se um café. E se acompanha com um digestivo. Conversa atrás de conversa, ela é a minha reaça preferida e ele amigo de peito deste tempos de gatinhar. Ela era a criança vaidosa na sua mini saia e mini honda. Ele, que sabe sempre tudo e raramente tem dúvidas, continua igual que nem ele mesmo e quase sempre com razão. É por isso que eu lhes gosto e não tem razões de ordem discutórica para a retórica. Lhes gosto e ponto final, com ou sem parágrafo. Outros tempos que se viam com outros olhos. Falámos, conversamos coisas de ontem e de hoje e se calhar também do amanhã. Todas as conversas que possa ter são poucas. Quero saber tudo porque tou sedento de saber. Quero estar mesmo que seja nos esgotos da verdade desde que seja aí que se saiba. Foi bom esta visita que me fizeram. Me encheram a alma de alegria. Ficou combinado outro encontro um dia destes. Vais ver mesmo vou ter que esticar os dias para caber tudo neles. Acho mesmo vou virar homem elástico, pois vais ver eu não consigo arranjar tempo para tudo e mais ainda vou ter que voltar mais depressa para pagar as dívidas de prometimentos não cumpridos.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

21 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(22)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (22) Hoje, 18:16
Forum: Conversas de Café
Amanheceu novo dia para mim quando já passam das 10 de manhã. Hoje é mesmo dia de férias. Descompromissos é o que tenho para hoje. Relatórios a fazer e outros para corrigir. Rever dados. Pensar coisas. Tem de haver um dia para estas coisas pois os planos não nascem de geração espontânea e não podem ser gerados na pressão do tempo. Hoje é dia de sentar no computador, ler, escrever, rever, apagar e rescrever.
Mas a vontade é quase que nem uma. Mas se tem de ser que seja. Sacrifícios têm de ser feitos para que os degraus da escadaria sejam transformados em escada.
Aproveitando o ar concessionado agarro na lista telefónica nacional e começo por ver nomes que eu sei existem porém lhes desconheço a morada. Surpresas são várias. Se disca automaticamente para todo o lado. Já não precisa dizer para a senhora do outro lado da linha faxavor me ligue para a casa do X. Vais ver tem aqui mão mesmo da SISTEC. Não pode ser, este funciona mesmo que nem bem oleado. Pronto, confesso que é uma piada de mau gosto. Mas nem todos os dias o humor acorda comigo (irritei-te né? Foi como que mesmo de propósito, sra directora). Outra surpresa, minha tia-avó ainda está lá no sul. Vais ver na mesma casa, vais ver tá igual que nem antes, vais ver ainda faz a mesma coisa que nem antes. Lhe copio o número e me prometo fazer-lhe uma surpresa, quando tomar o rumo da Antárctida, assim com certo exagero, pois nem chego nem a metade do caminho.
Mas afinal eu vou ter de ficar aqui fechado? Não é que esteja mal, mas o peso da consciência de estar sem ver algo novo começa a fazer peso demasiado no pescoço pelo que opto por sair. Então turista vai ficar mesmo só assim fechado, agarrado no teclado e tocar piano nas letras? Nem é saudável só de pensar. Chá de Caxinde é o destino. É um dos sítios onde se pode conhecer de perto as novidades literárias de Angola. Ele fica mesmo no Cinema Nacional, que se vê ainda foi construído no tempo das obras todas iguais que marcaram uma época de má memória, mas isso não vem para aqui nem gritado nem chamado. Se mexe em muitos livros mas se compra apenas um livro, O Planalto dos Pássaros de Jorge Arrimar. Vejo e sinto no ar o perfume da cultura. Livro daqui, peça dali e se passa algum tempo que é tempo ganho. A visita foi mais curta que a esperada. A paciência hoje não era muita. O almarear de ontem está a fazer das suas. Volto para o sofá, se liga o portátil e me ponho a olhar para o monitor. Vais ver vai aparecer alguma ideia. Vai sair verborreia escrita que tudo vai terminar num instante. Mas se olha para o monitor e o vazio ideal está fixo. Paraliticamente tenho o cérebro congestionado. Hoje é mesmo mau dia para ideias, para coisas sérias. Se volta na Esplanada habitual mas se varia no pedido. Uma água das pedras e uma fanta nacional de laranja. Tem de ser nacional porque é bem melhor ca importada. Despreguntem porque ficarão sem resposta se o fizerem. É melhor e pronto.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

19 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(21)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (21) Hoje, 19:45
Forum: Conversas de Café

Parece mesmo outra cidade. As ruas são só quase para mim e para um ou outro viajante da noite que sai de qualquer sítio e a qualquer sítio se dirige, não lhe perguntei porque não tenho nada com isso. Silêncio sepulcral é o que se ouve nesta cidade que durante o dia parece um concerto de latas e vozes, um disco de 78 rotações. Aproveitei para ficar a saber de um ou outro bar de boa música e gente gira. Entrámos no Bahia. Pouca gente, simpatia a rodes, uma birra e vamos embora que amanhã também é dia e a noite está a acabar. 10 minutos chegaram para regressar num trajecto quase impróprio em outras horas. Nos esperavam em casa. Incomodámos, está mais que visto. Mais uns quantos dedos de conversa que nunca foi fiada. Mais um ou outro copo. Não só solta a língua como clareia as ideias turvas de outras mentes e a verborreia nos acompanha na velocidade do raciocínio. Mas vamos mazé deitar que as horas não param para a gente ficar aqui sentado a pôr a escrita falada em dia.
Me esqueci de ver as estrelas, perdi-me do cruzeiro do sul. Vi a lua pairando no céu como que a olhar por e para mim. A cama acho nunca foi tão querida como agora, depois de um dia mais comprido que o comprimento normal de um dia comprido, a pensar nas coisas do dia inteiro. Tem de haver solução, soluçava eu de mim para mim como que a querer limpar ou limar a consciência. Acho mesmo que adormeci a pensar nas grandes resoluções que não encontrei. Mas lhes procurarei, mais cedo ou mais tarde, e mais cedo que tarde lhes hei-de encontrar. Dormi acho que um sono só, o que chamam mesmo o sono dos justos mesmo que injustos o sejam.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

18 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira (20)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (20) Hoje, 19:16
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Parámos no Caribe. O nome não lhe fica por ser nome. Estou caté parece noutra face do planeta, penso. Falta ainda muita gente chegar. Um aperitivo. Para não variar bebo a minha birra geladinha enquanto outros foram nas caipiras e caipiroscas. Eu é mesmo naturalmente a cevada estupidamente gelada. E vão chegando os convidados. Me levanto e lhes vou conhecendo na apresentação. Prendas daqui e dali, beijos e apertos de mão. Coisas giras de gente gira. Agora é hora de ir na mesa que é comprida. Eu fico mesmo na beirinha do zulmarinho que devido à hora está escuro que nem breu. Mas lhe aprecio o cheiro salgado que me chega, a maresia do início da noite. Lhe ouço o marulhar ritmado. Adormeço acordado em sonhos de navegações.
Me apresentam a ementa. Tanta coisa que eu mesmo nem sei onde é que devo olhar. Me decidem que devo experimentar a carne grelhada. Feito depois de dito. Mais uma e outra geladinha para animar a conversa. À minha frente se senta mesmo um que é engenheiro. Conversa puxa palavra e não é que o referido conhece minha família? Logo ali arranja número de telefone e já está.
Primo estás bom? Onde estás? Aqui em Luanda. E blá blá. Mais um encontro agendado. Será mesmo que agenda tem tantas folhas assim? Já estou a ver que tenho que prolongar a estadia aqui no teu regaço, ó Luanda. Vai faltar dia num outro lugar qualquer. Ou então está na hora de eu virar ubíquo.
Me trouxeram a comida. Quer dizer, me trouxeram uma travessa de carne crua. Eu olho só. Vou fazer pergunta e depois vão dizer o gajo é burro e coisas parecidas? Não. Fico mesmo só a olhar. Acertei, pois depressa me tiraram as dúvidas. Trouxeram um fogareiro com carvão e sou eu mesmo quem vai ter de cozinhar. Estes restaurantes modernos ainda vão fazer com que eu ainda vá lavar a loiça que sujar. Aí deixo de comer fora. Como mesmo só comida caseira que tem máquina que lava por mim. Mas afinal é divertido. Se põe a carne e se vai falando. O engenheiro não é que conhece um camba meu amigo lá no fim do zulmarinho e até tiveram uns anitos na mesma solidão de má memória? Saco do telemóvel como nos filmes de cóbois e lhes ponho na conversa. Foi bonito, mesmo eu só ouvindo a deste lado de cá. Tem aí um outro convidado que conheceu meu pai nos tempos de estudante do Liceu Salvador Correia noutras eras mais antigas do que eu era nascido. Falou coisas bonitas. Meu ego ficou assim como que cheio de satisfação. Já estava cheio na barriga e agora também no ego. Estou satisfeito. Mais umas loiras geladinhas e fico então pertinho do paraíso. Se gargalha, se conta estórias, se fala de bola. As horas passam mas parece que não estão a incomodar mesmo ninguém. Eu a pé não vou por isso alinho nas conversas, mais na parte de ouvir, mais na parte de rir. No meu relógio só estão a marcar 2 horas. Vais ver que ainda é hoje que eu vou ver o sol nascer na Ilha.
Afinal não. Se começam as despedidas.
Gostei deste sítio. Assim que possa é aqui que vou entrar de corpo e alma nesse mar e depois venho aqui verter uma ou outra bem geladinha.
Afinal tá mesmo na hora de voltar.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

16 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(19)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (19) Hoje, 17:43
Forum: Conversas de Café

Neste meu regresso à Maianga eu reparo, um sentido que se vai apurando, que tens uma coisa nova, de um ou dois anos, sei lá. Muitas lojas que têm a cruz verde a dizer que é farmácia. Entro numa ao acaso para ver. Peço vitamina B. Tem sim senhor. Peço penicilina. Também tem. Tem preços altos? É capaz. Mas se calhar é mesmo melhor ter com preços altos que não ter nada. Vais ver um dia a estabilidade se estabiliza e os preços começam a ficar mais de encontro com a realidade. Será que lá no periférico, onde eu também uma cruz dessas os preços são que nem estes, ou estes estão mascarados também pela localização? Isso será para investigar noutros momentos, noutras possibilidades. Mas isso é mesmo assunto para outros cambas que de notas eu nem as de música percebo. Mas que fiquei contente de ver isso eu tenho a certeza. Os contrastes se contrastam.
Hoje foi dia de aprender. Mais um, amanhã vai ser outro dia. Vamos a ver como ainda vou chegar a amanhã, já que hoje tem jantar de aniversário que não posso nem quero mesmo faltar.
Cheguei na Maianga e Donamigamãe se manda vir comigo porque eu andei por aí que nem lhe telefonei, não lhes dei o meu GPS. Eu só andei por ti perdidamente achado nos meus encontros. Preocupada mesmo só que ela estava. Até que dava para ver na cara. Vais ver tem medo eu me perder nos teus labirintos. Rimos e brincámos, falámos do que vimos e do que gostaríamos de ver e fazer. Gostamo-nos e por isso falámos o que queríamos sem problemas de estar a magoar ou ofender-te. Concordámos e desacordámo-nos.
Agora vai ter de ser um duche longo para tirar tanta transpiração acumulada que a rua não tem ar concessionado, o calor aperta e andar que nem preparação de secretária cansa e faz deitar os bofes pela boca. Além de ter que tirar também da pele aquele ar poeirento que vagueia no teu ar, mistura de areias e coisas dos escapes daqueles milhões de carros que fingem andam nas tuas ruas.
Não vou cantar no duche porque, não só não sei cantar, como os vizinhos não têm culpa e a alegria está camuflada no constante pensar na resolução do vertical musseque, na constelação de estrelas pouco brilhantes sentadas em cada milímetro à espera de ser observado e tratado.
Minha voz só serve mesmo para te contar as minhas estórias e para mais não sei se serve.
Me ficaram de vir buscar. Vamos no aniversário mas se esqueceram de dizer mesmo onde é que é esse tal dito cujo jantar. Mas também iam dizer mais para quê? Ele que faz anos me vem cá buscar. Para não variar esse man é pontual e faltam 5 minutos para as sete e já está a campainha a tocar. Sobe-se no jeep e se vai no Trópico buscar mais um convidado. As curvas do costume, o trânsito habitualmente infernal. Dá para ver o que se vende na beira da rua, para não dizer no meio da rua. Saco com pão, ferramentas e outras coisas mais que muitas que é possível agarrar para vender no meio de tanto carro sem ser atropelado por algum distraído a 0 km/hora. Mas lá vamos e afinal, não sei se foi da conversa se foi de já estar a começar a ficar habituado que o tempo passou mais depressa pois às 8 já estávamos mesmo na frente do dito. Agora é rumo ao desconhecido para mim mas sabido para quem tem o Leme. Já conheço estas ruas todas e por isso acho mesmo que tamos a ir na Ilha. Acertei. O man é mesmo conhecido. Lhe batem na janela e lhe perguntam se no domingo vamos ganhar. Claro. Nem hesitou. Trigo limpo farinha amparo.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

15 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(18)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (18) Hoje, 21:27
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Vou mesmo voltar para a António Barroso, me sentar no sofá e pensar.
No meio de um nada, não lhe vi donde chegou, boleia amiga arranjada na última hora, me leva mesmo a ir ver o Posto de Saúde de Viana. Prontos, mais uma catrefada de carros envolvendo-me, como a querer dizer que não posso ir em velocidade cruzeiro. Vai-se num pára arranca intercalado. Dá para ver tanta coisa, corpos numa azáfama bulindo nas mais que muitas maneiras de fazer pela vida. Roboteiros transportam cargas mais diferentes em equilíbrios desanimantes da força da gravidade. Vende-se tudo à beira da estrada. Mais visto é mesmo a camisola do Mantorras. A t-shirt dos 30 anos junto a boné comemorativo, se vê também ferramentas das mais variadas formas e feitios, candeeiros de mesa ou sala, tapetes e carpetes. Não vi foi nenhum avião à venda. Mas também não lhe procurei.
Chego ao Posto de Saúde quando já são 16 horas, fora de horas pensava eu. Mais um problema que vejo e lhe reconheço, multidão sentada em qualquer sítio passível de ser sentado, Duas pessoas tentam resolver os problemas que ali tem de sobra, até para exportação. Sei que desconseguem mas também lhes vejo que não são de desistir. Hoje estes dois são os meus heróis, aqueles que não vão receber medalha nem diploma de louvou, mas recebem os possíveis sorrisos de agradecimento, recebem os obrigados sentidos no fundo na alma, recebem a paz na consciência que lhes afoga a mágoa de não poderem fazer mais. Mas fazem mesmo muito. São os meus heróis anónimos. Lhes perguntei coisas, me responderam sem nunca parar de fazer coisas. Corria atrás deles como num labirinto de gente. Têm olho para ver mesmo de longe quem é que está mesmo à frente, que não quer dizer que tenha chegado primeiro, precisam ser atendidos primeiro. As suas vozes não se alteram. Os seus nervos são de aço. Muito tenho que aprender que nem eles. Me fazia bem uns tempos com esses dois meus heróis.
Hoje foi mesmo dia de ver e ficar a saber de problemas que são de resolver a curto prazo que não tem tempo definido.
Conversei com A e B. Soube disto e daquilo. Não foi visita guiada, foi mesmo visita inesperada, visita de ver e tomar consciência com o mundo que a cidade real também tem. Nota bem que eu te falo que TAMBÉM tem. Não vais agora dizer que estou só a falar mal de ti e coisas de ciúmes. Te estou a dizer que fiquei a saber um pouco mais de ti.Te digo mais, eu perdi em não te conhecer em todos os teus degraus, em todos os teus altos e baixos, nestes anos que passaram. Não te sei dizer se hoje estás melhor que ontem ou que antes de anteontem. Me convenço que deveria ser feita uma peregrinação periódica comparativa, de modo que a minha consciência das coisas se vá aprimorando e não me deixe enrolar no que disseram o que lhes disse o que lhes contaram. Versão acrescentada e aumentada duma imagem desilustrada da realidade. Só sei mesmo como estás hoje e só isso hoje me interessa.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

14 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(17)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (17) Hoje, 18:28
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Com estas voltas e caminhadas todas são é horas de arranjar uma banca e ir comer. Pópilas que só pensas mesmo nisso. Eu não penso. Barriga é que parece tem relógio.Vou mesmo aí nesse que se chama de Regente IV. Mais um que lhe desconheço porquê o nome. Mas não faz mal. Me abrem a porta. Parece tem bué de estrelas. Sento e peço. Vou mesmo comer comida brasileira. Venho do final do zulmarinho para o início dele e vou comer comida do outro lado. Isto é que é viajar. O dono não está, angolano que viveu no Brasil e que parece é gente boa. Tudo fiquei a saber que a curiosidade não deve ficar solteira por isso lhe arranjei maneira de a satisfazer com um empregado muito simpático. Comida acompanha o aspecto. Fiquei cliente e recomenda-se. E agora, me pergunto, que vou fazer? Continuar a caminhada ou voltar para o fresco do sofá debaixo do ar concessionado? Vamos mas é andando e mais daqui a pouco a gente decide.Me disseram que se tivesse problemas de comunicação eu devia de ir na SISTEC. Mas será que eles resolvem também o problema de comunicação entre mim e eu? Me garantiram que sim. Acho vou mesmo beber café com o boss do sítio. Combinámos que um dia eu ia aparecer e esse dia pode ser mesmo hoje. Me perdi. Desconsegui de dar com prédio que lá em cima diz SISTEC, um outro camba que lá trabalha deve estar com o telefone colado no tecto pois não atende para me socorrer. Vais ver lhe assaltaram outra vez. Acho mesmo que desporto dele é ser assaltado. Fica decido entre o mim e o eu que fica para outro dia. Eu sei ele vai compreender. Assim descobri que o que me falta é um mapa de toda a cidade. Vou na sua procura. Desconsegui arranjar. Nem me disseram que talvez ali ou acolá consiga arranjar. Prontos, concluí, não há! Quando dou por mim estou mesmo num prédio que lhe ouvi ter nome de baptizado de Tchechénia. Lhe contei 15 andares mas desinteressei continuar a contar quando ainda faltavam mais uns quantos. Me contaram a sua dele estória. Mas que nem é preciso. Vê-se. Ali atrás do largo Kinaxixe, prédio desacabado noutras eras, mussecado noutras mais recentes. Lhe chamei o musseque vertical. Penso mesmo que quem mora lá no último andar nunca mais veio aqui na cidade. Eu desconseguia. Cansado e tonto ficava se tivesse que subir ou descer todos aqueles andares a pé. Mas não tem alternativa quem mora lá. Vai a pé ou vai no colo. Outra maneira não tem. Acho mesmo é problema para o Governo Provincial de Luanda tem de resolver rápido. É problema de saúde pública. Se não resolve dentro da cidade vai mesmo resolver quando o periférico? Mas eu estou aqui para arranjar soluções ou estou mesmo só para ver? Acho que mesmo para os dois. Te tu alheias então podes crer nunca mais vês as coisas na solução. Quando voltar lá no outro prédio que tem de deixar identificação e essas coisas eu lhes vou falar disto. Resolver eu não consigo, mas alertar eu sei que posso e devo que fazer.


enquanto andam noutras mesas aos tiros aos pés, em guerras que já perderam, em História que não se refaz, na apologia do culto da personalidade à custa de quem de facto a tem, na vã tentativa de angariar filiados para causas falidas ou petições de indole duvidosa, cá vou eu vertendo pela goela as birras loiras estupidamente geladas e contando as minhas estórias, tentando manter a minha sanidade mental, saltando páginas de 'livros' que não têm interesse.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Uma estória verdadeira (16)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória veradeira (16) Hoje, 00:58
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Noite bem dormida. Nem zumbido daquele malvado, que dizem é fêmea que pica mas desconsegui lhe ver o sexo, que parece andava à minha procura foi suficiente para me retirar do merecido descanso e de manhã não vi nenhuma marca no corpo.Banquete de pequeno-almoço ainda não são 8 horas. Mas vou hoje mesmo aonde? Acho mesmo vou só passear por essa Luanda, assim como antigo colono que se metia no mar sem saber onde é que vai aportar. Vamos ver meu corpo de estar parado aguenta andar mesmo sem destino pré-fabricado. Passo por Alvalade. Que raio de nome haviam de arranjar para dar a uma zona. Mas ninguém não é perfeito e eu não estou aqui para discutir nomes seja de quem for seja de que lugar seja. Depois foi descida e passeada no Mukulusso. Pensei ainda me estão a enganar com esse nome, vais ver é asneira e depois como eu vou sair dessa. Mas que não me enganaram é verdade mesmo. Lhes conheci ruas e ruelas. Lhes tropecei nos buracos já que olhos olham para cima e pés não vêm senão quando lhes falta um bocado do passeio. Mas não estou nem preocupado com isso, porque lhes vejo andam a arranjar quase em todo o lado. Vais ver, qualquer dia não sabes nem onde estás já que vai ficar uma cidade igual que nem as outras. Mas esta tem a vantagem de ser como é também por causa das gentes que tem, por causa do calor que tem, sendo a sua identidade devida à luz da atmosfera e da sua cor, numa linha que se conjuga nas linhas quase rectas das avenidas e os labirintos dos seus bairros que lhe engolem quase na totalidade. Paro na Sagrada Família e me sento na escadaria que este corpo não foi feito para andar assim feito turista de pé de chinelo. Só mesmo está habituado a popó que não é para dar show mas apenas que se eles inventaram a máquina foi mesmo para eu lhes dar uso. Camiseta e calção faz calor que apetece mesmo tirar tudo. Mas não sou doido e doidamente tenho de aguentar. Lhes tento contar os carros que andam na velocidade zero à volta da referida Igreja. São mais que muitos. Prefiro olhar as caras. Ver os rostos e tentar descobrir o que lhes vai lá dentro. Dotes não foram feitos para isso. Vi gente alegre porque gargalhavam entre eles, vi gente que me pareceu triste porque não lhes vi sorrisos nem falas. Mas se nesses eu visse alguma dessas coisas eu ainda ia lhes dizer que vi malucos que riam e falavam sozinhos.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

12 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(15)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (15) Hoje, 18:01
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Mais uma vez é a esplanada do costume que me espera na espera da hora do jantar. Vais ver só se depois ainda te vão dizer que falta a comida… Que lhes vais responder mesmo? Tu mostras o ponteiro da balança ou tu pedes para te segurar no colo? Eu sei que gaguejo e não digo nada, mas a verdade é que quando estou feliz como. Mas esse é problema mais lá para os finalmente que agora é problema menor que o cinto tem mais buracos. Vantagem de fazer buracos no cinto é mesmo essa.
Depois da janta o melhor mesmo é hoje ficar em casa e ver a televisão. Ter bué de canais torna difícil a escolha, mas tem escolha. Vais ver que quem mesmo deve estar por trás de tanta escolha é mesmo essa da SISTEC. Onde vais lhe ouves falar dela. É o computador, é o telefone, é o sei lá o quê do satélite, ela está mesmo lá. Cá eu só sei que não vou ver cricket pois é jogo que descompreendo na perfeição. Acho mesmo vou ficar na visão de um programa de conversa sobre futebol daqui mesmo. Assunto que importa embora pareça que na rua tem pouca importância mas ao longo dos dias depois que ainda não vivi, ficarei a saber que estava enganado, mas isso é futuro e não cabe a mim fazer previsões dessa natureza. Meu amigo tá lá na tv, sorriso inimitável, ele que já ganhou bué coisas aqui e se arrisca a continuar na mesma onda.. Simpático mesmo esse tuga que tá aqui tá vai fazer 6 anos e mistura a pronuncia do norte com a musicalidade angolana, o que lhe torna ainda mais gente boa de simpatia e humor. Falta um jogo para acabar o campeonato, falta-lhe um ponto para ser campeão, se o outro perder ou empatar e ele ganhar. Coisas mesmo de treinador de futebol que faz contas que não lembra nem ao génio, mas que tá certo para se perceber a ilógica do jogo que não é de azar mas pode-se ter azar e se perde por falta de sorte. Sorte que costuma, dizem, acompanhar os campeões. Ficamos só mesmo a ver os porquês disto e daquilo. As probabilidades e o número de telefonemas que foram feitos ao longo do programa. Estive mesmo quase para telefonar a perguntar porque ele não põe o Joaquim a jogar. Mas desconsegui fazer a chama, dava sempre alguém mais rápido que nem eu. Se tivesse conseguido fazer a chamada eu sei que ele me ia responder que o Joaquim não joga porque não tem nenhum Joaquim lá na equipe dele. Conversas do antigamente entre a gente os dois, que afinal só a gente ia perceber e depois ele ainda ficava vermelho e ele não é nem desse clube. Nem lá. Mas isso é assunto pessoal que não está aqui na conversa em que te conto as coisas.
Programa acabado é mesmo melhor dizer até amanhã e pôr o corpo esticado e esperar que amanhã é outro dia e os assuntos não têm fim. Se tiverem a gente arranja outro porque o que quero mesmo é saber tudo, e melhor sítio para saber é na rua, portanto o meu lugar é mesmo na rua. Sorte mesmo é ter ar concessionado na viatura, pois se assim não fosse ainda eu ia virar peixe dentro do forno que o calor é mais forte do que a minha capacidade habituativa de aguentar. Lhes digo, amigos, vou dormir que amanhã é outro dia e vocês têm de ir trabalhar. E eu também.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

9 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira (14)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (14) Hoje, 19:20
Forum: Conversas de Café
Saídos do Jacaré, salvo seja, o destino foi mesmo almoçar. Almoço em casa que é caseiro, o que não quer dizer que almoço fora seja vadio. Mas sei que me espera um almoço celestial. Cachucho frito com arroz de tomate, mas de tomate que sabe mesmo a tomate, o que é o mesmo que dizer que não é tomate de aviário, que neste caso seria de tomatário. Almoço que me soube mesmo aos almoços feitos pela minha avó. Divinalmente cozinhada a comida sabe que nem uma das maravilhas mais maravilhosas do mundo. Tal possa a gente saborear os sabores que nos dão. Mas esta coisa veio dar-me mais uma preocupação acrescida às muitas que eu já tinha. Excesso de peso no regresso para as crónicas. Será que a barriga vai deixar os meus dedos chegarem às teclas. Mas penso isso mesmo depois, que agora eu quero é ver esta minha namorada em toda a sua grandeza, em todo o seu pó, em todos os cantos e recantos, em todas as suas muitas formas de vida. Não quero mesmo saber das formas filosófica-económicas pois eu aí ia meter os pés pelas mãos e então é que não ia mesmo ter ginástica para escrever aquilo que vivo na vontade de ver o vivido, deixando isso para os que sabem dessas coisas. Meus olhos querem mesmo é ver. Todas as formas de ver. Mas adianto que as loiras que acompanharam o cachucho não me subiram ao cérebro, ficaram mesmo só pela ajuda na degustação.
Nesta tarde me espera mais uma maratona no trânsito. Não, vou percorrer os 42 e tal km da dita cuja. Mas espero fazer cerca de 2 horas para me deslocar nos 12 km que me separam do sítio onde eu quero mesmo ir.
Quase que adivinhei. Mas fiquei só no quase pois só demorei metade do que previa. Passei no Prenda. Tirando a muita gente não reparei em nada de novo que não vira noutra passagem por aqui. Depois segui na zona dos ministérios, ali para o lado da TPA e Rádio Nacional de Angola. Lá chegado fui simpaticamente recebido numa portaria em que me fizeram as mil perguntas habituais em sítios que tais, tal como com quer falar e está marcado e coisas assim. Todas as respostas confirmadas, se deixa a identificação e lá se vai. Prédio grande, jardim em volta mostrando trabalho de jardineiro que sabe o que anda cá a fazer.
A reunião decorreu melhor do que esperado. Mais assuntos dos que os pensados. Conversa de amigos que não se conheciam mas a sintonia mostrava que estavam todos a pensar o mesmo faz tempo. Tempo que passou sem dar tempo para pensar no tempo que passou. Cumprimentos de despedida, nova reunião marcada. Satisfeito se faz o caminho de regresso à portaria, onde funcionário simpático devolve a Identificação e se despede com um Volte Sempre.
Ganho o dia que havia chegado ao seu fim sem dar por ele. Nova maratona transistorizada ouvindo a LAC. Pouco importa o tempo de regresso.
Agora tenho todo o tempo do mundo.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

8 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(13)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (13) Hoje, 19:09
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Depois duma noite bem dormida há que pôr a pé outra vez. Muitas voltas para serem dadas nestas tuas ruas de Luanda. Me fosse possível e eu corria todas, mas todas mesmo. Mas tu sabes que eu jamais conseguiria isso só com uma vida. Precisava mesmo de ter muitas vidas para conseguir tal feito.
Mas hoje tem que ir no Largo Serpa Pinto que agora tem outro nome mas deslembrei porque toda a gente chama ele mesmo assim.
Mais uma aventura nas ruas. Perícia de condutor se vê mesmo aqui. Cada tangente no carro alheio que não sei mesmo se não entrou na porta dele. Tava mesmo tão perto que lhe vi sentado a meu lado. Mas em esses mal pronunciados, num constante ziguezaguear na tentativa de ganhas uns segundos aqui e ali, lá se vai andando. Prometido mesmo é lá chegar. Hora não tem problema. Hoje a gente chega lá que não tem dúvida. Inteiros? Bem, isso a gente vai ver depois de arranjar um lugarzinho para encostar o carro. Estacionar vai ser mesmo impossível. Mesmo só encostar e vivo velho.
Mas a gente lá consegui chegar. Quer engraxar os sapatos, me perguntaram em voz de criança. Lhe respondi que não, pois quedes não dá mesmo para engraxar. Mas dá para lavar, resposta pronta e recebida. Então me dá dez! Nem penses, disse eu com voz de educador. Insistência e mais insistência que eu deixei de dar importância à voz que me perseguia. Num instante passei a ser surdo como me convinha. Eu sei que não consigo mudar o mundo mas prontos, surdei e fiquei melhor comigo mesmo. Egoisticamente pois então. Mas lá fui ao sítio que queria ir. Muitas portinholas para a gente falar com quem está do lado de lá. Qual mesmo é que eu devo de ir? Mais fácil mesmo é ir na que diz Informações. Também é a que está mais vazia, ou melhor, menos cheia. Quando chegou a nossa vez, uma voz masculina e timbre simpático disse: Informe-se! Como é que é então? Disse eu num ar de espanto de quem não entende patavina disto. Pois claro, se veio ao guiché das Informações é para ser informado, por isso informe-se. Tem toda a razão disse com voz trémula de quem tinha sido um pouco paralítico no pensamento. Mas também se ele de tivesse dito mais coisa menos coisa como diga lá o que quer. Mas gastar tantas palavras para dizer a mesma coisa. Ele tinha razão e eu fiquei esclarecido do que não era a minha missão. Lá me fui informando do que me havia lá levado, sempre com resposta rápida e concreta. Perguntei mil coisas e mil coisas me foram respondidas. Fiquei informado. Agora mesmo vamos em direcção do Edifício Jacaré. Mas que nome mesmo para pôr num prédio. Jacaré. Mas desde quando Luanda tem Jacaré? Depois de perguntar na rua a quem passava houve alguém que me disse não só onde era o Edifício Jacaré, como também me explicaram que jacaré é mesmo porque tem reclamo da Lacoste lá pendurado. Hoje é um dia de aprendizagem.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

7 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(12)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (12) Hoje, 19:52
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Novo banho tomado, frescura da pele chamava para a vadiação. É noite porque lhe vemos a Lua quase cheia. Acho mesmo que depois de amanhã é que vai ser mesmo noite de Lua cheia. Pelo menos foi o que me disseram que eu dessas coisas desligo por completo. Mas tem mesmo para ir à noite, perguntei num perguntar de quem não está à espera de resposta. Estava mesmo convencido que Luanda era uma cidade morta na noite escura do tempo, pois me tinham pintado tantas coisas que eu pensava que até era uma cidade sem gente, num país sem gente. Como esses gajos me enganaram. Me vão pagar um dia, me terem convencido dessas coisas e de outras. Mas tem mesmo para onde ir. Difícil mesmo é no escolher. Me foram dizendo nomes que eu pensei que decorava, mas tava mesmo enganado que decorei uns dois ou três e já vou com muita sorte, pois o tempo é curto e a memória tem precisão para outras coisas mais importantes. Conversa daqui, conversa dali e vamos para acolá ou melhor vamos para acoli. Resultado mesmo foi ir só num barzinho que no dia é restaurante, na noite vira bar de música suave que chama à conversa, mesmo na António Barroso de outros tempos. Conversa daqui, olha para ali e o tempo a passar que nem corredor de cem metros a descer. Nos os cinco estávamos só a elogiar-te, namorada minha. Te discutimos deficiências, de apontamos defeitos, te vimos a crescer como quem toma remédio e depois se descontrola e cresce mais que a capacidade de crescer, e no meio de tudo ainda riamos porque todos sabiam que vais dar a volta que precisas dar para sair da embrulhada em que te meteste a crescer dessa maneira. Mas ali ao lado, mesmo ao lado onde os carros não param de passar, qual glóbulos rubros a transportar-te oxigénio. Horas de retomar a casa, por o corpo no descanso que ele mais que precisa, recuperar forças para amanhã enfrentar novo dia de trabalho vagabundo numa abundância de afazeres. Com o tempo a passar como tá a passar acho que não vou ter tempo para cumprir todos os afazeres sociais e outras coisas mais que tinha pensado e combinado. Mas a força de vontade é prova que eu te quero ver toda, tudo na tua essência, tudo nas tuas entranhas, como quem estuda anatomia no corpo duma mulher.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

6 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(11)



"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (11) Hoje, 21:58
Forum: Conversas de Café
Se segue para a Ilha. Se estaciona mesmo que na porta, só não se sabe mesmo é de quem. Repartição está só assim cheia de gente que até parece trânsito numa rua qualquer de Luanda. Se espera a vez. Vem de fora e pensa que passa assim na frente. Mas que não, nem pensei nisso. Se fala com o senhor que toma conta da porta. Não, não é com medo que levem ela. É mesmo para ter ordem no subir, tal é a desordem ordenada da fila que mais é multidão. Se fala com o senhor X que recomenda falar com a senhora Y e assim tá feita a coisa. Se preenche os papéis que tem de ser, se regista num livro maior que um mapa da Africa e se recebe um papel para depois mais tarde servir de prova. Tudo feito no tempo necessário para ser feito. Terminado já que é mesmo hora de almoço. Vamos mesmo ter que fazer pausa para isso, que andar neste trânsito abre o apetite. Se regressa ao ponto de partida. Calor que aperta dá sede que tem mesmo que verter uma loira antes de chegar à mesa. Cozinha boa que até dá vontade que nem repetir mais que uma vez. Vergonha impede, mas vá lá que não é cerimónia e se repete uma vez só mais. Faz-se a sesta. Também quem comeu assim não podia fazer de outra maneira. À tarde há mais coisas para fazer mas também se pode adiar para outro dia. É opção de quem está de férias. Mas não. Vamos ter mesmo que voltar à circulação vertiginosa de quem não tem pressa para chegar a lado nenhum. Mas o que tem de ser tem mesmo muita força. Novamente se reentra na António Barroso de antigamente que se teima em manter, se passa no largo da Maianga. Se dá uma curva para a direita e se vê a mulemba que lembra a infância de alguém. Se procura a casa de outrem. Deve ser esta ou aquela. Ou a outra ainda. Tantas indicações decoradas que afinal não serviram de nada, pois a cabeça esta cheia de coisas novas e não dá para lembrar pormenores de conversas tidas faz tempo. Se segue para novo rumo. Se anuncia a chegada. Espera é feita num ampla sala vazia. Se aguarda em pé. Mas aqui o tempo passa a correr e tudo se resolve. Mais uma coisa feita. Tou mesmo com sorte. Posso voltar ao sofá do meu contentamento. Se agarra um computador. Ver se há correspondência e coisas e tais. Tudo perfeito. Calor continua a dizer que está mesmo ali só para me abraçar. Ar convencionado na forma de ar fresco dá uma frescura na sala que nem dá vontade de migrar dali. Se lê toda a imprensa da semana que passou e que foi religiosamente guardada para mim. Posição e oposição ali em papel que deixam os dedos pretos da tinta. Mas se fica a saber o que se tem para saber, as várias formas do mesmo ver. Com este calor que deve estar a fazer lá fora atiro uma pergunta no ar de que vamos mesmo dar uma volta a pé aqui nas redondezas? Vamos, me respondem como a querer dizer que aqui se está tão bem. Mas eu cá que sou esperto, faço de conta que não entendi e lanço o vamos da ordem. E lá entramos agora nas tuas artérias, só que desta vez feitos peão. Se anda mais que aquele carrão que vai ali mais parado que um stop. Se entra em ruas e ruelas. Se cumprimenta e se é cumprimentado. Gente que nem te olha pois estão a olhar para dentro deles antes de cair nalgum raro buraco dos passeios novos. Se entra num outro bairro que nome já não tenho na memória, pois se entrou assim como quem vai em destino sem termo. Quando voltámos nos disseram, então vocês entraram mesmo lá, lhe viram as ruas mais estreitas que a finura de uma pessoa elegante? Que lhe respondemos que sim. Íamos dizer mesmo mais o quê?Assim foi mesmo o meu primeiro dia de trabalho vagabundo dentro de ti, ó Luanda.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

5 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(10)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (10) Hoje, 18:52
Forum: Conversas de Café


Depois duma noite santamente dormida. Com a canseira de querer ver e saber tudo também ia fazer mais como, se não dormir o sono dos justos? Se chega ao dia de trabalho. Para os outros é claro que para mim, ter que ir ali e acolá não é mesmo trabalho. É prazer. O toque de despertar que não tocou foi mesmo para aí umas 7 da manhã que aqui amanhece cedo e é para todos. Banhito tomado, roupa leve mas discreta que ir a alguns lugares se deve mesmo ir com roupa como deve que ser, pequeno almoço com mamão e café que soube que nem ginjas, há que esperar as boleias para os pontos que estão na agenda de trabalhos. A motorista que vem mesmo do Cacuaco que fica já ali. Há que esperar que o tempo é grande e não precisa correr que isso só cansa. Como não é educado chegar à tabela – horário serve mesmo para saber quanto tem de atraso – lá se partiu para a primeira missão. Assim, minha namorada Luanda me volto a encontrar nas tuas veias, porém com a diferença que hoje é segunda-feira, dia de trabalho. Já não é mais nem fim de semana como eu estava que nem bem habituado. Se entra na bicha numa rua à porta de casa e podes crer que só sais dela mesmo quando chegares ao teu destino, seja lá ele onde é que ele é. Hoje era ir na Ilha. Dá tempo para ver o tempo passar. Dá tempo para ver as casas, as ruas, as caras das muitas mais que possíveis pessoas que se cruzam comigo nos mais que muitos sentidos. Tás tu Luanda fervilhando. Sorrisos nos rostos, passos apertados, gincanas nos passeios, que nas ruas os carros só poderiam fazer gincana no pensamento dos condutores e passageiros, pois nem há espaço para mais carro algum. Mas os peões seguem felizes porque não têm que estar ali sentados com a vã esperança de percorrer um metro no próximo minuto. Se sobe a Barroso, se vira para ali e para aqui, se passa frente da Lello, se entra finalmente, muitas medidas de tempo depois, na marginal. Aqui se corre lentamente mais fluidamente.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

3 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(9)


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (9) Hoje, 18:14
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Te vejo na noite. Serena rebolando ao sabor das tuas ruas, luzes que marcam os teus territórios para que eu te possa ver com os meus olhos de ver a noite. Vou na Praia do Bispo, que não lhe vi mas me disseram que antigamente morava para aqueles lados. Vi o futuro monumento que já foi ontem e que não sei se vai acabar um dia de ser construído, já que não me disseram ainda o que lhe vão fazer, mas se calhar não perguntei. Te vi nos Palácios de quem agora olha por ti, segui rumo a sítio que desconhecia, Passei no Prenda, no Rocha Pinto, na Sambizanga. A noite me mostrava um encanto diferente daquele que eu te tinha imaginado. Passei na noite por caminhos que não sei se amanhã, quando for dia eu me vou encontrar. Passei. Quis beber-te toda numa noite e confundi os fusíveis de tanta informação. Mas vi-te. Senti o teu pulsar de uma noite de Domingo. Lhe chamei a minha noite de Domingo em Luanda. Mas de onde vem esses popós todos que não tem números que lhe contam. Estimativas muitas, números certos só mesmo da imaginação. Te vi, Luanda num Domingo à noite. Luzes nos prédios mostrando silhuetas fantasmagóricas, perfis despercebidos, cidade que tem tudo que não é de fantasia nem de fantasma. Cidade pulsante na anarquia marcada pelos candongueiros azuis e brancos. Noite de Luanda, num Domingo. Rua do desencontro, rua do héroi senhor qualquer coisa. Não posso decorar tudo, as irregularidades de uma ou outra muita rua não deixa que eu tenha um caderno de apontamentos. Também nunca foi meu hábito apontar as curvas da minha namorada. Hoje tu és a minha namorada. Tu, a cidade de Luanda.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

2 de dezembro de 2005

Uma estória verdadeira(8)




"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Uma estória verdadeira (8) Hoje, 18:25
Forum: Conversas de Café
Entra-se na Ilha propriamente dita península. Pulsar de gente andando em todos os sentidos. Cruzamentos engarrafados de gente que caminha num andar nada rápido, sem pressa de chegar a ponto nenhum. Passeio de Domingo, vai fazer mais o quê? Tas a ver, né? Se passa por coisas conhecidas ou ouvidas falar. Se cai até mesmo na ponta onde está uma feira para pular e muito popular. Se olha no horizonte. Fim de tarde ainda sem ter o sol a querer ir dormir. Busco a referida e apaixonada kianda. Se não fossem os cambas que me levaram até lá ela me tinha raptado para o seu colo e hoje eu não estaria aqui a te rever as coisas que vi. Mas kianda sorriu, olhou para mim e me disse, que só eu que ouvi, que era muito bem-vindo. Lhe sorri com todo o sorriso da minha cara, lhe agradeci e continuamos a viagem, num retorno que não podia ser mais lento que parado. Montanhas de pessoas haviam feito o mesmo passeio. As veias da ilha não lhe davam saída nos carros mais que muitos que lhe demandaram. Impossível tirar fotografia do Pôr do Sol quase que o mais bonito que vi, já que fiquei preso na paralisação da estupefacção. Te adianto que vi essa coisa do sol ir dormir cada dia mais bonito que outro. Se fizessem exposição e concurso eu não te saberia dizer mesmo qual o mais lindo que te vi. Naquelas duas faixas havia quatro filas de carros, só faltava mesmo aparecer uma faixa voando por cima das outras todas. Senhor polícia em mota de reluzentes e piscantes cores era incapaz de pôr ordem na ordem desordenada que por ali ordenava. Se vêem as praias mais lindas cheias de corpos semi-nus. Se inveja a possibilidade de lhes imitar nos mergulhos. Segue-se numa das filas dos carros como que obedecendo a ordens ditadas por ninguém. Caos feito ordem, na confusão dos candongueiros, donos da estrada e limitações dela. Se retorna ao pontão, que parece nunca foi ponte, que une a cidade à Ilha e já é noite cerrada. Fortaleza iluminada mostrando uma beleza que não lhe havia ainda notado. Deve ter sido do ângulo da vista. Mas que é bonita não me podes nem contrariar. Agora, cidade da lua, te visito na noite. Luzes para todos os gostos e feitios. Mesmo num domingo à hora de jantar continuas num reboliço que parece não tens nem descanso.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca


WebJCP | Abril 2007