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A Minha Sanzala: Outubro 2010
recomeça o futuro sem esquecer o passado

28 de outubro de 2010

28 de Outubro



SHUAAAAAAAAK!

Sanzalando

Hoje deu feriado no meu lado

Do quente ao frio, do seco à chuva, do verde árvore ao dourado areia tudo são contrastes para mudar em poucas horas duma vida que se ganha hoje em experiência o que já não se ganha em anos. 
Para minha alegria ficam todos os azares que já tive, todas as lágrimas que já verti, todas as palavras que calei e as que atirei como pedras, todas as ofensas que sofri e as que feri. Porque eu ainda cá estou a comemorar os 34 anos de experiência, na vossa companhia, a juntar aos 20 anos que um dia deixei de fazer mais.
Celebro com uma Savana bem geladinha, uns cajús acabados de torrar numa mistela com muito gindungo e com a grata satisfação de vos ter como amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo, se não fosse ele redondo.
Até já!

Sanzalando

27 de outubro de 2010

fim dia viagem

Hoje é o ultimo dia por aqui. Dei no duro e não perdi nada, antes pelo contrário. Fiquei feliz não só pelos sorrisos que fui vendo numa língua que não entendo, como por mim mesmo. Dei de mim e não houve intermediários a ganhar o quê que seja. Agora vou beber uma ou duas birras, Hansa de preferência.
Voltarei dentro de dias já sem viagens no meio.
Um abraço e até lá.

Sanzalando

26 de outubro de 2010

missionei-me

Hoje me apeteceu ser criança outra vez e sair de casa apenas com os meus calções feitos de calças velhas. Tronco nu. Mal vesti a camisa e já eu escorria água de transpiração. Agora, se fosse na rua assim iam dizer mais como? Loucou! gritaria a pequenada que brinca na rua desde madrugada para mim e tarde na hora deles.
Mas eu tenho de estar apresentável e por isso eu tenho de vestir roupa de gente - moderna civilização que me assimilou.
Estou ensonado e s olhos com tanta luz parecem que me ardem de fogo. Eu já não estou habituado a ver claro. E em silêncio. Esta língua não é meu forte. Gaguejo mas lá vou indo onde quero ir, percebo até onde quero perceber, gesticulo que acho estou a fazer ginástica. Me entendo e me entendem. Isto aqui é que é importante. Vamos bulir mais um pouco que dia de festa acho não vou ter. Missionei-me ou quê?

Sanzalando

25 de outubro de 2010

estrangeiradamente calado

Eram pouco depois das sete daqui, ainda eram seis por ai, e estava a conhecer os cantos da casa. Em estrangeiro, é claro. E eu pedia, segundo a segundo, mais devagar por favor. Agora é hora de trabalhar. Vai fazer o que aqui vieste fazer. Silenciosamente, porque não domino o estrangeiro e antes calado do que asneirento. Não tenho tradutor. Canso-me mais e, mais consigo chegar longe se for devagar. Comecei bem o dia. A primeira correu bem e houve um abraço no fim. Pausa e paro para pensar. Que faço eu aqui tão longe e tão perto. Volto a ter que falar e agora tenho tradutor que me traduz para um estrangeiro que não domino mas arranho. Ok, é para avançar. Silenciosamente e o silêncio se contagia nos que me rodeiam. Faço gestos simples e assim nos vamos entendendo. 3 horas num bip bip de silêncios. Terminou. Não consigo saber se estou satisfeito ou não. Acho só amanhã eu vou ficar a saber. 
Agora vou beber uma birra, deixar a cabeça arrefecer e se ela quiser navegar por mares a norte daqui que navegue. Eu não lhe vou levar até lá. 
Alguém fala o que eu entendo. Pergunto donde e palavra puxa palavra ainda somos parentes de parentes conhecidos. Duas birras depois dizemos adeus e até breve num atré breve que pode durar outra eternidade como demorou esta a acontecer. Promessas...
Deito a cabeça na almofada e vou viajar para lá da imaginação, para além donde os sonhos não dormem.

Sanzalando

24 de outubro de 2010

um segredo bem guardado

Por aqui vou num caminhar ininterrupto. Ali acima, como quem olha num mapa, estás tu. Mas eu não te consigo alcançar. Me falta tempo, me falta um pouco de vontade e tenho a mais um pouco de vaidade ou teimosia. Areia tenho muita, mar nenhum que está longe e não me chega aqui o sabor salgado da maresia. Me disseram choveu faz pouco tempo e me custa acreditar. Acho aqui não choveu nunca, desde a criação do mundo. Mas também não é isso que é importante. Aqui é assim e ponto final que eu não estou aqui para mudar o mundo tal qual ele é. Tomara eu conseguisse mudar o meu e dar o saltito pequenino e te chegar num instante depois voltava e não ofendia a minha vaidade nem ofuscava a minha teimosia. 
Não. Eu vim aqui para estar aqui e é aqui que eu vou ficar. Teimosamente como sempre o foste para mim. Orgulhosamente teimoso como aprendi a ser contigo.
Tiver eu tempo e vou ver o mar. Frio como o mar que te banha. Mas ver não magoa ninguém e o mar deve dizer-me mais segredos por tão perto que te está.
Amanhã vou bulir, devagarinho que os 34 graus não deve dar para mais, e não vou pensar em ti. Penso eu que sou teimosamente orgulhoso. 
Hoje sou carcamano e ninguém sabe de mim.


Sanzalando

23 de outubro de 2010

me sento por aqui

Me sento aqui como se fosse o único no mundo. Há muito me perdi no tempo e não me fui procurar. Se penso nela o meu coração começa a vibrar e parece eu sou um tremor de terra. Se penso nela a minha boca seca parece vira o deserto que me rodeia. Porque é que quando eu lhe penso não me vem à cabeça ser um canguru e dar saltos de corrida, ou avião e ter asas para voar, ou ser apenas eu e passar ao lado?
Me sento por aqui, isolado, longe e perto (sei que só a morte, essa coisa que os comuns de nós nem sabe o que é, essa coisa que está para além do sono e não aquela coisa que a gente diz que viu a morte pela frente, essa coisa que só mesmo os mortos sabem o quê que é) me vai fazer parar de pensar.
Me sento por aqui num vagabundear de sentidos, de ideias e memórias e me deixo levar para além da imaginação e quase chego no sonho e lhe vejo ali, ardente, calma e ao mesmo tempo mostrando formas de agitação, a me esperar, nem que seja uma ínfima parte dessa eternidade que eu já esperei.
Vagabundo de sentidos, de formas e certezas, riu e choro por ela em cada segundo. Ela ali, quase num esticar de braços, mas ao mesmo tempo longe porque ela não me espera nunca. Ela não me sabe de existir.
Me sento por aqui, perfumado na maresia e quase me apetece deitar fogo aos pensamentos. 
Me sento por aqui, embalado no marulhar e quase me apetece afogar a imaginação.
Me sento por aqui, arrepiado de frio dos salpicos feito lágrimas e quase me apetece acordar.

Sanzalando

22 de outubro de 2010

aqui divago

Me deixo passear na areia da praia deserta. Aqui termina o mar. Tenho certeza, ele termina ali porque não me molha aqui. E é aqui na areia que eu passeio porque ele aqui está quase gelado e eu sei que do outro lado está quente, que me disseram parece é sopa. Mas aqui eu lhe escuto os segredos que ele me vai dizendo na imaginação. Aqui eu sei que se fosse sol eu era quente, se tivesse cor de luar eu era lua e se fosse azul eu era céu. Mas aqui ainda não consigo ser eu, apenas só o imaginário de mim existe. Às vezes eu penso eu sou neve de gelo, de tão frio que me vou tornando, montanha de sussurro sem eco, palavra sem sentido nem carícia. Aqui me vou perdendo nos dias de ilusão, nas noites frias de solidão, nos ritmos calados do choro abafado.
Me deixo passear na areia da praia deserta afogando silêncios no vento que sopra feito brisa. Aqui eu sei que se fosse humano eu era gente. 

Sanzalando

21 de outubro de 2010

Mundo imaginário

Por aqui sentado a ouvir o mar chego à brilhante conclusão que o mundo imaginário afinal existe. Eu pensava era só um filme que passava na minha cabeça. Mas afinal também os sonhos não dormem. Estes apenas estão perdidos num campo do mundo real e este é o mundo imaginário. O lugar onde estão os sonhos, lugar onde não existe matéria, não há dinheiro, nem polícias e ladrões, mas luz e escuridão, sol e chuva e uma montanha de sonhos pairando à espera de chegar ao mundo real, à espera que haja uma greta entre este mundo imaginário e o mundo real. Aqui não há culpas nem desculpas, nem esquecimento nem guerra. Há momentos e intervalos de momentos. 
Por aqui sentado a ouvir o mar, este deserto azul que não levanta poeira, me levo intercaladamente entre os mundos real e imaginário num passeio de faz de conta nas contas dum somar que um dia vai dar certo sem ter de fazer a regra dos noves fora.
Aqui sentado sei que o mundo imaginário existe, atrás de mim, nadando sobre mim e um dia ele vai fazer parte do mundo real, tal e qual o real que eu vivo.

Sanzalando

20 de outubro de 2010

É apenas hoje

Hoje não ouço o mar e mal dou por mim e estou num ofegante respirar. Me disseram que era ansiedade, eu digo que é só mesmo cansaço de correr atrás da imaginação, pular memória atrás de memória, ver corações bater como se num desenho animado vivesse. Me disseram era nervosismo e eu digo é apenas saudadismo. Olho à volta e não vejo mais as caras com que eu cresci, não ouço mais as vozes que me habituei a ouvir. Uns partiram e outros nem faço ideia onde é que estão. Meto conversa com estranhos e me entranho num mimesmo que nem deu para conhecer.
Hoje não ouço o mar nem lhe sinto o frio salpico duma maresia com que me perfumo.
Hoje não estou aqui, nem ali, nem acolá. Acho hoje eu não existo ou apenas porque desisto ou porque não é dia de existir.
Hoje não ouço o mar nem lhe vejo de lá longe.
Eu hoje não acordei, me desrisquei-me do calendário. É apenas hoje!

Sanzalando

19 de outubro de 2010

o dia mais feliz da minha vida

Estava para aqui sentado a atirar pensamentos em todas as direcções.  Um fraco veio cair quase nos meus pés. Ia sendo pisado por um pensamento meu. Lhe olhei nos olhos como se ele os tivesse e lhe vi que era um pensamento que dizia assim: o dia mais feliz da minha vida. Não tinha mais nada e foi por isso que ele não conseguiu voar em direcção nenhuma. Voltei a pegar nele, revirei de frente e de trás, de lado e só não lhe virei ao contrário porque ele era mesmo muito pequenino e não dava maneira de lho virar. Lhe tentei colar outros, dar-lhe forma e o o dia mais feliz da minha vida era um dia cinzento. Já tinha mais qualquer coisa. Mas tantos dias na minha vida foram e são cinzentos como é que eu vou descobrir este que seria especial? O dia mais feliz da minha vida era cinzento porque chovia, mas de quando em vez era abrilhantado por um raio de luz, fruto da trovoada.
Afinal de contas o pensamento tinha mais qualquer coisa. Eu é que lhe estava a desaproveitar. 
Me esforcei mais um bocado, tentei ver quem me rodeava e além de vultos desconsegui ver figuras com legendas, imagens mais reais estavam esbatidas no cinzento cerrado da carga de água.
Não, este vai ficar mesmo aqui aos meus pés. Afinal de contas ainda não tenho o dia mais feliz da minha vida. Ele é futuro.

Sanzalando

18 de outubro de 2010

emoções de mar

Sempre perto do mar. Um dia alguém me vai dizer que eu vou morrer afogado de tanto mar. Desimportei-me por completo. Esse mar aí, ele nasce mesmo lá pertinho do meu destino virado do início que será um fim certo. Mas por agora me sento, ou caminho perto dele, e me deixo navegar por pensamentos e imaginações. Esse mar assim que é água como é água a nossa emoção. A gente chora de felicidade, agente chora de tristeza, a gente sua de nervosismo, a gente sua de prazer. Portanto acaba por ser tudo uma inundação já que a gente não é nem robot nem máquina de fazer coisas.
Assim vamos lá recapitular, as nossas emoções como a raiva, a tristeza, a euforia, o amor e outras mais que se mostram com água, podem nos levar a tomar decisões erradas, precipitadas ou pelo contrário, nos fazem reagir quando parece que morremos de tanto espanto e tanta transpiração gelada.
Perto do mar as minhas emoções caminham como um rio para ele e ninguém vai notar na minha transparência. Ou pelo menos vai ficar na dúvida.

Sanzalando

17 de outubro de 2010

os meus avós

Cantarolo uma canção que invento, que a voz não é o meu forte e o meu sentido musical acho entrou de férias no dia que nasci. Mas tento sempre cantar quando sinto que a nostalgia me tenta afogar. Ajuda a passar o tempo e quem canta seus males espanta, me diziam os meus avós que devem ter aprendido com os avós deles e por aí fora e eu não sou ninguém para os contrariar.
Mas agora me recordei dos avós, esses mesmos, todos quatro, que me ensinaram que amar não é complacência e que um sorriso é às vezes muito maior que um texto de palavras. Agora me duvidei se esses avós conheceram minha descendência. Ingratidão da vida. Parece que nada bate certo. Acho vou rebobinar a minha vida e projectar de novo, como fosse um filme, até ter um final feliz.
Então os meus avós, esses que me levaram a conhecer o que era um rio, me levaram nas matinés de domingo de manhã, me encheram de mimos nos momentos todos que eu estive com eles, não conheceram a minha descendência, aqueles que existem porque eles existiram e me ensinaram tantas coisas?
Afinal a vida é cheia destas curvas. Um dia os canários vão cantar na minha janela e eu não vou precisar de assustar o vizinho com as minhas cantorias.

Sanzalando

16 de outubro de 2010

me sento perto do mar

Me sento perto do mar para recordar o meu sorriso e rever o teu sentir, ouvir as palavras que já te disse e falar as que tenho para te dizer, ouvir-te ouvir-me.
Me sento perto do mar para descobrir que sempre estive contigo mesmo quando andava perdido noutros amores e era cego por não te ver.
Me sento perto do mar imaginando-me bonito para me notares, pôr-me em bicos de pés para me veres e gritar para me ouvires.
Me sento perto do mar esperando que num amanhã me chames de amor e esqueças todos este tempo perdido numa pintura abstracta.
Me sento perto do mar para me sentar perto de ti.

Sanzalando

15 de outubro de 2010

abraço

Caminho daqui para ali e dali para aqui num nervoso miudinho que não me deixa estar quieto. Recordo a minha infância, os meus calções com alças que pareciam suspensórios, as minhas meias imaculadamente brancas a sobressair nas pernas mais finas que um caniço, o meu cabelo curto que mais parecia ia ser careca quando eu fosse velhinho. Recordo dos abraços da minha mãe, das minhas tias e não consigo recordar-me de alguma vez me teres abraçado. Sei que os teus braços são longos como longa pode ser a imaginação, sei que o teu calor maternal pode ser gelado, fervente ou nem uma coisa nem outra, apenas neutramente insensível.
Mas na verdade eu sempre acreditei no poder dum abraço. Ele nos faz sentir bem e até esquecer males grandes que nem as palavras conseguem dizer. Ele cura doenças, nem que sejam as da alma.
Enquanto caminho daqui para ali e dali para aqui penso nos abraços que fiquei de dar e adiei, nos que escondi porque parece mal, nos que ainda não tive tempo de pedir e nos que ainda não tive coragem para dar.
O abraço é um antidepressivo poderoso. Eu hoje queria ser abraçado por ti.

Sanzalando

14 de outubro de 2010

Hoje vou ser barqueiro

Hoje vou fazer de conta sou barqueiro duma canoa que anda por aí num vagabundear sem destino e nem hora. Anda no mar, anda no rio a minha canoa que remo sem destino e ela nem me protesta numa contestação de zanga ou de tédio. Ela sabe que se eu fosse assim mais novo eu remava num remar sem parar até ao destino que sonhei num sonho permanente de dormir ou de acordar e olhar no tecto as imagens projectadas desta imaginada viagem. Ela sabe que se eu tivesse forças ainda, ela não teria tempo para parar e respirar. Eu sei que seria um barqueiro duma canoa com força de vontade de me acompanhar na navegação deste sonho.
Hoje acordei com vontade de ser barqueiro.
Hoje vou remar nem que seja uma canoa imaginada neste mar de minha união.

Sanzalando

13 de outubro de 2010

palavras ao vento

Sentado de olhar perdido no mar atiro palavras ao vento e lhas imagino silaba a silaba desenhadas no ar a ondularem em direcção ao destino que lhes pensei. Elas se escrevem duma maneira suave que nem é barulho de velha máquina de escrever nem riscada de aparo de caligrafia. É doce ver as letras escritas no ar, a ondularem em direcção ao destino que lhes pensei.
Mas elas são assim escritas, com ritmo marcado pelo bater do coração, as letras que formam as palavras que eu atiro ao vento.
Vou vendo palavra a palavra e algumas acho que têm cara de alegria que me leva a pensar que estavam sofridas até eu lhas dizer, outras têm sabor amargo que até parecem que têm vida própria e não foram ditas nem por mim nem pela minha alma. Palavra a palavra, não seguindo nenhum padrão, não partindo de nenhuma ideia, gritada ou sussurrada, as palavras saem ondulantes em direcção ao destino que lhes pensei. Umas são poéticas, outras anedóticas e outras ainda esqueléticas num esquemático pouco prático. Uma palavras são de sedução, outras mostram sentimentos, outras informação e outras são apenas brilho de paixão.
Sentado a ver o mar atiro palavras ao vento e lhes vejo o destino que lhes penso e elas não lhe chegam.


Sanzalando

12 de outubro de 2010

eu só queria ver o mar

Vim ver o mar. Esse aí que um dia lhe chamei de zulmarinho, esse que me liga ao lado de lá, esse que às vezes me diz os recados das kiandas e me oferece as lágrimas que choras por mim. Mas hoje vim somente porque me apeteceu cheirar a maresia e sentir o vento fresco do mar. Não tinha outra ideia. Aqui é que nasceram estas ideias todas que se me atropelam na imaginação e na garganta, indecisas formas de lhes dar cor. Grito no vazio o teu nome e, para além duma onda mais forte que parece que rebentou mesmo em cima de mim, nada aconteceu. Escrevo na areia o teu nome em letras grandes que qualquer avião que passasse ia lhes conseguir ler e também nada se passou para além da minha anormalidade.
Afinal de contas eu vinha só saborear o mar de outono e ver se ele nascia quente por contágio e senti-me mais um a quem não deste atenção. Vais ver sou eu que não tenho valor, a minha cotação não é de ouro, dólar ou euro. Simplesmente podes até nem saber que eu existo.
Grito-te e escrevo-te e tu fazes-me sentir um mais outro qualquer inexistente. 
Eu não queria sentir dor, eu não queria sentir lágrimas a me escorrer na cara. Eu hoje queria só ver o mar . 
Ouço o mar por detrás do barulho das batidas do meu coração.
Mas eu só queria ver o mar. Hoje não me apetecia mais nada que ver o mar.

Sanzalando

11 de outubro de 2010

As minhas secretárias

Faz conta hoje é segunda feira e continuando no faz de conta imagina eu virei chefe. Chefe como chefe que é tem secretárias que ajudam nos papéis, a lhes desarrumar em pastas classificadas que quando elas faltam ninguém mais encontra, a lhes datilografar em letra legível de máquina de escrever, a lembrar a reunião onde vai ser marcada uma nova reunião e às vezes até para lembrar que algo importante há que fazer nesse dia que não é nem habitual.
Então neste faz de conta eu até que coloquei gravata, endireitei as costas, meti no rosto um ar de gente séria e uma brilhantina no cabelo que elas dizem chama-se gel. Me olhado no espelho vou contar que até a mim eu enganava. Parecia mesmo que era chefe e estava quase a me fazer um genuflexão de respeito, quando me lembrei que ele era eu. Eu o chefe dum dia de faz de conta.
Foi aí que me lembrei de lhes perguntar, nas duas secretárias, qual era o tema de hoje. Me responderam com um sorriso, uns ais de quem não quer ter a responsabilidade do dia. Lhes gritei de incompetentes e assim, hoje, eu decidi que não tinha tema para te dizer que hoje quase eu pensava era chefe desde lá do sul até ao norte, que nesta minha nova posição eu ia e vinha sem ter que dar satisfação a ninguém e ainda podia dar ordens que com esta minha pose tinha gente que ia até acreditar.

Sanzalando

10 de outubro de 2010

delirantemente vivo-te

Hoje tem por aqui sandes de tempo. Agora está sol mas antes estava era chuva que parecia ia ser outro dilúvio.
Porque é que quando a gente não gosta duma coisa exagera logo nela que até parece ela é demónio?
Mas estava eu a te dizer que hoje estava a pensar em ti e se fez um sol que até parecia o teu. Mas foi só eu pensar assim e logo as nuvens caíram em cima de mim e me molharam que até fiquei encharcado até no osso.
Com o tempo a me querer apanhar desprevenido decidi que hoje vou ficar aqui fechado a te ver de memória e a te viver de imaginação. Olhar o teu mar, saborear a tua comida, dançar a tua música e quem saber até viver-te um pouco, mesmo que para isso eu tenha que passar pelas brasas assim num lusco fusco de sobriedade.
Olha o sol como brilha... te digo isto num quase silêncio para as nuvens não me ouvirem. Deixa-me olhar pela janela um instante e saborear o teu sol que me chega através deste. Deixa-me saborear este outono daqui como se ele fosse o teu início de verão.
Deixa só olhar-te, mesmo que seja de imaginação.

Sanzalando

9 de outubro de 2010

quero libertar-me

Para aqui sentado tentando libertar a cabeça do peso da memória e dos salpicos amargos do inconsciente. Já vi o mar, que hoje acordou revolto salpicando lágrimas em todas as direcções, já vi o campo, alagado de emoções e não consegui ver-me livre destas imagens que trago na memória. 
Queria libertar-me de tudo o me é inerte de modo a não estragar as poucas páginas que ainda tenho em branco nesta memória, porque as quero guardar para as imagens reais que um dia eu vou ter, de manhã, amanhã ou noutro qualquer dia, que eu sou paciente na minha impaciência.
Queria liberta-me dos demónios do passado, reais e imaginados, físicos e virtuais porque quero criar novos campos onde o fogo não tenha cheiro.
Queria libertar-me das minhas demências, da minha realidade verdadeira e absoluta e equilibrar-me no egoísmo da razão solitária dum futuro promissor.
Aqui sentado, tendo culpabilizar-me das demências passadas que marcam os cinzentos escuros do presente num quadro negro do futuro, quero libertar-me das minhas prisões, correntes imaginadas que enferrujam em lágrimas verdadeiras e partir rumo a um lugar a sul.

Sanzalando

8 de outubro de 2010

ai se eu pudesse

Já caiu muita chuva, já amanheceu muitas vezes com tudo tapado pelo cacimbo como se uma cortina de renda apertada estivesse posta na minha janela e mesmo assim nada tem feito com que eu me esqueça de pensar nela um minuto menos. Acho até lhe a vejo de memória com mais nitidez e lhe sinto na alma uma maior nostalgia ou saudade e embriaguez mental.
Não sei porquê mas acho que a imagem dela se me foi gravada na memória a ferro e fogo.
Ai se eu pudesse voltar à minha sala de aulas e gritar que estou aqui, mas num aqui definitivamente fixo e lhe mostrar todos os momentos que vivi, rindo ou chorando, mas que são a minha vida de corpo inteiro, de alma esculpida em cada cabelo que branqueou com o tempo...
Ai se tivesse forças para esperar que o tempo parasse e as palavras não se diluíssem no ar... aqui me sentaria a ver os minerais de magnésio, as soluções de cloreto de sódio, as frases de Homero, os versos de Camões, as teorias de Sartre...
Ai se eu pudesse deixar de ter medo da chama de futuro que arde como fogo... abraçar-te-ia como te abraçava quando era criança.

Sanzalando

7 de outubro de 2010

um filme sem enredos

Me deixo enrolar no enredo dum filme de mistério enquanto estou naquela fase de dorme sem o fazer assim como que acordado mas mais para lá do que para cá. Eu sou o galã e ela a vilã. Tal e qual ao contrários dos filmes americanos dos meus tempos de calções e sandálias de pneu, acho eram Mabor que o dinheiro não dava para Dunlop. Mas afinal de contas o realizador a meio me baralhou que eu já nem sei quem sou, bandidei-me a meio e fui para a guerra combater os índios que não eram de pele vermelha e acho não eram amarelos e muito menos tinham uma cor que eu conhecesse. Ela me chorava em todos os cantos do enredo novelado num esparguete a dar para o mal cozinhado. Os cabelos dela faziam ondas como que a me mostrar que o vento soprava. Tufos de capim percorriam a rua principal, e única, dando um colorido pardo à cena enquanto ela me acenava sem que eu tivesse entendido se me dizia adeus ou se me dizia até nunca.
Foi aqui que uma rajada de vento me despertou puxando o cabelo como que a me querer arrancá-lo. Eu olhava apenas para um dia de outono sabendo que noutro lugar estava um lindo dia de verão e me deixei levar na sonolência da imaginação. Ela não estava ali de cabelos ao vento e a rua não era propricia a tufos de capim.

Sanzalando

6 de outubro de 2010

´faz horas

Faz horas que estou aqui parado a olhar para lá da janela. Acho que que passaram horas, porque na verdade eu não dei que elas tivessem passado e, se passaram, foi silenciosamente, tal qual eu estava debruçado na janela a olhar não sei ainda para onde pois não me lembro do que vi porque apenas sei o que eu imaginei. Eu vi, de memória, o teu corpo, senti, de memória, o teu perfume e acariciei, de memória, o teu ar.
Eu sei que vi tantas luzes a circularem-me e, de vez em quando, elas se juntavam e davam uma nova imagem à minha memória.
Não sei se eu tenho um lado paralelo na vida que me dá esta abstracção, que me leva a ver-te mesmo quando os olhos vermelhos das lágrimas não vertidas não conseguem, as mãos cansadas te procuram e o teu corpo é uma ilusão.
Mas a verdade é que eu sei que tu és verdade e estás muito para lá da minha janela. Mas sinto-te na minha imaginação e te tenho na minha memória.
Faz horas que aqui parado penso num beijo que te poderia estar a dar...

Sanzalando

5 de outubro de 2010

chorarei a céu aberto.

Me perco de mim em passagens por imagens imaginadas. Arranco-me do passado em direcção a um futuro que idealizo e levo essas imagens como se elas fossem cópias da realidade. Vivo-as reinventando a nossa vida a dois como se nunca nada  nos tivesse separado. Com os meus dentes e as minhas mãos inquietas percorro o teu virtual corpo, saboreio-te o perfume e me aqueço no teu calor. Faço da minha impaciência carnal um ritual que pode parecer uma dança ou uma histeria, mas a imagem imaginada me é real. Vivo-a e perco-me nessa vivência e mais uma vez me afogo nas palavras que ficaram por te dizer. A tua voz, sempre silenciosa, me transmite a incerteza de um dia tudo voltar-me a ser como dantes.
E eu, como sempre, me perco na cadeia de realidades que me inventei contigo. Sons, luzes e cores, odores e perfumes carregados, música alta abafando sofrimentos e eu, como sempre, perdido em imagens que te inventei. Sempre sem passado e com incerto futuro caminho vagabundeando pela imaginação colorida da insónia.
Talvez me diga que se saltar fronteiras eu me encontre e uma nova vida seja para mim reinventada. Talvez assim os meus olhos deixem de chorar e eu deixe de procurar na desarrumação da memória as imagens que te guardei.
Me perco sempre por aqui, sem norte e sem sul, com a alma nua e lágrima salgada correndo para o mar da desilusão.
Um dia, vou acordar e vão-me dizer que é tarde.
Aí tomarei conta da dança, reinvento-a e me dirão que fui copiar à realidade a minha vida. Chorarei, mas desta vez a céu aberto.


Sanzalando

4 de outubro de 2010

fantasmagóricamente chego-te

Doem-me os pés de tanto andar, a boca seca de tanto falar e a cabeça cansada de tanto pensar. Me deito no chão esticando as costas, recapitulo o dia e os sonhos acordados que sonhei e que mais uma vez não os realizei.
Sinto o corpo cansado de tanto viver e até parece vivo sem motivo. Fecho os olhos cansados e lacrimejantes que de tanto olharem já nada vêem, a claridade os incomoda e a escuridão os afoga. Me deixo sair do corpo e vagueio feito alma pelos meus arredores corporais. 
Deve ser o sono que me faz navegar por caminhos de fantasmas. Me deixo ir. Cheguei ao pé de ti. Senti o teu perfume. Foi aí que desconectei os meus lábios e gritei o teu nome até à exaustão e os deixei percorrer-te.
Doem-me os pés de tanto caminhar pelos caminhos redondos que desenho em palavras escritas pela alma. Fecho os olhos e descanso num até amanhã de outro dia que um dia vai ser real.


Sanzalando

3 de outubro de 2010

voz da consciência

Era madrugada. Acho ainda não tinha rompido a aurora porque ainda não entrava claridade pelas frestas da janela mal fechada e algures eu ouvia uma voz. Desconhecida por sinal. Voltei a fechar os olhos e tentei num esforço adormecer e esperar a manhã nascesse. Se me misturou na alma a dúvida e a angustia e me deu a volta no estômago que até parece ficou com um nó. Me levantei e percorri os cantos da imaginação e tentei perceber o que a voz dizia, assim como tentava adivinhar donde é que ela vinha. Não me sei dizer se era só angustia e duvida, mas acho era medo também que estava a nascer, porque além da voz parece eu ouvia passos lentos e leves. Se é a morte que me chama acho ela não vinha assim de mansinho, se é ladrão dentro de casa acho não iam falar, gesticulavam como eu aprendi nos filmes da matiné. Donde é que vem essa voz que me acordou nesta madrugada ainda noite?
Acho era apenas a voz da consciência vagabundeando pela minha imaginação. 

Sanzalando

2 de outubro de 2010

dói-me

Dói-me a cabeça como um latejar ritmado duma martelada com cadência certa. Aproveito os intervalos para sorrir como que a descansar, para rever um passado de passado faz mais que tempo que só lhe tenho na memória com riscos e bolinhas parece é uma camisa de mil flores e uma calças à boca de sino. Mas o raio da dor de cabeça não pára de me azucrinar o cérebro ao ponto que eu já não conheço as formas, já não visualizo para lá do daqui a pouco e a cegueira desta dor surda não pára de me atormentar. Ai, vou-me tornar impermeável, seco de sentimentos e frio de carinhos , e assim não me atormentará mais esta dor de cabeça.
Dói-me a cabeça, deve ser dalgum problema por resolver. Tantos ficaram por o fazer, porque será que um me atormenta assim tanto?
Vou usar um turbante, enrolar a dor e afogá-la no seu próprio ar.
Afinal de contas, vou tomar qualquer coisa, porque esta dor de cabeça deve ser indicador de qualquer coisa sem importância, um reflexo interno dalguma coisa externa, até a mim. Deve ser uma desordem emocional dum objectivo consciente e natural.
Afinal de contas, que mais sou que não um outro qualquer, com qualidades e defeitos?

Sanzalando

1 de outubro de 2010

desisti de envelhecer

Me enrolo na areia brincando como quando era criança. Faz conta eu assim não vou chegar a mais idade, àquela idade em que a gente pensa que sabe tudo e resmunga e teima e ainda por cima pensa que tem sempre razão. Eu não quero ser amigo da idade. Eu não vou querer ouvir dizer aquele senhor de idade quando estão a falar de mim, eu não vou querer ser o resistente das ideias novas que julga que me vão atirar para um canto como quem pega um jornal velho para limpar uma janela.
Me enrolo na areia com a mesma gargalhada que descobri faz tempo nos filmes de 8 mm dum cinema de antigamente que era em mudo e a preto e branco. Me atiro na água da mesma forma, mas mais volume como fazia quando pensava era homem pássaro a entrar nesse de zulmarinho a dar para o frio.
Me enrolo na areia como que a relaxar dum dia de descanso mesmo que tenha trabalhado que nem um escravo, que me doa o corpo do reumático, a cabeça da falta de vista, a respiração seja ofegante como se estivesse corrido centenas de quilómetros sentado numa secretária a atirar postas de pescada.
Me enrolo na areia, apenasmente porque desisti de envelhecer como os outros da minha idade.

Sanzalando


WebJCP | Abril 2007