recomeça o futuro sem esquecer o passado

25 de outubro de 2026

Há dias em que na rádio tudo conspira contra nós

Há dias em que trabalhar na rádio é uma experiência espiritual. Não porque nos aproxime de Deus, mas porque nos faz chamar por Ele com uma frequência que nem o melhor transmissor consegue captar.

Começa logo na montagem do material. Chegamos com a boa disposição de quem acredita que vai salvar o mundo. Cumprimentamos os colegas, ligamos os equipamentos e preparamos o programa com rigor.

Afinal, anos de experiência ensinam-nos que, na rádio, como na medicina, não basta saber o que se vai fazer. É preciso que os instrumentos colaborem. E é aí que começa a tragédia. O microfone não funciona. Os auscultadores só dão som de um lado. O computador decide actualizar-se precisamente quando precisamos de abrir a aplicação. A mesa de mistura, que ontem era uma senhora respeitável, hoje comporta-se como uma adolescente malcriada.

Carregamos num botão e desaparece o som. Carregamos noutro e aparece um ruído que mia parece uma manada de térmitas a trabalhar.

- Está tudo bem? — pergunta o colega, com aquela serenidade irritante de quem ainda não percebeu que estamos a dois minutos de entrar em antena.

- Está óptimo! — respondemos, com um sorriso que mais parece uma ameaça, escondendo uma vontade enorme de nos esganarmos.

É então que descobrimos que a entrevista que preparámos cuidadosamente não está assim tão fácil. O convidado chega em cima da hora. O telefone toca, mas ninguém sabe onde está o telemóvel que deveria atender a chamada. E a música de abertura sai colada a uma m~usica que temos pensa de interromper. A rádio tem destas coisas. Quanto mais preparados estamos, mais empenhada parece em demonstrar que a preparação é uma forma de optimismo excessivo. E chega a hora de entrar em directo. Acende-se a luz vermelha. Respiramos fundo. Endireitamos as costas. Aproximamos a boca do microfone e assumimos aquela voz segura, grave e confiante, própria de quem sabe exactamente o que está a fazer.

- Boa tarde daqui da Meia-Praia... - só que é noite e a praia é a de Alvor. A cabeça faz piruetas, o buraco da agulha não está à mão de semear e o frio transforma-se numa enorme transpiração que até parece fazer nevoeiro à volta do resto do pensamento

Nesse preciso instante, decidimos continuar a falar embora desejemos que falhe a luz ou a internet. Afinal, a rádio também é uma questão de fé. Talvez os ouvintes ainda nos escutem. Talvez o sinal tenha seguido por caminhos misteriosos. Talvez exista uma antena escondida no céu, alimentada pela boa vontade dos profissionais da comunicação entretanto falecidos.

Do outro lado nós, o que também fazemos de técnico, fazemos gestos desesperados. Pareço um árbitro a tentar anular um golo. Mantemos a dignidade, porque um locutor pode perder o som, o alinhamento e até a paciência, mas nunca deve perder a pose. Mas a emissão continua

O microfone de quem está a meu lado chia, range, faz ruído por cima da voz dela. Equalizo. Nada. Tiro ganho. Nada. Mudo de microfone. O ruído está lá para me irritar. Carregamos nos botões. Dá vontade de interromper e deixar um silêncio no ar. Mantenho a compostura. Vai assim e depois pensarei. Naquele momento, também nós precisávamos de desentupir qualquer coisa: a mesa de mistura, o computador ou, de preferência, a cabeça. O mais extraordinário é que, no final, tudo acaba por correr razoavelmente bem. Os convidados chegaram, a conversa correu fluente e até o computador parece ter recuperado a educação, a mesa reeducou-se e os microfones estavam quase perfeitos. Só mesmo aquele lugar ao lado de mim...

E quando saímos, alguém me pergunta:

- Então, como correu o programa?

Respondo com a tranquilidade dos grandes profissionais:

-Correu muito bem!

Porque há verdades que não precisam de ser transmitidas em FM. A verdade é que, nesses dias, a rádio ensina-nos uma lição preciosa: o directo não é a arte de fazer tudo bem; é a arte de impedir que os outros percebam tudo o que correu mal. E talvez seja precisamente isso que nos faz gostar tanto disto.

A rádio é feita de vozes, música, histórias e imprevistos. É feita de pessoas que, mesmo quando tudo falha, encontram maneira de continuar. Afinal, o ouvinte não tem culpa de o computador estar a viver uma crise existencial ou de o microfone ter decidido entrar em greve.

E amanhã voltaremos. Com a mesma vontade, a mesma paixão e, se possível, um cabo suplente no bolso. Porque na rádio há dias em que tudo corre mal. Mas há uma coisa que continua a correr bem: a vontade de voltar a abrir o microfone. Só não prometemos que seja o microfone certo.


Sanzalando

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