Quando cheguei a Portugal, vindo de Angola, trazia comigo uma meia dúzia de sonhos, uma quantidade razoável de ingenuidade e uma certeza absoluta, estava apaixonado.
O problema é que eu conhecia muita geografia teórica de Portugal e quase nada da geografia dos meus sentimentos.
Em Angola, na minha cidade, que uns teimam em chamar de mato, sabia orientar-me. Conhecia as ruas, os bairros, os atalhos, os caminhos para a praia e até aqueles sítios onde era melhor não passar quando o sol começava a esconder-se. Mas em Portugal era outra conversa. Não conhecia as ruas, não conhecia os transportes, não conhecia os costumes e, pior ainda, não conhecia ninguém que me pudesse explicar onde raio ficava o amor. Porque o amor, naquela idade, tinha uma morada. Eu é que não a sabia.
Saía de casa com a determinação de um explorador à procura de uma civilização perdida. Só que, em vez de bússola, levava um papelinho com dois ou três nomes de ruas e uma vaga indicação de que era por aqueles lados. Conversas de antigamente que contava dos amigos que tinha quando calhava vir cá de férias. Eu até sabia os nomes deles. Uma vaga ideia da zona, mas naquele tempo em que ela contava eu não fazia ideia que um dia tinha que ir às páginas amarelas da memória buscar uma morada. Aquilo que eu sabia era pouco, mas para um adolescente apaixonado era praticamente um mapa militar.
Comecei a andar pelas ruas. Olhava para as montras, para os cafés, para as paragens dos autocarros e para todas as raparigas que se cruzavam comigo. Algumas olhavam-me de volta. Eu interpretava aquilo como um sinal do destino. Devo estar perto e elas sabem. Outras nem sequer reparavam na minha existência, mas eu atribuía a culpa à iluminação pública ou às sombras das árvores que naquela zona eram grandes. Havia ainda o problema dos nomes das ruas. Em Angola, eu sabia onde estava. Em Portugal, uma rua podia chamar-se de Benfica, outra de Uruguai, outra de Avenidas Novas. Parecia que tinham distribuído nomes pelo território sem qualquer preocupação em facilitar a vida aos recém-chegados.
Perguntava a um transeunte:
- Desculpe, sabe onde fica esta rua? - e mostrava um papelinho onde tinha rabiscado o que eu me lembrava da tal de páginas amareladas da memória.
O homem leu, olhou-me de alto abaixo, explicava-me com uma naturalidade impressionante:
- Vai sempre em frente, vira à esquerda, depois à direita, sobe a calçada e encontra uma praça. É logo ali.
Eu agradecia, mas ficava com vontade de lhe perguntar se não havia uma maneira mais simples de chegar lá. E lá ia eu. Subia, descia, atravessava praças, passava por igrejas, lojas e cafés. Começava a conhecer Lisboa à força de andar perdido. Se alguém me perguntasse onde ficava determinada rua, eu já podia responder com segurança:
- Não sei, mas já passei lá umas quatro vezes hoje, por isso deve se por aqui.
O meu sentido de orientação era tão desenvolvido que conseguia perder-me até em ruas onde já me tinha perdido no dia anterior. Mas havia uma coisa que me mantinha motivado, a possibilidade de a encontrar. Às vezes imaginava que ela ia aparecer de repente, saída de uma esquina, com aquele sorriso que me fazia esquecer que estava em Portugal, em Angola ou em qualquer outro lugar do planeta. E eu, naturalmente, teria uma entrada triunfal. Na realidade, ensaiava mentalmente o encontro.
- Olá! Que surpresa! - diria eu. Não, demasiado banal.
- Então, aqui?! - como se eu não andasse dias à procura dela
Ridículo. Afinal, ela estava na cidade dela, ela tinha nascido por aqui e eu é que andava feito turista, detetive ou em Romeu à procura da sua Julieta.
- Há quanto tempo! - ainda pior, porque talvez ela já nem soubesse quem eu era.
Depois destes ensaios todos lá voltava eu para casa, a pé, perguntando sempre a alguém, mostrando a minha morada escrita em letra desenhada para não me perder nesse regresso.
Eu já conhecia aquela zona de Lisboa melhor que a minha cidade. Mas ou a memória me tinha atraiçoado ou então ela me tinha enganado contando estórias de férias inventadas. Eu nunca podia acreditar que ela faria uma coisa dessas. Eu podia fazer-lhe, mas ela nunca. Punha o meu pescoço na guilhotina por ela.
Eu continuava a andar todos os dias com mapas desenhados à noite, vasculhando as minhas memórias, as conversas que tinha com o pai ou a mãe dela. Eu andava à procura sem destino desenhado. Era rumo traçado no mapa da memória que colava no que tinha à frente dos olhos.
A minha vida amorosa era, portanto, uma espécie de serviço de transporte pedestre, muitas voltas, várias paragens e nenhuma garantia de chegar ao destino.
Hoje, olhando para trás, percebo que naquele tempo não estava apenas a aprender as ruas de Portugal. Estava a aprender a viver num país que me era estranho, a descobrir pessoas, hábitos, palavras e maneiras de estar que me eram totalmente diferentes. Ou eu é que era diferente e tratado de modo diferente. Aqui não tinha machimbombo, aqui tinha metro que era andar assim debaixo da terra de comboio. Aqui tinha ladeira e não havia subidas, alcatrão era às vezes e outras era assim pedra ao lado de pedra com carril de comboio de uma só carruagem a andar e lhe chamavam eléctrico e a gente bem que sabia porque ele tinha antena que ligava num fio lá em cima e tocava campainha que parecia era sino da escola. Aquela semana foi instrutiva. Descobri o Jardim Zoológico mas me disseram que tinha de pagar para entrar. Na minha terra não era preciso e nem tinha muro à volta. Essa semana foi marcante porque até fiz anos nela. E, sobretudo, descobri que a saudade de Angola podia viajar comigo, dentro da mala, mas que o coração tinha uma capacidade extraordinária de arranjar espaço para novas aventuras. Nunca cheguei a perceber se encontrei Portugal à procura dela ou se encontrei o meu lugar em Portugal por causa dela. Sei apenas que caminhei muito.
Gastei sola de sapato, pouco dinheiro em transportes e uma quantidade de energia que hoje só consigo reproduzir com ajuda médica. E tudo por amor! Há quem atravesse oceanos para descobrir novas terras. Eu atravessei um oceano para descobrir Portugal e depois percorri metade da cidade à procura de uma rapariga.
O mais engraçado é que, naquela altura, se alguém me perguntasse onde ficava o meu destino, eu responderia sem hesitar:
- Não sei muito bem. Mas dizem-me que ela costuma andar por ali.
Afinal, vim de Angola sem conhecer Portugal, mas já trazia uma coisa perfeitamente definida: sabia muito bem onde queria chegar. Só não sabia como lá chegar. E, convenhamos, para um adolescente apaixonado, isso já era uma enorme vantagem. Hoje tenho setenta anos e continuo convencido de que o primeiro GPS que inventaram foi o coração. O problema é que, naquela idade, não tinha atualização de mapas, não avisava das curvas perigosas e, sobretudo, não recalculava a rota quando a rapariga não morava naquele sítio.
Mas que me fez conhecer Lisboa... lá isso fez!
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