Nos idos anos de 1970, eu tinha uma certeza absoluta: queria trabalhar na rádio. Não só por sentir aquela vocação jornalística, amor à comunicação social ou desejo de informar o povo. Nada disso. Eu queria também impressioná-la.
A menina em questão frequentava o mesmo liceu, tinha uns olhos capazes de provocar perturbações na emissão de qualquer estação de rádio e uma maneira de sorrir que me fazia esquecer, simultaneamente, qualquer teorema, a matéria de História e o meu próprio apelido.
Ela não sabia da existência do meu amor. Ou, se sabia, fazia de conta que não sabia, o que, para um adolescente apaixonado, era uma forma particularmente cruel de censura prévia.
Foi então que descobri a rádio. Um desejo há muito desejado mas agora com necessidade acrescentada.
No liceu, entre duas aulas, havia um intervalo durante o qual alguns alunos se dedicavam a actividades de grande importância para o futuro da humanidade: comer uma sandes, copiar os trabalhos de casa, perseguir colegas pelos corredores ou fingir que tinham percebido a aula anterior. Eu decidi fazer rádio.
Arranjei maneira de ser admitido no Rádio Clube. Não lhes disse que eu não queria público, que queria uma ouvinte. Uma única, ela.
Mas, como a tecnologia da época ainda não permitia transmitir directamente para o coração de uma rapariga, tive de recorrer ao sistema tradicional: falar para toda a gente, esperando que ela percebesse que tudo aquilo era para ela.
Comecei por estudar os grandes locutores. Treinava a voz diante do espelho, tentando encontrar aquele tom, seguro e ligeiramente misterioso que fazia as pessoas acreditar que o homem do microfone conhecia os segredos do universo. O problema era que, aos dezasseis anos, a minha voz ainda não tinha decidido se queria ser de homem ou continuar a ser de menino. Às vezes começava grave, como um locutor dos documentários antes do filme, e acabava aguda, como uma chaleira a ferver da minha avó. Não desisti.
Todos os tempos eram uma oportunidade para aperfeiçoar a arte de falar ao microfone e, sobretudo, para lançar mensagens subliminares à minha amada.
- Muito bom dia, estimados ouvintes! Está no ar mais um momento musical dedicado à juventude, ao amor e à beleza da vida! - fazia uma pausa dramática. Era importante que ela percebesse.
- Esta próxima canção é dedicada a todas as pessoas que, mesmo sem saberem, tornam os nossos dias mais bonitos.
Olhava discretamente para a minha memória, onde estava fixada um fotografia dela.
Aparentemente, a mensagem tinha sido recebida por toda a população, incluindo o contínuo do liceu, duas professoras de Português e um rapaz que estava a comer um pastel de nata. Não sei se pela destinatária, também. Aqueles foram o que posteriormente se referiram à minha frase.
Passei, então, a escolher músicas de acordo com a gravidade da situação sentimental. Se estava optimista, punha uma canção alegre. Se ela me ignorava, escolhia uma música melancólica. Se a via a conversar com outro rapaz, entrava numa fase artística que os ouvintes poderiam confundir com o fim da civilização ocidental.
Foi assim que o liceu ficou a conhecer o meu gosto musical, a minha capacidade de improvisação e, sem que eu o desejasse, a instabilidade emocional da minha adolescência. Um dia, resolvi elevar a fasquia. Preparei uma emissão especial dedicada ao amor. Tinha escolhido cuidadosamente as músicas, escrito algumas frases que considerava de uma profundidade filosófica extraordinária e ensaiado diante do espelho a expressão de quem sofre muito, mas sofre com elegância. O programa começou bem.
- Há sentimentos que não precisam de palavras. Basta um olhar, um sorriso, um gesto...
Nesse preciso instante, alguém abriu a porta do estúdio e gritou:
— Ó pá, despacha-te! A tua professora já chegou ao Liceu!
A minha poesia morreu ali, entre o microfone e uma chamada de atenção. Ainda assim, mantive a dignidade.
- E agora, meus amigos, vamos ouvir uma canção para aqueles que acreditam que o amor vence todas as dificuldades!
Carreguei no botão errado. Em vez da música romântica, entrou um disco de música popular tão animada que parecia ter sido gravado para acompanhar a inauguração de uma fábrica de refrigerantes. Eu sorri, fingindo que tudo fazia parte de uma sofisticada experiência radiofónica destinada a demonstrar a versatilidade da música contemporânea. Era preciso salvar a reputação. Quanto a ela, vi-a rir quando entrei esbaforido pela sala de aula.
E foi nesse instante que compreendi que talvez tivesse conseguido alguma coisa. Não sabia se tinha percebido as minhas dedicatórias. Não sabia sequer se me considerava um locutor talentoso ou apenas um rapaz com acesso indevido a um microfone. Mas tinha-se rido. E, para um adolescente apaixonado, fazer rir a mulher amada era quase tão importante como fazê-la apaixonar-se. A diferença era que, no primeiro caso, bastava uma boa piada. No segundo, era necessário um milagre.
Continuei a fazer rádio durante uns anitos. Anunciei discos, dediquei canções, falei de artistas, improvisei notícias e desenvolvi uma voz radiofónica que, com o tempo, deixou de parecer uma chaleira a ferver. Ela, entretanto, continuou a sua vida. Estudava, conversava com as amigas e, suspeito, não fazia a menor ideia de que tinha um adolescente a organizar a programação musical por sua causa. Talvez tenha sido melhor assim. Porque, se ela tivesse sabido, poderia ter-me pedido para dedicar menos canções e estudar mais Matemática.
E teria toda a razão.
Hoje, quando olho para trás, percebo que, naquele tempo, eu não fazia rádio apenas para impressionar uma rapariga. Fazia rádio porque tinha descoberto uma maneira de dizer coisas que, frente a frente, nunca teria coragem de lhe dizer. Ao microfone, eu era eloquente, seguro e quase irresistível. Na presença dela, tornava-me um móvel. Um móvel de boa qualidade, reconheço, mas ainda assim um móvel bantente imóvil.
A rádio deu-me uma voz. O amor deu-me assunto. E a adolescência encarregou-se de me convencer de que as duas coisas, juntas, poderiam resolver todos os problemas da existência humana. Não resolveram. Ela não se apaixonou necessariamente por mim, eu não me tornei uma estrela da rádio e a Matemática continuou a ser uma ciência hostil embora agradável. Aprendi uma coisa que os manuais escolares nunca ensinaram: às vezes, começamos uma carreira por razões muito pouco profissionais. Há quem entre na política para mudar o mundo, quem estude Medicina para salvar vidas e quem faça rádio para dar voz aos que não a têm.
Eu, em 1970, queria apenas que uma menina me ouvisse. O destino, que tem um sentido de humor muito particular, acabou por me deixar o microfone na mão.
E ela? Ela ficou na memória, entre uma canção dos anos 70 e o ruído de fundo de um liceu onde um rapaz tentava desesperadamente transformar uma paixão platónica num programa de sucesso. Se hoje pudesse voltar àquele tempo, faria tudo de novo. Talvez escolhesse melhor as músicas, talvez falasse menos de amor e talvez estudasse um pouco mais. Mas não abdicaria do microfone. Porque, afinal, há amores que não chegam a acontecer, mas dão excelentes programas de rádio. E há adolescentes que nunca conseguem conquistar a rapariga dos seus sonhos, mas acabam por descobrir a sua própria voz.
Eu não a conquistei. Mas, durante os programas, consegui conquistar o éter. E, convenhamos, para um rapaz de dezasseis anos, com borbulhas, calças à boca de sino e um coração em permanente estado de emergência, já não era nada mau.
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