recomeça o futuro sem esquecer o passado

27 de outubro de 2026

Em memória de um amigo, aprendiz de sonoplasta e pianista dos Mini-Nota

Tem pessoas que tocam na nossa vida e deixam marcas que o tempo não consegue apaga como o Ermelindo Sena, que, mesmo sendo tímido por natureza, deixa uma presença que continua a fazer-se ouvir depois de se calar.

Conheci o Ermelindo na década de 70, quando foi meu aprendiz de sonoplasta no Rádio Clube de Moçâmedes. Eram tempos de rádio, de experiências, de descobertas e de sonhos. A rádio tinha os seus mistérios, os seus botões, os seus microfones e aquela magia de transformar sons em emoções. E o Ermelindo foi aprendendo a dominar esse mundo, com a paciência de quem não precisava de levantar a voz para mostrar que estava presente. Aliás, tinha vezes que ele falava e ninguém lhe ouvia. A timidez ficava-lhe com o som e deixava passar o sorriso. Era tímido, sim. Daquela timidez genuína, que não se aprende nem se representa. Uma timidez que, por vezes, o fazia falar pouco, mas que não o impedia de sentir muito. 

E depois havia o piano. O Ermelindo era pianista dos Mini-Nota. Quer dizer organista porque ele tocava era órgão que tem o som de piano mas não é piano. Acho tem um circuito lá dentro, tipo gente minúscula que toca tudo. E talvez seja essa uma das mais bonitas contradições da sua personalidade, o homem que a timidez convidava ao silêncio encontrava na música uma maneira de dizer aquilo que as palavras, tantas vezes, não conseguiam exprimir.

Ao piano, os dedos falavam por ele. As notas ganhavam voz, as melodias abriam caminhos e aquele puto discreto mostrava-nos que a sensibilidade nem sempre se anuncia. Às vezes, sentava-se diante de um teclado e deixava que a música faça o resto que lhe faltava.

Hoje, a notícia da sua morte traz-nos uma tristeza difícil de traduzir. Depois de uma doença prolongada, o Ermelindo partiu. E, perante a partida de alguém que conhecemos desde tão longe, percebemos como a vida tem esta maneira cruel de nos devolver ao passado, revemos rostos, recordamos conversas, escutamos sons que julgávamos esquecidos e encontramos, dentro de nós, pessoas que nunca deixaram verdadeiramente de estar presentes.

Volto, por isso, à década de 70. Volto à rádio, ao aprendiz que procurava aprender, ao companheiro de jornada, ao pianista dos Mini-Nota. Volto a um tempo em que talvez não soubéssemos que aquelas horas, aparentemente tão comuns, haveriam de se transformar em memórias tão preciosas.

Na altura, tínhamos o futuro pela frente e não imaginávamos quantas despedidas íamos ter pela frente. Vivíamos sem pensar demasiado no fim das coisas, porque a juventude tem essa generosidade: faz-nos acreditar que haverá sempre mais um programa, mais uma música, mais um encontro. Mas a vida não nos concede todas as repetições que desejamos.

Hoje, Ermelindo, não posso ensinar-te mais nada sobre sonoplastia. Também já não podemos conversar sobre a música, sobre os sons ou sobre os silêncios. O teu percurso chegou ao fim, e custa aceitar que alguém com quem partilhámos uma parte da vida passe a existir apenas na lembrança.

Mas há uma coisa que a morte não consegue fazer que é apagar aquilo que vivemos.

Continuas presente nas memórias de quem te conheceu, na história dos Mini-Nota, nos sons de uma época e, muito particularmente, na minha própria história. Foste meu aprendiz, mas a passagem dos anos ensinou-me que estas relações nunca têm apenas um sentido. Quem ensina também aprende. E quem acompanha alguém no início de um caminho acaba por receber, muitas vezes sem dar por isso, lições que guarda para sempre.

A tua timidez nunca foi ausência. Foi apenas outra maneira de estar no mundo. E talvez seja por isso que a tua partida nos deixa agora um silêncio tão grande.

Descansa em paz, Ermelindo Sena.

Que a música te acompanhe nesta última viagem. Que encontres a serenidade que mereces. E que, onde quer que estejas, haja sempre um piano à tua espera e alguém disposto a escutar. Hoje, a rádio perde uma pessoa discreta, a música perde um pianista e eu perco alguém que fez parte da minha história. Fica a saudade. Fica a amizade. Fica a memória de um tempo que já não volta, mas que continuará vivo enquanto houver quem o recorde. E, quando o silêncio parecer demasiado grande, talvez possamos fechar os olhos e imaginar que o Ermelindo voltou a sentar-se ao piano.

E que, por instantes, a música nos devolve aquilo que a vida nos levou.

Até sempre, Ermelindo.


Sanzalando

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