recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de maio de 2021

fuga

E nas férias grandes eu fico assim numa submersão de dores de alma. Vou no planalto e tu ficas não sei por onde e a gente durante uma eternidade de tempo não se vê nem se fala, mesmo que essa eternidade só tenha a duração dum mês.

Esta ansiedade, esta ausência, esta coisa absurda afecta o meu corpo, a batida do meu coração, a secura da minha garganta e a minha capacidade de ser racional. Mudei e transformei-me num monstro de mim, numa amostra do que fui na minha curta e vadia vida. Como é que vou fazer mais para ter paz em mim? Quando é que eu vou ter luz para te dizer que eu carente e dolorosamente sofro por não conseguir dizer o quanto te gosto neste presente de agora.

Vou fugir deste terror interno.

Sanzalando

11 de maio de 2021

recordo-me

Hoje comemoro uma revolução que houve lá no canto que manda na gente. Ficámos por aqui contentes porque vamos começar a decidir quem somos, o que queremos e por onde vamos. Crianças adolescentes irresponsáveis optamos por beber todo o vinho que nos enviam desde lá desse canto que aqui não o podemos produzir. Fizemos festa. Percebemos que a revolução começara e os nossos corações começaram, a cantar as músicas da mudança.
Mais tarde deste presente, num futuro mais próximo, eu viria a perceber que começava aqui neste presente a minha destruição amorosa. 
Fizemos as nossas opções, umas por conhecimento e outras apenas por paixão e quando entra esta sai a razão. Participámos activamente. Fomos escolhidos para isto e para aquilo. Pensei eu era importante. Os nossos encontros começaram a ser espaçados porque havia reuniões e comités. Mas a paixão ardia-me e eu procurava-te constantemente. O teu olhar chegava para eu saber de aprovação ou não.
Começou a confusão e o teu pai optou por te mandar para um porto seguro que era lá no canto que mandava nisto tudo. 
Fiquei. Triste e consumido. Toda a solidariedade, todo o fervor se diluía na tristeza da solidão. Murchei como se fosse uma flor esquecida de ser regada. Entristeci a ponto de doer.

Sanzalando

#lugaresincriveis


10 de maio de 2021

passados desvividos

Me ponho a olhar-te numa quase nudez de pensamento. Todos os detalhes guardo na memória e com ela os vou perdendo gradualmente. Uns afastam-se pelo tempo que nos passou, outros apenas porque não era a verdade que eu memorizei, foi a fantasia. No futuro tão longe do hoje te vejo naquele presente alta e bela, resposta pronta e nenhuma vez te vi vacilar, seja no que fosse. Respostas erradas não me lembro, silêncios também não, desde que não fossem para mim. Lágrimas? não me lembro de nenhuma. Se calhar choraste como eu na escuridão do teu quarto. Quem irá saber? 
Porque é que eu não te disse uma única vez que o meu amor por ti nunca iria acabar? Dizem ele nunca acaba, mesmo que hiberne, mesmo que ele pareça cansado, gasto ou de malas feitas. Porquê que eu neste presente era tão tímido e medroso de ser negado mais uma vez?
Não é porque o limite do chega chegou para mim, mas somente para exorcizar os meus passados desvividos


Sanzalando

#lugaresincriveis


9 de maio de 2021

divagando passados

Na sala de aula, no ano que me apanhaste, porque a minha vida tinha sido feita até aí mais vezes por ausências que por presenças, por lugares invulgares e até mesmo invisíveis, me mostraste com a tua voz simples porem cheia de autoridade, que havia uma outra versão de mim, actualizada e melhorada. Olhando neste futuro para esse presente até que tinhas razão e te agradeço ainda hoje eu ter descoberto o lado bom de mim, o que criaste ou simplesmente puseste à superfície. 
Nessa sala de aula onde eu não sabia o respeito que me trouxeste e que se reflectiu no presente e nesse futuro que agora deu resultados. 
Lembras-te de eu estar a lutar para ser uma das três melhores notas e ficava sempre em quarto? Claro que não te lembras porque não davas importância. Era-te natural ser a número um.
Lembras-te de insistires para ficar perto de ti, acho era na carteira de  trás par tu poderes, com um simples olhar ou tossidela me colocares no meu lugar de mais atento? Claro que não pois era-te natural protegeres o teu vizinho.
Mas desde essa sala de aula eu criei sonhos, uns que funcionaram como impulso, mesmo os que ainda não cumpri ou não cumprirei porque expirou o prazo. Mas graças a ti ainda vou sonhando.



Sanzalando

#comida


#lugaresincriveis


8 de maio de 2021

para trás

Olhando para os meus para trás e vejo que deixei muita coisa para os meus depois. Tanto foi que algumas coisas ainda por lá andam. Tarefas e sentimentos. Coisas simples e complicadas. Sentimentos e dores. Há depois que nunca hão-de vir, espero eu. 
Olhando para trás eu quero trazer alguns depois para o agora, porque agora acho que tenho tempo para refazer, mesmo que possa ser tarde de mais.
Olhando para esses atrás, onde deixei as tuas palavras, os teus conselhos e as muitas chances de ter sido feliz doutra forma que não a que com que fui, não sei se quero voltar-me a um reinício porque sei que não teria tempo para repor todo tempo outra vez.
Perdi lá para trás tantas cidades da mina Imaginação, tentos mapas da minha Indignação que não quero ter a tentação de ter uma cidade sem opção.

Sanzalando 

7 de maio de 2021

por lugares seguros insegurei-me

E depois de teres partido para o tal de porto seguro eu escrevi mil palavras que nunca enviei, porque nem sabia para onde o fazer e nem havia essa coisa de correio a funcionar. Mas se eu tas mandasse tu ias ler? Desconsigo saber porque ia estar a viver na minha Cidade de Fantasia e isso eu não gosto. O que vai acontecer amanhã, hoje é fantasia. O agora é hoje e eu sei que no futuro eu ia ter razão. Fantasiei.
Mas o que eu sei é que nesse tempo eu te reinventei na minha cabeça. Imaginei cenários, imagineis finais, alguns felizes e outros infelizmente infelizes. Nas palavras até ouvi canções que acho tinham feito para nós. Eu revi o momento da despedida vezes sem conta e a mudança do meu pensamento que fez clique nesse instante. Reergui-me atabalhoadamente num desastre de ser e estar, não me afoguei nas lágrimas porque tive a desgraça de viver intensamente cada momento, esquecendo de me olhar por dentro, de ver a minha luz e passei a ter decisões de instante que até parecia máquina fotográfica a fixar o momento exacto sem exactidão.
Depois da tua partida com dores silenciosas e latejantes no peito, eu desejei o momento de deixar para trás todos os instantes, todos os medos, todas as felicidades, todas as marcas que o tempo deixou no tracejado que eu tinha percorrido e fechando os olhos eu estava a teu lado algures no teu lugar seguro.
Sabes que esqueci das ruas onde esfolei joelhos e canelas, dos ringues onde caí de patins, dos muros onde conversei com amigos, das portas onde namorisquei amigas. Eu só queria partir para o teu lugar seguro e não descansei enquanto não o fiz.


Sanzalando

#comida


6 de maio de 2021

#mangueira


#momentos


#mangueira


para mais tarde recordar

Sabes aqueles longos passeios de carro em fim de tarde, que a gente dizia ser a voltinha dos tristes, pela nossa cidade que era pequenina e que todos os dias a gente descobria coisas novas? Tenho saudades de ir ao teu lado e olharmos, como se fosse a primeira vez e víamos que a chaminé tinha um rabisco na telha, que havia uma argola não sei onde, que a telha era diferente, que a roupa estava pendurada. O teu pai punha sempre a música baixinho e ouvíamos a nossa rádio. Era o Formula POP ou a Roda Livre que dava nessa hora. Lembras-te que nessa altura a gente não tinha problemas? Lembras-te que nesses momentos a felicidade estava estampada na minha cara? Claro que não. Eras diferente de mim nesse campo. Pelo menos eras o que mostravas. Tu te mantinhas distante e sorrias das coisas que eu via ou imaginava ver. Acho era a tua mãe quem mais gostava de me ouvir nas minhas observações vagabundísticas. Tu me afetavas positivamente e eu te era perfeitamente neutro. Lembrei-me agora duma aula de física com a Ora-Bolas.
Eu sei que podia dizer aqui mais umas mil palavras que tu não ias olhar-me e me dizer um simples olá. Ias manter-te na tua de nunca me teres conhecido num recanto da tua vida. Mas eu tenho testemunhas que fui um sonhador, carregado de ideias e sem palavras. Concluí que o amor não faz ferida, o que deixa cicatriz foi ter-me esquecido de dizer-te que te gostava. Mas o tempo fez sarar e deixar esta saudável lembrança, com o título para mais tarde recordar




Sanzalando

4 de maio de 2021

por mim

Tento procurar caminhos que me levem a algum lugar. Às vezes o lugar não é encontrado, mas não é por falta de o procurar. Podemos mesmo não saber onde estamos e precisamos de paciência para nos encontrar. Se a mente não se conecta com o coração onde vamos estar? Perdidos em nós ou em alegorias da alma. Se calhar o melhor é voltar atrás e começar de novo. Vou-me procurar para saber para onde devo ir. 
Já percorri caminhos, longos caminhos, que não me levaram a lado nenhum. Já saltei etapas e caí em lugares comuns. Já fiquei sem me mexer para ver se me imortalizava mas o tempo passou por mim. Não há volta a dar mas posso dar voltas que a algum lugar eu vou parar. Não desisto de procurar, nem que seja apenas por mim.

Sanzalando

3 de maio de 2021

talvez seja assim

Talvez seja uma falta de ver beleza da minha parte, ou de não conseguir ver todas as perspetivas, ou insensatez, ou apenas seja só atabalhoamento meu. Meter os pés pelas mãos e vice-versa seja uma desqualidade minha. Talvez seja só mesmo uma insensibilidade para perfumes, cheiros ou pequenos pormenores identificativos através do olfato que me fazem falta ou cometer uma ou outra. 
Com isto tudo pergunto-me o que tem de errado estar aqui neste lugar, sentado, a ver o tempo que passa? Eu sei que o tanto que me move é como o que me deixa estar aqui. 
Não sou brinquedo nem ando isolado no estado liquefeito de estar feito em nada. O pior é que eu não podia ser doutra forma. Vou na introspecção ver se encontro a batalha que gostava de ganhar, mesmo sem guerrear. 


Sanzalando

#lugaresincriveis


2 de maio de 2021

primaverou-se o cérebro 40

Uns riem e outros choram. Seria monótono e cansativo se todos fizessem o mesmo ao mesmo tempo, diria o Machado de Assis, mas uma boa distribuição de lágrimas e gargalhadas faz girar o mundo e a vida de cada um. Eu tive esta sina de te gostar quando se calhar já nem sabes o meu nome nem a minha simples existência. Se calhar nunca notaste que a minha defesa à tua indiferença foi perder-me em dias da vida, em figuras estilizadas de ausência, em perdas furtuitas de lugares comuns. 
Não te esqueças que obcequei-me no início da adolescência, que te ausentaste para segurança no ponto alto do meu amor, que deixei de saber-te na flor duma descoberta incrível que era eu existir para além do mais.
Não sei se te lembras que eu vim dum ponto negro da vida para uma claridade que desconhecia por completo, numa altura da vida que eu não sei se era a melhor para mim. Mas posso dizer-te que por ti melhorei que nem eu acreditava seria alguma vez possível. Nota que quando digo que melhorei não estou a falar por falar, estou mesmo a dizer-te que me tornei num ser que amadurecidamente cresceu, responsabilizou-se e tornou-se gente com letra grande e sem vaidade.
Desconhecidamente me despeço com amizade que sempre trouxe comigo, com a saudade do tempo passado mas não perdido.

FIM

Sanzalando

#zulmarinho


#imbondeiro


1 de maio de 2021

#momentos


primaverou-se o cérebro 39

Sento-me na varanda da minha casa e aproveito que minha avó não está para me sentar na cadeira de baloiço dela a olhar para a tua casa. Imagino-te passar por trás do rendilhado parece é crochet da tua varanda. Imagino-te vestida de calças à boca de sino e camisa justa. 
Já sei, estou a ter um ataque idiota. Daqui a pouco estou a imaginar que demos um beijo na cara num cumprimento mais intimo. Na verdade não sei se alguma vez o fizemos, o que sei é que escrevo o teu nome em todos os cantos da minha alma, desenho o teu sorriso sem lábios em todos os meus cadernos, ouço-te a música que não cantas nem tocas nos meus ouvidos horas sem fim. 
Sei que virei vida ridícula. Mudei-me num avesso de mim anterior. Será que fui fruto dum amor intemporal?
Num futuro eu vou saber, porque neste presente eu diria que mais uma vez eu morri de amores, se me conseguisse ver de fora.


Sanzalando

#comida