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A Minha Sanzala: Fevereiro 2007
recomeça o futuro sem esquecer o passado

28 de fevereiro de 2007

Até Já!

Aí uê, que eu vou torrar nesta caminhada de meia hora. Foi este o pensamento primeiro quando coloquei o pé na rua ainda não eram 9 horas. Que vale mesmo que tem árvores que nos refrescam num tracejado em ziguezague. Sol Sombra e assim até que lhe chego no sítio. Não ferve e não queima. Mas vai deixar a cor de quem parece esteve de férias na beira do zulmarinho? Se deixar também vai ser parece é polícia, cara e braços e o resto tudo branco que nem cal. Mas se isso nunca foi importante para mim, não é hoje que lhe vai ser.
Se fez o que se tinha que fazer e chegou a hora de dar os abraços e apertos de mão. Havia voz entremelada, um brilho nos olhos mais brilhantes. Houve troca de moradas e outros contactos mais modernos, houve gestos simpáticos e depois o sempre habitual: Até Já e Obrigado por tudo!
Assim chegamos, também aqui a um Até Já!
Obrigado a todos os que me receberam tão calorosamente!


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27 de fevereiro de 2007

O Céu que bem podia esperar

Eram 8.30 da madrugada, porque me apetecia ficar estendido no colchão, ar convencionado nos 18 graus, papo no ar e curtir a fluidez dos pensamentos, quando tinha mesmo que sair porque combinado estava combinado e eu não sou de faltar nas combinações, mesmo que agora não se usem mais assim como os saiotes. Acho que me saltou o pensamento para outros caminhos além dos que estavam alinhavados na raiz dele mesmo. Mas até amanhã, a manhã que se pode prolongar pela tarde, está combinada num programa apertado que faz esquecer o estômago que as horas são de lhe meter qualquer coisa lá dentro. E assim, dizia eu, eram 8.30 quando meti as pernas a caminho.
Mas cinco minutos depois, se é que passaram assim tantos minutos, o céu desatou a chorar sobre mim que, num atravessar de rua, faltou mesmo só o sabão e o champô. Eu e mais umas quantas dezenas de outros anónimos peões, aproveitamos o alpendre de um banco e ali estivemos mais que 60 minutos, à espera que o céu deixasse de me chorar em cima.
A quantidade de lágrimas caídas trouxe outro problema para eu resolver. Como vou caminhar sem levar com um banho dado pelos carros até parecem fazem de propósito, no andar de pressa nas ruas transformadas em rios?
Mas combinado está combinado e não há como descombinar, pés a caminho e se espera o milagre de eu me transformar em Moisés e esperar que a água se separe na minha passagem. Mas a transformação não se deu e lá fui usando os sapatos como botes e na meia hora seguinte eu estava lá, com mais de uma hora de atraso. Sem maka. Se começa mais tarde e se acaba mais tarde.
Com gosto e com prazer as coisas se vão fazendo e nas 15 horas o estômago estava a gritar de vazio, mas o sorriso estampado no rosto fazia não o parecer. Todos, que não era só eu.
Comemos lá mesmo a comida requentada num micro-ondas e te vou dizer que não é que parecia mesmo acabadinha de fazer e que bem que soube.
Mais um dia em que sinto que ganhei o céu da terra. Com gente boa a gente se sente mesmo bem.
Agora, acho mereço o meu descanso de hoje.

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26 de fevereiro de 2007

Momentos últimos

Regresso agora a casa. Calmo, sereno, cansado mas de sorriso na cara. Continua um sol de queimar mioleiras, mas caminho abrigado nas algumas árvores que me dão a sensação de frescura. Pelo caminho divago os meus pensamentos numa amalgama de ideias feitas e outras por fazer.
Passou o fim de semana e eu não tive nem tempo de vaguear por aqui, nem de me divagar por letras soltas. Hoje parecia ia ser igual. Mas, cansado e com uma fome de comer um olongo, gazela ou lá o que fosse que até um pão com manteiga chegava, me sento e vagueio-me nas desordens do pensamento.
São os últimos momentos que estão me a sugar o pouco que resta da alma que silenciosamente se chora. Há que aproveitar. Todos os momentos vão ser poucos para o tanto que tinha para fazer. Mas vai-se fazendo.
Abraços aos amigos? Lhes darei por via moderna e como são amigos nem vão chatear. Uns que pude ver a cara, outros só lhes ouvi a voz. Mas como são amigos estão aqui dentro do coração ferido e conformado.
Ficará uma ferida aberta? Fica com toda a certeza!


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25 de fevereiro de 2007

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24 de fevereiro de 2007

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23 de fevereiro de 2007

Grito

São umas tantas horas da tarde. Não preciso saber exactamente quantas são porque o tempo foi feito para gastar e eu lhe gasto como me apetece. Podia estar sentado numa das muitas esplanadas que já passei, bebendo uma e outra coisa bem gelada. Mas não. Estou sentado no meio de uma rotunda, em plena Maianga, olhando para as acácias não floridas mas verdejosamente verdes. Estou aqui e umas e outras pessoas que passam devem-me olhar e dizerem-se que está ali um doido especado num fazer nada. Mas como não lhes ouço não me importo e não lhes respondo, pois até nem sei se alguém se deu ao trabalho de olhar-me. Estou aqui porque me apetece estar aqui, auscultando pelo meio o fervilhar da cidade, nos carros que sobem, nos que se deslizam para baixo. Não estou a fazer de sinaleiro. Nem quero saber para onde se dirigem. Não me movo. Olho apenas o que sinto.
Acho que não deve haver um grito mais desgarrado que um sussurro duma consciência intranquila.
É o que sinto quando tento controlar tudo, sobretudo o que oculto no mais profundo do meu coração. Assim num repente, quase como do nada, aparece alguma coisa na minha memória, sentimento reprimido, amarras silenciosas e abafadas. Pode ser um aroma, um calor afogado na humidade, uma imagem retida e amarfanhada no teu âmago.
Depois acabo por ficar em branco, num literal e pictórico quadro cheio de vazio, nó de garganta apertado num entupimento quer ascendente quer descendente. Se tiver um pouco de sorte poderá transformar-se em lágrima, vertendo-se silenciosamente nos contornos vincados da cara, dor surda, facada sem faca no estômago.
Aqui está um espaço em branco na minha mente, incapaz de deixar-me raciocinar na fluidez dos acontecimentos, um fogo no coração incapaz de ser apagado.
Não é que um problema sem solução deveria deixar de ser um problema?
Por isso estou aqui, nesta rotunda, afogado nos dióxidos de carbono, suores transpirados nos labores, pregões das kitandeiras tentando livrar-se do refugo da manhã.
(Dis)penso-me.

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22 de fevereiro de 2007

Só eu

Não há quem no mundo mais lhe goste do que eu. Sei que é pretensiosismo da minha parte. Mas também ainda não houve quem lhe inventasse um medidor dessas coisas de paixão e amor. Pode ser que não seja amor, que seja uma mania particular, uma obsessão, um capricho, ou tudo junto servido em forma de salada.
Nasço e renasço em cada dia desde que nasci.
Tinha-me esquecido do valor da terra, da chuva e do sol. Era um autómato, escravo da industrialização criada para a minha libertação. Não há consciência que desista da luta do sonho tornado realidade.
Pode-se adiar, desistir nunca.
Hoje o dia amanheceu cinzento. Pingos aqui e acolá. Fosse eu mais esguio e lhe passava por eles sem um me tocar. Mas mesmo assim caminhei num ziguezaguear por estradas e passeios.
Bom dia, como está? Pergunta repetitiva feita vezes sem conta e sem ter interesse em ouvir uma resposta de igual calibre.
Hoje tenho o sol dentro de mim enquanto cá fora chuvisca.
O cheiro a terra molhada. O ruído as ruas deram-me o silêncio de estar vivo.
Ninguém pode viver só.
Luto-me pela vida, pelas carícias num bailado que se converte em baile, num tango travestido de merengue. Luto-me para me libertar do encadeado de correntes e torrentes que me secam as veias cerebrais.
Luto-me por sentir-me o coração a bater.


Sanzalando

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21 de fevereiro de 2007

Falar sobre mais o quê?

Hoje vou mesmo falar-te de mais o quê? Que está calor de cozer o corpo? Não é novidade. Que ontem, depois de deixar a marginal choveu que nem dilúvio e que fez parar o desfile uma marcha depois das que eu vi? Como posso falar se eu não estava mais lá? Acho, de ouvir dizer, que lhe vão continuar um dia destes. Ou seja, afinal o Carnaval ainda não acabou mesmo.
Vou falar que o mini dilúvio de ontem arrastou mais umas casas lá para os lados da comarca? Não, que eu sei mas não vi, e me admira como tenham sido tão poucas. Cada vez que eu vejo os pingos de quilo a caírem que nem banhar num chuveiro, eu imagino mesmo coisas piores. Mas, na verdade não me apetece escrever essas desgraças. Tem gente que está a pensar nelas e lhes arranjar solução.
Mas afinal mesmo vou falar de mais o quê?
Decidi. Hoje não falo, que o calor me torra as palavras.

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20 de fevereiro de 2007

Hoje foi Carnaval

A madrugada hoje foi mesmo de madrugada. Eram ainda não sete horas quando o céu parecia ia cair na forma de água. Chegou e se foi assim num repente. Mantive-me espreguiçado na cama. Hoje é feriado e feriado é para fazer nada ou algo assim de parecido. No bater das nove aí fui fazer a minha visita mais rápida que relâmpago para saber que tudo estava como eu tinha pedido.
No bater das dez o céu acinzentou de luto carregado e com trovões por companhia desatou a chover. Lá vou eu ter o meu Carnaval molhado ou encerrado na frente de uma TV. Mas que nada. Hoje está mesmo para o molha e foge que já seca. Assim optei por ir até na Ilha. Almoço por lá e se der para dar um mergulho lhe darei que não gosto de ficar a dever.
Com a Marginal fechada foi mesmo por outros caminhos que passam na Praia o Bispo que lhe dei com o caminho. Escolhido o poiso que já estava pensado porque lhe gosto, não só pelo nome, Caribe, mas também porque são simpáticos e tem lugar para estacionar. Bem, hoje mesmo nas ruas parece uma cidade do mato. A gente se distrai e até esquece que está a circular na cidade e pode acontecer alguma coisa que a gente não quer. Por isso fui carregando no travão cerebral e lá fui. O ar de chuva eminente não convidou para pagar o mergulho e lhe fiquei a admirar o zulmarinho se espreguiçando preguiçosamente na areia.
Massa de Cherne me serviram e estava de bradar aos céus. Que gosto requintado senti lhe saboreando cada garfada. Cuca à pressão de acompanhamento.
Depois, aproveitando que a cidade era uma cidade do mato, fui no Kinaxixe, Av. dos Combatentes, actual Comandante Valódia, Av. Brasil, largo da Independência, das Heroínas, Sagrada Família, Samba, Prenda. Não foi bem nesta ordem mas a ordem é arbitrária. Foi mesmo para fotar o fotávil.
Nas 16 horas começou o desfile de Carnaval na Av. 4 de Fevereiro, ou seja, Marginal. O Presidente em exercício, Roberto de Almeida, era o anfitrião da cerimónia aberta pelo Sr. Governador de Luanda.
O Carnaval de hoje constava do desfile de 12 grupos carnavalescos, Sambizanga, Rangel, União do Café de Angola, Associação 10 de Dezembro representando a Maianga e outros que não lhes vi, porque tinha de sair antes de haver a confusão e porque não consegui bilhete para a bancada, que estava há muito esgotado. Assim, ficado numa esquina, a percepção não era muito boa e optei por abandonar o Carnaval da Marginal, onde estavam para aí umas 90 mil pessoas, segundo os meus cálculos mais que falíveis.
Como parece haver aí uma ‘guerra’ nos comentários do texto anterior, aqui o rei do Carnaval foi mesmo a Palanca Negra Gigante, animal só aqui existente e em risco de extinção.
Viva o Carnaval.


Sanzalando

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19 de fevereiro de 2007

Não há bem que sempre dure...

Há um dia parece que o mundo se desmorona. Já alguém me dizia que não há bem que nunca acabe ou mal que sempre dure. Deve ter havido algum detalhe que me dizia que alguma coisa ia mudar e eu deixar passar despercebido e me deixei crescer neste sonho que foi bonito, mesmo que tenha sido curto. É um sonho que pode ter continuação, ou não.
Hoje, na madrugada das oito horas, ainda não estava o calor que torra e eu lá estava pela última vez. Foi bom, foi bonito. Amanhã lhe passo para ver se continua tudo bem. Mas apenas numa passagem rápida. Foi a última ajuda, foi o último passo antes de embalar a trouxa.
Não foi nada de concreto, não há motivos aparentes, não há assuntos secretos. Sucedeu assim porque não sucedeu de outra forma. Simples e naturalmente.
Sem dramas, sem mágoas, sem dores.
Há opções que têm de ser feitas e quando elas tomam o caminho da urgência, pode acontecer não estar a fazer a opção mais certa, mas é a que eu faço e aceito-a como a melhor.
Não sou trapezista, malabarista ou ilusionista. Não sou contorcionista, equilibrista nem domador. Sou e continuarei a ser igual sonhador de todas as eras desde que me conheço.
Hoje chove dentro de mim. Hoje fez-se-me silêncio.
Brinquemos ao Carnaval e de sorriso aberto bailemos a noite inteira.

Sanzalando

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18 de fevereiro de 2007

Domingo de Giboia e Folia






Domingo. Faz de conta é Carnaval, porque isso é só mesmo na terça. Não havia despertador porque hoje é Domingo e o que há para fazer pode ser adiado para mais tarde. Mas quando aqui rompe a aurora eu parece eu lhe ouço e olho para o céu. Adivinho chuva que vai cair não tarda nada. Não sou bruxo mas lhe acertei na diferença de meia hora. Já tinha o fato de banho vestido para ir até na Ilha um coche de tempo, mas não muito porque a minha pele é para manter e não sair parece é de cobra. Desisti. Domingo também deve ter gente que deve ser incómodo estar assim parece é manifestação. Mesmo melhor ficar por aqui a giboiar. Tanto giboiei que não deu nem para arranjar apetite. Vou ver o Carnaval na Marginal logo mais na tardinha. Ué… deve de ser mesmo o maior Carnaval do mundo pois não deu par chegar muito de perto. Lhe vi na parte que se lhes organiza e não no defile, propriamente ele dito. Se tivesse levado o rodinhas ainda vá que não vá, mas como resolvi manter a tradição de caminhar com as minhas já mais fortes pernas, mesmo o melhor foi ter optado por voltar atrás e ver na tv. Não é a mesma coisa que eu sei, mas assim não foi preciso por a cabeça a funcionar e o tempo passou que nem lhe dei conta.
Em resumo, hoje foi dia de giboiar.






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17 de fevereiro de 2007

Chofer de Sábado de manhã

Hoje a pontualidade foi marcada para as dez. Mas tá claro que desde as sete que eu já olhava o tecto.
Hoje me ofereci para choferar a minha anfitriã nas compras da semana. Tenho de aprender a fazer compras, né?
Em primeiro lugar vamos ali porque aí a gente vai comprar esta lista.
Qual é mesmo o caminho? O rodinhas lá se pôs na estrada e sem paragens dignas desse nome chegamos ao sítio. Dista só 150 metros da casa. Como bom chofer optei por ficar no carro. A dona fica mais à vontade, acho eu, mas posso estar errado. Logo aí comecei a saber o que é que a massa sente quando entra no forno antes de ser pão. Vamos no destino dois para a segunda lista. Sem interrupções chegamos lá. Tínhamos andado uns 500 metros mais, mas a subir. Aí eu optei mesmo estacionar bem estacionado o rodinhas e ir dar uma ajuda. A loja tem ar refrescado. Sim, senhor, vi todas as prateleiras, todos os cantos e recantos, desta ver guiando um carro de supermercado. O sítio três é que é bué longe. Vira aqui à direita e ali à esquerda e depois, volta para trás porque não era nesta mas naquela. Ok. Fui conhecendo novos caminhos, outras vertentes, outras paisagens. Aqui fico novamente no rodinhas já que lhe estacionei debaixo e uma castanheira das castanhas da minha juventude que não são as castanhas de S. Martinho. Assobiei, cantarolei as músicas da rádio, mesmo não sabendo as letras. Agora vamos no sítio quatro que fica lá em baixo quem vai no Cacuaco. Ok Esse caminho eu lhe sei. Sabia até me ter enganado e ter dado uma volta a mais no largo do Kinaxixe. Pormenores. Lá fomos direitinhos. Hoje é dia de compras, pelo que eu vejo no número de carro de donas que circulam pelos mesmos caminhos. Fiquei o carro, o tempo de dois cigarros. Depois resolvi mesmo ir ver a loja no seu ar condicionado. Agora é o sítio número qualquer coisa que eu já esqueci por onde é que andei. Agora vamos perto do Atlântico. Sabes onde é? Sei, é mesmo na Baía. Não, esse é o Oceano, vamos ao pé do Cinema. Ah! Esse não sei. Por aqui e por ali, outra vez passei no Kinaxixe mas não foi preciso dar uma volta a mais, uma só vez chega. Mais curva, menos curva lá lhe cheguei. Se nos outros dias fosse assim.
Optei ficar no carro. Foi mesmo má opção. Cigarros acabaram, o tempo decorria na sua velocidade de tic-tac, e o sol aquecia. Como estava parado longe, decidi sair do carro e ficar mesmo pastando de baixo de uma árvore.
Tocou o telefone a me lembrarem que tinha um almoço combinado para as 13. Epá, não sei vai dar.
Ás 14.10 estava a descarregar o carro na casa e telefonei a saber se ainda havia chouriço, pão e uma cerveja super de estupidamente gelada. Que tem sim. Rodinhas me levou que até parecia foguete em câmara lenta.
Às 18.00 o almoço estava virado, tinha ajudado na arrumação da sala que por ter o gerador avariado não tinha ar condicionado e a sauna estava a funcionar. Consequência foram vertidas mais que a tal birra estupidamente gelada. Mas sabe tão bem.
Agora tenho que ir no Hotel Presidente que tem lá família que tá em trabalho e de super rápida passagem e há que ir dar um abraço. Se ouvem por todo o lado os geradores a funcionar. Quer dizer que não há luz nesta parte que passo da cidade.
Epá, há Carnaval. A baixa está entupida. Vou desviar por aqui. Erro. Por ali. Erro. Mesmo melhor voltar para trás e descansar deste árduo dia na cidade de Luanda.

Sanzalando

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16 de fevereiro de 2007

Um dia Calmo

Para variar a pontualidade, eram 9.05 horas da quente manhã do dia de hoje, quando me coloquei sobre as quatro rodas do pequeno Toyota a caminho da zona do Porto. Por acaso não era lá assim tão perto dele como eu imaginava, mas também não conhece outros caminhos, mesmo é mais fácil ir por ali. Quando consegui arranjar um buraquinho para lhe deixar parado à minha espera, eu tinha deslocado 8,120 km, do ponto de partida. Eram só mesmo 11.15 a hora. Pouca coisa afinal. É assim a grande cidade. Feitas as coisas que tinham de ser feitas, há que procurar onde mesmo que eu tinha poisado a viatura. Me perdi e revoltei no terreno até que lhe achei no mesmo sítio que eu lhe deixei. Era a hora de regressar ao ponto de partida. Ou horas, pois como imaginava quando lhe pus o motor a trabalhar não sabia se quer qual a volta que tinha de fazer. A marginal, por causa estão a montar as bancadas para o Carnaval, é mesmo melhor escolher outro caminho. Mas qual se eu só conheço esta cidade de andar a pé e nisso não tem sentido único, proibido virar e coisas mais que tais.
Andei ao sabor do pára arranca e sempre escolhendo a rota onde estava mais parado o trânsito. Acho que é sina e contra a sina não vale nem mesmo arranjar desculpa. Duas horas depois eu já sabia onde estava. O mesmo que faltava era chegar, ou que me deixassem chegar. Mas como virei calmo, fui assobiando, fui cantarolando ao sabor do rádio e da publicidade ao Vinho Cotovia, música de Uma Casa Portuguesa, mas com letra original, lá me fui deixando enrolar no pára mais que arranca. Deu para ver coisas que já lá estavam mas que eu não tinha nunca lhe olhado, como os bonecos de cimento sobre a Mabílio de Albuquerque, a esquina da Lello já sem os seus intelectuais em amena cavaqueira, ou o balcão do agora banco e que não faz muito tempo era o ponto de encontro dos artistas.
E ouvem buzinas, palavras de makas, mas está tudo tranquilo. O trânsito está no seu pára excepto os candonqueiros nos seus azuis e brancos que arranjam sempre espaço para andarem. A calma é tão calma que até os carros não andam.
Passei na Assembleia Nacional, Maria Pia e António Barroso na velocidade estonteante de estar mais tempo parado.
Foi um dia calmo e sem novidades.


Sanzalando

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15 de fevereiro de 2007

Eu podia estar em qualquer outro lugar

Já saí, já andei nas muitas circulares, força de expressão para quem está parado no meio do asfalto, saboreando o ar condicionado do pequeno Toyota que me tem tentado levar a um ou dois sítios, sendo que o último é apenas uma miragem, visível apenas de binóculos. Acho mesmo que lhe tenho de largar e voltar ao treino maratonal. Posso não chegar mas ao menos dá saúde. Mas a grande cidade tem destas oisas e a gente vai fazer mais como?
Agora à tarde me sabe bem estar em casa, já que lá fora está um calor que nem ato fica em telhado de zinco. O calor é a escusa perfeita para eu me escudar no sofá e ler Pacavira. Como podia ler outro qualquer, mas era este que estava mais à mão. Como podia estar somente sentado a olhar para coisa nenhuma.
Agora, nesta tarde me sabe bem estar em sintonia comigo. Já tomei algo para a dor de cabeça, que ferve de pensar estar parado para circular. Acho mesmo que eu não fui nado para estar na grande cidade.
Podia estar agora a passar pelas brasas, mas se calhar ia ter algum sonho, uma mescla de sonhos distintos e desalinhados.
Eu estou em Luanda, mas neste momento podia estar em qualquer outro lugar desde que estivesse nesta sintonia comigo. Não ouço os motores, algazarras, buzinas. Não vejo gente. Eu estou no meu ponto de sintonia comigo. Pena mesmo é que da janela eu não consiga ver o azul do mar e veja só o casario sobrelotado das redondezas, o céu azul cinzento de pó entrecortado por pequenas manchas brancas de nuvens anunciadoras de bom tempo.
Eu estou em Luanda, como podia estar noutro lugar qualquer do planeta.


Sanzalando

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14 de fevereiro de 2007

Cinco quilos mais novo

Cinco quilos mais novo, lá ando eu no meu treino maratonal. Se batem em portas que se abrem, porem novas portas aparecem no caminho, assim num labiríntico caminhar. Acho mesmo ainda não cheguei ao número metade de portas. Mas vou conseguir chegar na última. Me disseram que se queres tu consegues. E como foi minha mãe quem me disse não sou eu que lhe vou contrariar.
Mas hoje no bater das nove, nova caminhada por caminhos mais longos que suportam as minhas pernas pelo que a viatura me emprestada deixou as suas teias de aranha. Acho demorávamos o mesmo tempo se eu fosse na minha tradicional forma de me deslocar. Mas ao menos cheguei lá e ainda tinha ar para conseguir falar. No papel X, esse mesmo que viajou do Porto até aqui direitinho no DHL, ainda lhe precisa por um carimbo. Depois três fotocópias autenticadas no Notário e vens aqui com isso tudo mais a carta que falta escrever. Me dirigi lá onde devia pôr o falado dito carimbo. Trânsito não deixou cumprir o tempo estipulado pelo que fica adiado, ara amanhã ou depois. Se ele ficasse no alcance das minhas pernas eu lhe tinha conseguido hoje mesmo. Mas é ponta contra ponta na constante hora de ponta.
No bater das quatro da tarde lá fui mais as minhas fortes pernas numa entrevista marcada. Cheguei com tempo de tomar tempo para respirar e conseguir falar sem um ar de cansado. Entrevista informativa. Sim senhor, louvável e coisas e tal. Mas dá só os passos que te faltam e depois a gente vê. Foi uma conversa agradável e muito esclarecedora de como está a situação.
Entristecido regressei ao ponto e partida aqui debito o meu dia de hoje, em que o calor, céu limpo e muita humidade me tentam vergar mas nesta forma aparentemente emagrecida porém rica de vigor vergar vai ser difícil, mas que não é impossível, isso também é verdade.
Homem que não sonha não está vivo.

Sanzalando

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13 de fevereiro de 2007

Absorver e habituar

Ao chegar a um novo sítio eu me detenho a observar, revejo as coisas que tenho que fazer, recordo o caminho de regresso e revejo cada passo dado e então sinto a brisa desse novo lugar.
Eu conto cada obstáculo ultrapassado. Um de cada vez, o somatório, as parcelas, tal como se fosse uma simples conta de somar que se vai diminuindo.
Enfim, todos nascemos loucos, outros continuam-no para sempre. Eu procuro-me no meio do termo.
Hoje fez sol daquele sol que derrete a sola do sapato. Mas caminhei na minha caminhada de velocidade cruzeiro uniformemente desacelerado. Novos caminhos porém ainda não totalmente abertos. Será que lhes conseguirei abrir? Bem, não tem mais nada que fazer do que dar tempo no tempo.
Mas que importa mais do que estou a caminhar com os meus pés no lugar que quero, como quero e com quem quero.
Mas falar da cidade, bem, aí me dá um aperto no peito… Não gosto de nenhuma das Luandas que conheço. Pode ser só uma questão de hábito, de habituação. Gosto mesmo é das minhas cidades lá do sul. Vou ter que arranjar tempo para lhes abraçar.

Sanzalando

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12 de fevereiro de 2007

Hoje faz de conta

Já não sei que dia deveria ser o de hoje. Um dia mais de espera. Os minutos passam no seu lento tempo. Hoje foi só dia de faz de conta. Faz de conta nem existiu.
Às 5.20 da madrugada acho o céu queria cair, mas por volta das sete se arrependeu. Minha memória meteorológica é demasiado fraca para dizer que não via chover assim faz muito tempo, mas que a chuva era de pingo de quilo eu não vou esquecer assim dum pé para a mão.
Mas hoje o dia não me deu nada de novo, tirando essa madrugada chuva.
Ontem não te falei porque andei pela província do Bengo, uma divisão da antiga província de Luanda, deixando esta última só mesmo esta cidade. Ou será estas cidades?
Para mim existem 3 Luandas. A cidade velha, com as velhas ruas rodeadas de novos prédios ou torres, as estradas engarrafadas que nem linha de produção de refrigerantes em horas de verão, ar de fumo irrespirável por aqueles que escolhem a maneira mais saudável de se deslocar, que é a pé. Uma cidade em constante limpeza mas que não deixa de ter pó. Eu sei que hoje era mais lama, mas mesmo assim os de amarelo vestido não largaram a sua vassoura metálica e os seus apeadeiros de sacos de plástico à espera do velho tractor que lhes vem recolher. Não sei se é velho de ser idoso, mas o seu fumo negro mostra muitas voltas dadas na vida daquele engasgado motor.
A outra Luanda é dos milhões de pessoas que se acotovelam nos bairros de lata feitos de cimento e sem estudos de pormenor, sem esquadria, sem forma geométrica definida. Esta Luanda doente, deslimpa, porém com alma e com identidades. Esta Luanda herdada de outros eras porém muito crescida por tempos quentes doutros domínios. Mas hoje não há capacidade de mobilização, convencimento de mudanças. Hábitos adquiridos que só a força poderia vencer, mas que não é politicamente correcto fazer. Talvez um dia se consiga usar a esquadria. Esta Luanda não lhe conhecia e não lhe conheço senão menos que um décimo ou centésimo.
A outra, fica para os lados do Sul e lhe desconheço ainda na totalidade, só mesmo ter lhe ouvido falar.
Mas tirando o facto do papel X ter acabado de chegar, o dia de hoje não existiu.

Sanzalando

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11 de fevereiro de 2007

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10 de fevereiro de 2007

Um conto de S. Tomé

Hoje mesmo que caminho sentado quase na ponta da ilha olhando para lá da linha recta que é curva tentando ver a linha que divide o norte do sul. Mas vais ver ela hoje está pintada da cor do céu, pelo que não lhe consigo distinguir. Foi então que me lembrei que me tinham contado um conto que eu lhes conto:





O MENSAGEIRO


O sol brilhava, intenso, naquela manhã de domingo, na praia junto à fortaleza velha. Estirados sobre a areia, os garotos brincavam, descontraídos, com a água morna do mar da Praia Perigosa, que nem pelo nome lhes parecia meter qualquer receio.

- Eh pá! Água está tão fixe hoje que coisa não dá gente vontade de sair de praia! – Bube gostava dos dias assim, o sol todo aberto no céu espelhando-se nas águas calmas da baía, o vento brando, os falcões voando baixo, atentos a um ou outro peixe mais distraído.

- Está fixe, mas mais fixe ainda é logo quando gente ir pá Correia…- Cache antegozava o prazer da tarde nos confins do mato, o verde luxuriante da paisagem, o bulício à volta do quintal da festa…

- Mas é melhor gente ir cedo, porque quintal vai estar cheio depois de caça…- disse Kununo, em tom prudente. Os outros presumiram logo que falava do tchiloli, sua paixão comum, e todos sabiam como ele que era após a cena da caça que o tchiloli ganhava animação própria, o desfile ininterrupto das personagens,


a sequência mágica dos sons, o enredo da estória prendendo um a um todos espectadores.

- Chê, gente tem que ir desde princípio? Eu digo vocês, se fosse só p’ra mim gente via só parte de fim… - retorquiu Mingo, como sempre irrequieto nos seus onze anos. Ainda que se tratasse do tchiloli, custava-lhe estar parado horas a fio num mesmo lugar.

Eram horas de partir. O sol já perdia brilho quando, bordejando a praia pelo seu flanco sul, começaram a caminhar despreocupadamente pela avenida. Por mais que os pudesse tentar a vontade de ganhar algum dinheiro, no código por todos respeitado domingo não era dia de trabalho e, por isso, tomaram logo o pequeno atalho que os conduzia à Chácara, onde habitualmente se concentravam para comer e descansar após as lides da venda.

O sono, porém, os enganara. A tarde já ia um tanto ou quanto avançada quando tomaram o caminho da Boa Morte, rumo à Correia, pelo que tinham de se apressar para não perderem o melhor da festa.

A meio do percurso começou a chegar-lhes a música viva e mágica que, vinda do quintal pejado de bananeiras e jaqueiras do

velho Nenené, invadia toda a área em redor, infiltrava-se pelos quintés, para finalmente se perder algures nas grotas que conduziam ao vale. A pequena clareira do mato era o palco onde contracenavam os actores, e os assistentes, de tanto conhecerem a peça, quase que se confundiam com aqueles na arte de representar.

A uma rápida troca de olhar, compreenderam que tinham chegado no momento próprio. Aqueles acordes eram inconfundíveis, pelo que fizeram a correr a última parte da caminhada para viverem em pleno o que estava para acontecer.

A multidão comprimia-se, entusiasmada, em redor do pequeno espaço. A animação chegava ao rubro. Por entre a poeira que se levantava do chão, Bube e os amigos conseguiam ainda assim espreitar a figura franzina do Moçu Kata, todo de branco vestido, toalha de linho presa ao pulso, escapulindo-se à obstinada perseguição que lhe movia Reinaldos de Montalvão. À medida que o miúdo driblava os intentos da temível personagem, a assistência exultava, crescia o ritmo da música bem como os aplausos dos presentes.

Bube vivia como sempre um momento especial. A paixão pelo tchiloli vinha-lhe desde muito cedo, quando pela mão da

mãe, em Madre de Deus, indiferente ambos aos raios inclementes do sol, passavam horas a fio embevecidos ao som arrebatador dos tambores e dos pitu doxi.

De uma coisa não podia haver dúvidas: ele e os amigos, meninos endurecidos pelas pelejas da rua, gostavam do garoto de onze anos que desafiava a figura mais tenebrosa da corte baixa, as roupas negras, o bigode insistentemente repuxado com gestos bruscos, as passadas largas como as do galope de um cavalo em plena pista. Sentiam-se bem ao assistir à luta tão desigual e, como tinham sensivelmente a idade do Moçu Kata, era como se o exemplo deste os estimulasse a enfrentar a vida dura nas ruas da capital, a algazarra dos carros, o frenesim dos vendedores entrechocando-se nos passeios:

- Chê, freguês, não sai nada? Vê, caldo está quase cabá …!

Bube habituara-se àquela agitação desde que, dois anos antes, a mãe sucumbira a um acidente junto à igreja da Conceição, em que ele próprio escapara por milagre. Tia San Doquê, uma mulher de feitio inconstante, ainda o recebera em casa nos primeiros tempos, mas durou pouco a convivência entre ambos: ela era amiga da bebida, quando não havia ússua entrava na cacharamba e vice-versa, o ar néscio e os olhos de um vermelho

lúgubre fixos sobre ele a anunciar violência iminente. Quando assim era, batia-lhe com persistência e raiva, como se fosse ele a razão de ser de uma vida que há muito se transviara e perdera qualquer sentido. Daí, a fuga para a liberdade da rua.

Uma vibrante exclamação corta, de súbito, o ar. Um lampejo de frustração invade por momentos os assistentes. Na luta do fraco contra o forte, eis que os factos apostam em trazer-lhes de regresso ao mundo real. Uma vez mais parece ter-se cumprido o destino: o Moçu Kata é preso, rebuscam-lhe os bolsos e sacam-lhe a misteriosa carta, motivo da perseguição. Sai vencedor o odioso Reinaldos.

Os garotos entreolharam-se, entristecidos. Mais do que qualquer outro, Bube está desolado. Invade-o a desilusão e a raiva pelo desfecho, embora já conhecido. Uma lágrima furtiva irrompe-lhe pelo canto dos olhos. Sabe que costuma ser assim, “desde que o tempo foi tempo”, como lhe dizia a mãe, de que nunca se esquecia.

Mas lá bem dentro de si mantinha aceso o desejo de que o mais fraco pudesse um dia triunfar, para contentamento dele e de muitos. Será que nem no mundo fascinante do tchiloli, em que, num acto de justiça, o Rei chega mesmo a condenar o próprio

filho, poderia acontecer, uma vez que fosse, que Reinaldos perdesse para o pequeno mensageiro?

Passava das sete da tarde quando deixaram Correia. A noite ameaçava cair, mas curiosamente crescia neles a esperança de que, um dia, tudo poderia vir a ser diferente.


Albertino Bragança


Sanzalando com MC

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9 de fevereiro de 2007

Hoje vos folgo

Hoje tirei-me o dia de folga. Mas na hora habitual dei corda às pernas e lá fui eu sem destino ou direcção. Quem foi mesmo quem disse isto? Não interessa e ele me vai desculpar esta falta de memória. Lá andei cerca de 1 hora, por caminhos inda não pisados por mim. Olhos pra ver, corpo em forma de pele para sentir. Fui navegando ao sabor das forças das minhas pernas. Quando elas queriam sentir alguma coisa e paravam eu lhes obedecia e não me mexia. Quando lhes apetecia andar lá eu ia atrás delas. Assim hoje me folguei.
Parei numa esplanada, longe do mar, e ali, saboreando a minha fanta supergeladinha, fui admirando as bundas que abundam num vai e vai de quem muito tem de andar nestas intermináveis ruas desta cidade.
Hoje me folguei e lhes dou folga nos ouvidos de me ouvirem.
Hoje é o dia 8 da minha vida…

Sanzalando

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8 de fevereiro de 2007

Novo dia novo

Procuro o meu lugar. O espaço que eu penso merecer. O futuro o dirá.
Caminho quilómetros arrastando a minha angústia contida, nostalgia doentia, sonhos mais sonhados e revistos em nova versão.
Hoje caminhei como novo. O ontem, dia vão, não foi vão de escada mas arrefecimento útil da máquina que transporto-me.
Cada dia um degrau, um pedaço de caminho.
Um SMS me diz que o documento X tá pronto e segue. Um sorriso se estampa no rosto. Um degrau que falta par aquele lance de escada estar concluído. Aos poucos tudo vai tendo forma, se descortina a definição geral, panorâmica em 3 D. Será que eu mereço os amigos que tenho? Eles sabem e eu nem lhes pergunto.
Mas hoje entrei por ruas novas, que existem há séculos, pás no passear de caminhante têm outra vista. Descobri mais uma vez que o mundo é redondo. O caminho de ida é sempre mais longo que o de volta. É mesmo só porque eu não conheço e para não perder vou pelas referências mentais. Depois revejo e digo, pôpilas, andei o dobro que o necessário. Mas ao menos exercito os músculos lachos da falta de uso.
Bem na verdade, outra coisa boa está a acontecer, o número de cigarros/dia diminuíram de forma acentuada.
Descubro um lugar. O meu lugar, o lugar que sempre esteve parece à minha espera. O sorriso deu lugar ao riso. Os olhos têm brilho e não são já tão baços como eram. Ainda não têm o brilho brilhante que vão ter, a expressão expressiva de felicidade. Mas falta pouco. Adivinho o que sei vai acontecer. Se me enganar me enganei, mas eu sinto a corrente sul.
Será que eu mereço os amigos que tenho?

Sanzalando

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7 de fevereiro de 2007

Hoje desconsegui

Hoje amanheceu, acho eu, mais quente. O dia tinha dois programas e avanço já na narrativa que não cumpri nem que um só.

Na hora que virou habitual de cerca das nove horas aí eu vou eu dar corda nas minhas pernas pelas limpas ruas da Cidade de Luanda. Pois é, os homens e mulheres de amarelo, mesmo no meio do trânsito, não param de varrer as ruas. Pelo menos naquelas que os meus pés pisam.

Lá entrei eu no meio dos carros que marcham em velocidade de cruzeiro de 10 metros em cada 10 minutos. Por isso a minha escolha de dar corda nas pernas e não sentar a bunda sobre rodas e ar concessionado. Ainda não tinha andado metade do primeiro caminho e algo de estranho estava a começar a passar. A cidade à minha frente baloiçava. Que me deram a mais no café? me perguntei eu mesmo só para mim. Mas lá fui numa velocidade mais lenta, vendo tudo baloiçando como num qualquer parque infantil ou num navio em alto mar. Mas foi de pouca dura. Desconseguia mesmo já de ver a proa do navio. Me encostei numa árvore, acho era acácia, que me esqueci de lhe perguntar. Não sei de onde veio mas me apareceu um camba a me perguntar o que tinha pois me viu baloiçar no passeio que até está direitinho. Lhe olhei mas ele não estava bem direito. Ele me sentou no passeio e me disse que eu estava descabeçado. Lhe olhei com ar de agradecido. Falou mais comigo e me disse vamos na Farmácia Africana. Apoiado nele para não ziguezaguear que até parecia eu tinha bebido este mundo e um outro qualquer, lá fui. Ele explicou na Farmácia mesmo o que tinha visto e me mediram a tensão. Hué, assim o sangue não lhe vai na cabeça e por isso ele estava descabeçado, ouvi eu da voz do bom camba. Agora lhe tinha entendido. Agora vais fazer mais como? Assim não podes andar na rua, pá. Pensei e disse que tinha de ser pois não tinha outra forma de voltar atrás. O camba saiu da Farmácia e depressa voltou. Anda daí, meu amigo te vai levar. Assim foi. Num Toyota Corola voltei para casa, acompanhado pelo camba e o seu amigo.

- Quanto lhes devo?

- A vida não tem preço! e arrancaram e eu nem sei se disse obrigado ou não.




Sanzalando

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6 de fevereiro de 2007

Um dia normal

São assim pouco mais que as 9 horas da manhã. Aí vou eu com dois destinos na mira. Opção certa de sem indecisões ter optado por ir a pé. Os carros mesmo que não andam. Como o meu conhecimento da cidade é, neste momento, vasto, limitado a um circuito bem delimitado que acho que andei o dobro do caminho para chegar ao primeiro destino. Mas assim tive a certeza que não me perdia e cheguei lá. Mas até lá chegar, além das paragens obrigatórias para respirar e recarregar coragem de continuar, gargalhei que quem olhou para mim deve ter pensado esse é mais um louco da rua.
Passo a explicar que tou a ver a tua cara de espanto.
Os carros estavam em fila e não andavam. Para passar para o outro lado foi necessário gincanar por no meio deles, fazer raviangas nas pessoas que vinham do outro lado para cá no mesmo método. Mesmo no meio da estrada, porque um carro começou a andar eu dei um salto para o lado e fui de ombro contra outro que vinha em sentido contrário. Num automático pedi desculpa e ele, mais velho que nem eu, me respondeu:
- Somos homens e aguentamos cargas de ombro
olhei bem para trás, gargalhei e mais ainda depois de ter visto que ele levava vestido uma camisola do Benfica, melhor, do Mantorras. Tive mesmo que parar, rir e andar neste calor de sauna ao ar livre são coisas que não combinam.
Recuperado lá segui no meu destino.
Aí tive que começar a fazer perguntas para entrar na porta certa. Mais uns quilómetros de marcha, porque era mesmo do lado de lá em relação onde me iniciei nas informações.
Cheguei, perguntei onde podia encontrar a pessoa que eu ia ver e conversar. Está a fazer exames, mesmo desses que chumbam. Esperei. Uns 15 minutos depois me apareceu. Só lhe conheça de nome e de História. Minha timidez veio na superfície da minha pele suada que logo ali secou. Como lhe devo tratar mesmo, me assaltou a duvida. Mas a sua simplicidade e simpatia me devolveram no normal.
Hoje já tinha reprovado 50% dos que lá tinham ido, sendo que um era a 4ª vez que lá ia. Me pensei ele está com azia. Coisa de professores, imaginei logo o filme recordando outras eras, outros tempos.
Mas que nada. Falámos pouco pois ele tinha de continuar. Combinamos um café para amanhã ou coisa assim. Estou ansioso. É o que se chama poder falar com a História.
Saído dali me dirigi ao segundo ponto da ordem de marcha.
Mais uma corrida, mais uma viagem que é grátis.
Cheguei lá e depois de escrever uns papeis me disseram são precisas três fotografias. Procurei na carteira o envelopezinho e nada de lhas encontrar. Não, não vou voltar atrás e depois à frente. Não me ia aguentar. Entrei numa pequena loja de fotografias, fotocopias e cabeleireiro. Disse que queria fotos para isto. Me disse ele na sua pronuncia chinoangolana que precisava gravata. E agora? Ter aqui.
E lá tirei as fotos e voltei. Entregues os documentos iniciei regresso.

Sanzalando

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5 de fevereiro de 2007

Notas soltas

Ontem que mesmo foi 4 de Fevereiro, dia de feriado que como caiu no domingo lhe passou para hoje.
Como que é data histórica lhe comemorei com amigos que eram já amigos e amigos que passaram a ser agora amigos.
Eram mais ou menos aí nas onze horas da manhã lhes me juntei lá para os lados do Futungo. O tema principal era mesmo uma feijoada que foi acompanhada de muita conversa que, como nas cerejas se foi desenvolvendo nas aventuras e desventuras da História, nos entremeios de cada estória de cada um e mais de um outro tantos que ali não estavam.
Na verdade foram para aí uma onze outras horas em que fiquei a conhecer estórias da História que nem cheirava.
O zulmarinho ali a meia dúzia de metros não convidava a um mergulho pois ainda se nota os efeitos das chuvas que fizeram estragos de muita monta e que ainda lhes olhei com os olhos de bom ver.
Assim mesmo, sentado num degrau ali estivemos no blá mais blá que as horas apenas voaram velozes contribuindo para a construção do meu edifício mental, para a edificação do meu castelo de decisões, apreensões e certezas.
Mas hoje mesmo é que as coisas estão piores. Não dá nem para sentar direito. O degrau acho esparramou o lugar mesmo onde as costas mudam de nome.
Assim, na manhã do dia de hoje, aproveitei para mais uma caminhada aqui nas redondezas e deu para ver que ontem acabaram de limpar o leito do Rio Seco, a brigada de limpeza, vestida de amarelo continua de vassoura, tractor e outras máquinas na limpeza, penso eu que deve estar alguém com medo que venha outra coisa do mais igual ao das passadas semanas.
Pena mesmo é que os anos de cigarro impeçam de caminhar mais um pouco mais de tempo. Mas acho que, com este treino, daqui a uns dias ando a maratona e volto. Gargalhei-me.
O tempo está mesmo para assar ananases e fritar mioleiras pelo que agora me refrescarei ao ritmo de uma loira tropical bem geladinha.

Sanzalando

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Máscaras utilizadas em diversos rituais - Tchokwe, Lwena, Yaka

4 de fevereiro de 2007

Para os que não viram e para os outros também


amadeo souza-cardoso

3 de fevereiro de 2007

Dia 1, que é 2 mas afinal é 1 (2)

Lá expliquei o que fazia ali. Já com um copo de água à frente e com alguma dificuldade e tosse na mistura.
- Sim senhor. Então vamos precisar disto, disto e disto.
Vamos? A Senhora também vai precisar? Eu não disse, só pensei e desta vez confirmei-me que pensava só para mim.
- Temos um problema. Me falta isso aqui. Vou ter que mandar vir de lá.
- Por agora não podemos fazer nada. Aguardemos então.
- Claro. Vamos fazer mais como? isto era eu a tentar ganhar tempo para não ir já para a rua banhar-me no bafo quente que até parece empurra a gente para trás.
- Quando tiver os documentos todos, volte cá para darmos início ao processo.
Não tive mais hipóteses e tive mesmo que entrar na minha luta de sobrevivência. Ponto 3 estava só pensado para a tarde…
No passeio olhei na direita, na esquerda e em frente. O mais fácil mesmo era ir em frente, avenida larga e com poucos carros que passam velozes. Assim ficava ali passadinho a ferro e não ia mais sofrer porque não tinha o documento X e nem dificuldade de meter ar dentro de mim.
Mas isso seria o mais fácil e eu não gosto das coisas assim fáceis.
Decidido segui na direita a caminho do ponto 3. Desconsegui lá chegar. Me apareceu assim na frente uma esplanada com um telheiro que só de olhar já me imaginava refrescado. Fui lá e me sentei. Com este calor ia mesmo uma geladinha. Mas que nada. Uma Fanta nacional. Que delícia. Me refrescou até a alma e me fez lembrar da IR e lhe mandei uma mensagem a pedir o documento que falta. Logo logo na volta um SMS a me dizer que sim pois claro. Quem tem amigos é rico. Aqui neste campo eu sou mesmo muito rico.
Sentado na Esplanada, já com o cérebro a funcionar resolvi mandar SMS nos amigos daqui só mesmo para dizer que estou mesmo aqui.
Hué…. Respostas logo em voz a dizer que tinham recebido e que coisas e tal… e já com combinações para isto e aquilo bem obrigado mas me deixa só aprender a respirar esse calor, que até a bateria do dito telefone estava a ficar assim que nem eu antes de me sentar na Esplanada, vazia de energia.
Hora do almoço chegou e nessa hora eu estava já em casa. Quem sofre assim tem de meter combustível sólido no papo, né. Tas a ver?
À tarde, eram assim como que 2 e meia e directo no ponto 3. Ficas na fila. Quando chega na tua vez te sentas na frente dum simpático jovem, eles eram seis, te pode calhar masculino ou feminino. Me calhou mesmo masculino. Assim meus olhos não brilharam.
- Olhe para a câmara. fez um flash.
Ele começou a escrever no computador as coisas que tinha de escrever.
- Indicador da mão direita – apontando para um digitalizador de impressões digitais.
- Dedo médio.
- Indicador da mão esquerda.
- Dedo médio
lhe obedeci e me deu um papel para ler e se estiverem os dados todos correctos assine na última linha.
Tudo certinho e direitinho, assinei.
- Aguarde, faxavor.
Me fui sentar numa cadeira de escola, sem ar condicionado mas por causa estavam as janelas todas abertas entrava um fresquinho saboroso. Me chamaram e deram um cartão 5 estrelas que tem tudo, desde foto impressão digital, nome e coisas mais incluindo o número 32453.
Com esta ganhei coragem e afinal estamos no pelotão da frente. Se é para se fazer então se faça bem.
O dia foi ganho que fiz o que estava planeado e me sobrou tempo.
Fiz bem ter escolhido andar a pé.

Sanzalando

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amadeo souza-cardoso

2 de fevereiro de 2007

Dia 1 que é 2, mas afinal é 1 (1)

Bem, hoje dia 2 de cá chegar, 2 do mês mas primeiro de começar.
Começou logo com um despertar madrugador porque o calor entrou na respiração e não dá para estar assim deitado. Há mesmo que ligar o ar condicionado, mesmo que o barulho dele não deixe mais fechar os olhos. Mas dá para respirar e pensar que assim vou sobreviver. Quem foi que me mandou a mim esperar tanto tempo assim que até desabituei como é que era.
Já com o cérebro oxigenado decidi pensar no que hoje tinha que fazer e desenhar no pensamento todo o percurso.
Vais de carro ou vais a pé.
Também a gente começar logo o dia de trabalho com um dilema é obra que não lembra nem ao diabo pelo que a decisão foi rápida.
Vais a pé que precisas fazer exercício, pensei eu cá para comigo como que a querer castigar-me.
Dois telefonemas e num deles me disseram, não vais conseguir nem fazer dois dessas coisas. Tentarei, lhe respondi na minha calma que comecei a aprender a ter.
E assim foi. Meia hora de andado cheguei no primeiro ponto da ordem de hoje. Acho mesmo estava como que debaixo do chuveiro. Todinha a roupa se colava no corpo, as gotas pingavam nos óculos parecia estava a chover, mas era salgado quando entrava na boca.
Hué! Ar condicionado. Me sentei na cadeirinha da entrada, me reconfortei e recomecei a respirar.
Me chamaram quando chegou a minha vez e com uma dedicação e delicadeza em 15 minutos dei com o assunto um como tratado, que estava mesmo.
Antes de me levantar me lembrei que ia sair daquele fresquinho e enfrentar esse bafo de lá de fora. Desmoralizei. O funcionário me olhou e perguntou:
- Quer um copo de água?
Imagino só qual foi mesmo a minha cara quando aquele pensamento me passou na frente.
Bebida a água vamos para o destino dois. 40 minutos a andar. Quer dizer, esse foi o tempo que eu demorei a chegar mas acho fiquei a saber os pontos de sombra todos onde eu podia mesmo saborear o poder respirar.
Entrei e novamente banho refrescante de ar condicionado.
Daqui não saiu mais, pensei eu comigo mesmo. Mas acho devo ter pensado alto que logo me perguntaram:
- Faxavor?
Desmoralizei porque nem deu tempo para me encontrar no meio de tanto suor.


Sanzalando

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amadeo souza-cardoso

1 de fevereiro de 2007

1º dia, dia zero

Era noite. Assim mesmo dessas noites que são escuras e no meu corpo fazia um frio que rachava a alma. Sa apanhou um machimbombo que corre por estradas ladeadas de nada. Ele vai à pinha pelo que não deu para ver mesmo onde é que ele andava. Mas que andou bué, disso tenho certeza mais que absoluta. Depois ele parou, se sobe as escadas e se apanha um avião que tinha dois motores ainda maiores que nem eu em cada asa. Grande mesmo grande que se não estivesse cheio dumas 400 outras pessoas, números redondos que ninguém me disse nem nada, dava para jogar tenis ou outra coisa lá dentro. Se não dava pelos menos eu lhe pensei que sim. Mas acho que ele também queria imitar o machimbombo e lhe andou com as rodas no chão parecia queria fazer a viagem por terra. Mas quando eu estava distraído ele já estava com as rodas a fugir da terra. Tudo decorreu bem até que lhe descobri que além dos grandes motores das asas ele ainda trabalhava a vapor, devia ser para ter mais força. É, não estou a sonhar nem a delirar. Ao mesmo lado mesmo, estava um carcamano desses que têm dois por dois que no fecho dos olhos lhe acompanhava um barulho taliqualmente mesmo igual de panela de água quando está ferver. Mas tirando isso, tudo foi bom por que o tempo lhe passou e quando era na madrugada um tal de capitão poisoi aquele monstro com uma suavidade de seda no alcatrão que já lhe devia estar a ferver pois quando abriu a porta eu ia caindo nas costas só com o baque da onda de calor e perfume que lhe ansiava faz tempo.
Mermão me aguardava cá fora desde ainda antes do gigante pássaro lhe ter posto as rodas no chão. Vais ver ele tinha pressa para me ver.
Bem, ainda estou a aprender a respirar pelo que hoje me fico aqui, não vá eu esquecer como se lhe faz e caia roxinho aí num canto.
Lhes voltarei


Sanzalando

Para os que não viram e para os outros também


amadeo souza-cardoso


WebJCP | Abril 2007