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A Minha Sanzala: 54 - Estória no Sofá - quando eu era garoto, uma história no Natal
recomeça o futuro sem esquecer o passado

23 de dezembro de 2010

54 - Estória no Sofá - quando eu era garoto, uma história no Natal

Hoje me lembrei de me sentar sobre o passado e matutar nas contas de cabeça assim como quem faz a prova real para confirmar a dos nove. Quando eu era garoto, assim miúdo de já deixar os calções e pensar sou homem que anda de calça comprida, meu sonho era assim de encontrar a alma gémea, aquela pessoa que pensa assim que nem a gente, que gosta das mesmas coisas que a gente, que faz rir e se ri como a gente. Um dia eu lhe vi e foi um relâmpago duma trovoada na cabeça e no corpo da gente. Parecia haver tremor de terra quando nos encontrávamos. Era o céu. Eu lhe gostava e ela me gostava assim numa força de nada nos desligar.
Foi passando o tempo, num tempo que a gente nem deu por ele e eu me fui desligando e só estava com ela quando não tinha os amigos para me acompanhar. Minha alma gémea tinha virado boneca, assim como as bonecas da minha irmã. Tal e qual. A minha irmã só brincava com a velha e preferida boneca quando tinha vontade, ou não tinha outra coisa para fazer, ou se enjoava duma boneca nova.
A minha boneca começou a ficar muitas vezes mais na estante ao pó. Um dia, acho que foi de repente, porque eu nem vi como é que foi, ela ganhou vida que nem a história do Pinóquio, e quando eu lhe fui tirar da estante e lhe ia levar a passear ela me deixou num raspanente que nem deu para decorar as palavras todas que ela disse.
Sem mostrar eu estava a rir, estava livre para poder sair assim num sempre sem explicações e invenções. Comecei logo a pensar em arranjar uma outra boneca, que ia ser boneca desde o início para não estranhar depois.
Mas à minha volta nada estava mais igual ao tempo em que eu circulava de poiso em poiso e de quando em vez eu ia ter com a minha boneca. O céu agora era cinzento e já não tinha os amigos que também tinham arranjado as suas bonecas. E eu olhava e não via outra alma gémea, porque nos meus olhos da consciência estava gravada a cara da boneca que me chutou num repentemente linear. Pior mesmo, foi quando passado uns tempos que eu não sei quanto tempo, mas para mim foi assim num brevemente logo a seguir, eu senti, eu vi-a ao lado doutro rapaz que fazia mais tempo não andava de calções.
Deu assim um coice de arrependimento que ainda hoje sai lágrima num escondido canto da solidão.
Era eu um garoto, moço miúdo armado em gente grande. 
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Sanzalando

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