recomeça o futuro sem esquecer o passado

7 de maio de 2013

Perdido no areal

Perdido no areal, vou ao sabor do vento, amargamente despenteado, docemente esquecido, entrelaço-me em ideias que sei um dia não cumprirei, como tantas vezes deixei por cumprir porque me faltou a paciência e a coragem, tendo ganho o medo e o rancor.
Perdido no areal deixo-me levantar voo por imagens que imagino são dum ontem que ainda não chegou.
Perdido no areal, ao sabor do vento, deixo-me morrer de amores imperfeitos e objectos inuteis.
Perdido no areal enlouqueci. 

Sanzalando

5 de maio de 2013

Eu, Dia da Mãe e Dia do Pai

Enquanto me vagabundo nessa praia que tem areia cola nos pés, arranha os dedos, coisa de gente sem nada para fazer, me lembrei que era dia da mãe. Me lembrei porque ouvi uma senhora gritar no filho 'me deixa hoje em paz que é o dia da Mãe'. 
Não, não comprei nada para o dia Mãe. O mesmo fiz no dia do Pai. Não é esquecimento, é mesmo só porque eu ofereço de memória. Não é justo comprar para ambos e ficar eu com as prendas. Mas essa parte eu sei não vos é importante. Mesmo vivos sabiam eu esquecia e dava só um alô no telemóvel e para ti, meu pai, nem me lembro mais como é que era, pois não tinha idade e nem sei se Bell já tinha inventado.
Mas deixemos as coisas menos importantes e passemos ao que importa. Lhes ofereço de memória, gargalhadas de recordações, olhares cúmplices trocados noutros tempos, recordações de abraços apertados com carinho.
Já sei que vão dizer-me que eu contínuo igual até nos pormenores. É verdade! Até nos momentos mais negros da vida eu vos gargalho com vontade, que até me lembro de tu dizeres, mãe, 'tu e o teu pai nunca sei quando estão a brincar ou não'.
Mas afinal de contas eu estou só aqui para agradecer vocês dois um dia se terem encontrado e criado esta obra de arte abstracta, de terem sido meus grandes amigos e quando eu consigo qualquer coisa de bem feito é logo em vocês que eu penso. Isto é só um aparte!





Sanzalando

António Gedeão para o Dia da Mãe


MÃEZINHA
António Gedeão
«A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exata,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.»



Sanzalando

3 de maio de 2013

Umas tantas frases perdidas

Olho a plano chão do zulmarinho e embalado nas pequenas ondas me refresco em ideias e pensamentos, momentos que vivi e nos que sonhei e vejo que o tempo tem hiatos que eu queria desfragmentar e desconsigo porque não teria linha continua a me segurar. 
Dou comigo a navegar na memória e relembro que mesmo sabendo que a vida um dia acaba, a gente não está assim preparado para perder. Daí que me catapultei, aproveitando a inércia do repouso, para dizer-me que por maior que seja a decepção, por maior que seja a dor, a minha dor é sempre maior que a do vizinho,  eu não posso parar. Imagina só que a vida é um piano de cauda, não faço ideia porque uns têm outros não, e olha nas teclas uma são brancas e outras são pretas, umas são música e outras também. O tempo me ensinou e eu parece aprendi


Sanzalando

2 de maio de 2013

56 - Estórias no Sofá - José Chibante futuro amante

José Chibante pensou que tudo ia ser diferente. Nova paixão, novo brilho nos olhos, sorriso ensaiado e palavras soletradas em bem perceber. Agora vamos começar do princípio e rever a vida de José Chibante.
Ele sempre se tinha sentido um gajo sozinho nesse mundo. José Chibante o solitário, dizia ele nos seus pensamentos. O ermita diziamos nós desconfiados dele. Ele, dizia, sempre se encontrava sozinho quando precisava de ajuda nos seus monólogos de ocasião. 
Burrié, seu cão de estimação, adorava dar banho nele, fazer festas, dar comida, brincar de rebolar no chão e mesmo assim, ingrato Burrié, um dia foi embora e nunca mais voltou. José Chibante era gostado, dizia ele, só pela D. Maria, senhora sua mãe e minha tia. Toda a gente gostava de D. Maria assim como D. Maria gostava de toda a gente, desde que tivesse dinheiro para lhe dar. Chibante lhe defendia de unhas e dentes quando ouvia estórias que ele jurava não podiam nunca ser verdadeiras. José Chibante, primeiro muito educadamente e depois com violência lhe defendia mesmo sabendo que ia ficar com mais dores que dormir sobre pau. D. Maria chorava e lhe pedia desculpa e dizia nunca mais vai haver outra vez que só durava até outra vez. D. Maria um dia também partiu e não deixou nem um bilhete a lhe dizer que lhe gostava muito. José Chibante chorou a noite inteira, todas as noites de seguida até que as lágrimas secaram. 
José Chibante passou a sonhar acordado com a namorada de infância que diz ter tido mas que ela não sabia e a gente nem conhecia ou tinha ouvido falar. Seu primeiro e único amor. Não lhe deu beijo nem abraço, mas lhe mandou muitas cartas escritas que nunca entregou. Imaginava o seu beijo e o calor do abraço e traduzia em palavras esses sabores.
Um dia eu li, de esguelha, uma carta dele que ele esqueceu de esconder quando lhe visitei. Consegui ler que 'o teu sorriso é tão lindo quanto o sabor do teu beijo'. Letra desenhada de quem escreve com amor puro. Desisti de ler mais, pois ainda eu chorava ou instigava ele. Não era correcto e não fazia sentido. Eu ficava nervoso nesses indelicadezas e ia sair asneira. Não aguentei a pressão e lhe perguntei para quem era aquela carta. Me respondeu secamente: ninguém!
Depois, José Chibante, cresceu. Não lhe conheci companheira, amiga ou amigos. Era independente, me dizia ele sempre em tom de antipatia quando eu lhe instigava a solidão. Ele me dizia que não queria viver que nem cão e gato como via nos vizinhos que sempre estavam na guerra.
Um dia, depois de muitos dias sem lhe ver, já meu cabelo estava cinzento do tempo, lhe vi com donzela de corpo perfeito. Eu amarrado num andar reumático e ele sorrindo para mim como nunca lhe tinha visto os dentes. 
José Chibante que estava à minha frente não podia ser o José Chibante que eu conhecia faz tempo de muito tempo eu nascera.
Donzela lhe punha a cabeça no ombro e ele parecia derretia de fazer inveja. Primo doidou, me perguntei eu. Ele ria enquanto eu, por dentro chorava, as vezes todas lhe instiguei de brincadeira de criança que não sabe mais que fazer para parecer é o mais importante. 
Me explicou com todas as letras: te lembras a carta que tu leste uma vez? lhe disse que sim. Pois eu estava a guardar para ela que eu sabia ela ia aparecer tal e qual eu sonhei desde criança. O beijo sabe que nem o sorriso e alegria tudo misturado. 
José Chibante acompanhado e eu ali solitariamente independente.
A gente fica com as sementes que guardou.



Sanzalando

30 de abril de 2013

sem tino e sem tempo

Deambulo vagueando por caminhos mais que pisados, por estradas mais que gastas e por almas mais que penadas, como quem não sabe por onde vai. 
O zulmarinho deve ter pica pica, o céu tem vento e cai chuva, a casa tem frestas e entra frio. Vou fazer mesmo mais o quê? 
Olha vou dar ordem para parar o tempo! Já sei que não sou original. Todo o mundo quer parar o tempo. Uns, porque é de alegria e, outros, é porque estão cansados de sofrer. Mas todos acabamos por construir as mesmas coisas, as mesmas alegorias adultas de gente séria, assim como filhos, dizer sempre a verdade e não mais que a verdade, ser padrão e sonhar com a casa com piscina que nem a do vizinho, ganhar dinheiro, crescer barriga e quem sabe sofrer de diabetes ou tensão alta. 
Se chega mais adulto quase velho que nem idoso e já tem outra vez autoridade para fazer críticas, deixar cair palavrões que nem gente sem tino, ter pensamentos de homem livre e de repente vem a dona da casa de repouso e acorda a gente porque está na hora de mudar a fralda.

Sanzalando

29 de abril de 2013

chuva tímida

Me embalo no som da chuva que cai vagarosamente, parece é chuva tímida, enquanto embrulho pensamentos com pedaços de memória e atados a desejos sonhados. Me lembrei, faz pouco tempo, dos meus medos de criança. O escuro, o pouco, o nada, a indiferença, o vento, a trovoada e a mesma coisa de ser apenasmente só mais um. Hoje sinto medo de ter medos. A vida nos faz cansar mas a gente tem que ultrapassar todos esses medos, até os calejados que parecem fazer já parte nós, que transformam o sorriso num esboço mal definido e que atiram para os nossos olhos um ar inexpressivo. A vida nos faz ter medo de partidas, de deixar de respirar e de deixar de ser a gente como a gente sempre pensou que a gente era.
Me embalo ao som da tímida chuva, preguiçosa, e solto um suspiro enquanto olho pela janela, fechada, os pingos não verticais que essa chuva deixa deslizar pelos vidros e desato do sonho um pensamento da memória em que me diz que tenho a alma viva dentro do meu vivo corpo.


Sanzalando

28 de abril de 2013

JOÃO CARLOS CARRANCA




Sanzalando

Camarim - A canção da timidez (Zeca Medeiros)





Sanzalando

gasolinando

Abrigado do vento que teima em soprar cada vez é mais forte, como que me a dizer: se te aguentas eu soprejo mais que vais cair. Mas eu resisto, enrugo os olhos e em tons de muitas cores agarro palavras como se fossem uma corrente e continuo o meu caminho.
Eu sei que tem sentimentos que são como todas as coisas, passam, ficam, avariam e desaparecem. Uns ficam aqui outros vão por aí e o ai nem sabe a sorte que tem..
Contra o vento que sopreja cada vez mais forte eu digo que carro não anda se não tem combustível. Me deixa só ir ali abastecer

Sanzalando

27 de abril de 2013

adeus saudade

Já vagabundei-me pelo zulmarinho, já me despenteei no vento sueste que me enlouquece, como todo o sueste altera todas as almas, já parti palavras, gaguejei, tentei cantar versos sem rima e sem nexos e desconsegui saber como me sinto hoje.
Estranho mesmo. Assim como que embrulhado em nostalgia, assim numa saudade que não sei se alguma vez vivi ou viverei.
Eu podia dizer que a vida está óptima, mas tem alguma coisa hoje que me faz calema nos pensamentos, que me perturba a alma, sem ser o vento sueste. Hoje senti vontade de ter uma roda de gente, de tomar café com gente, de falar com gente. Enfim, hoje senti saudade nem sei de quê.
Já vagabundei palavras certas e sei que daqui a pouco se dissolverão nos ponteiros do relógio como todas as palavras que soletrei em apertados abraços.
Adeus saudade, até um dia!


Sanzalando

23 de abril de 2013

rascunho com medo de escrever

Caminho em passo curto, um pouco corado, não de cansaço nem de medo, apenas de espanto e surpreendido. Sigo em direcção a lado nenhum, no meu passo desapressado, despreocupado e escondendo a cara enquanto vou imaginando que deveria haver dias que não tivessem fim e sonhos que não desaparecerem nos primeiros raios da alvorada, que a felicidade não deveria ser nenhum embrulho escondendo o pó das estantes da memória e o tempo não fosse carrasco de amores perfeitos.
Sigo escondendo a cara, puto reguila de outrora, sigo imaginando que deveria ser fantástico viver no mundo da fantasia e não no mundo real, não como naufrago agarrado a um destroço com esperança de um dia chegar a um lugar.


Sanzalando

22 de abril de 2013

Falei?

Vou respirar. Vou ter um momento só para mim. Já paguei a factura da saudade, já morei na tua rua, já chorei as tuas lágrimas. É tempo de dizer que chega.

Sanzalando

20 de abril de 2013

Ensaio nunca descrito nem existido

Olho o zulmarinho como quem não sabe o que fazer mais para sorrir com vontade, para ter os olhos brilhantes reluzentemente diamantes. Olho o zulmarinho e já sorrio, quando o telemóvel toca como que a me avisar que chegou uma mensagem. Instintivamente mando a mão ao bolso, abro-o e leio a mensagem que apenas diz: Saudades. Olho em redor e não vejo ninguém. Perco tempo a ver quem me a mandou, os óculos de sol baralham as cores destas modernices. Descobri  Voltei a sorrir. Não. Não pelo que pensas. É que de verdade eu já não me lembrava de ti. 


Sanzalando

19 de abril de 2013

Rascunhando letras

Dou comigo a caminhar por dentro do zulmarinho que me refresca a alma. Ele parece chão a se estender desde aqui até lá no lugar que tenho no coração. Neste caminhar dou comigo a sonhar sonhos que não sei se algum dia sonhei em voz alta ou foi só mesmo na fantasia deste momento. 
Eu sei que quando era criança eu queria ser gente grande. Agora eu sou grande e queria ser criança. Daí pensei que qualquer flor quer ser borboleta colorida e sair por aí voando a favor do vento. Dai pensei que qualquer grade deve quer ser de papel para deixar passar quem quer. Qualquer hoje queria ser ontem. Qualquer amanhã quer esquecer tudo e fica com inveja do nada que não tem nada.
Com os pés gelados dou comigo a imaginar que se tudo fosse o quereria ser, até a tristeza quereria ser alegria, a distância quereria ser um ponto e saudade não ser mais que um abraço.



Sanzalando

Coisas difíceis para simplificar

Sanzalando

18 de abril de 2013

voltei sem regressar

Vais pensar que eu voltei a soletrar palavras no vento, à espera que o vento te as leve para ouvires em silêncio. Mas de verdade não. Não voltei porque aqui sempre estive, ao que sei. Não voltei, porque vou e volto sem sair do meu lugar de costume, silenciosamente embalado pelo marulhar do zulmarinho,  perfume de alga que me leva no sonho de um dia voltar a ser alguém que nem eu mesmo. Não voltei porque olho as fotos antigas e não me vejo, olho as frases ditas e não me ouço, as atitudes tomadas e não me conheço. Não voltei porque acho sou outro que não eu.
Este eu, acha que tudo caiu no esqueçómetro do tempo e que aprendeu que não há amor que sempre dure e estradas que não terminem. Este eu, assim tal e qual como sou, continuo a aprender que tem tempos que estou rodeado de gente que não tem meio de aprender seja lá o que for. Este euzinho, assim manteiga que nem derretida de tanto sol, acha que o problema é que tem gente que acaba por morrer mesmo antes de viver.
Regressarei no dia em que sentir que eu sou eu mesmo, sem tirar nem por, igualzinho ao que sempre me senti.


Sanzalando

curiosamente

Sanzalando

16 de abril de 2013

Palavras sonhadas

Me sentei à beira do zulmarinho assim como quem quer ganhar uma cor que não seja pálidamente doentia. Esqueci que já não tenho mais tempo para perder em sonhos e deixei-me embalar, não pelo marulhar, mas apenasmente pelo cair de palavras na cabeça, escrevendo frases na memória. Sonhos, todos os temos, alguns mais que outros, uns melhores que outros e outros que tento a todo o custo esquecer. Também tem sonhos que eu prefiro pensar que não os tive, que não existem e que são os enterrados no esquecimento com o rótulo de pesadelo.
Mas não importa que eu perca tempo a sonhar, aqui sentado perto do zulmarinho, porque a qualquer altura vem essa coisa da realidade e lhes interrompe ficando apenasmente as palavras que escrevi na memória.

Sanzalando

12 de abril de 2013

subitamente palavras

Quem sabe algum dia voltarei a espreguiçar palavras que poderão voltar a ter significado, simbiose de virtudes e defeitos, ocas ou solidamente reconfortantes, subindo e descendo emoções como se fossem o yo-yo da vida.
Quem sabe eu tenho sentimentos que desconheces, saudades de ter saudades, nostalgias sem sentido? Quem sabe tu não sabes o que é uma carta de amor escrita por amigo que te gosta por seres amigo de letra grande?
Quem sabe que palavras soltas podem ser sonhos, certezas, fingimentos de correr por aí ao desconcerto das curvas da vida?
Subitamente dei comigo a escrever palavras espreguiças por um poema que recebi a me perguntar onde estou. Aqui que é em lugar nenhum por agora, travesseiro onde deito a cabeça a descansar e a sonhar com a saudade que te deixei de ter, por ter saudade de futuro.



Sanzalando

4 de abril de 2013

testando letras, apenas

Me sentei sob a chuva e imaginei o cheiro da terra molhada a me nostalgiar os olhos como quem chora em silencio e às escondidas. Me deixei levar por palavras secas a roçar a rudeza do agreste salvagem que me invadiu a alma e me perguntei porque um dia eu te deixei estacionar no meu coração sem porte pago e sem certeza que o local não era de estacionamento proibido. Multei-te? Preciso doer-me mais para ver se tenho jeito de aprender a fechar cancelas que sei se avariam nas pequenas chuvas da madrugada.


Sanzalando