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A Minha Sanzala: Julho 2012
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de julho de 2012

já não era uma vez

Jardim da Praia do Bonfim. Caramachão de bungavílias e bancos de madeira. Eu sentado pensando em mim. Parece impossível mas é verdade, eu tentei me pensar que estava ali sentado contigo como dois velhinhos a conversar do tempo em que tínhamos tempo para estar agarradinhos a falar de futuros.
Era para ser um dia normal, um dia como outros, mas não foi. Foi onde tudo começou a se acabar, onde misturei os meus sentimentos com a minha angustia e a vontade de rever outros futuros mais verdadeiros. Não era madrugada, nem manhã, nem tarde, era um dia sem hora que gastei a te dizer que vou embora. Não pensei muito nem estudei em livros soluções de matemáticas pouco práticas de respostas rápidas. Era para ser um dia normal que acabou com toda a normalidade e ainda hoje não sei porquê.
Já não vejo o casal de velhinhos sentado no banco de madeira do jardim da Avenida da Praia do Bonfim. Já não revejo o sorriso de futuro sonhado nesse passado. Já não sinto o perfume do teu respirar adolescente, normal, suspirando por mim. 
O banco do jardim está vazio esperando por mim na avenida da Praia do Bonfim.
Já não tem mais estória de era uma vez um casal de velhinhos sentados no caramachão a falar de passados.

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Bicicleta 51

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29 de julho de 2012

delírio duma manhã de verão

Olho na tua casa e como sempre não te vejo. 
Olho na minha memória e lá estás nos teus anos vinte. É, ficaste assim, congelada na memória e eu aluguei um espaço de tempo e me escondi lá para te ver melhor e sem outros olhos a me roubar a nitidez. De imaginação te acariciei, te beijei e sorri de felicidade, aquela que me fazia rir na gargalhada pura, aquela que parecia até brilhava no som, aquela que os olhos pareciam eram de sonho. A ti que nunca me deixaste te tocar.
Neste pedaço de tempo que eu aluguei para estar contigo me recordei que houve tempos cegos que tu viste e zangaste-te que ate hoje ainda não perdoaste. Não disseste. Eu apenas sei. Recordei também pedaços de inocência nas escolhas que fizeste, na coragem que escondeste e que num dia, assim sem mais nem menos, desapareceste do meu mundo real.
Olho na tua cara e como sempre não consigo ver o que pensas e eu mantenho o meu corpo sem cortes e a minha alma sem rasgos.
Inteiramente teu até ao dia que não.

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28 de julho de 2012

sabor de sorriso preciso

Mergulho na praia. Pouco importa é inverno, está cacimbo e mãe me mandou vestir casaco. É, ela manda vestir quando ela tem frio.
Mergulho mesmo como que a lhe castigar. O corpo, o meu corpo que leva a alma junto. Esse que pensa é jovem mas sofre de idade, de saudade e de amor de tantas coisas. Lhe dou um banho de mar gelado que ele até se arrepia na alma. Certeza tenho é que hoje não tem pica-pica no mar a me deixar gritar de dor de urticaria. Dói mesmo é de frio.
Mas que lhe faço sofrer, faço. Não me interrompas que eu já te digo mais o porquê.
Hoje comecei mais um dia de linhas direitas. Vou fazer isto, aquilo e mais aquele outro. Só não vou mesmo é pensar, sonhar, recordar, imaginar e fazer esforços de memória para ver só as cisas boas. Não vou no parque infantil, porque a idade já não é a mesma e o tempo passou. Não vou na saída da missa que hoje não é dia e também a idade e as hormonas não são mais as mesmas. Vou fazer só mais linhas perfeitas, caminhar longos caminhos em direcção no futuro, não me desviando do risco invisível que tracei e picotei de interrupções umas tantas vezes. 
Bumba, virou na rotina. 
Pensei-te. Sonhei-te. Recordei-te. Quando é assim, não termina bem. 
Se apagou o sorriso que se afogou na lágrima que não saiu. 
Porque é que eu não consigo seguir a linha recta feita de régua e esquadro, como as ruas simétricas da minha cidade, imagino está de ruas desertas deste cacimbo que cai parece é noite branca.
Mergulho. Me arrepio. Suspiro e me sento na areia à espera duma qualquer reacção que eu não quero é pensar. Apenas se desprendem lágrimas que caiem silenciosamente sem perturbar o marulhar desse mar gelado que me entrelaçou arrepios sem me tocar na alma e não me mandou nenhuma canção de kianda.
Bem, vou ter de esperar amanhã eu consiga seguir a linha recta traçada, fugir desse mar, desta simetria de ruas, destes cruzamentos de pensamentos e sonhos, engolir o sabor amargo da saudade e quem sabe ganhar um sabor doce de sorriso.


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27 de julho de 2012

liceu de memória

Percorri vezes sem conta os compridos corredores do meu Liceu. Também lhe abri janelas para entrar sem me verem, ou sair, fugindo de aulas, sem que o stôr saber. Neste liceu conheci gente marcante, importante e outros inesquecíveis. Hoje me sento frente a uma fotografia e o silêncio me ocupa num empoeirar de emoções. 
Pobre alma de garoto apaixonado numa parva adolescência.
Uma ou outra lágrima rola pela cara caindo mesmo sobre a fotografia como a lhe querer afogar num mar de sal. Um teste à memória escrito em linhas tortas duma infância passada lá no longe num tempo amarrotado e por vezes sepultado na argamassa do esquecimento.
O coração acelera quando se lembra de amores platónicos escondidos num espreitar atrás de cada coluna. Embaraço de voz no soletrar de cada nome que a memória fixou. Tropeço palavras sobre sentimentos, salas, escadas, rostos, vozes, andares e posturas. Vagabundos se me encontram no degrau da porta final do corredor da secretaria onde mais velhos gastam faltas em fumos de cigarro ou outros que fazem sorrir. Eu, tímido, me coloco em bicos de pés para parecer maior e me juntar neste grupo de bons malfeitores, gente boa que nem o tempo nem a memória, alguma vez atraiçoou. 
No pátio, feito de areia e brita, em que as brincadeiras mais violentas davam direito a esfoladela grossa, mercúriócromo para amanhã, se fazem equipes de trouxa lavada, garrafão ou picles.
A fotografia, já ondulada pelas lágrimas, parece criar vida e deita fora o que restou de desilusão como que a dizer-me que não me esqueceu e que o meu eu faz parte desta importante peça de memória escolar.
Limpei os olhos, entrei numa sala de aula e atentamente, pela primeira vez na vida, ouvi uma aula com a maior atenção do mundo


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Bicicleta 50

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26 de julho de 2012

TIRA 56

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25 de julho de 2012

pragas em dia de feira

Em Março se fazem aqui as Festas do Mar. Hoje, dia de inverno cacimbado soprado de vento leste percorro a feira vazia de gente e barracas. Dou comigo a falar sozinho, aqui era o Barbeiro Latinhas e os seus cavalos de corrida que tinha direito a relato parecia era jogo de bola e mais não era que um jogo de dados que tinha de prémio um cabaz de mercearia, ali com direito a rampa era o estúdio da Rádio que diariamente fazia a sua reportagem e tinha direito a pedir uma música e uma vez me pediram os dez mil russos que eu fiquei a saber era o Demis. Ali era o Sétimo Céu, onde nunca me deixaram entrar. Ali a feira dos espelhos, onde eu trinca espinhas virava gordo e a gente ria. 
E neste diálogo interior dou comigo a desviar pensamentos para mais do mesmo. Se pensas que te esqueço é melhor esqueceres tu. Eu vou ouvir as tuas músicas vezes sem conta, olhar as tuas fotografias até elas ficarem mesmo já sem imagem, eu vou dar as tuas formas aos livros que leio e o teu nome vai aparecer de surpresa nas conversas que tenho por ali e por aqui.
Melhor é me esqueceres se é que já não esqueceste de vez a adolescência do nosso amor infantil.
Fica a saber que os beijos que deres, seja a quem for, vão-te saber ao gosto dos meus lábios. Os olhares que trocares com outros olhos verás os meus no caminho. Os nomes que pronunciares serão automaticamente transformados no teu subconsciente no meu nome.
É, aqui onde fazem as Festas do Mar, te prago que vou permanecer nos teus beijos, nas tuas carícias, quer queiras quer não.
Depois, um dia, quando nos juntarmo-nos num eternamente enfim, juro, te farei esquecer todos os pesadelos que sonhaste.


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24 de julho de 2012

falando de Amor

O Amor nos contos de fadas é bonito, enquanto que o Amor da vida real às vezes faz rir e outras faz chorar. 
Que se vai fazer no Amor? Zangar com ele? Lhe esquecer de vez? 
Não tem mais como fazer isso. Ele é doença pegajosa, por vezes doce e outras vezes amarga.
Tem Amor que vale mesmo a pena. Aquele que quando está longe a gente quer ele bem no coração, aquele que apetece correr para dar um abraço, aquele a quem a gente sente vontade de dizer coisas doces. Também àquele que mesmo assim ainda nos faz perder uma lágrima de saudade. 
O Amor é colorido. Não tem sueste nem vento norte e raramente o ar é pouco mais que uma alegre brisa.
O Amor é como um filme que a gente nunca viu. Não sabe como acaba!
Tudo falei sobre o Amor porque me recordei do velho Liceu que tinha sido Escola Comercial e antes fora Escola de Pesca. Era por trás da minha casa. Da casa onde eu me sentava na varanda a ver o cacimbo cair e me tapar a vista do quintalão.
Porque em Julho tem de haver nevoeiro como na minha infância?
Mas me consigo lembrar de jogares o cabelo para o lado depois de deixares de usar franja. De sorrires sorriso forçado por simpatia. De olhares com desdém porque te convém.
Mesmo com o cacimbo eu consigo me lembrar e depois me admiro de ir navegar por palavras que falam de Amor.
Antes de adormecer eu fecho os olhos e penso palavras que te dizem Boa noite!

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23 de julho de 2012

saudade

Dou comigo a caminhar junto do velho campo da bola que hoje é apenas um espaço vazio. Me lembro de ver aqui jogar o Leopoldo, o Travassos, O Bitacaia, o Neto, o Marcelino, o Monteiro da Costa e o Capela, não obrigatoriamente por esta ordem, mas foi assim que falei e é assim que registei. 
Pois é, hoje só me estou a lembrar de guarda redes. Se calhar por pensar que são seres que têm de tomar conta de espaços grandes e que não podem falhar nunca se não o caldo se entorna. Mas eu não posso falar da bola que disso ainda percebo um pouco menos que nada e por isso seria difícil conversar-me. Mas como caminhei por aqui e ainda vejo restos do velho campo marcado com cal, senti saudade de quando tudo era mais simples, sem nunca me entristecer ou olhar para o meu corpo e ver que passou tempo nele. 
Como caminhei por aqui senti saudade da minha imaginação e cegamente me lembrei daqueles que estavam aqui parados a tomar conta desta baliza que ficava mais perto do jardim onde por vezes passeio em devaneios mentais sem ter a triste consciência da realidade que me pesa no corpo. 
Eu sei que parece que eu quero ter o peso da minha inocência juvenil onde era apenasmente feliz.
Mas é só um parece, porque não esqueço os oscilantes momentos inebriantes da minha vida e eu hoje faria coisas diferentes, mas muito iguais a tantas coisas que fiz e às que desejei fazer. Teria arriscado mais. Teria querido mais. Teria feito mais. Mas ainda vou a tempo que o tempo sobra numa sombra mutável de tanto custo a que baptizei de saudade.


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22 de julho de 2012

salada de palavras

Já me perdi de tantas voltas, te tantos retornos e e outros tronos sem dono. As ruas são pequenas, o cacimbo é muito e a vontade é quase nenhuma, por isso me perco nos labirintos do pensamento. Às vezes precisamos de nos perder para aprender. Ora bolas, a dar valor, quanto mais não seja. Não vale a pena chorar, espernear, insultar ou arrancar cabelos e dar voltas ao estômago. Tudo não passa duma aprendizagem.
Vá lá, às vezes sabe bem chorar por um amor de adolescência, por um amor frustrado ou por uma dor qualquer tipo cólica. Não passa, mas alivia. Pelo menos a alma. 
Quanto ao resto, passada a fase de aprendizagem, vem a fase da restauração. Janta-se aqui e ali e o tempo vai apagando e se perdeu o tempo da lamentação. 
Nada é por acaso. Todos julgam.
Perdido, me encontro num irreal mundo em que me esqueci de viver a minha vida para viver a de outros. Chega. Até as decepções amadurecem. Eu também. Cresço e faço as minhas escolhas. Gente adulta de princípios.
Chorei por me ter perdido. Chorei pelo tempo perdido. Chorei pelos amor esquecido.
Depois sorri e olhei-me e confiei em mim para continuar a percorrer os caminhos das minhas ruas, a subir e descer as minhas avenidas, a aguentar os meus sóis e os meus cacimbos.
Perder-me foi uma aprendizagem.
Digo eu, que já volto não tarda!


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21 de julho de 2012

quantas vezes

Quantas vezes percorri as tuas ruas em busca de adjectivos, palavras bonitas de som agradável e ao mesmo tempo comparei a minha vida a um conto de fadas? É mais do que claro que há erros de estória, desencontros de datas, de olhares e de tempos.
Quantas vezes te procurei, sem artifícios nem artefactos, com a ideia de que tudo entre nós ia dar um certo de palavras grandes e afinal tu respondias com nadas e eu tentava sempre? É mais do que claro que os meus olhos eram os únicos que viam.
Quantas vezes pensei que precisava de tempo para poder confiar de novo e que os meus olhos necessitavam de água limpa para verem mais claro mesmo nas noites escuras? É mais do que certo que as palavras meigas nunca foram pronunciadas.
Rua após rua num quadriculado geométrico de estirador desrimado, cantei poemas e chorei dramas em tramas cinematográficas de filmes de meia-noite.
Quantas vezes deitei fora as minhas preferências, as minhas alegrias e as minhas paixões para entrar nos teus sonhos? É mais certo que fiquei de fora porque sonhar nunca o fizeste.
Quantas vezes chorei sem lágrimas as minhas alegrias abafadas porque as tuas palavras nunca me chegaram aos ouvidos? É certo que nem sabes que eu existo como eu.
Rua após rua sou gente confusa, livro sem letras, canção sem música, aventura sem acção.
Quantas vezes deixei a minha marca e esperei? É claro que ainda sentado, numa rua que já foi tua, espero num desespero de páginas em branco à espera de versos declamados em palavras agradáveis de se ouvir como se fossem um conto de fadas em que todos são felizes antes da palavra fim?
Um dia, tantas vezes depois de ter tentado, conseguirei escrever em palavras agradáveis de se ouvir o quem sou e tu me dirás no teu silêncio que já cheguei tarde.



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20 de julho de 2012

impossivel

Sentado no vão da escada, escondido de mim e do mundo, fugindo de prisões, medos e reflexões é-me impossível não contar os segundos, as horas e os dias que não estamos juntos. Não te esqueço. Cada tua curva, cada teu movimento, cada teu olhar mesmo aqueles que eu nunca soube entender. Aquela mania parva que eu tinha de te falar brincando atrapalhou a minha ideia, misturou minhas emoções e os meus amores se confundiram em becos e ruas sem nome.
Passa o tempo e eu concluo que esquecer eu não consigo, habituar é-me impossível e até parece eu me viciei na tua ausência de mim.
Eu sei que te prometi eu logo logo apareço e até hoje foi um adiar, um me enganar e um desejar-me pela metade.
Eu sei que percorri outros mares, procurei outros sabores, olhei outros horizontes, mas tu... és tu e assim sempre o serás para mim.
Sentado no vão da escada sinto-me em vão da vida e aprendi a não te merecer nem me achar o melhor para ti. 
Mas fugindo de prisões e medos eu não me esqueço que te amo como daqui até ao fundo da minha rua, seja onde ela for.



Sanzalando

19 de julho de 2012

Tira 55

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18 de julho de 2012

medos

Já tive medo de ser o que sou, de tentar o que não consegui. Tive medo da chuva e de me perder no escuro. Já tive medo de noites sem dormir e de dormir e não acordar. Tive medo da vida agitada, do silêncio e das vozes sem dono.
Já tive medo de não saber o que seria a felicidade.Tive medo que ela fosse um presente embrulhado em papel de passado ou um futuro rasgado em tiras de desperdício.
Já tive medo de não ter planos e de não conseguir sonhar.
Já tive medo de não ter palavras, assim como tive muito medo de não existir.
Já tive e ainda tenho medos que não esqueci.


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17 de julho de 2012

tem dias

Tem dias que acho estou aqui como tem outros que acho estou lá. Lá onde tudo são memórias coloridas, sons de tardes ensolaradas e manhãs de cacimbo, onde me lembro que tudo existe como se fosse peça dum jogo, página dum livro que imaginei, sombra de uma árvore que nunca plantei.
Tem dias onde encontro todas as memórias, abraços e lágrimas, quase sempre de alegria. Tem dias que chorei de tanto rir enquanto choro de tanto me lembrar.
Tem dias curtos e outros bem compridos, mais longos que a mais longa rua da minha cidade. Tem dias em que eu apenas vivo para amanhã me recordar.
Tem dias eu gostava outros nem por isso.
São assim os dias


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16 de julho de 2012

me prometi

Me sento no muro da casa da frente e fico a olhar para a minha como quem não vê nada. Estou mesmo é sentado nos pensamentos. Nesta casa já morou muitos amigos meus. Não sei, não lhes entendo porque mudam. Também não sei quem é mesmo o dono verdadeiro dela. Mas pouco importa. Eu sinto saudades dos que me lembro que moraram aqui. Mas hoje estou aqui sentado nos meus pensamentos e não em recordações de quem morou aqui.
Acho já me fiz mil promessas. Tenho a certeza não cumpri nem metade. Eu me digo é agora mas nem uma semana chega para lhe esquecer. Se calhar nem um ano me faz recordar o que me prometi. Mas agora eu digo que é agora e ponto final. Sorri para mim e me esqueci. Olhei na casa do lado. 


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15 de julho de 2012

No balancé me deixo quase adormecer. Não dou balanço e nem fico parado. Estou ali pendularmente a me perguntar que é que me faz gostar de ti. Não sei responder e arrisco para o ar do meu pensamento, que não sou de falar alto, muitas razões que vão desde o teu sorriso mental, o teu ar implicante, o teu perfume picante ou o teu olhar cerebral. Mas são poucas as hipóteses de eu acertar. Acho mesmo é o teu jeito implicante de acordar todas as madrugadas de céu cinzento cacimbo. Não vou arriscar mais ideias que até me tiram o sono e depois não vai servir de nada me manter aqui no balancé.
Acho foram as noites que vagabundámos juntos, no cinema, nos bailes do casino ou do ferrovia, nas noites de conversa imparável num muro duma qualquer esquina.
Acho foram os calores de mimo em verões inesquecíveis.
Acho que não sei as razões de te gostar como te gosto. Acho que te gosto apenasmente porque sim


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14 de julho de 2012

preguiça

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13 de julho de 2012

Tira 54

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12 de julho de 2012

Saída da missa

Me sento no muro das Obras Públicas e espero a missa acabar. Eu sei tu não vais sair de lá porque nunca, de nunca mesmo, te vi lá entrar. Mas como não tenho esperança de te ver hoje, a não ser que coincidência dos acasos logo nos cruzemos no teu passeio familiar de fim da tarde, eu vim aqui ver outras amigas que às vezes perdem tempo a olhar para mim e não sei quanto tempo os olhos delas aguentam se virar para o meu lado. Há que manter as portas entreabertas, penso eu no meu ar de adolescente em tempo de cacimbo.
Mas enquanto a missa não acaba eu me dou conta que tu te estás a dar bem sem mim. O teu sorriso continua o mesmo teu sorriso, aquele misto mistério, nostalgia e embriaguez. Consegues ver o teu sorriso ser sorrido assim? Um meio completo a dar para o todo? Ele te imita na perfeição e no comportamento. Não quero dizer que pelo facto de manhã cedo eu estar aqui sentado no muro das Obras Públicas a pensar no teu sorriso eu estou porque sinto a tua falta, porque mesmo que eu fosse sentir eu não te ia dizer porque não fazia sentido eu falar sem me ouvires. Nem vou explicar que doi na alma essa indiferença, essa maneira insensata e doentia de não me ver. Nem te vou mostrar o meu olhar a implorar um olhar teu.
Aqui sentado no muro das Obras Públicas, olhando o mar, o porto e esperando que a missa acabe, atabalhoado em pensamentos e nadando ao sabor da memória soletro sentimentos abarrotados dum turista da vida que não desiste do amor só porque sim.
Olha, acabou a missa, vou ver quem sai de lá e vou fazer companhia a um grupo levando todo o meu humor e brilho de fantasia nos olhos. 

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Tira 53

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11 de julho de 2012

Usando Friedrich Nietzsche

Estar bem e feliz é uma questão de escolha e não de sorte ou mero acaso. É estar perto das pessoas que amamos, que nos fazem bem e que nos querem bem. É saber evitar tudo aquilo que nos incomoda ou faz mal, não hesitando em usar o bom senso, a maturidade obtida com experiências passadas ou mesmo nossa sensibilidade para isso. É distanciar-se de falsidade, inveja e mentiras. Evitar sentimentos corrosivos como o rancor, a raiva e as mágoas, que nos tiram noites de sono e em nada afetam as pessoas responsáveis por causá-los. É valorizar as palavras verdadeiras e os sentimentos sinceros que a nós são destinados. E saber ignorar, de forma mais fina e elegante possível, aqueles que dizem as coisas da boca para fora ou cujas palavras e caráter nunca valeram um milésimo do tempo que você perdeu ao escutá-las.

Friedrich Nietzsche.   



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Bicicleta 49

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10 de julho de 2012

passear de motorizada

Hoje mesmo não vou ficar por aí sentado, polindo esquina parece eu sou vagabundo. Está cacimbo, eu estou de férias, ela não aparece na janela, nem na varanda e nunca vem na rua brincar com os mais velhos de tempo de rua. Mas a gente é assim e nesta idade a gente não vai perder a mania e a vontade de ser feliz. Não vou nem se quer pensar em desistir de esfolar o joelho só para parecer é menino bem comportado, que olha para longe e vê a vida assim é futuro.
Vou mesmo pedir a NSU do Juleco ou a Suzuky do Tobé e me vou mandar pelos arredores e afastar qualquer ideia de ficar aborrecido, deprimido e outras palavras assim terminadas. Com os cabelos ao vento, ainda não tinham inventado essa coisa do capacete para andar a passear, vou arejar a cabeça, arranjar mais vontade de amar e escolher o quê e a quem eu vou distribuindo o amor ao longo da vida, mesmo que seja uma pitada aqui, um quanto baste ali e uns tantos gramas por acolá.
Com uma dessas motorizadas eu vou sonhar sou avião, barco ou seja lá o que fôr, quero é viajar, comer algodão doce, saborear pipocas, imaginar as festas do mar, que passaram e as que ainda não chegaram, as do planalto que estou quase a lhes sentir no corpo da noite na barraca do quino, no carrossel dos cavalos ou nos carros de choque.
Eles vão emprestar eu sei porque eu sei também eles não são de fazer inveja só porque sim e não vão deixar eu perder o ânimo só porque sim.
Hoje vou passear de motorizada emprestada e buscar esperança de cabelos ao vento.

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bicicelta 48

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9 de julho de 2012

gosto de te ver todos os dias

Eu sei que é inverno e as férias fazem com que eu não te veja como te via todos os dias no pátio do liceu, na sala de aula e até a caminho de casa. Por isso passo horas na varada a ver se tu vais à varanda ou vais na cozinha ou no quintal.
Olha, estás ali. Atiraste o olhar para lado nenhum. Vieste só ver como estava o tempo, penso eu. Não me olhaste e nem sabes que eu estou na varanda a te olhar. Acho instintivamente me escondi. Estás em linha recta entre mim e a palmeira que não sei quando vai acabar de crescer. Continuas a olhar para nada, penso eu. Não consigo ver o brilho dos teus olhos. O quintalão também devia ser mais pequeno e eu te via melhor.
Viraste costas para mim como se olhasses na garagem. Saio do meu esconderijo. Admiro-te. Faz vento frio mas me aqueço a alma. Foste para dentro sem ter dado a volta para o meu lado. Eu vi-te e tu nem sabes se estou aqui ou não.
Gosto do cacimbo porque estou de férias e daqui a dias vou no planalto ver a família, passando uma noite no comboio. Mas eu gosto mais de te ver todos os dias.


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8 de julho de 2012

aqui, na ponte velha

De tanto cacimbo que faz eu já estou rouco de imitar farol. Daqui a pouco a minha garganta vai ter calos e não vai conseguir usar voz melodiosa para dizer coisas de amor. Terei mesmo é que desfazer os nós das gargalhadas e as encruzilhadas das palavras doces. Com esta voz como eu vou conseguir rimar os poemas de amor, saudade, dor e ansiedade?
Aqui na ponte velha, na carcaça da ponte mais velha que a idade de alguém que eu conheça, em silêncio para deixar descansar a garganta, escrevo na memória rimas bobas com dedicatória na contracapa e sorriso nos olhos.
Daqui olho para onde não vejo mas sei que fica um pouco a dar ao longe, sentindo-me raquítico decido que sou crescido de mais para continuar a amar com tanto amor e me deixar atormentar o sono por coisas bonitas de sofrer.
Aqui, pé ante pé, tábua seguida de buraco, na ponte que já foi tudo até ponto de mergulho, me atiro de cabeça para palavras bonitas, lhes lanço uma guita, lhes dou um nó bem apertado e as atiro na memória para numa beleza futura, embrulhada em sorrisos e olhos brilhantes e voz descansada, buscando forças inimagináveis, as dizer num fôlego como se fossem palavras bonitas acabadas de escrever.
Daqui, num aqui que é agora, declaro com a minha voz rouca de imitar farol, que quero que as minhas poesias não valem um tostão e que todas as metáforas são obras do diabo.
Aqui, na ponte velha que sempre me meteu medo, liberto-me de abraços fracos e pinto de cinzento os arco-íris dos dias de nevoeiro que cai sobre a minha cidade, em troca duma obra prima que ainda não escrevi.


Sanzalando

7 de julho de 2012

É dia de folga. Cacimbo não folgou. No RCM esteve a dar Bom dia Camaradagem, um programa da Elsa e Carlos Carranca. De vez em quando tem música que não devia passar. Mas é só de vez em quando e por isso ainda ninguém disse nada. Hoje esteve cá o Alberto Amorim a cantar José Afonso. De resto tem música de apelar à lágrima no coração. Nas escadas do RCM eu vou pensar que é que eu vou fazer agora, que tenho o dia grande pela frente. Hoje já não tenho que lhe entrar mais vez lá dentro, o puto Sena me substituiu, eu não tenho que ouvir o Ivo ou o Frota a me xingar a distracção de um minuto em branco ou um anúncio que não passou. Aqui é mais o Eurico que está atento. Mas eu estou agora de folga e estou a falar de trabalho?
Sento mesmo na escada a pensar que dia vai fazer-se hoje.
Acho vou começar por mudar o nome. Depois vou fazer um corte novo de cabelo. Vou mudar de livros de ler e vou apagar este CD de tristeza que me risca a melodia em cada segundo. A seguir apago os tempos de espera e vou assistir a um filme de terror para morrer de medo.
É, vou ser diferente. Vou trocar a capa, deixar de usar fardos, mostrar etiquetas da LaFiness, Lacoste e lá foste pelo cano abaixo sorrindo sempre.
Vou fazer isso tudo até cansar de ser feliz e depois volto ao eu que era antes de iniciar esta ideia de mudança. Mas isso só vai acontecer daqui a um século. Se eu morrer entretanto, fico dispensado de voltar atrás e muitas coisas poderão morrer também, para além da nostalgia e da saudade.
Entretanto passa a repetição do roda livre que começa aqui...e mais logo vai ter o Fórmula Pop. E eu fui.

Sanzalando

6 de julho de 2012

sinto muito

Estou mesmo junto do rio Bero que hoje acho se deveria chamar seco porque é assim que ele está. Parece estou de partida. 
Estou encostado na cancela que está aberta que não vem comboio. Olho na foz e vejo que a quase nada água não chega no mar. Parou com vontade de não se molhar na água fria e salgada desse mar. Fico em contemplação. Pelo menos é assim que quem me olha vai pensar. Mas eu estou é mesmo a pensar, a arranjar explicação para explicar que tudo o que está atrás de mim mexe comigo de forma esplendorosa. Sinto uma vontade danada de estar perto, de dar gargalhadas das piadas que pensei e se calhar até nem têm graça. Sinto uma vontade enorme de amar-te assim num modo sem graça, sem rasto e sem dor. Sinto vontade de aquecer-me no teu frio, de abrigar-me no teu vento. Eu não queria era sentir saudades do que ficou para trás. 
As pernas tremem, um nó se aperta no estômago, as mãos transpiram. Acho vou ter um treco. Acho melhor voltar para trás e esquecer os amores do planalto.
Sinto medo de perder. Estou cansado de perder. Olho para trás. Olho para a foz. Olho e não consigo ver nada. Os olhos molhados não me deixam ver.
Sinto muito. Volto para trás e um dia eu vou ser criança antes de saber amar.
Uma rajada de vento, assim num tipo rabanada me fez ouvir a tua voz me dizer

Eu sinto muito, meu bem, por ti eu sinto tudo.



Sanzalando

Bicicleta 47

Sanzalando

5 de julho de 2012

sorrindo ao cacimbo

Atiro-me de corpo e alma para areia húmida da manhã de cacimbo que faz na praia. Estou aqui mesmo porque é ficção. Ninguém vem para na praia em dia de cacimbo. Só louco ou quem quer arrumar armários mentais. Me fico no segundo grupo, acho.
A melhor vingança é ser feliz. Tem melhor coisa que sorriso de orelha a orelha? Olheiras de olhos que choram? Que é que é isso? Nada melhor que uma cara assim com que transparente, reluzente e atraente de quem acorda de manhã duma noite tranquila. Tem melhor? Desconheço por completo e não me importo ter esse desconhecimento.
Se tem quem me quer ver assim num morrer cinzento de dia cinzento a cada dia que passa vai,vai morrer querendo.
Eu sorrio até para as manhãs de cacimbo e aproveito cada segundo como se não tivesse mais por aí.
Tás bem?
Claro que sim., respondo sem hesitar. 

Sanzalando

4 de julho de 2012

manhã cedo de estória

Manhã cedo. Tão cedo que ainda não sei se faz sol ou é apenas o cacimbo a cortinar o dia. Por aqui, passeando no quadricular geométrico da cidade tento-me recontar. Já tentei começar com era uma vez um eu, rodeado de contos de fadas e sonhos, castelos e miragens e deu uma farsa. Saiu-me uma falsa estória de embalar carregada de mensagens aprendidas nas estórias infantis dos livros que já me esqueci. Não vou falar-te mais da minha cidade, não vou contar-te mais sobre o que lhe não vivi porque estava embrenhado em curtir essa utopia de cheiro de infância, essa doce vertigem de viver a adolescência como se a vida terminasse ontem.
Percorrendo hoje as ruas desertas da minha cidade, nesta madrugada que ainda não dá para adivinhar se faz sol ou vai ser só mais cacimbo, me dou conta que sou um livro vazio de sonhos e saudades que não termina com ficaram felizes para sempre. É mesmo só um livro que termina com silêncio de final feliz.


Sanzalando

3 de julho de 2012

faz de conta

Faz de conta é sol este ténue acordar sem nuvens nem cacimbo.
Me sento na praia de camisola vestido, faz conta é sol e eu preciso é de estar comigo e ressuscitar.
Não. Ninguém me pediu para mudar e se algum dia eu tivesse que mudar era para mais o mesmo. Era para mais atenção. Era para mais confiança. Era para para mais do mesmo jeito.
Me desculpa só, faz de conta é sol e eu quero reconsiderar a minha existência.
Bolas estou de férias!



Sanzalando

2 de julho de 2012

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Sanzalando

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Sanzalando


WebJCP | Abril 2007