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A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

21 de junho de 2017

67 - Estórias no sofá - se é, amizade não acaba

Assim cantava Chico Buarque: amou daquela vez como se fosse a última; e ele, Antonino, menino nascido e criado em família boa da cidade alta, tudo fazia como se fosse a última coisa a fazer na vida. Vivia-a como se ela, a vida, acabasse naquele instante. Ele parecia sabia. Ele amava com tal força parecia morava dentro do amor, ele próprio, que tanto dizia que quando o amor acabava ele ficava um sem abrigo.
Era este Antonino que eu conheci ainda andava de calções mas não magoava os joelhos porque ele não tinha tempo para brincar. Ele estava sempre tão ocupado que não tinha tempo para ver que as cores do céu são muitas, depende do minuto e do olhar. Do azul escuro, ao claro e ao amarelo alaranjado é um instante que se perde. Ele não podia nem perder esse segundo de admiração. Estrela cadente ele sabia que existia. Mas sei nunca viu nenhuma. Me contou uma vez na hora do lanche. Na verdade, vendo de agora, deixado passar esse tempo, uma vida, eu acho que Antonino estava imune à beleza da vida. Ele era o melhor. Menos no jeito de estar na rua, menos no jeito de vestir o uniforme de pessoa que vagabunda as ruas da cidade à procura de não fazer nada de jeito.
Ele era poesia, geografia e história. Matemática e desenho era assim um quase nada fracote, mas disfarçava com o vocabulário de quem ia fazer discurso de polimento. Ele sabia museus e outras enciclopédias. Não sabia bares nem outros lugares.
Um dia mudou. Cresceu na altura e na largura. Trabalhava parecia não tinha fim o dia. Amava poderosamente. O tempo de estar, simplesmente estar, desapareceu e no meu olhar nunca mais o vi. Fui ouvindo falar estórias de quem não sabe onde acaba a ficção e continua a realidade. Engenheiro, doutor, não sei. Milionário me disseram e a vida foi correndo nos seus altos e baixos. Houve flores que murcharam e outras floriram, houve invernos e verões e os frios tropicais nunca congelaram estórias que fui ouvindo. Umas sabia podiam ser verdadeiras, outras nunca na vida. 
Antonino aparecia nas revistas de negócios, umas vezes inchado porém sempre bem bronzeado e acompanhado. Nunca soube o caminho mas o ia abrindo. Lia eu, ouvia e imaginava outro tanto.
Um dia, perdi o rumo. Eu herói de tantas guerras na vida me esqueci. Desliguei o passado como se ele fosse de outro. Eu só tinha o meu presente presentemente. Dia após dia segui a minha sombra. 
Uma esquina, um dobrar de esquina, lento como o calor que me toldava os movimentos, dou de caras com Antonino. Magro e pálido. Reconheceu-me de imediato enquanto tive que fazer um esforço enorme a tentar pôr aquela cara num qualquer lugar da minha vida, até que consegui pela voz e gestos. Tremia. Falava muito mas pouco percebi o que me dizia. Comia uma parte das palavras e nas outras um silêncio no olhar. Eu gosto de silêncio mas os silêncios que lhe saiam da boca me incomodavam. Tanto que ele falou que eu apenas  resumi no sempre há uma escolha excepto se escolhermos a errada. Demos um abraço como se o tempo não nos tivesse passado. Amigo, disse-me, roubaram-me a capacidade de ser feliz e eu gastei o tempo a correr para lado nenhum. Ouvi perfeitamente, refeito da surpresa.
Mergulhei em oceanos profundos, nadei mais do que as minhas capacidades permitiam. Vivi como se cada dia fosse o último. Hoje tenho tempo, menos para morrer como eu desejo.
Olhei-o, perplexo, não quis saber da sua estória, não tentei perceber os seus caminhos e lhe disse para me acompanhar num passeio de passo lento. Silenciados, lado a lado, fomos andando.
Foi aí que ele me disse naquela voz de ainda criança que eu me lembrava: tudo na vida acaba, menos a amizade.





Sanzalando

19 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 03

Sendo eu outra personagem de mim, aquela que vagabunda pela torreira do sol, redesenha contornos corporais escondidos em minis peças de roupa, deambulando beira-mar acima e a baixo como se a praia deste zulmarinho fosse um picadeiro de modelos, gostaria de, neste momento, olhar-te nos olhos, sentir-te respirar e dar-te um abraço como nunca ninguém te abraçou e sentir-me acompanhado e menos sozinho de mim.
Na verdade, aquecido pelo sol, quanto mais penso mais aumento o meu desejo de ser eu e não esta personagem da minha estória, vazia, sabor a mar e soprada de brisa na tez morena da minha alma.
Me sento a ver o zulmarinho e tento arrefecer a vontade de nadar mar abaixo, em direcção a qualquer sul que fique para lá da linha recta que é curva.


Sanzalando

18 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 02

Sobe a temperatura do zulmarinho. Quase dava para nadar em descida até ao ouro lado dele, surfando de onda em onda, numa imagem de desenhos animados.
Sobe a temperatura e eu deixei uma outra personagem de mim tomar conta dos meus sonhos, marcar o meu horário e viver livre no exercício de liberdade. Afinal de conta eu gosto da luz do seu olhar. Aprecio o sorriso do seu sorriso, o ar de bem disposto e gargalhada fácil. Eu gosto do seu ser livre e embora a temperatura suba o zulmarinho levar-me-á a ser eu na forma que for.
Emprestei um beijo em troca dum olhar. É assim o meu verão.


Sanzalando

17 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 01

Sobe a temperatura. Nem o zulmarinho me arrefece o corpo que arde. É assim um arder de saudade incandescente, um queimar fluorescente, uma borboleta esvoaçando na minha cabeça numa catadupa de ideias ferventes. 
O zulmarinho marulha numa perfumada maresia enquanto eu me desculpo de ser como sou e não outra personagem da minha estória, enquanto eu me desconto nos desgostos que causei nas frustrações de antanho.
Sobe a temperatura e eu desenterro-me de emoções, sonhos e do melhor que há de mim em mim. Tento ficar sem nada para mim. Sonhos e sentimentos. Dou-os enquanto o calor me ferve o corpo que o zulmarinho ma arrefecerá.
Um dia eu vou conseguir tirar a armadura de mim e vou ser esse assim, a outra personagem de mim, mergulhado no zulmarinho purificando-me em banho-maria.

Sanzalando

14 de junho de 2017

fantasma transparente

Bate o sol nos olhos e eles se fecham como que a me defender. Eu, ser invisível, porque não me vejo, torno-me num ser pensante, num fantasma real de mim. 
Franzida a testa pelo esforço de suportar os raios que tentam passar por através das pálpebras, sou um fantasma que parece está a pensar. 
É verdade. 
Eu, fantasma de mim, ao sol me deixo levar sonolentamente como se boiasse num rio de águas calmas, testa franzida, olhos fechados e sol a entrar no corpo como se eu fosse uma transparecia.


Sanzalando

12 de junho de 2017

adeus, primavera

Oi. Olá. Até à próxima. 
Fim da Primavera anunciada. As lembranças que te tenho são dum vento a cair no calor, um silvo como se uma gargalhada na minha cara fosse, uns dias que não me deste a chance de sair de casa porque chovias. Mas também a tonificação do verde árvore a crescer nos campos, os suestes no zulmarinho a me borrifar de quente. 
Sinto muito estar a jogar no chão o pano da tua despedida. Eu sei que parece eu não tenho jeito nem faz efeito assim te escrever na despedida. Mas eu quero que fique escrito na história a tua passagem por mim. Estás acaba. Eu não desisto mas tu te finas. Ciclicamente. Sãos os ossos do teu ofício.
Para o próximo ano a gente se vê. Tá?

Sanzalando

7 de junho de 2017

o tempo que passa

Sentei-me a respirar a maresia., a ouvir o marulhar e a ver a linha recta que é curva. Sentei-me por aqui a ver o para lá de mim. 
Como o tempo voa. 
Passaram-se outonos, invernos e verões e estamos num final de primavera que me leva o cabelo num vento de fim de tarde como se fossem folhas a cair num outono. Quantos frutos já deram as árvores? Quantas árvores entretanto já caíram? Quanta sombra já deram? 
As árvores sentem?
Eu aqui sentado sinto. Por mim e por elas, o tempo que passa.
  

Sanzalando

3 de junho de 2017

engolido na onda

Olho o zulmarinho. Hoje acordou parece revoltado. Lhe pergunto em silêncio que é que aconteceu e ele me responde assim num desmanchar de onda parece me quer engolir. Medei-me todo. É fiquei mesmo com medo de ser engolido por ele e ele se indispor depois comigo. Eu que ganho a vida a cuidar de vida de repente tremeliquei-me. Eu que tenho de ter a capacidade de me inovar, superar e se calhar ultrapassar para que alguém continue com a capacidade de pensar e fundamentalmente de sentir, tremeliquei-me com a onda que parecia me queria levar dentro do zulmarinho e sei lá me fazer o quê. 
Olhei para a imagem de Einstein e me lembrei da sua fórmula, em que E é igual a mc ao quadrado e do que ele dizia sobre o fazer as coisas sempre da mesma maneira e esperar resultados diferentes. Sempre olhei o zulmarinho e agora ele me faz esta coisa horrível de me engolir sem mastigar e se calhar a seguir me deitava cá para fora inanimado. Tolice minha que já lhe devia conhecer e nestes dias não me devia nem aproximar. Só mesmo lhe pensar.
É, esse zulmarinho me faz chegar lá na minha placenta sem pontos de vazio no meio. Lhe gosto e gostarei mesmo que o medo esteja na minha alma.



Sanzalando

31 de maio de 2017

dia de irmãos, me disseram


Olho no tempo e faz tempo que o tempo passa. Umas vezes parece é devagar outras vezes ele corre que nem lebre. Acho mesmo ele às vezes voa.
Hoje ele parou. Um bocado que foi pouco. Senti e procurei o tempo parado nele mesmo. E o tempo tem anjos que não têm asas, tem abraços que nos fazem ter tempo para com o tempo voar. Para lugar seguro. Para os abraços de irmãos.




Sanzalando

30 de maio de 2017

e caiu da cadeira

Ela falou e dizia coisas bonitas que lhe estava a deixar embevecido. Irmã e cunhado ali na plateia que nem cinema ouviam. Ela já lhe brilhavam os olhos. Falta mais uma ou duas palavras e as lágrimas lhe escorrem na face. E as pessoas ouviam num silêncio de muita atenção. Embevecido ele olhava para lá de muito longe assim num se esconder que não estou nem a ouvir. A irmã e o cunhado iam se enchendo de orgulho. 
Truz pumba e mais ruído que nem tremor de terra.
Foi o cunhado que, com o peso da emoção, fez a cadeira de plástico tipo esplanada duma calçada, se esparramar no silêncio que se fez.
A irmã limpou os olhos e riu que parecia não ia parar mais. Ela, a oradora, depois de ser certificar que não havia danos materiais para além dos orgulhos combalidos dum espalhanço auditor comovido, continuou as suas falas e, ele o ouvinte especial, desceu à terra e tudo continuou alegremente com é que é.


Sanzalando

24 de maio de 2017

Eu sou eu que nem eu mesmo

Alô. Aqui estou eu novamente a conversar comigo mesmo. Olhei para trás, assim num modo de olhar pela vida vivida, escrita, sonhada ou simplesmente calada que passei ao longo dos tempos. Sei que parece não é saudável olhar assim para trás e ter medo de dar nostalgia ou saudade, tristeza ou depressão. Sei que não é de mim que eu gosto de ver. Mas tem dias que apetece e a gente deve fazer isso que nos apetece. Sei que andei a fazer mudanças radicais, principalmente nos radicais livres e nos outros quaisquer também. Fiquei a saber que consegui encontrar-me. Afinal de contas eu consegui continuar a ser eu. 
Pode ser que eu esteja a ver mal e que esteja a olhar para alguém parecido comigo. Assim tão parecido acho impossível. Olhei mesmo foi para mim. Não me importo de me ter enganado. Acontece ou pode acontecer. Imagina que já não olhava para mim faz assim muito tempo e me tinha esquecido que era assim que nem sou. Podia olhar e me enganar. Voz parecida? Igual direi. Olhar alegre? Que nem o meu, digo.
Já sei. Não tenho piada. Eu disse que era para ter?.
Tudo normal. Eu sou eu que nem eu mesmo.
Sou tão parecido comigo. Acho preciso de auto ajuda de mim mesmo.


Sanzalando

19 de maio de 2017

Palavras e Estórias


Nem melhor nem pior. Especial. Assim me sinto na véspera de apresentar o livro que me fizeram. Reapresentar. Momento único que vivi há 6 meses. Amanhã vai ser diferente. Nem melhor nem pior. Diferente. Mas não sou escritor. Sou pessoa comum que se sente especial hoje. Os meus olhos captaram momentos como se uma máquina fotográfica fossem. O tempo desfocou rostos, porém avivou contornos e uma simples rua duma cidade quadrangular poderá ter virado cenário especial dum enredo. Alterados ângulos, encomendadas frases ouvidas num qualquer lugar, palavras simples de simple gente, desejos, cores e amores, caligrafia corrigida num qualquer computador, transpostas numa resma de papel imaginário, com vibração da emoção, com lágrima de sentir, com saudade de amanhã, com quilómetros de distância, com abraços e desembaraços, coligiste um livro ao que te digo obrigado.


Sanzalando

17 de maio de 2017

calmo mar

Olha só as ondas como se desmoronam ritmadas na areia. Ouve esse marulhar. Sente este perfume de maresia. 
Essa calma que esta linha recta que é curva, que se vê lá ao longe neste zulmarinho, nos transmite faz com que me esqueça das rasteiras, me tranquilize a consciência e me solidifique os sentimentos. Faz com que eu seja mais eu em cada momento.
Consegues ver o sorriso desenhado na minha cara? É de tranquilidade feliz.


Sanzalando

15 de maio de 2017

com um tempo assim

Nem sol, nem vento, nem chuva, nem nada. Tempo assim de estar sentado a ver o nada. É assim um dia que nem o hoje de agora. É assim num olhar e ver-me, na praia, no cinema ou em casa. Até parece eu virei caçador de mim. Emesmei-me é o que eu penso com este tempo.
Com este tempo assim eu achei-me era saudade. Saudade de não saber quem eu sou. 
É, um tempo assim de fantasmas e duendes, de bruxas e bruxedos. De interessante nada de novo.
Com o tempo assim eu me motivo a meditar um silêncios imperfeitos, em aceitação do eu desajustado de mim e em palavras de conveniência

Sanzalando

10 de maio de 2017

Palavras em livro

Ao longo da vida tenho amealhado palavras. Umas melhores que outras, umas mais bem conseguidas que outras. A finalidade tem sido sempre a mesma: satisfazer-me, mesmo que eu não me releia, mesmo que eu não consiga ser portador da mensagem, mesmo que o ritmo da minha cabeça seja diferente do ritmo dos significados, verbos e adjectivos.
Ao longo da vida juntei palavras. Muitas. Com lágrimas, gargalhadas, com direcção ou à toa. Apenas palavras, poéticas, filosóficas ou doidamente legíveis por interpretações irreais. 
Às vezes são palavras escritas em falas dialogantes de solilóquios absurdos, outras vezes nada comparáveis a nada. As minhas palavras, sei, são verdadeiras mesmo que sejam verdades que ainda não aconteceram, ainda que não correspondam ao tempo presente ou passado imemorável.
Nas minhas palavras o dia seguinte chega sempre depois duma noite, pouco importa a fase da lua, reflectem dias menos bons para que os dias bons sejam reluzentes.
As minhas palavras podem parecer saudade, tristeza, nostalgia, porque, um dia, de mim só vai restar a saudade.
Assim, por caprichos da natureza, por amor e surpresa, alguém, que muito me gosta e eu gosto muito, um dia resolveu meter mãos à obra e nasceu Estórias Soltas e Palavras Vadias, comemorando o aniversário deste aprendiz de palavras. Nesse dia houve festa num dos clubes mais antigos da cidade Portimão. Gente, muita gente amiga. Uma solidariedade de todo inesperada.
Agora chegou a vez de alargar horizontes e ir até Lisboa. Braço dado com a minha amiga Ana Quelhas, que arregaçou as mangas e escreveu para memória futura O Fato Que Nunca Vestimos, aí vamos nós passar um fim de tarde na Casa de Angola em Lisboa e um jantarzinho à maneira para aqueles que nos quiserem acompanhar.

Sanzalando

7 de maio de 2017

African Canvas

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Sanzalando

6 de maio de 2017

Poesia em noite de primavera

Hoje me apetece ser poeta. Caneta de aparo, tinta permanente. Sebenta vermelha. Olhos de paixão. A paixão é boa para se escrever. É boa para se ser poeta. Hoje me apetece ser poeta.

Não me ensinaram a  apaixonar,
nem me disseram que é bom ter paz,
só me dizem para amor dar
com toda a energia que for capaz.

Querem-me porto seguro,
seja a bóia de salvação,
que dê amor puro
mesmo que seja de perdição.

Não me deram chave de porta,
não me tiraram os medos,
nem fantasmas de gente morta
das memórias dos meus segredos.

Não me acenderam a luz,
não me deram um quarto claro,
ensinaram-me o sinal da cruz
não fosse eu ser um ser raro.

Não me ensinaram nada
do tanto que aprendi,
de livros, quase nada,
de música, apenas a que ouvi.

Ai os meus livros arrumados,
tantos de auto-estima
por ali deixados
à espera duma rima.

Sem bem saber fui chegando,
me salvando de armadilhas,
umas vezes tropeçando
entre metros, polegadas ou milhas.

E lá me fiz poeta,
dos versos ditos
com a rima certa
e ideias aos gritos.

Acordei. Me apeteceu rasgar a folha que estava escrita com tinta permanente e assim mantive a permanência do que escrevi


Sanzalando

5 de maio de 2017

futuro presentemente

Olhei o mar. Uma vez. Duas vezes. Olhos de ver e não com olhos de querer ver o que se imagina ser o alvo da visão. O mar lá estava, batido pela brisa sueste, quente e despenteante deste cabelo fino e grisalho, já sem a força e segurança doutros tempos.
Lá estava o mar a dizer-me que o futuro que me estava reservado não era este. A minha imagem não era esta, a minha maneira de ser e estar deveriam ter dado uma cambalhota algures numa qualquer porta da vida passada, quando entrei na fase de ser gente. Esta realidade actual só podia ser um sonho que eu estava a sonhar no futuro que me estava reservado. Não é ruim, pesadelo nem conto de fadas. Mas daqui a pouco eu vou acordar, na minha velha cama de solteiro numa casa distante deste mar, olhar o velho gira-discos que já faz tempo deixou de o ser para ser mera ornamentação, ouvir Maria Bethania ou Chico Buarque num rádio a valvulas e ainda não transistorizado, e dizer que o meu futuro vai começar.
Olhei novamente o mar. Olhos de ver ao perto e testa franzida de ver ao longe.
Se isto não é sonho, eu também não vou pedir para mudar tudo o que fiz, não vou pedir para esquecer tudo o que já vivi. Seguro esta realidade sonhada e sigo a vida feliz esperando chegar ao futuro desenhado.


Sanzalando

2 de maio de 2017

hoje foi primavera

Hoje o sol me sorriu, me acariciou a cara e me devolveu um brilhozinho aos olhos. Hoje foi primavera que me deixou tocar com a ponta dos pés no azul do mar, esse zulmarinho que me carrega a imaginação, me transporta para lá da minha presença, que me transborda a ausência com a saudade de ser feliz.
Soubesse eu antes o que sei hoje e teria ouvido o meu próprio conselho, ter-te-ia conhecido antes e seria sempre primavera, mesmo quando o frio gelasse a alma, mesmo que o pensamento sofresse de esquecimento, mesmo que a ira substituísse a esperança e a saudade de ser triste substituísse a de ser feliz.
Hoje foi primavera outra vez.


Sanzalando

30 de abril de 2017

green

Sanzalando


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