recomeça o futuro sem esquecer o passado

14 de novembro de 2006

É isso


Cansado de um dia árduo.
Olho o monitor em branco do meu computador. O coração não reage. O cérebro está distante. Olho e decido teclar letra a letra e ver se sai algo entendível. O martelar das teclas irrita-me. O branco do monitor irrita-me.
Hoje não tento nem escrever. Hoje a alma não me está ligada aos dedos.
Insisto.
Desisto. Próprio dos fracos. Não pode ser. Uma linha só. Vá lá faz um esforço. Insisto-me. Apago. O que vale é que o corrector aqui é grátis.

É o amor de uma vida, a minha vida. Só vivo para morrer de amor. Desisto de querer carregar a mortalha do amor. Não me deixes morrer de saudades. Vida, amor, amor, saudade. É isso.

Existem duas tragédias na minha vida. Uma seria perder o que o coração deseja e a outra seria finalmente conseguir o que tanto almeja. É isso.
Não ínsito mais.
Fico por aqui e olho.
Não está mau.
Não está bom.
Está.
É isso.

Sanzalando

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13 de novembro de 2006

a9 - Estórias no Sofá - O anel

Assim, na minha voz doce e bem 'legível' vos conto mais uma estória tal qual me contaram:

Havia um menino chamado Henda que não gostava de ir à escola. Um dia, encontrou dois pescadores. Foi pescar com eles durante uma semana. Um dia, eles não quiseram ir pescar mas o rapaz disse à mãe que iria ele. O mar estava bravo e o tempo mau. Sentou-se à espera que a maré baixasse. A meio da manhã a maré estava vazia, ele desceu e tirou duas lapas:
- Vou conseguir pescar um peixe.
Pôs a isca no anzol. Um peixe tirou-lhe a primeira isca mas a segunda apanhou o peixe.
Quando o puxou, pô-lo em cima de uma pedra. Era um peixe sereia.
- Larga-me, deixa-me ir embora porque não sou um peixe. Se me largares, se me deixares ir, dou-te uma prenda tão preciosa que nunca mais precisarás de pescar.
O rapaz atirou a cana de pesca ao mar. Ela mergulhou e trouxe um anel no dedo.
- Não quero um anel, quero peixe – disse Henda.
- Com este anel encontrarás peixe e tudo o que quiseres.
- Não me fio em ti. Tens de pedir essas coisas pela tua boca.
Ela pediu ao anel que lhe desse uma mesa posta com todas aquelas coisas boas que ele via na venda lá da vila.
Ele sentou-se a comer. Trazia vestido um bôbô bem largo; a sereia encheu-o com tudo o que o Henda tinha pedido. Então, o rapaz atirou a cana ao mar.
Quando chegou a casa a mãe não viu peixe e afligiu-se mas Henda explicou:
- Este anel vai dar-nos tudo o que desejarmos. Dar-nos -á comida que dura um mês.
E com o dinheiro que o anel fez aparecer, fez uma casa com tudo o que a mãe precisava.
Quanto ao rapaz, saiu para se divertir. Um dia, quando voltava para casa, encontrou um cachorrinho abandonado.
Apanhou-o, embrulhou-o no bôbô e levou-o para casa. Era um cachorrinho feio e magro e a mãe não gostou.
No dia seguinte, quando voltava para casa encontrou um gatinho a chorar.
Apanhou-o e levou-o para casa.
A mãe, muito zangada, disse-lhe:
- É bonito o que estás a fazer! Primeiro, trazes um cachorro, depois, um gato; o cachorro não gosta do gato; agora trazes um rato de que o gato não gosta…
- Escute mãe, amarre-os separados e dê-lhes de comer três vezes ao dia. Vai ver, daqui a uma semana se eles não são amigos.
Passada uma semana, estavam a brincar como irmãos.
A mãe de Henda tinha uma irmã que morava no Príncipe, que não se importava com ela porque era pobre. Bem, essa mulher ouviu dizer que a irmã da Trindade estava rica. Decidiu atravessar, para se certificar, levando consigo uma amiga.
No dia em que chegou a irmã, a mãe de Henda feliz com a visita, pediu ao anel para lhes proporcionar um banquete. Resultado, elas regressaram ao Príncipe com o anel na bagagem.
Passado um mês, a mãe de Henda procurou o anel mas não conseguiu encontrá-lo.
Passou outro mês e nada. Mas não disse ao filho. Entretanto Henda passa pelos animais e repara que estavam desesperados de fome.
- Mãe, não lhes tem dado comida?
- Não, não temos leite em casa. Perdi o anel.
Um dia, o cachorro cheirou o vento e descobriu que o anel estava no Príncipe.
O cachorro, o gato e o rato foram para o porto.
O cão pegou nos outros e atirou-os ao mar. Atirou-se também e mandou-os subir para as suas costas. Atravessaram para a ilha ainda era de dia. Esperaram que fosse noite para irem à casa da mulher. Então, o cão disse-lhes:
- Eu fico na cozinha ao pé do fogão e vocês vão procurar o anel.
Falou o rato:
- Vou procurar um pedaço de carne. Mando-ta pelo gato, porque sei que tens fome.
Quando o rato mandou a carne ao cachorro, pôs-se a procurar e encontrou o anel.
Foi ter com o gato:
- Já encontrei o anel. Estava amarrado num lenço, dentro de uma caixa. Rói a caixa com o lenço. Apanhei o anel. Agora vou ao armário, parto os pratos e as pessoas chamarão por ti.
A mulher ouviu e gritou:
- Donde saiu esse rato? Meu Deus, não me podia mandar um gato?
Apareceu o gato. A mulher abriu a porta para o gato fugir com o rato.
Fugiram todos para a beira-mar e partiram para a Trindade.
A meio do percurso, o cachorro implicou com o rato:
- Tens o anel?
- Sim, no meu dedo.
-Dá-mo, eu quero-o.
- Não tens dedo para o pôr.
- Se não me dás, afogo-te.
- Dá-lho. Se não lho deres ele afoga-nos aqui – disse o gato.
Então o rato deu o anel ao cachorro. Este meteu-o na boca. De repente, o cachorro abriu a boca, o anel caiu no fundo mar.
Chegaram por fim a terra. O gato e o rato estavam zangados e o cachorro sentia-se muito mal mas não dizia nada.
Na praia, viram muito caranguejos. O cão ordenou-lhes que fosse procurar o anel. O mais pequenino foi, enquanto os companheiros ficavam presos. E voltou com o anel. O cachorro reconheceu o anel e libertou os outros caranguejos.
Depois, levaram o anel a Henda. O rapaz mostrou-o à mãe e disse:
- Como vês, se não fosse amigo do cachorro, do gato e do rato, não estávamos agora tão contentes por ter de novo o anel.
E o anel foi passando de geração em geração…

Sanzalando com MC

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12 de novembro de 2006

16 - Estórias no Sofá - Melhor que isto só dois disto - 2 de 2

Alguns anos mais tarde, ouvi dizer que Gabriel tinha sido assaltado por três ladrões armados. Enquanto ele tentava abrir o cofre, a sua mão, tremendo de nervoso, errou na combinação, os ladrões entraram em pânico, atiraram contra ele e fugiram. Por sorte, as armas de fogo fazem barulho e Gabriel foi encontrado relativamente rápido e foi lavado ao Serviço de Urgência. Depois de 8 horas de cirurgia, e algumas semanas de tratamento nos Cuidados Intensivos, Gabriel teve alta do hospital, com alguns fragmentos de balas no seu corpo, como medalhas, carimbos de um passaporte, recordações indeléveis, que por estarem onde estavam não era aconselhado ir lá removê-los.
Encontrei-me com o Gabriel nos exactos seis meses depois do acidente sobressalto. Quando perguntei:
- Como vais?
ele respondeu:
- Melhor do que isto, só dois disto! Queres ver as minhas cicatrizes?
Mantinha ele aquele sorriso dele.
Enquanto eu olhava para as cicatrizes, perguntei o que lhe passou pela mente, quando os ladrões o assaltaram:
- A primeira coisa que veio à minha cabeça foi que deveria ter trancado a porta. Então, depois, quando estava estendido no chão e sentir o calor de sangue escorrer no chão, lembrei-me que tinha duas escolhas. Eu podia escolher viver ou podia escolher morrer. Eu escolhi viver.
eu perguntei:
- Não tiveste medo? Não desmaiaste de susto, de dor ou outra coisa qualquer?
Gabriel respondeu:
- Os bombeiros eram óptimos. Eles disseram todo o tempo que tudo ia dar certo, que iria correr bem. Mas, quando me levaram para a sala de emergência, eu vi as expressões no rosto dos médicos e enfermeiras, e aí eu fiquei com medo. Em cada olhar, eu lia é um homem morto. Eu sabia que tinha que fazer alguma coisa.
- Que fizeste tu? Não vais dizer que contaste uma anedota?
- Bem, estava lá uma enfermeira grande e forte, fazendo perguntas, até que me perguntou se eu era alérgico a alguma coisa... Sim, respondi eu. Os médicos e enfermeiras pararam imediatamente, esperando pela minha resposta. Respirei fundo e respondi: Sou alérgico às balas! Enquanto eles sorriam, eu disse-me que estou a escolher viver. Operem-me como se eu estivesse bem vivo, não como meio morto, lhes disse de seguida.
Demos um abraço, trocamos números de telefone e cada um de nós seguiu o seu caminho. Eu mais pesado, pois carreguei-me de esperança e de nova atitude.

Sanzalando

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11 de novembro de 2006

DIPANDA

11 de Novembro de 1975

31º Aniversário da República de Angola


CRIAR
criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.

Dr.Agostinho Agostnho Neto
Médico e Poeta



Sanzalando

10 de novembro de 2006

16 - Estórias no Sofá - Melhor que isto só dois disto - 1 de 2

Gabriel era um tipo de pessoa que todos gostariam de ter como amigo. Ele estava sempre de sorriso e braços abertos. Tinha sempre algo de positivo para dizer. Quando alguém lhe perguntava:
- Como estás, Gabriel?
ele respondia num imediato e invariavelmente:
- Melhor que isto só dois disto!
Ele era o único gerente de uma cadeia de pequenos supermercados, porque todos os empregados adoravam o Gabriel, pelo que os patrões decidiram haver apenas um só gerente na região.
A razão de seguirem Gabriel tinha como causa as suas atitudes, a sua presença era um bastante. Ele era naturalmente motivador. Se algum empregado estivesse num mau dia, Gabriel prontamente estava lá, motivando-o a olhar pelo lado positivo da situação.
Observando o seu estilo, realmente eu ficava curioso e amontova-me em perguntas por fazer.
Um dia, virei-me para o Gabriel e rematei, na esperança de fazer golo:
- Eu não acredito! Não podes ser uma pessoa positiva todo o tempo. Ninguém consegue. Deves ter momentos em que tocas no fundo de um poço.
e ele respondeu-me com a sua prontidão habitual:
- Todas as manhãs, eu acordo e digo a mim mesmo: Gabriel, tens duas escolhas hoje. Escolher estar bem ou escolher estar em baixo. Então, eu escolho estar bem. No momento que acontece alguma coisa desagradável, eu posso escolher ser vítima da situação ou posso escolher aprender algo com isso. Eu escolho, invariavelmente, aprender algo com isso! A qualquer instante, se alguém vem reclamar da vida comigo, eu posso escolher aceitar a reclamação ou posso escolher apontar o lado positivo da vida. E eu escolho apontar o lado positivo da vida.
Então eu argumentei:
- Tá certo! Mas não é tão fácil assim, o aço também parte!
- É fácil sim – respondeu-me sem pestanejar - a vida consiste em escolhas. Quando tiras todos os detalhes e olhas para a situação a situação em si, o que sobra são as escolhas, as decisões a serem tomadas. Escolhes estar feliz ou triste, calmo ou nervoso... Em suma, é escolha tua como vives a vida!
Eu reflecti sobre o que Gabriel acabava de dizer.
Algum tempo depois, deixei de trabalhar na cadeia de supermercados para abrir o meu próprio negócio. Nós, por questões de tempo fomos perdendo o contacto, mas frequentemente eu pensava nele, quando tomava a decisão de viver ao invés de ficar reagindo às coisas.

Sanzalando

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Sanzalando

9 de novembro de 2006

Atirando Palavras ao acaso

Foi um dia como outro qualquer e sem promessas de mudança. Afinal como todos os dias. Será que estou enganado? Não me preocupo com palavras edificantes acerca do milagre que se renova a cada manhã e coisas e tal. Preciso dessas fotos literárias tanto quanto de uma cólica renal a matar-me e contorcer-me de dores.
Prefiro a vida real, ainda que seja ela umas vezes brutal, outras fastidiosa, mas invariavelmente estúpida. Um pouco de fé e auto comiseração? Não, obrigado! Dispenso.
Nem o telefone hoje tocou, nem se quer por engano. Continuo em casa, aguardando em estado quase larvar, para poupar a pouquíssima reserva de energia de que ainda disponho.
E se nada acontecer, ainda assim continuarei aguardando. Mas até quando? No final, quando tudo acabar, sairei dos escombros e com os olhos cegos como certas criaturas subterrâneas expulsas para a luz do sol, tactearei em volta. Guiado pelo olfacto que se refina a cada dia, hipertrofiado pela inércia dos demais órgãos dos sentidos, encontrarei a primeira presa imprudente, entre milhares, que apenas estarão ocupadas em sobreviver e, portanto, desatentas aos predadores furtivos.
O telefone não irá tocar. Pouco me importa.
Habituei-me ao quase nada.
Afinal estou à espera mesmo de quê?

Sanzalando

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8 de novembro de 2006

15 - Estórias no Sofá - Desejo de ser artista - 3 de 3

Tantos sonhos pesadelados num caminhar de sofrimento e choros calados.
Já ninguém liga à arte.
Que bonito, lembra-se ela de tantas vezes ter ouvido num equilíbrio estético. Mas de exposição em exposição os sonhos iam diminuindo, os pesadelos subiam no gráfico da vida. A alegria de pintar ia-se dissolvendo na raiva de se sentir coleccionadora das suas telas. Aos poucos foi trocando o acariciar dos pincéis em telas pelo conforto de ser mãe. Umas, duas, três crianças foram enchendo o minúsculo apartamento.
O chefe de família, antigamente dono passara a assalariado precário numa multinacional que se ouvia dizer ia mudar de ares.
Antes de aparecerem os primeiros cabelos brancos, entusiasta do martelo e escopro batido na pedra, material de soldar em ferros buscados aqui e ali, na mestria de transformar o bruto no belo, nem uma exposição havia conseguido, nem uma venda havia consumado porque falharam as várias promessas de encomenda. Recusara ser um imitador. Ele, génio da imaginação, fazer arte pela cabeça de outros, era pecado mortal. Na massa cinzenta ficaram gravados muitos esboços pensados e nunca levados para o esforço dos braços.
Ambos se tinham conhecido no fulgor do entusiasmo da arte, tertúlia de jovens cabeludos, utópicos seres irreais em busca de um mundo melhor. Os sonhos se haviam misturado. A garagem transformada num pequeno atelier. Os fins de tarde passados na criação do belo, noite dentro discussão dialéctica, estética e outras éticas.
Lentamente, indelével, se foi instalando o desânimo.
Ele foi o primeiro a pôr de lado a sua vontade de construir um mundo mais belo. A sua loja de material informático cada vez mais pequena nos números. As grandes superfícies deixavam para ele apenas o cliente acidental, a compra do emergente tinteiro, o cabo cujo terminal se tinha deteriorado num erro de instalação. Crescia o espectro da falência no mesmo ritmo que diminuía a vontade de transformar objectos, transfigurar o dia a dia. Se apagara a gargalhada sonora que lhe tornara conhecido ainda vinha longe.
A tertúlia se foi dissolvendo na cidade global.
Ela aguentou-se por mais tempo naquela garagem fria de Inverno e fervente de Verão. Uma ou outra vez a convidavam para uma exposição colectiva. Um, dois quadros vendidos e lá se equilibrava a balança. Mas os convites foram rareando até que se acabaram.
A garagem foi alugada a um vizinho que prosperava na vida e precisava de espaço para albergar o seu bólide. Sempre era uma ajuda para o supermercado. Os pincéis foram transferidos para a sala, que durante a noite se transformava no atelier. Cada dia que passava eram menos utilizados, até o não serem por completo. Passara das artes plásticas para a dona de casa aprumada.
Sorriso transfigurado na envelhecida cara mostrava um sonho que foi sonhado.
Sanzalando

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7 de novembro de 2006

15 - Estórias no Sofá - Desejo de ser artista - 2 de 3

O difícil mesmo era livrar-se da compulsão de ser feliz. Anos e anos juntando recortes de jornais com uma breve referência ao seu trabalho, porque o dele numa foi falado nem uma linha. Peças diversas para instalações artísticas. Sucatas para enormes oficinas de criatividade com crianças, jovens e adultos. Todos os sonhos sonhados na tertúlia das horas que não tinham pressa de passar. Vidros e latas pululantes de ideias. Partes diversas de exposições e experiências de beleza para erguer. Engenhocas. Invenções. O que poderia parecer uma obsessão de guardar o passado era a crença no futuro. A possibilidade de fazer arte. Dela viver. Um sonho a dois que se foi modificado para um sonho individual e que passava a ser um pesadelo martelado num pensamento constante.
Pensava num pensamento feito ladainha que agora, para tudo, o destino é o lixo, o pó ou alguma incineradora. Assim, então, será, dizia-se para se convencer. As caixas e os sacos pretos são sepulcros dos sonhos paridos mas que acabaram por não crescer. Ela era agora o carro fúnebre de serviço às caixas de aplausos, de sorrisos, de criatividade, de prazer. Para longe iria aquele cortejo de arte por fazer. O conhecimento serve a sobrevivência e a arte a vida, pensava ela enquanto mais um saco ou caixa ia para o contentor de lixo do bairro.

Sanzalando

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6 de novembro de 2006

15 - Estórias no Sofá - Desejo de ser artista - 1 de 3

Num daqueles pequenos apartamentos de dois quartos, num bairro feito para a classe média, abriga a sobrevivência. Não há lugar para se guardar sonhos, arte ou futuro. Mensalmente as contas são pagas no equilíbrio do elástico quase partido. Os sorrisos andam pálidos. Pela porta entra e sai diariamente uma chefe de família, que faz tempo esqueceu a capacidade de devolver um sorriso.
A artista sonhadora, de avental vai-se esmorecendo na lida da casa que não sonhou, pesadelando os sonhos de ser pintora de telas espalhadas um pouco por aqui e por ali, num acaso que significa dinheiro entrado.
O relógio de parede de madeira carcomida pelo bicho, esse mesmo, não se esquece de mostrar que o tempo avança, para não dizer que galopa.
As férias são trocadas por arrumações, num encontro marcado com o passado, na falta de verbas para as viagens de outrora.
As estantes outrora repletas estão agora cada vez mais enchidos de ar. As cartas relidas pela penúltima vez afugentam o medo de perder quem ela fora, quem ela gostava de continuar a ter sido. Os álbuns, com amarelecidas fotografias, comprovam o que sua memória insistia em esquecer; os personagens, os passeios, as cenas de uma vida real. Os discos entoam dias frios, cobertor de conversas intermináveis no velho sofá; despedidas; festas; separações. Cada faixa reconta a sua versão da história. As roupas, que já não entravam no antigamente esquio corpo, refazem um novo percurso individual no tempo, desfile do quotidiano vivido em modificações de estilista doméstica. Aprendizagens e passagens microgravadas na memória soltam-se na perda de convicções. Ídolos destruídos. Mortais imortalizados. Incontáveis horas ainda por ler em páginas que faltam ali e jazem nalguma alfarrabista ou em casa grande como mostra de uma vaidade que ficará por ler.
Cada caixa ou saco de plástico negro que saia do apartamento apertava-lhe em nó na garganta. O pequeno espaço se vai tornando cada vez mais amplo e ela diminuída na sua interioridade.
Eram caixas e mais sacos de lixo. Daqueles pretos. Cem litros ali de coisas. Os armários se abrindo desnudando-se num vazio e o seu peito se contraindo num aperto de dó de alma.
As contradições não começaram aqui.
Muito antes, com a necessidade de concretizar projectos de vida, fez deslocar estantes, livros, mesas, papéis, móveis, poeira. Desengravetar sonhos. Terminar uma sempre adiada colcha de retalhos, iniciada na adolescência, foi a primeira tentativa de um regresso à vida chamada de normal. Resolvera apenas procurar as agulhas, as linhas coloridas, os tecidos tão carinhosamente recortados em vários tamanhos e formatos. Não imaginava que quem terminaria recortada seria ela.
Sanzalando

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5 de novembro de 2006

Vá lá, hoje é Domingo


Dentro de mim, existem duas teclas poderosas:
Delete e Arquivo...
Tento usá-las com sabedoria !!!

Deleto:
- tudo aquilo que não valeu à pena,
- quem enganou
- quem teve inveja,
- quem tentou destruir-me,
- quem usou máscaras,
- quem me magoou,
- quem nunca chegou a saber exactamente quem sou...

Arquivo:
- as pessoas reais, ou virtuais, que me deram carinho, tempo, palavras, conselhos, a mão, o coração.
- Pessoas que, de um jeito ou de outro, ajudaram-me a ser um pouco melhor, que me fizeram crescer em sabedoria e sentimentos...



Sanzalando

Com vitórias ou com derrotas

4 de novembro de 2006

Em 28-10-2005 foi assim



Sanzalando

Desnudo-me num Sábado

É esquisito que o teu nome sempre me soe a uma prece, uma invocação sagrada e solene, que contém em si um segredo místico viajando pelo tempo, como se trouxesse consigo o desejo implícito dessa maneira única como te moves no mundo, como te ouço quando te cantam, como me recontam o teu corpo, como que deixas o teu brilho fugir pelos meus olhos. É estranho que o teu nome sempre me soe a uma promessa e a um dom, como se bastasse pronunciá-lo para que a vida abra uma porta secreta, para que se insinue um milagre prestes a ser, eu assim em ti, simplesmente em teu nome.
Às vezes sinto-me como que na sala de espera da vida. À espera que algo de bom ou de mau aconteça, hesitante, contando os segundos para o tempo passar rápido.
Dias há em que me pergunto porque é que não me acontece nada de excitante. Dá-me vontade de mudar de vida, dar uma volta de 360º graus, mas falta-me a coragem para encarar o incerto da certeza que sei que encararei. Depois, depois tenho medo de acordar demasiado tarde e perceber que perdi todas as oportunidades de mudar o meu rumo, de construir o meu próprio destino.
Não será a vida assim, um conjunto de medos e hesitações irritantes que nos prendem como grilhetas, faltas de coragem para fazer aquilo que nos vem à cabeça e quebrar a rotina num arregaçar as mangas e dar um passo em frente e poder dizer que agora é hora de ser eu a escrever as linhas da minha biografia, de ser agora eu quem traça o meu caminho, que chegou agora a hora em que mevou encontrar a mim mesmo.Quero descobrir qual é a minha história e ser eu, e só eu, a decidir onde começa e onde acaba cada capítulo, cada linha e desvendar o meu final feliz, um dia mais tarde.
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Sanzalando

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3 de novembro de 2006

Hoje não se passou nada


Israel continua a fazer das suas na Faixa de Gaza. Alguém deve ter morrido no Iraque de Bush. Pacheco Pereira elogia e chama de Inovador a Sócrates e gostava de ter sido embaixador mas Santana Lopes não o quis. A Cláudia foi operada. O senhor Manuel também. A dívida pessoal aumenta. O grupo regional de mulheres parlamentares da Comunidade de Desenvolvimento dos Países da África Austral (SADC) deixou, ontem, Luanda, satisfeito por ter constatado que existe um compromisso por parte dos actores políticos angolanos com o respeito pela igualdade de representação entre mulheres e homens, nos cargos de tomada de decisão, em conformidade com a Declaração daquela organização regional de 1997 e da União Africana. Hoje é o dia do perigeu. Ministério do Ambiente anunciou hoje que vai procurar travar os efeitos suspensivos da providência cautelar entregue hoje pelos autarcas de Setúbal, Palmela e Sesimbra contra os testes de co-incineração na cimenteira da Secil, no Outão. O Fernando Santos não é adivinho como o Jesualdo Ferreira. O Governo Angolano não olhou com bons olhos ao anúncio da saída gradual do PAN.
Olha mesmo para mim e me diz, se não se passa nada, vou mesmo escrever sobre o quê?
Deve ser é Sexta-feira.

Sanzalando

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