recomeça o futuro sem esquecer o passado

9 de novembro de 2010

Geladamente ao frio

Vestido como quem vai em expedição a um dos pólos, me sento à beira deste mar daqui, que está muito diferente do mar de lá. Nota-se mesmo neste uma cor azul gelada enquanto no de lá deve estar um azul que até apetece se atirar num mergulho estilado. Mas como cada um tem quem lhe merece, me eis aqui a ter-me aqui, na clandestinidade do pensamento em lá. Há assim um amor descompromissado, uma paixão sem limites uma estar junto sem obrigação física.
Vestido como quem vai num dos pólos me deixo levar nestes encontros vulgares, onde me esqueço onde termina o mundo real e começa o imaginário. Aqui me embalo numa descida vertiginosa por vales de dunas, por cruzamentos casuais da vida desértica, por vertentes abruptas da coerência arenosa da solidão.
Vestido como se já estivesse num pólo, me enrosco neste sabor a mar gelado e me deixo levar na vulgaridade de ser um apenas eu, que encalha palavra em palavra, num lacrimejar de frases soltas escritas na voz de quem chora.
Gelado, cabeça ao vento me arrefeço na nostalgia de ser quem fui outrora e sorrio porque agora sou mais bonito, mais vazio, mais muito mais, sendo que este mais mais não é que um ponto imaginário dum restaurar de passado presente com futuro.

Sanzalando

8 de novembro de 2010

fotografei

Não me apeteceu escrever. Vasculhei no meu arquivo fotográfico e encontrei. A pequenez bonita dum fungo. Hoje ficou assim.

Sanzalando

7 de novembro de 2010

se chovesse

Talvez se estivesse a chover eu não sentiria esta impaciência visceral de desatar a correr mar adentro e beijar-te num escaldante beijo de verão, ou esperar o pôr do sol e retratar-me contigo e ele em pano de fundo numa fotografia de qualquer cartão postal ilustrado.
Talvez se estivesse a chover eu não sussuraria em silêncio versos de amor que nunca escrevi e estaria a olhar a janela e ver a água a escorrer pelos vidros como uma qualquer águarela.
Talves se estivesse a chover eu estaria a esculpir desejos de sol numa qualquer pedra do meu sapato.
Talvez se estivesse a chover eu choraria por nada.
Mas não chove e eu venho aqui olhar o mar e ver se ele me leva num embalado sonho ainda não realizado, pelas escadas da vida, encruzilhada de quereres e misturada de sensações.
Me deixo no desejo de chuva a olhar por uma janela que mostre a tua rua e tu a passeares por ela.


Sanzalando

6 de novembro de 2010

transporte-me, imaginação

Por aqui vou ficando, ouço o mar, sinto-lhe o sabor salgado de algumas gotas que salpicam quando ele bate nas rochas e vou queimando o tempo, gastando a ausência. Menos um dia. Pareço mais um prisioneiro de mim riscando os quadradinhos dum calendário imaginário do que um passeante à beira mar. Mas a imaginação não me escolhe outro tema e teima em pensar em ti. Eu obedeço porque não quero loucar num louco grito de raiva. Podia estar a plantar rosas, mas não sei se é época delas agora. Podia estar a grafitar paredes imaginárias se tivesse algum jeito para o desenho e pintura. Podia estar sentado bebendo uma ou outra cerveja geladinha numa qualquer esplanada da mima memória mas a verdade é que não está calor para isso.
Com tantos podias e eu sigo a areia da praia num vai e vem como o mar que me acompanha num paralelo afastado.
Poderia libertar-me do corpo e deixar-me navegar pelas ondas da imaginação até um lugar distante sem ter de estar a fazer comparações e equações. Mas na verdade não estou. 
Aqui, apenas ouço o mar e lhe sinto o sabor salgado no tempo que gasto.
Chorá-lo-ei um dia? Não, jamais teria coragem de chorar por ter usufruído da imaginação, esse meio de transporte que me leva onde eu quero estar. Não, não tenho tempo a perder com coisas superficiais. Deixem-me viajar em mim escrevendo em voz alta.

Sanzalando

5 de novembro de 2010

o universo é que é grande

Olho o mar e me sinto pequeno no universo. Deve ter sido por isso que os outros lá no Egipto construíram as pirâmides, outros constroem torres, outros destroem torres e eu aqui, insignificantemente a olhar o mar e a pensar que o amor alimenta. 
Certo certo é que o amor delimita as minhas fronteiras, marca os meus domínios, destinos, pensamentos e sonhos. Mas é o amor a minha pirâmide, a minha torre e o meu monte de destroços, as minhas horas vagas, o meu estar calado num sentimento de espera.
Eu sou um pouco mais que um quase nada, uma imagem despigmentada traduzida num ponto qualquer do espaço minúsculo da minha presença, o ar dum suspiro, a gota do mar que bate na rocha e salpica num evaporado borrifo de nada.
Eu sou pequeno. 
Afinal acho que o universo é que é grande. 

Sanzalando

4 de novembro de 2010

despudor

Descalço-me de preconceitos e caminho na areia da praia aproveitando um sol que não sei a qual estação pertence. Mas como me disseram que o sol é de todos e ainda a gente não paga para lhe usar, com moderação porque senão sai caro, eu lhe aproveito e imagino estou do lado de lá, que deve estar a chover, só para lhes irritar, estando eu do lado de cá a vagabundear ideias soltas.
O marulhar hoje é quase assim não ouvido, é mesmo só sussurrado. O mar, me dizem que eu dessas coisas desentendo por completo, está chão. Deve ser por isso que às vezes a gente anda por cima de chão flutuante. Me distraio tentando pisar as pegadas doutro que passou aqui antes. Ele tinha passos largos, o que me está a cansar esticar assim as pernas. Vou neste pisar pé doutro, desabrochando o meu pudor com pensamentos de antes de não sei quando, que é assim num quase já não me lembro, e reinvento o meu corpo de quando estava contigo. Ossos e pele, pouco mais qualquer coisa que inteligência não tem peso. Dentada em dentada arranco a roupa do corpo, maneira violenta de dizer que me vou despindo, até ficar num tronco nu e que agora já não sei onde é que está o osso. Já não estão á flor da pele. Agora são os nervos que é coisa mais moderna. Aproveito ao máximo o sol. Descaso e caminhando eu não sinto que ele queima e assim não vou ficar cor de camarão, como os da serra quando vão ver o mar na sua colónia de férias.
E assim passei o meu tempo num delírio despudorado.

Sanzalando

3 de novembro de 2010

Por aqui procuro

Como sempre, me sento por aí, algures perto dum mar de mim. Desconsigo ver o mundo, o meu mundo, sem um mar ao lado. Tento fugir-lhe e ele não me sai da memória, por isso faz tempo que não insisto. E por aqui sentado me deixo partir em viagens, às vezes com destino e outras muitas apenas com desejo. Fixo, é claro. Já pensei deixar de falar-me dessas viagens mas não consigo, tal como o mar, é uma fixação. Por isso já não me contrario, já me deixo embalar sem travar o pensamento.
Por aqui sentado adormeço num acordado viajante, e me embalo por ruelas povoadas de cigarras que interrompem o canto à minha passagem. Desvio-me de umas muitas poças de água duma chuva que mentalmente me inundou. Procuro um arco-íris, procuro o canto alegre duma moça enamorada que distraidamente cante à janela a sua paixão, procuro o velho mais velho que me conta uma estória da sua memória, procuro o teu rosto numa sombra ou desenhado numa das muitas nuvens por agora me abundam no céu. Procuro vagamente é por mim, sentado num passeio a assobiar uma música dos Osibisa, a banda afro-rock caribenha de Inglaterra, enquanto penso nela e me deixo rebolar num contorcionismo que a minha idade já não suporta.
Como sempre aqui sentado, parto e não chego a lugar nenhum.

Sanzalando

2 de novembro de 2010

Dia de Finados

Eu hoje queria opinar mas toca a ser dia de finados. 
Passaram-se 5 anos em que fui visitar a campa do meu pai no cemitério do Namibe. Com a ajuda de desconhecidos, que num momento de, para mim, grande solidariedade, nos ajudaram a limpar, a dar um ar de dignidade àquele que para mim foi um grande Homem, que é para mim o meu Herói.
De lá para cá pouco mudou na mentalidade dos grandes senhores, dos que já eram, dos que passaram a ser, dos que pensam que são e dos que por muito que tentem não conseguem lá chegar mas continuam a dar ar da sua graça.
Hoje, Dia dos Finados, que alguns dizem dia dos Santos Finados, talvez porque se viram livres dalgumas espécies que lhes faziam a vida negra, ou, porque eram mesmos santas pessoas e lhes sentem muito a falta. Afinal de contas há finados para todos os gostos.
Depois de se morrer é que alguns vão definir bem quem era o morto antes desse consumado acto de morrer ter acontecido. Grande Homem ou Mulher que aqui o sexo não interessa. Uma peste, foi uma bênção dos deuses e afins, tudo se pode ouvir. Mas para a mesma pessoa existirão opiniões tão diferentes que é melhor mesmo a gente deixar passar o tempo e, um dia, num qualquer compêndio da memória, recapitular e já sem sentimentos à flor da pele, se lhe definir e mesmo assim não de forma definitiva.
Faz hoje cinco anos que visitei a campa do meu Herói e só o consegui fazer porque fui apoiado por amigos e muitos que apenas conhecia de nome dito num qualquer monitor de computador.
Tenho tantas saudades e tenho tantos agradecimentos que se me dispusesse a fazê-los aqui não restaria espaço e a memória iria falhar num ou noutro nome, o que deixaria de ser simpático da minha parte.
Para além disso ir-me-ia falhar a memória dos que morreram em vida que ainda vivem e não deixam viver.



Publicado inicialmente no Pensar e Falar Angola

Sanzalando

insisto

Insisto num insistentemente bater na mente cansada. Pergunto-me se um circulo é mesmo um arco redondo, uma circunferência perfeita. Pergunto-me se o quadrado é uma figura geométrica em que os quatro lados são iguais. Pergunto-me por mim e não sei onde estou. Aqui não estou. Lá não estou. No meio do caminho ninguém me viu.
Insisto-me até saber quem sou. Tenho que ver o espaço, as dimensões e as contradições. Sonho? Eu sou fruto do sonho? Sou um inexistente ser que sofre de nostalgia no solilóquio do seu pensamento introvertido?
Insisto-me até saber para onde vou. Um problema da mente não se pode solucionar na mente porque esta de parcela em parcela faz uma equação que nem o pi, E=mc2 ou lá o que me valha têm qualquer significado ou contribuem para o seu resultado.
Apenas sei que na minha insistência vou para a minha coerência de não saber quem sou, nem para onde vou.
Mas acordo, sonho e nele me deixo levar como se fosse uma criança que na sua inocência, procura o equilíbrio num andar ziguezagueado.
Me deixo embalar nos sonhos e um dia acordo e não passo duma memória e aí alguém dirá que estive perto de chegar a porto seguro. O azar mesmo, foi não saber onde estava o porto.

Sanzalando

1 de novembro de 2010

me ausentei

Me ausentei com o rosto fixado num sonho amadurecido, por um sonho que já me levou a lendas, que já me fez navegar por mares que eu nem sabia que existiam, que já me fez voar com asas invisíveis. 
Me ausentei por prazer, me desafogar de nostalgia, me encharcar de novas vontades, de sonhar novos sonhos e de voltar a voar nem que seja por imagens gravadas na memória.
Faço a minha alma gritar em silêncio mil vezes o teu nome até ao dia em que despertares de vez para mim, cantares e dançares para mim numa festa de apenas nós os dois.
Me ausentei para fugir do barco que sentia que naufragava nas revoltosas ondas da ira e do cansaço. Parti despido, levando apenas o olhar para o sonho cada vez mais amadurecido e que tarda em ser realidade.
Me ausentei cantarolando canções de dor ao sabor do vento, ao ritmo das tempestuosas saudades.
Regressei e pouco ou nada mudei.

Sanzalando

28 de outubro de 2010

28 de Outubro



SHUAAAAAAAAK!

Sanzalando

Hoje deu feriado no meu lado

Do quente ao frio, do seco à chuva, do verde árvore ao dourado areia tudo são contrastes para mudar em poucas horas duma vida que se ganha hoje em experiência o que já não se ganha em anos. 
Para minha alegria ficam todos os azares que já tive, todas as lágrimas que já verti, todas as palavras que calei e as que atirei como pedras, todas as ofensas que sofri e as que feri. Porque eu ainda cá estou a comemorar os 34 anos de experiência, na vossa companhia, a juntar aos 20 anos que um dia deixei de fazer mais.
Celebro com uma Savana bem geladinha, uns cajús acabados de torrar numa mistela com muito gindungo e com a grata satisfação de vos ter como amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo, se não fosse ele redondo.
Até já!

Sanzalando

27 de outubro de 2010

fim dia viagem

Hoje é o ultimo dia por aqui. Dei no duro e não perdi nada, antes pelo contrário. Fiquei feliz não só pelos sorrisos que fui vendo numa língua que não entendo, como por mim mesmo. Dei de mim e não houve intermediários a ganhar o quê que seja. Agora vou beber uma ou duas birras, Hansa de preferência.
Voltarei dentro de dias já sem viagens no meio.
Um abraço e até lá.

Sanzalando

26 de outubro de 2010

missionei-me

Hoje me apeteceu ser criança outra vez e sair de casa apenas com os meus calções feitos de calças velhas. Tronco nu. Mal vesti a camisa e já eu escorria água de transpiração. Agora, se fosse na rua assim iam dizer mais como? Loucou! gritaria a pequenada que brinca na rua desde madrugada para mim e tarde na hora deles.
Mas eu tenho de estar apresentável e por isso eu tenho de vestir roupa de gente - moderna civilização que me assimilou.
Estou ensonado e s olhos com tanta luz parecem que me ardem de fogo. Eu já não estou habituado a ver claro. E em silêncio. Esta língua não é meu forte. Gaguejo mas lá vou indo onde quero ir, percebo até onde quero perceber, gesticulo que acho estou a fazer ginástica. Me entendo e me entendem. Isto aqui é que é importante. Vamos bulir mais um pouco que dia de festa acho não vou ter. Missionei-me ou quê?

Sanzalando

25 de outubro de 2010

estrangeiradamente calado

Eram pouco depois das sete daqui, ainda eram seis por ai, e estava a conhecer os cantos da casa. Em estrangeiro, é claro. E eu pedia, segundo a segundo, mais devagar por favor. Agora é hora de trabalhar. Vai fazer o que aqui vieste fazer. Silenciosamente, porque não domino o estrangeiro e antes calado do que asneirento. Não tenho tradutor. Canso-me mais e, mais consigo chegar longe se for devagar. Comecei bem o dia. A primeira correu bem e houve um abraço no fim. Pausa e paro para pensar. Que faço eu aqui tão longe e tão perto. Volto a ter que falar e agora tenho tradutor que me traduz para um estrangeiro que não domino mas arranho. Ok, é para avançar. Silenciosamente e o silêncio se contagia nos que me rodeiam. Faço gestos simples e assim nos vamos entendendo. 3 horas num bip bip de silêncios. Terminou. Não consigo saber se estou satisfeito ou não. Acho só amanhã eu vou ficar a saber. 
Agora vou beber uma birra, deixar a cabeça arrefecer e se ela quiser navegar por mares a norte daqui que navegue. Eu não lhe vou levar até lá. 
Alguém fala o que eu entendo. Pergunto donde e palavra puxa palavra ainda somos parentes de parentes conhecidos. Duas birras depois dizemos adeus e até breve num atré breve que pode durar outra eternidade como demorou esta a acontecer. Promessas...
Deito a cabeça na almofada e vou viajar para lá da imaginação, para além donde os sonhos não dormem.

Sanzalando

24 de outubro de 2010

um segredo bem guardado

Por aqui vou num caminhar ininterrupto. Ali acima, como quem olha num mapa, estás tu. Mas eu não te consigo alcançar. Me falta tempo, me falta um pouco de vontade e tenho a mais um pouco de vaidade ou teimosia. Areia tenho muita, mar nenhum que está longe e não me chega aqui o sabor salgado da maresia. Me disseram choveu faz pouco tempo e me custa acreditar. Acho aqui não choveu nunca, desde a criação do mundo. Mas também não é isso que é importante. Aqui é assim e ponto final que eu não estou aqui para mudar o mundo tal qual ele é. Tomara eu conseguisse mudar o meu e dar o saltito pequenino e te chegar num instante depois voltava e não ofendia a minha vaidade nem ofuscava a minha teimosia. 
Não. Eu vim aqui para estar aqui e é aqui que eu vou ficar. Teimosamente como sempre o foste para mim. Orgulhosamente teimoso como aprendi a ser contigo.
Tiver eu tempo e vou ver o mar. Frio como o mar que te banha. Mas ver não magoa ninguém e o mar deve dizer-me mais segredos por tão perto que te está.
Amanhã vou bulir, devagarinho que os 34 graus não deve dar para mais, e não vou pensar em ti. Penso eu que sou teimosamente orgulhoso. 
Hoje sou carcamano e ninguém sabe de mim.


Sanzalando

23 de outubro de 2010

me sento por aqui

Me sento aqui como se fosse o único no mundo. Há muito me perdi no tempo e não me fui procurar. Se penso nela o meu coração começa a vibrar e parece eu sou um tremor de terra. Se penso nela a minha boca seca parece vira o deserto que me rodeia. Porque é que quando eu lhe penso não me vem à cabeça ser um canguru e dar saltos de corrida, ou avião e ter asas para voar, ou ser apenas eu e passar ao lado?
Me sento por aqui, isolado, longe e perto (sei que só a morte, essa coisa que os comuns de nós nem sabe o que é, essa coisa que está para além do sono e não aquela coisa que a gente diz que viu a morte pela frente, essa coisa que só mesmo os mortos sabem o quê que é) me vai fazer parar de pensar.
Me sento por aqui num vagabundear de sentidos, de ideias e memórias e me deixo levar para além da imaginação e quase chego no sonho e lhe vejo ali, ardente, calma e ao mesmo tempo mostrando formas de agitação, a me esperar, nem que seja uma ínfima parte dessa eternidade que eu já esperei.
Vagabundo de sentidos, de formas e certezas, riu e choro por ela em cada segundo. Ela ali, quase num esticar de braços, mas ao mesmo tempo longe porque ela não me espera nunca. Ela não me sabe de existir.
Me sento por aqui, perfumado na maresia e quase me apetece deitar fogo aos pensamentos. 
Me sento por aqui, embalado no marulhar e quase me apetece afogar a imaginação.
Me sento por aqui, arrepiado de frio dos salpicos feito lágrimas e quase me apetece acordar.

Sanzalando

22 de outubro de 2010

aqui divago

Me deixo passear na areia da praia deserta. Aqui termina o mar. Tenho certeza, ele termina ali porque não me molha aqui. E é aqui na areia que eu passeio porque ele aqui está quase gelado e eu sei que do outro lado está quente, que me disseram parece é sopa. Mas aqui eu lhe escuto os segredos que ele me vai dizendo na imaginação. Aqui eu sei que se fosse sol eu era quente, se tivesse cor de luar eu era lua e se fosse azul eu era céu. Mas aqui ainda não consigo ser eu, apenas só o imaginário de mim existe. Às vezes eu penso eu sou neve de gelo, de tão frio que me vou tornando, montanha de sussurro sem eco, palavra sem sentido nem carícia. Aqui me vou perdendo nos dias de ilusão, nas noites frias de solidão, nos ritmos calados do choro abafado.
Me deixo passear na areia da praia deserta afogando silêncios no vento que sopra feito brisa. Aqui eu sei que se fosse humano eu era gente. 

Sanzalando

21 de outubro de 2010

Mundo imaginário

Por aqui sentado a ouvir o mar chego à brilhante conclusão que o mundo imaginário afinal existe. Eu pensava era só um filme que passava na minha cabeça. Mas afinal também os sonhos não dormem. Estes apenas estão perdidos num campo do mundo real e este é o mundo imaginário. O lugar onde estão os sonhos, lugar onde não existe matéria, não há dinheiro, nem polícias e ladrões, mas luz e escuridão, sol e chuva e uma montanha de sonhos pairando à espera de chegar ao mundo real, à espera que haja uma greta entre este mundo imaginário e o mundo real. Aqui não há culpas nem desculpas, nem esquecimento nem guerra. Há momentos e intervalos de momentos. 
Por aqui sentado a ouvir o mar, este deserto azul que não levanta poeira, me levo intercaladamente entre os mundos real e imaginário num passeio de faz de conta nas contas dum somar que um dia vai dar certo sem ter de fazer a regra dos noves fora.
Aqui sentado sei que o mundo imaginário existe, atrás de mim, nadando sobre mim e um dia ele vai fazer parte do mundo real, tal e qual o real que eu vivo.

Sanzalando

20 de outubro de 2010

É apenas hoje

Hoje não ouço o mar e mal dou por mim e estou num ofegante respirar. Me disseram que era ansiedade, eu digo que é só mesmo cansaço de correr atrás da imaginação, pular memória atrás de memória, ver corações bater como se num desenho animado vivesse. Me disseram era nervosismo e eu digo é apenas saudadismo. Olho à volta e não vejo mais as caras com que eu cresci, não ouço mais as vozes que me habituei a ouvir. Uns partiram e outros nem faço ideia onde é que estão. Meto conversa com estranhos e me entranho num mimesmo que nem deu para conhecer.
Hoje não ouço o mar nem lhe sinto o frio salpico duma maresia com que me perfumo.
Hoje não estou aqui, nem ali, nem acolá. Acho hoje eu não existo ou apenas porque desisto ou porque não é dia de existir.
Hoje não ouço o mar nem lhe vejo de lá longe.
Eu hoje não acordei, me desrisquei-me do calendário. É apenas hoje!

Sanzalando

19 de outubro de 2010

o dia mais feliz da minha vida

Estava para aqui sentado a atirar pensamentos em todas as direcções.  Um fraco veio cair quase nos meus pés. Ia sendo pisado por um pensamento meu. Lhe olhei nos olhos como se ele os tivesse e lhe vi que era um pensamento que dizia assim: o dia mais feliz da minha vida. Não tinha mais nada e foi por isso que ele não conseguiu voar em direcção nenhuma. Voltei a pegar nele, revirei de frente e de trás, de lado e só não lhe virei ao contrário porque ele era mesmo muito pequenino e não dava maneira de lho virar. Lhe tentei colar outros, dar-lhe forma e o o dia mais feliz da minha vida era um dia cinzento. Já tinha mais qualquer coisa. Mas tantos dias na minha vida foram e são cinzentos como é que eu vou descobrir este que seria especial? O dia mais feliz da minha vida era cinzento porque chovia, mas de quando em vez era abrilhantado por um raio de luz, fruto da trovoada.
Afinal de contas o pensamento tinha mais qualquer coisa. Eu é que lhe estava a desaproveitar. 
Me esforcei mais um bocado, tentei ver quem me rodeava e além de vultos desconsegui ver figuras com legendas, imagens mais reais estavam esbatidas no cinzento cerrado da carga de água.
Não, este vai ficar mesmo aqui aos meus pés. Afinal de contas ainda não tenho o dia mais feliz da minha vida. Ele é futuro.

Sanzalando

18 de outubro de 2010

emoções de mar

Sempre perto do mar. Um dia alguém me vai dizer que eu vou morrer afogado de tanto mar. Desimportei-me por completo. Esse mar aí, ele nasce mesmo lá pertinho do meu destino virado do início que será um fim certo. Mas por agora me sento, ou caminho perto dele, e me deixo navegar por pensamentos e imaginações. Esse mar assim que é água como é água a nossa emoção. A gente chora de felicidade, agente chora de tristeza, a gente sua de nervosismo, a gente sua de prazer. Portanto acaba por ser tudo uma inundação já que a gente não é nem robot nem máquina de fazer coisas.
Assim vamos lá recapitular, as nossas emoções como a raiva, a tristeza, a euforia, o amor e outras mais que se mostram com água, podem nos levar a tomar decisões erradas, precipitadas ou pelo contrário, nos fazem reagir quando parece que morremos de tanto espanto e tanta transpiração gelada.
Perto do mar as minhas emoções caminham como um rio para ele e ninguém vai notar na minha transparência. Ou pelo menos vai ficar na dúvida.

Sanzalando

17 de outubro de 2010

os meus avós

Cantarolo uma canção que invento, que a voz não é o meu forte e o meu sentido musical acho entrou de férias no dia que nasci. Mas tento sempre cantar quando sinto que a nostalgia me tenta afogar. Ajuda a passar o tempo e quem canta seus males espanta, me diziam os meus avós que devem ter aprendido com os avós deles e por aí fora e eu não sou ninguém para os contrariar.
Mas agora me recordei dos avós, esses mesmos, todos quatro, que me ensinaram que amar não é complacência e que um sorriso é às vezes muito maior que um texto de palavras. Agora me duvidei se esses avós conheceram minha descendência. Ingratidão da vida. Parece que nada bate certo. Acho vou rebobinar a minha vida e projectar de novo, como fosse um filme, até ter um final feliz.
Então os meus avós, esses que me levaram a conhecer o que era um rio, me levaram nas matinés de domingo de manhã, me encheram de mimos nos momentos todos que eu estive com eles, não conheceram a minha descendência, aqueles que existem porque eles existiram e me ensinaram tantas coisas?
Afinal a vida é cheia destas curvas. Um dia os canários vão cantar na minha janela e eu não vou precisar de assustar o vizinho com as minhas cantorias.

Sanzalando

16 de outubro de 2010

me sento perto do mar

Me sento perto do mar para recordar o meu sorriso e rever o teu sentir, ouvir as palavras que já te disse e falar as que tenho para te dizer, ouvir-te ouvir-me.
Me sento perto do mar para descobrir que sempre estive contigo mesmo quando andava perdido noutros amores e era cego por não te ver.
Me sento perto do mar imaginando-me bonito para me notares, pôr-me em bicos de pés para me veres e gritar para me ouvires.
Me sento perto do mar esperando que num amanhã me chames de amor e esqueças todos este tempo perdido numa pintura abstracta.
Me sento perto do mar para me sentar perto de ti.

Sanzalando

15 de outubro de 2010

abraço

Caminho daqui para ali e dali para aqui num nervoso miudinho que não me deixa estar quieto. Recordo a minha infância, os meus calções com alças que pareciam suspensórios, as minhas meias imaculadamente brancas a sobressair nas pernas mais finas que um caniço, o meu cabelo curto que mais parecia ia ser careca quando eu fosse velhinho. Recordo dos abraços da minha mãe, das minhas tias e não consigo recordar-me de alguma vez me teres abraçado. Sei que os teus braços são longos como longa pode ser a imaginação, sei que o teu calor maternal pode ser gelado, fervente ou nem uma coisa nem outra, apenas neutramente insensível.
Mas na verdade eu sempre acreditei no poder dum abraço. Ele nos faz sentir bem e até esquecer males grandes que nem as palavras conseguem dizer. Ele cura doenças, nem que sejam as da alma.
Enquanto caminho daqui para ali e dali para aqui penso nos abraços que fiquei de dar e adiei, nos que escondi porque parece mal, nos que ainda não tive tempo de pedir e nos que ainda não tive coragem para dar.
O abraço é um antidepressivo poderoso. Eu hoje queria ser abraçado por ti.

Sanzalando