recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de maio de 2023

a vida

Caminhando por aquis, indefinição própria de quem não quer dizer por onde anda, dou comigo a meditar de quantas vezes fui herói, às vezes obscuro, outras vezes na penumbra do desconhecido e outras vezes descaradamente? Quantas vezes podia ter feito mais e não tê-lo feito por desconhecimento ou por falta de percepção? Quantas vezes eu fui sombra de mim, vilão do próprio?
Se eu pudesse devolver-me o tempo das indefinições, dos cortes que deveria ter feito, dos dias obscuros que perdi no conforto dum sofá... não seria melhor do que sou por quanto sou o somatório de todos os meus passos passados, perdidos e encontrados, dados ou arrastados. 
Caminhando por aquis, dos lados todos da vida que vivi, dos planos e pensamentos que ainda não concretizei parece que não me esqueci de ser um ser vivo que vive a vida com gosto. Faço o que faço porque gosto de fazê-lo, porque devo-me fazê-lo e porque o mereço. 
Eu não seria diferente se a minha vida não tivesse dados as voltas que eu lhe dei.



Sanzalando

11 de maio de 2023

tem dias

Tem dias que sorrio quando me apetecia chorar, falar quando queria estar em silêncio. Porém não deixo de estar feliz. Até parece eu sou um paradoxo de mim. Mas a realidade é que tem dias que me pergunto se eu mereço o que tenho, se eu fiz algo para o ter? Tem dias de dúvida e incerteza. É assim mais ou menos com os dias de chuva e dias de sol. A gente não lhes manda nem solicita. Tem-nos e vai ter que ter a vida com eles. 
Tem dias que parece estamos prontos para a queda e outros em que caímos de surpresa. Nos primeiros até nem dói e nos segundos, mesmo que não doa fisicamente, dói na alma. 
Tem dias que a solidão e a tristeza parece acordaram juntas. Mas afinal o que falta é termos vontade de preencher o vazio, animar a ansiedade e dar corda aos músculos da alma.
Tem dias em que o maior de todos os vícios é a confiança. Se ela falha até parece um sismo e o nosso corpo se desfaz em pó. Isto quando temos a capacidade de sair do nosso corpo e nos vermos de fora para dentro. 
Tem dias que as palavras escritas parecem sanar a alma, libertar a mente e nos acalmar o coração.
Até parece que um poema triste não pode ter um final feliz. 



Sanzalando

10 de maio de 2023

um dia de cada vez

Olho-me por dentro olhando o zulmarinho. Perco tempo ganhando-me. É a minha forma salutar de saber quem sou e o que quero. Não atropelo nem faço feridas a ninguém. Mas ainda tenho tempo de esfolar os joelhos brincando no alcatrão, à trouxa lavada, ao garrafão e ao picles. Já não me lembro das regras do prego e já não tenho berlindes para jogar nem parceiros que se lembrem de ganhar tempo ao tempo que têm. 
Vou fazer mais o quê desta vida errónea, desta nostalgia sadia que faz mal a tanta gente porque não a têm?
Um sorriso, irónico ou real, levam a minha ingénua vida à invulnerabilidade de ser feliz. Se eu soubesse cantar eu estaria agora a fazê-lo. Parece estranho, mas é real. 
Sempre fui feliz? Não! Era mundano e fatalista, agarrado ao fado e à fatalidade de ter os olhos cravados num amanhã de arco-íris e festa de rua. 
Mas aprendi que afinal eu sou o que sou e tenho o que tenho. Os alicerces fui buscá-los desde o berço, as paredes mestras construí e este edifício vai-se construindo andar por andar até que o terraço esteja concluído. Quando? Não faço a mínima ideia e nem me preocupa.
Olho-me e sou feliz, um dia de cada vez


Sanzalando

9 de maio de 2023

tem dias

Tem dias que me ponho a pensar e parece tenho um novelo emaranhado de pensamentos em que se puxo uma ponta sai uma escada de nós complexos e desconsigo encontrar um pensamento limpo e claro. Sei que faz parte da natureza humana por vezes complexar o simples, cegar perante o óbvio e ensurdecer perante o som puro da natureza. Nesses dias dá uma gana de nada pensar, de nada ver e muito menos rever. Mas teimoso como sou, calma e serenamente vou descomplicando o novelo e  aos poucos vou clareando a trovoada de pensamentos ao ponto de ter um céu limpo.
Na verdade tem dias que tudo parece um ponto final e se olharmos bem lá na frente vemos que há mais praia para navegar.
Tem dias que parece o tempo não tem fim mas o tempo não tem complexos elásticos nem pensamentos de me lixar, pelo que eu me acalmo vejo que o tempo tem tempo para me dar tempo que o tempo tem.
Tem dias, hoje é só mais um dia que eu tenho para viver.


Sanzalando

8 de maio de 2023

morri de amor

Era ainda uma criança quando me lembro que me apaixonei de morrer. Era imaturo e inexperiente, usava calções e sandálias, joelho esfolado de brincar na rua mas escondidamente estava apaixonado. Não disse nada a ninguém e todas as músicas que ouvia eu lhe dedicava em silêncio. Acho ela nunca soube que tinha roubado o meu coração de mim. Mas me olhava e parecia feliz. Imaginava eu, porque nunca nos falámos, nunca trocámos mais que um olhar. Era a minha primeira morte de amor. E foi assim num silêncio solitário que também fiz o meu primeiro luto de uma amor que devia durar para a vida toda.
Outras paixões foram aparecendo. Cada uma aparentemente mais mortal que a anterior. Sobrevivi a tantas mortes de amor que se houvesse borboletas no estômago como me disseram, eu estaria morto por casulos a me ocuparem todo o meu interior. Morto de amores e morto por amor.
Afinal de contas é bom morrer de amor. Por isso morri todas essas vezes incontáveis que eu sei de cor.

Sanzalando

#zulmarinho


7 de maio de 2023

dia da mãe

Pedalava eu pelos caminhos dum esquecer que o mundo é mundo e outras coisas mais, quando me entrou no ouvido um sussurro a dizer que hoje é Dia da Mãe.
Eu sei, que antes de lhe levarem para um canto inesquecível da minha memória, eu lhe fiz doer a cabeça, lhe acinzentei muito os cabelos que ela teimosamente pintava para não me assustar com o tempo que passa, lhe causei lágrimas de dor de alma e saudade, lhe tirei sonos que mais que ela merecia dormir. Mas para mim é todos os dias são dia da Mãe. Porque quando não lhe fazia nada disto, eu lhe fazia rir de coisas sérias que eu não brincava, lhe alegrava o ego de ir mais além do que ela mesmo tinha imaginado, lhe provocava um babar de satisfação quando por portas e travessas alguém lhe era simpático e lhe me elogiava. Todos os dias eram Dia da Mãe, dia da minha Mãe.
Depois, cansada de coração fraco, lhe levaram num dormir que não deu em acordar e lhe repousaram num canto inexpugnável da minha memória, onde lhe trago em cada instante ou lhe busco quando lhe preciso.
Um dia, Mãe, eu te vou levar onde tu foste feliz! promessa do teu filho, que por agora vai pedalando pelos caminhos que um dia desenhou no imaginário da vida.


Sanzalando

dia santo na loja

Olho só por aí a fazer o tempo descansar. Tem dias que nem apetece gastá-lo ou lhe incomodar. Até parece que estou a gritar em silêncio e esperar que alguém me ouça. Mas assim não tem nem como? A voz se abafa por dentro que nem queimadura e não tem retorno no ar. Assim é um silêncio abafado num tempo inexistente. É só mesmo descansar faz de conta é dia de férias mentais.


Sanzalando

6 de maio de 2023

#comida


sou mais velho

Me perco no tempo que o tempo tem. Já fui criança, adolescente e adulto. Agora me chamam de mais velho. Não sei mesmo que é que é isso. Sei que o fazem de forma respeitadora, deferente e cerimoniosa. Acho até me acham sabedor de coisas que o tempo me ensinou. Agora sou o mais velho. Sabedor e respeitável falador.
Tenho que o aceitar. Sou o mais velho, respeitável opinador. Mas não sou como muitos mais velhos que andam por aí e se esqueceram que andam ao sol porém nunca saíram duma qualquer mental prisão. Tem prisão que não tem grades e essa é ainda pior que a que tem. Tem mais velhos que pensam que cama é nave espacial e sonham parece são astronautas doutra qualquer galáxia e os pés não estão assentes na terra. Tem mais velhos que pensam que o que sempre pensaram é a verdade verdadeira. Tem mais velhos que se calhar ainda não pararam para pensar.
Sou mais velho mas ainda tenho muito para aprender e rever na matéria da vida. Eu sei que as minhas recordações são pequenos átomos de eternidade. Sou mais velho mesmo que não saiba bem o que é que isso é.

Sanzalando

5 de maio de 2023

matiné do Eurico

Matiné do Eurico. Talvez seja Marisol ou Joselito. Quem sabe eu tenha sorte e dê o do Cantiflas. Pode ser mesmo só qualquer coisa que tenha legendas e eu perceba. Não quero filmes com sangue e mortes. Morte só se for por amor. Acho que vou comprar bilhete para o balcão. Lá em baixo tem muita confusão e eu gosto de ver o filme no mais selecto sossego. Já sei que o filme é da Rita Pavoni e ela vai para o convento. Já sei eu vou chorar que nem ela. Ou será o Gianni Morandi a ir para a tropa e deixar a sua amada em terra. Non sou Digno de ti, mas em italiano que eu sou sei dizer e não sei como se escreve. Mas de qual destes todos eu gosto mais? Se eu não tivesse medo ia dizer que venha o diabo e escolha. 
Como é bom vir à matiné do Eurico no Domingo à tarde. Até parece a música do Nelson Ned. Te lembras como o guarda costa lhe tirou do palco, até parecia ele era criança? Que voz que ele tinha. 
Como é giro este cinema de balcão e plateia. Imagina os gajos lá em baixo levarem com papeis desde cá de cima. Mal comportados. 
Mas ainda não é domingo.


Sanzalando

#desportivamente


#lugaresincriveis


#lugaresincriveis


#pitanga


4 de maio de 2023

delírios de memória

Como vou eu sair deste ponto onde cada vez vejo melhor o meu mundo? Esse mundo que não é só o que eu consigo ver. Esse que eu sei que existe para lá de mim, dos lugares que estive, dos pontos que decorei e dos que marquei para não repetir.
Para bem da verdade eu quero qualquer lugar como eu o quero para mim, porque não quero ter o erro de culpabilizar outro por eu não gostar dum dito lugar. É desesperante imaginar que não gosto por causa de alguém. É por mim. Mas eu não conheço os lugares todos como é que posso fazer afirmações? Faço ressalvando esse ponto: eu não conheço os lugares todos e eu tenho cabeça para pensar e não me armar aos cágados e julgar que conheço tudo. Quem me dera.
Mas eu já encontrei lugar que não gosto? Já! Mas são tão poucos que qualquer dia tenho que apontar para não me esquecer. 2 ou 3. Esses eu bloquei mentalmente e assim eu não lhes vou rever. Em vez de ver esses lugares eu vou ler um livro, ouvir uma música os simplesmente olhar o zulmarinho e encher de alegria a minha alma. 


Sanzalando

#lugaresincriveis


#flores


3 de maio de 2023

delírio de memória

Estou sentado com os olhos postos lá num horizonte que imagino seja bem longe. Pouco me importa o que vejo. Agora interessa-me mais o que sinto. É que enquanto, alguns dormem, eu penso e vejo na forma de sentir, sem criar imagem na retina, apenas uma ténue imagem no lóbulo cerebral dedicado à memória e que me leva ao sentimento mais puro do prazer. 
Não é saudade nem nostalgia. É mesmo um carinho enorme, uma doce aventura de mim, um naperon de abertos e fechados, como os que a minha avó fazia no seu crochê de fim de tarde, aquilo que sinto do meu passado presente. Tive um professor que me dizia pica a burra quando estava eu no quadro com uma dificuldade matemática. Hoje, passados muitos anos, lembro-me como se tivesse sido agora e sinto saudade, porque me foi útil mesmo que na altura eu não tivesse achado piada nenhuma. 
Eu tinha pensado que para bem da minha saúde mental eu não devia recordar passados. Mas o que seria de mim se o não tivesse? Assim, nesta forma de sentir, vejo que sou feliz por ser capaz de recordar sem mágoa, que cresci com a ajuda dessas memórias, com os ensinamentos desses professores que tanta paciência tiveram.
Afinal de contas eu sou o meu porto seguro porque me baseio em alicerces bem construídos. Eu sei, a insegurança não é uma opção, é um trauma. Assim como o ser idiota não é doença, é opção. 
Eu, nas minhas opções, prefiro meditar e consolidar os meus alicerces, navegando por pensamentos que me levam desde criança até aos dias que são o hoje. Amanhã logo se verá.


Sanzalando

#lugaresincriveis


2 de maio de 2023

divago qualquer coisa

Me apetece divagar, umas vezes enquanto caminho, outras no sossego dum sofá e outras a olhar o zulmarinho. Que ganho eu com isso? Paz e tranquilidade. Não vou ao sabor do improviso e do que me dá mais jeito ou lucro. Na verdade, divagando vou buscar recordações que já nem me lembrava as tinha. Sem recordações eu seria um desmemoriado. As recordações são memória. As saudades são memória. Divagando sobre mim uso a memória, utilizo o meu passado para não incorrer no mesmo erro ou cair no uso fácil do improviso.
Se tenho futuro? Mas é claro. Não sei qual é porque ele ainda não aconteceu, mas vai ter como alicerce o meu passado, as minhas recordações e as minhas saudades. Não, não estou cristalizado nesse passado. Uso-o porque é meu e serve-me na perfeição.
Não rasgo o meu coração em sofrimentos ou ofensas vãs, porque não parto de falsas ilusões nem caminho por caminhos despegados de sentimento. 
Assim sendo, eu sou um somatório de triunfos e fracassos que tenho na memória e que me alicerçam no presente e futuro. 
Não, não sou um contraditor nato nem um teimoso desmemoriado. Estou agradecido de ser quem sou. 

Sanzalando

#lugaresincriveis


1 de maio de 2023

Desabafo ponto final

Girando a terra à volta do sol e eu sobre minha a consciência, caminho cada dia com a certeza que o meu caminho, pode não ser perfeito, pode conter poeiras, lágrimas em forma de chuva, sorrisos apagados e tristeza no olhar, mas é ele que eu sigo e me sinto feliz. 
Às vezes as pessoas me deixam numa forma de tristeza, não naquela forma triste de dor de mágoa, mas apenas o dessorriso duma forma de ter dado um olhar que se perdeu, dum tempo que por não ser importante se transforma num lado oculto da minha memória antes de atingir o esquecimento.
Não tenho necessidade de drenar letras para me aliviar a carga da alma nem pensamentos pecaminosas. Apenas um ou dois segundos, um abanar de corpo e lá se vai a tormenta para um oceano de vazios. 
Assim sendo, soprando ventos contrários ou a favor, sem pedra no sapato, sem raiva ou rancor, sem desamor, sigo o caminho como o quero. O vento despenteia-me, pode-me fazer quase fechar os olhos, mas não entra na minha alma, na minha essência ou no meu caráter. 
Diz o Carlão que assobia para o lado e eu digo que nem perco tempo com isso.
Futebol, política e religião são coisas que eu não falo. Estas três coisas são fruto de paixão, esta é a fase doente do amor e eu não quero nada com doenças.
Me dizerem o que eu devo pensar, falar ou escrever, isso jamais.


Sanzalando

#lugaresincriveis