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A Minha Sanzala: Abril 2007
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de abril de 2007

Medos

Vamos caminhando num vai e vem, ao sabor do vento, à velocidade do nada. Ouvimos o marulhar desse zulmarinho, sentimos-lhe o perfume de maresia e caminhamos sempre como temos feito até aqui, sem pressas, sem enganos e desencantos, mesmo que os cantos estejam a ferver nos seus 90 graus. Precisamos deitar para fora os nossos medos, aqueles que a gente diz que não tem mas a gente sabe que bem lá no fundo eles nos estão a travar. Num é? Então porque não conseguimos realizar alguns dos nossos sonhos, uns dos nossos projectos? Vá, diz. Não, não estou zangado. Estou só a te querer exteriorizar os medos.
Conforme o nosso corpo cresce, nós vamos tomando as decisões, vamos elegendo nossas aptidões até que sentimos a estabilidade, até que nos achamos de bem com a vida. Mas os nossos sonhos foram realizados? Nunca te deu para pensar se foi essa vida, a que tu lhe vives, que escolheste? Estás satisfeita com a tua vida. Fala sombra que me segues. Responde-me, nem que seja com um sinal. Pois é. Já te apeteceu mudar, mas o medo de introduzir mudanças, o medo de fugires da rotina que te aparenta segurança, te influenciou.
É por isso que às vezes te pareces perdida. E vens dizer-me que não há medos?
Todos temos os nossos medos.
Olha, um dos meus medos é não ter força para te falar, para te dizer as minhas palavras que vêm directas do coração. Um dia chorarei por uma palavra apenas.

Sanzalando

As faces da liberdade


29 de abril de 2007

Caminhar sem destino

Vamos caminhar neste caminhar sem destino directo, sem rotas, sem caderno de viagem. Caminhamos para o futuro, olhando o passado e vivendo o presente, assim num como quem não quer a coisa.
O zulmarinho e a sua maresia nos dão sensação de liberdade, o seu gingantismo nos mostra a nossa pequena existência, a areia, que lhe trava, marca os nossos passos como que a dizer que estamos aqui.
Eu falo-te de coisas de memória, palavras saídas do coração, sem filtros nem marcas que te digam que eu as disse. Falo-tas por falar e porque sei que mesmo que não me ouças tu estás aqui como se as ouvisses.
E a memória trás consigo uma chama de fogachos da vida, sinais da saudade, cumplicidades e outros simbolismos que se notam na marca de qualquer algodão que incendeia os meus passos, cinzas de recordações tristes e alegres. Um caminhar já caminhado.
Pode parecer um inferno olhar os passos já dados, gastos no número de passos que a vida tem, sem saber quantos passos ainda há para dar. Mas aqueles passos têm também a marca nostálgica dos passos dado na adolescência, na incerteza dos passos do futuro, nos caracóis do vazio abismo do futuro.
A memória leva-me, em passadas largas, para lá da linha recta que é curva, semente da minha existência, adubo de mim no hoje que o agora já foi.
Caminhos da memória que nos levam ao precipício do futuro velado da verdade.
Se eu tenho memória é porque eu dou passos em direcção ao futuro e tu me segues seguindo o teu futuro.
Olha, como é domingo, vou parar para beber uma birra loira estupidamente gelada, não para me refrescar a goela, mas só para saciar a sede de amanhã.


Sanzalando

As faces da liberdade


28 de abril de 2007

Tanta pergunta para um sábado

Anda comigo neste espaço sem chão, sem tecto e sem paredes, neste lugar desfronteirado, livre de prisões, pressões e outros enclaves encravados na garganta. O zulmarinho nos separa e nos une, nos afasta e nos liga com a sua química e suas endorfinas.
Anda comigo neste caminhar em que é impossível recordar todos os momentos da vida e o segredo está em saber o que devemos esquecer.
Anda e me ouve com toda a atenção mesmo que não te apeteça guardar uma só palavra.
O que seria da nossa vida se recordássemos todos os instantes, todos os comentários, todos os factos que já vivemos? Qual seria a influencia dessas coisas todas no nosso hoje?
Eu sei que sabes que o mais agradável é recordar as coisas boas que vivemos, que vimos, que sentimos. Mas num calhar, são as coisas menos boas as que nos moldaram, as que nos fizeram aquilo que somos hoje. E como podemos esquecê-las? Como vamos fazer mesmo a selecção do que devemos esquecer e lembrar? Eu só sei que nestes passos que dou contigo me vêm à cabeça recordações que me tornam vulnerável e que me esforço, num querer sem par, em esquecer e que afinal de contas eis aqui na flor do pensamento. Recordado sem esforço a memória que queria esquecer. Assim te pergunto, se há que esquecer como escolher e como lhe fazer para ele não estar sempre a vir na superfície dos pensamentos como que a querer respirar ou dizer que está aqui?

Sanzalando

As faces da liberdade


Sanzalando

27 de abril de 2007

Caminho sem fronteiras

Tu sabes que eu sei que caminho num lugar sem fronteiras. Se olhar para além da linha recta que é curva me encontrarei. Se caminhar paralelo a ela me encruzilharei entre palavras e sonhos, verdades e quereres. Se me sentar aqui e olhar para além do que vejo, é como caminhar por silêncios, por surdas palavras, por pensamentos sórdidos.
Caminho sem fronteiras para não me perder no sentido da palavra, na visão da frase, no conteúdo do texto que te dito como se fosses uma máquina de gravação das minhas ideias.
Ouvindo o marulhar, ouço as tuas palavras, as mensagens que me chegam na forma de ondas se atirando contra a areia, escuto a tua voz e tento recordar-te tal e qual tu me pareces que és.
Vivo, sobrevivo, malvivo. Esta a forma que escolho de viver-te, sentir-te, acariciar-te, ter-te na força do meu desejo de possuir-te.
Caminho no desafio das leis da física, da química e da alquimia, porque caminho sem linha, sem rumo, sem fronteiras, sem paredes, sem buracos. Caminho na tua direcção como se fosse um esperto na arte da orientação, como se soubesse que todos os caminhos te vão dar.
Caminho sobre o sentimento sentindo que te trazem-me quando me levam-te. Caminho sobre as palavras que nos ligam, sobre o zulmarinho que nos une em mordidelas de encanto, em tracejados de balas de paixão, em pulsar de corações parados.
Afinal o que nos une não é um túnel de vento, é mesmo uma paixão de silêncios e palavras, é um tornado de emoções, furacão de coisas pairando algures num espaço sem limites.
Por isso caminho-te sem fronteiras.

Sanzalando

As faces da liberdade

26 de abril de 2007

Eu e a minha sombra

Caminho. Caminhamos neste final de zulmarinho com a serenidade de termos a consciência traquila, leves porque ela não nos pesa, sorridente porque ela nos alegra. Caminhamos, eu na minha voz de certezas e tu na atenção de quem escuta mesmo que não ouças nada.
Caminhamos plenos de certezas que o sonho comanda a vida, descontraídos porque não sabemos onde nos levam os passos, despreocupados porque sabemos que os nossos olhos vêem as armadilhas que o terreno nos possa apresentar.
Caminho. Caminhamos, inseparavelmente eu e tu, mesmo que um dos dois queira seguir sozinho, mas é coisa que desconseguimos porque estamos demasiado ligados desde que nascemos. Marcou-nos a infância, moldamo-nos na adolescencia, choramos e rimos na idade das certezas com a certeza que somos inseparaveis até que a morte nos leva para a cova funda onde não há lugar para sombras. Aí, caminharás sozinha na tua impossibilidade de existir.

Sanzalando

As faces da liberdade


25 de abril de 2007

25 ABRIL

Um grande abraço Capitão Salgueiro Maia (1944.1992)

Sanzalando

As faces da liberdade

24 de abril de 2007

Figurado Português 28


Uma véspera

Vamos daí. Andar faz bem nas coronárias, femurais e outras artérias que tais, dessas que nos passam o tempo a dizer que temos de ter cuidado com o que comemos e bebemos, que devemos e não devemos fazer. Vamos fazer bem no corpo e deixar as palavras se soltarem para fazer também uma massagem no cérebro.
Tu sabes que eu já te devo ter dito, por estas ou outras palavras, que a queda é livre e a subida é árdua. Subir na ladeira, subir na montanha. Subir é sempre uma canseira que até custa subir na vida, que ela às vezes parece é aquele touro de feira que foi feito só para derrubar a gente e mais a nossa mania de valentão.
Ao falar assim me lembrei das lembranças do que a gente fez com desnecessidade, as palavras ditas de forma envenenada que podem destruir assim num instante tudo o quanto a gente demorou que nem uma eternidade para construir, daqueles minutos loucos que a gente vive de vez em quando, quando a gente quer atacar alguém num esbracejar de que parece quer partir este e o outro mundo. Ao dizer-te estas coisas assim me fez ver as coisas perdidas por uma casmurrice, que uns dizem é orgulho, outros falam é vaidade, outros mais simpáticos dizem é auto-estima e outros ainda falam é pragmatismo. Ao te falar assim me lembro das formas e atitudes que me fizeram dar nas vistas, ser olhado e falado, ao mesmo tempo que me deixaram solitário, emmimesmado e cambaleante.
É por isso que no dia de hoje eu não te vou falar nem mais nada e me deixar escorregar pelas memórias das coisas que deixaram em cinzento o céu agora azul, esse zulmarinho barrento que agora é assim um mar de lágrimas choradas no mesmo tempo que é o elo que me liga.Vamos só caminhar para os desentupimentos das coronárias e deixar que o vento voe sobre os neurónios sobreaquecidos.


Sanzalando

23 de abril de 2007

Divaguemos

Vamos divagando enquanto distribuímos o peso ora numa perna ora noutra, num caminhar serenamente seguro ao longo deste final do zulmarinho. Vamos divagar sobre o que devemos divagar na forma de palavras ditas.
Divaguemos sobre os sucessos de vida, não os meus que esses são coisas assim como pequenas e não merecem destaque nem divagações, mas aqueles que me tocaram porque aconteceram a amigos ou conhecidos meus. Divaguemos sobre os sucessos bons e maus. Mas se te falo de sucessos porque te falo também em bons e maus? Sucessos unicamente porque sucederam, aconteceram.
Bem, dentro dos sucessos maus é sempre difícil pôr um antes do outro, pelo que salto esta parte e mostrar coragem para os olhar de frente e ter força para os pôr assim num atrás de costas com a lição aprendida, aula dada.
Dentro de toda a nostalgia que me invade há que não esquecer os tempo de felicidade e até mesmo orgulho já que amigos meus conseguiram realizar uma parte importante dos seus sonhos imediatos. Com mais ou menos dificuldade os sonhos se foram paulatinamente realizando e hoje são sonhos sonhados com pés assentes na terra. E lhes vejo com novos sonhos que sei um dia vão ser sonhos sonhados também porque lhes conheço bem e sei que não param até os terem sonhado de passado.
Neste divagar vamos divagar também que está na hora de mudar de divagações, está na altura de haver um volta atrás na forma e maneira de te falar as coisas, voltar na origem da palavra dita como quem a fala sem lhe trabalhar.
Ah! Trás gravador porque não me vai apetecer repetir duas vezes a mesma coisa e se te falo num de cor e salteado quer dizer que não te saberei dizer as coisas letra por letra uma outra vez.

Sanzalando

Figurado Português 27


22 de abril de 2007

Talvez é Domingo


Anda sentar aqui mesmo pertinho do zulmarinho. Vamos aproveitar o vento que voa vindo do mar e lhe chamam de brisa, para arrefecer este crânio que não pára de bulir ideias numa estiga de manter a vida em agitação.
Hoje mesmo é dia de despensar o quotidiano que intervala de vez em quando nas palavras surdas ou afónicas. Senta só assim como quem passar um dia sem pensar, descansar a goela e deixar em banho-maria as células pensantes.


Sanzalando

Figurado Português 26


21 de abril de 2007

Por absurdo

Vamos caminhando lenta e pachorrentamente por este final de zulmarinho. Se tivermos palavras dizê-mo-las, se as não tivermos entremo-nos a ouvir os nossos passos na areia de mil cores. Importante mesmo é estarmos juntos nesta caminhada, em acordo ou desacordo, mas sempre de olhos nos olhos que é como quem diz. De vez em quando olhamos em redor para saber como vai o mundo para lá da nossa imaginação, do nosso sonho, do nosso querer.
Tu sabes que nada é impossível. Se não sabias é porque andas por aqui distraída. Os impossíveis só existem até ao momento em que tentamos fazê-los realidade. Nós estamos sempre num princípio, sempre a tentar dar a volta ao impossível. É esse impossível que torna possível ter um caminho. Estou-te confuso? Tem dias.
Ao caminharmos na borda do final do zulmarinho parece impossível sabermos como vai o outro lado da linha recta que é curva. Mas se escutares as ondas dele se espraiando, vais sentir que te trazem recados, pequenas frases que tu desmultiplicas e constróis ideias. Dessas ideias te nascem sonhos, destes, a força para os realizares.
A vida está cheia de contrastes, absurdos alguns outros nem tanto. Mas não é impossível ultrapassar estes caminhos absurdos por mais contrastados que estejam.
Por absurdo que pareça eu me pergunto o que pensarás tu me mim. Como ser humano tenho esse pensamento, que pensarão os outros de mim? Por muito que seja independente dessa opinião, me interessa saber porque é necessário fazer correcções, mudar estilos, mudar formas de vida, Um leque de coisas que o subconsciente vai alterar para ir de encontro a essa opinião, à qual eu sou independente, não deixando de depender dela.
Que pensas tu de mim que passas horas a me ouvir falar, de mente e coração aberto, mas não dizes uma só palavra? Te olho nos gestos e te percebo que eu sou um modelo ou que irei ser para gerações que virão. Na verdade eu não me quero plastificar para ser um tipo porreiro, que caminha a falar das coisas simples da vida com olhos no lado de lá. Porque sempre caminho a olhar para o lado de lá, para o amanhã ou horário a seguir. Eu escolho o meu caminho muitas vezes num impulso e por isso tenho erros, tenho a capacidade de tropeçar nos degraus da vida, de mudar de rumo, de escolher outro caminho. Não estou plastificado.
Plastificadamente caminhamos à procura das palavras.
Sanzalando

Figurado Português 25


20 de abril de 2007

Caminhemos em palavras

Vamos aproveitar este tempo húmido e falar de coisas soltas como são as palavras que nos saiem da boca e que cada um interpreta como lhe apetece.
Na tua grande sabedoria, de anos feita, já sabes que podemos fazer com as palavras o que queremos. Nós somos o limite delas, lhas usamos para pintar, para descrever, para meditar, para insultar e para fazer silêncios. Tudo depende mesmo do nosso sentir.
Eu já te provei que quando se preserva algum sonho, por mais impossível que aparente ser realizado, fica-nos a satisfação de ter feito algo ou tudo, ou ainda um pouco de menos para o conseguir. Minha mãe me disse que, na minha vida, muito provavelmente eu conseguiria realizar muito dos meus sonhos e outros não. Eu sei que ou ela me disse ou pensou dizer-me ou talvez não. Mas ficou a intenção. É isto que é a vida, fazer planos, lutar pelo que queremos. Com empenho mais cedo ou mais tarde as coisas se podem fazer.
O mesmo é a vida das palavras. Tal e qual. Algumas são nuas, outras são cruas e outras ainda resvalam na barreira da surdez selectiva. Umas atingem o seu fim, outras não. Umas são faladas outras são caladas. Toda a palavra depende da intensidade com que é dita ou calada.
Vamos caminhar sobre palavras levadas pelo vento, sonhadas em noites calmas, vividas em momentos românticos.
Caminhemo-las ao som do marulhar deste zulmarinho que nos leva a mensagem até ao início dele.

Sanzalando

Figurado Português 24


19 de abril de 2007

No silêncio das palavras

Hoje preferes estar sentada a ver o zulmarinho se embalando num vai e vem interminável? Pois fiquemos então aqui sentados nesta areia de mil cores, olhos postos no lá longe como quem quer ver mais mas ao mesmo tempo quer viajar ao sabor do pensamento sem esforço e canseiras.
Como sabes, numa coisa que parece anormal, eu quando acordo a primeira coisa que penso é nela. É ela que me vem à cabeça na coincidência de abrir de olhos. Há assim como que um segundo para me localizar. Depois durante o dia não me sai o ela de agora, o ela actual e não o ela dos tempos da maria-cachucha. Durante o dia procuro não perdê-la da vista e à noite lhe vejo como que se estivesse à luz das velas. Vais dizer é obsessão e eu te respondo que é a maneira de estar vivo, é a maneira de andar na minha verticalidade, a maneira de esperar o amanhã com um sorriso nos lábios.
Quando estou aqui sentado eu lhe sinto a brisa, a frescura do cacimbo, a quentura das suas gentes. Aqui sentado eu lhe ouço os pregões e lhe vejo os movimentos. Aqui tem momentos em que eu quero ficar mudo num silêncio de ver mais nítido, de sentir mais sentido. Daqui as cores garridas são mais tropicais, a sua luz me fere o tacto de não lhe poder tocar.
Por tudo isto tem dias em que prefiro ficar aqui sentado no silêncio das minhas palavras.

Sanzalando

Figurado Português 23


18 de abril de 2007

Sonhar sonhos à velocidade do som

Anda, caminhemos que o tempo está de feição, as palavras saltam da boca com a velocidade do som, os teus olhos brilham de reflexo e o zulmarinho parece tão quieto que nos quer ouvir.
Parece que o sol queima mas não o tentes tapar com a sombra de um dedo, deixa-o livre de te tocar, de se mostrar na sua realidade nua e crua. Tu sabes bem que eu não me escondo dele e não gosto que me o escondam. Ele está ali para nos ajudar, para ver a clareza das coisas, para mostrar os brilhos das coisas belas e as sombras desenhadas num chão qualquer são às vezes verdadeiras obras-primas.
Vamos caminhar nos passos lentos para não tropeçarmos em palavras pela metade.
Gargalhas como se eu te tivesse contado uma piada, mas eu sei que o fazes porque estás de bem com este sol de primavera, que consegues ver mais limpo, consegues sonhar com brilho neste mundo cinzento. É primavera dentro de nós. Temos o nosso brilho, temos os olhos sorrindo porque temos a alegria de sonhar. E tu sabes que um dos meus sonhos é realizar um.
Vamos caminhar por este final de zulmarinho. Vamos mostrar o brilho dos nossos olhos nesse azul intenso.


Sanzalando

Figurado Português 22


17 de abril de 2007

Um beijo e uma carícia

Me acompanha neste caminhar solidário. Escuta comigo o marulhar desse zulmarinho rebolando quase até aos nossos pés, como a querer nos acariciar. Aprecia comigo a beleza desse azul tracejado de branco e embala-te no vai e vem das ondas como se fosse o que tu mais querias.
Quantas vezes escutamos uma canção ou ouvimos um poema, ou coisa parecida, a dizer que dava a vida por um beijo? Mas te garanto que isso me cheira a falso, porque ninguém pede um beijo só. Isso me cheira apenas a um grito desesperado a pedir carinho.
Um beijo ou uma carícia não são suficientes para satisfazer uma pessoa, é assim como uma roda girando na sua circunferência, quanto mais se lhe dá mais ela necessita, mais ela gira na procura de carinho.
Há tantas formas de beijo, desde o beijo forçado e seco que até dá medo recebê-lo, até ao apaixonado. Um beijo apaixonado é a máxima expressão da paixão, é a paixão feito beijo.
Com as carícias é assim parecido. Há as carícias curtas e rápidas e as que se dão com paixão, numa forma de dizer que te amo, com as mãos.
Com o amor não se pode ser restritivo, não há que dá-lo contando os segundos.
Devemos dar o amor sem contabilistas, em abundância.
Já viste por onde andam os meus pensamentos neste caminhar doce e sereno num final de zulmarinho?

Sanzalando

Figurado Português 21


16 de abril de 2007

Me apeteceu dizer-te estas coisas e mais nada que isto

Caminhamos num andar lento para não gastar o tempo de modo a ter tempo de me ouvires no que tenho para te dizer, mesmo que algumas vezes eu troque as palavras pelo silêncio de estar calado a ver o mundo girar sobre o seu eixo.
Se vires bem, quando se pergunta a alguém o que mais detesta a resposta vai ser logo que odeia a mentira e a hipocrisia. E eu responderia logo que o que mais odeio é mesmo a hipocrisia, não só da gente que me está ligada como à geral. Odeio a hipocrisia na religião, prostituição, capitalismo e seus dinheiros, na educação, na maldade, na saúde e na liberdade de expressão. Estas são aquelas que neste caminhar assim num repente eu me lembro mas que tem mais vai ter que haver, porque eu não tenho tudo assim à mão de pensar e não perco tempo a pensar em listas.
Tu já me conheces, tu já sabes que eu não sou pessoa de gostar de coisas meio cheias, optimista, nem meio vazias, pessimista. Gosto de ver as coisas pela metade, por isso te digo que sou realista. Prefiro mil vezes uma verdade dolorosa que uma mentira piedosa. Vejo que há quem prefira que se lhes diga uma mentira piedosa a uma verdade cruel, porque esse mundo quer ouvir o que gosta de ouvir não o que é mas o que gostaria que fosse.
Mas que me fez assim azedo hoje, perguntas-me tu no teu silêncio transparecido nos olhos.
Nada. Me apeteceu dizer-te estas coisas e mais nada que isto.

Sanzalando

Figurado Português 20


15 de abril de 2007

Um dia escreverei a carta

Tavas a ver que hoje eu não te dizia uma palavra? Te enganaste redondamente. Tarde antes que nunca.
Estava a tentar escrever uma carta a ela. Mas fiquei assim como bloqueado de ideias no começar.
Como mesmo começar uma carta de amor? O papel não espelha o brilho dos olhos, mas mostra a mão que treme de emoção. Mas lhe trato mesmo como?
Neste pensar, o passar do tempo não fez intervalo.
Por isso eu te vou ler o que esbocei, esquecendo não ter começado a carta como eu descobri que não sabia começar.
Te amo tanto que nem sei como começar esta carta. Tenho muitos sentimentos desencontrados como palavras cruzadas, desentendo muitas coisas, porem o meu amor por ti não esfria. Não sabes como eu queria que a tua definição de amor fosse que nem igual à minha, de modo a que num escrever fácil tu me ias entender no todo e no completo.
Aqui parei e decidi que ia esperar para amadurecer as palavras que lhe ia escrever depois, vindo aqui caminhar a teu lado como quem vem buscar um ombro amigo onde encostar a cabeça e deixar as ideias se arrumarem sem lhes forçar a sequência.


Sanzalando

Figurado Português 19


14 de abril de 2007

Vamos caminhar devagar

Vamos hoje em passo lento por este final de zulmarinho que eu hoje me sinto criatura que se dissolve, se perde fervendo como fervem os sais de fruto. Ainda não aprendi a lidar com isto e nem aos poucos eu aprenderei, porque para sempre eu terei o vigor da adolescência, a inocência da infância e o riso de ser criança.
Mas um dia vou aprender, como aliás fiz com tudo o resto.
Já fiz as pazes com os meus defeitos e hoje os trago a passear para lhe descobrir o mundo, fazendo sempre muito barulho. Mas tento também trazer sempre o que tenho de bom na outra mão, num cortejo desigual, onde cada lado luta para gritar mais alto.
Nunca fui de ter um rumo traçado no previamente, vou dobrando as esquinas sem bússula como quem dobra um pedaço de papel para passar o tempo.
Muitas vezes, sem norte mesmo. Surpresa a cada passo.
Vamos caminhar devagar divagando em vagadundas ideias.


Sanzalando

Figurado Português 18


13 de abril de 2007

Se

Se te apetece mudar de vida, muda, mas me deixa estar assim neste caminhar ao longo do final do zulmarinho com os olhos e a esperança lá no início dele. Não é doença nem paranóia. É mesmo só um inexplicável amor de paixão eterna.
Me deixa assim olhar nesse mar de silêncio, nessas linhas azuis que se paralelizam até se espraiar na areia das mil cores, nesse oceano que mostra as suas rugas brancas e se espuma ao beijar aos meus pés. Não, não é um oceano envelhecido, é só mesmo um mar carregado de emoções e mensagens desde o início dele.
Me deixa beijar os lábios desse mar.
Me deixa caminhar por palavras como se fossem ilhas isoladas dispersas nesse mar até ao início dele.
Se te apetece mudar de vida, muda, mas me deixa ficar aqui nessas madrugadas da vida para lhes viver o dia.
Mas desde já te digo que a tua ausência ia ser uma falta de comparência que eu não sei se ia aguentar. Se calhar ias assistir a um definhar, um cinzentar, um enroucar de palavras que iam acabar num silêncio sepulcral. Porque juntos, alem das cumplicidades, há os complementos que me iam faltar, o céu se nublaria num carregar de lágrimas.
Mas se te apetecer mudar de vida, muda.
Se ela é a minha paixão, tu és o meu sangue, o meu coração. Mesmo que seja só para dar um tom melodramático às coisas que te digo.


Sanzalando

Figurado Português 17


12 de abril de 2007

Às vezes apetece amar

Anda, vamos caminhar pelos caminhos da consciência, pela razão que manipula as situações e te sentirás segura nos passos que dás, porque o terreno tem a sua lógica e te parece entendível. Todas as tuas perguntas e respostas estão dentro do paradigma do conhecimento.

Se caminhas comigo nos terrenos da inconsciência, da decisão repentina e impulsiva, é a tua intenção que manipula a acção, intenção oculta num lugar desconhecido da razão.

Talvez seja mesmo melhor caminharmos na beira do zulmarinho, transparecendo no corpo a queimadura de sois passados trazidos pela brisa que nos trás as imagens, as recordações desde o início dele. Aqui, neste caminhar, sem consciência e muito menos inconsciência, encontras o sorriso inocente dos teus silêncios desde quando eras ainda criança.

Às vezes apetece ser inconsciente. Às vezes apetece amar sem mesmo saber porquê.



Sanzalando

Figurado Português 16

11 de abril de 2007

Até a um dia

Vamos continuar a nossa caminhada, falar as coisas que temos que falar, até ao dia que não nos apetecer ou mudarmos de ser o que somos. Até lá eu já sei que te falo e que tu ouves, mesmo que eu te olhe e veja que estás a ver o início do zulmarinho, que estás aqui no físico mas não na alma. Até lá sei que o teu silêncio carrega mil perguntas que eu te terei que responder, mesmo que a afonia me obrigue a te devolver o silêncio.
Mas tu sabes que eu compartilhar todos os meus segredos contigo, sombra amiga que me acompanha, é o modo mais inteligente de eu dissecar, pulverizar, aprender, projectar, desfazer, fazer, construir e criar a minha vida. A tua mente feminina engloba a potência da essência e naturalidade, o conceito, a beleza e a simplicidade complexa de facilitar as ideias feitas na simplicidade dos pensamentos fluentes. As minhas falações, palavras soltas ditas em formas de frases, são muito IN. Te explico: são intensas, incansáveis, indirectas, inacabadas e incorrigíveis.
Desacordas? Pelo teu olhar vejo que não, pelo eu silencio percebo que concordas. Afinal de contas fomos feitos um para o outro e tu só existes porque eu tenho existência. Ilusionamos o futuro, vivemos a verdade dos sonhos centrifugados no recheio da realidade.
Anda, dá mais uns passos para me acompanhar, não fiques esticada ao comprido atrás de mim, trás a tua fragilidade para junto deste diálogo de construção futura.

Sanzalando

Figurado Português 15


10 de abril de 2007

Saudade de Alma

Quando a alma chora, não há lágrimas para limpar nem ocorrem palavras para explicar o que ocorre. Talvez não se entenda a dor nem se compreenda que só haja sombras num dia de sol. Talvez não se entenda que só haja perguntas sem respostas. Talvez não se entenda que a cabeça se alague em tristezas.
Talvez seja saudade, palavra que parece só existir na língua portuguesa porém acredito que exista o sentimento nas outras também.
Há que dar tempo ao tempo para deixar de ter saudades da saudade.
Há que recorrer da imaginação para se afogar a alma em afagos.
Há que lhe dar o presente de estar presente na vida vivida em cada dia.
Sabes, tanto quanto eu, que quando caminhamos nesta praia de final de zulmarinho estamos a viver o presente de ter imaginação que nos afaga da saudade, nos seca as lágrimas da alma e nos encaminha para os sonhos reais de navegar ao sabor das velas do coração.
Te digo que quando te parece que eu preciso do teu desprezo, de ser esquecido por ti, porque estou intragável, lembra-te que é nesse momento que eu mais preciso de amor porque me chora a alma, a imaginação caminha por pesadelos e o corpo se encontra calado pela força da inércia do repouso.
Mas agora vês, temos uma praia com aspecto de novo, agradável, pensas tu que eu bem te conheço e te vejo nos olhos, airosa e ampla sendo a mesma praia do costume, temos a bandeira dourada que merecemos por causas dos amigos que nos acompanham no silencio das caminhadas.
Com tantas coisas boas que nos rodeiam porque ainda nos chora a alma no seu calado lugar?
Já sei. Falta-nos plantar a árvore e escrever o livro!

Sanzalando

Figurado Português 14


9 de abril de 2007

As minhas desculpas

Hoje o tempo que deveria estar a escrever estou a fazer alterações no template deste blog.
Há outros dias para escrever...
Estou desculpado?
Já agora espero estar a melhorar o aspecto gráfico...
Até já!

Sanzalando

Figurado Português 13


8 de abril de 2007

Hoje é feriado

Obrigado a todos aqueles que por aqui têm passado com os olhos, sentido a alma neste marulhar de ideias vagas, onde cada onda é um dia.
Mas hoje sendo feriado, dia santo comemorado de forma pagã com coelhos e ovos e coisas assim que me baralham de tanto arranjar explicações para poder comer chocolate sem ter receio de engordar e de ter problemas com a dietista, não me apetece nem caminhar nem falar.
Hoje dou feriado ao teus ouvidos e à tua mente.
Obrigado e BOA PASCOA

Sanzalando

Figurado Português 12


7 de abril de 2007

Eu hoje ouço

É! Hoje, neste dia que está a decorrer como decorrem os dias iguais aos de hoje, não me apetece falar, por isso te vou cantar no rádio da imaginação:

Tristeza não tem fim
Felicidade, sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
E tudo se acabar na quarta feira
Tristeza não tem fim
Felicidade, sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor
Tristeza não tem fim
Felicidade, sim.


Antonio Carlos Jobim - Vinícius de Moraes.

Sanzalando

Figurado Português 11


6 de abril de 2007

Viver simplesmente

Vamos só caminhar assim de olhos postos no dentro da gente. Vamos ouvir o coração, ver os sonhos, tocar nos sentimentos, cheirar a brisa do zulmarinho e saborear cada instante que passámos.

Vamos caminhar sobre a vida sentindo cada dia como a gente lhe quer mesmo sentir. Não te esqueças que sem ela não valia a pena viver e vamos vivê-la como se cada dia fosse o último, porque um dia o será.

Sanzalando

Figurado Português 10


5 de abril de 2007

Imagens em palavras

Olho para o azul do zulmarinho. Olho como se estivesse a olhar duma janela. Vejo imagens e sempre soube que as imagens valem por mil palavras. Cor, estética, gente, vazio, distância temporal. Me adormecem todas as outras dores, todos os outros sentidos. Hipnotizado, o pensamento não flúi, assim como a energia em mim. Olho por esta janela virtual e vejo-te lá, do outro lado da linha recta que é curva, cheia de cor, esteticamente bela numa vazio que nos separa no tempo e no modo, que nos une no gostar sem palavras.
Sinto que está na hora de parar, antes de me transformar num autómato, antes de querer o que todo o mundo quer, antes de pensar igual a todos.
Olho-te fixamente daqui. Vejo-te e quase diria que te sinto, não fossem estar paralisados todos os outros órgãos dos sentidos. Apetece-me andar para ti, abalroar-te de corpo e alma, esquecer físicos, formas e conteúdos.
Dói-me a cabeça e não é de pensar mas sim de preocupar-me porque só tu me interessas, só te quero voltar a ver e sentir no sentido palpável da minha existência.
Ai, se alguém me perguntasse onde eu queria estar:…

Sanzalando

Figurado Português 9


4 de abril de 2007

Tentarei

Já que resolveste acompanhar-me nesta caminha interminável de sonhos e fantasias, de realidades e pesadelos, te peço que não me abandones agora. Há ainda muito caminho a ser percorrido, muitos passos que têm de ser dados, muitas falas a serem faladas mesmo que transparecidas de silêncios.
Desde que voltei o olhar até lá bem atrás, em que iniciei falar-te, mesmo não sabendo se me ouvias ou não, porque falava-me, me apetece escrever-te poesias do fim do mundo, ler-te os meus pensamentos simples e complexos, falar-te dos meus desenhos feitos em prosa, desenhar-te em barro à luz da lua.
Não, ainda não te falei tudo o que te quero dizer. Não te falei na minha fidelidade, da minha certeza de te ser justo e sincero. Não te falei do teu lado escuro, das tuas imagens circulares e pouco nítidas de duplo ou triplo significado.
Ainda há tanto para falar-te que não sei se todo o tempo do mundo será suficiente. Tentarei, umas vezes sim, outras não, umas vezes sorrindo, outras chorando.


Sanzalando

Figurado Português 8


3 de abril de 2007

2ª vez em um ano



blogstars.com.br disse...

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Sanzalando

Nada é por nada (5)


Me ouves ou estás em dia de silêncio auditivo? Te apetece caminhar ao longo do zulmarinho ou estás com a paralítica astenia de te remeteres dentro de ti?
Ergue-te, endireita-te, que não carregas o mundo nas costas. Acompanha-me, nem que seja na surdez da tua voz, que eu preciso falar e não estou com vontade de falar aos peixes porque não seria original e ainda agora me chamariam de louco. Por isso te peço com a delicadeza habitual que me acompanhes enquanto eu me falo das coisas que me passam na cabeça.
Porque é mesmo que as folhas caiem? Umas é porque é o ciclo da vida delas e como tal é inevitável que elas cheguem ao chão assim por livre gravidade, outras por causa da uma qualquer agressão que lhes arrancam dos galhos, pois se assim não fosse ainda teriam mais algum tempo de vida.
E porque é que eu não fiz o telefonema, não mandei o e-mail? Por causa de uma briga inofensiva, por causa duma preguiça mental? Caramba, interromper qualquer ciclo de vida é violar a ordem natural das coisas. Além de injusto é cruel.
Já imaginaste as folhas que ficam como se sentem ao ver uma folha ao seu lado ser assim arrancada na folhagem da vida? Até parece que a morte é assunto banal dos dias de hoje.
Tudo isto faz-me pensar que não é boa ideia trancar-me numa redoma de vidro alimentando a utopia de que o mundo é bom e continuar a acreditar na paz universal.
Tudo isto faz-me pensar que há situações que independem da gente, mas que todas as outras são da nossa responsabilidade.
Tudo isto faz-me pensar que às vezes a gente se esquece das coisas simples da vida.
Por isso não me calo de muitos eu te amo aos quatro ventos durante o dia, porque é a minha tentativa de mostrar o que vale na vida para que ela seja apetitosamente vivida.


Sanzalando

Figurado Português 7


2 de abril de 2007

Nada é por nada (4)



Chove convulsivamente lá fora.
Chegou a hora de reiniciar a vida. Os intervalos são feitos para a gente esticar a cabeça, pousar os pensamentos e depois recomeçar.
Acabou o intervalo.
Vira-se a página, olha-se ao espelho e vê-se que o reflexo é o mesmo. Não se consegue é ver que lá dentro daquele corpo reflectido há mudanças. Crescimento de saberes e sentimentos não são transparecíveis no reflexo do espelho. O mesmo corpo, os mesmos olhos, o mesmo sorriso mas mais madura a pessoa.
Mas acabou o intervalo.
Sentado na minha secretária, ansiosamente esperando que as letras se soltem para a caneta de tinta permanente, para que permanentemente possam ser lidas, relidas e reavaliadas, fico a saber que elas passam antes pelo coração, por essa ligação à terra, filtro da existência, sussurro da carência nostálgica, grito de alerta de um sonho não esquecido porque adiado.
Falo para a caneta de tinta permanente sem saber o que ela escreve nem revejo as lágrimas que caiem na folha de papel. Só pode ser incoerência porque nem eu me reconheço nas palavras que escrevo, não só porque não as releio mas também porque eles se escrevem em letra ilegível como que numa corrida contra o tempo.
Bebo um copo de água como querendo ganhar uma outra fluidez na oralidade perceptível pela caneta de tinta permanente e nem dou conta que a água se salga com a enormidade de lágrimas que lhe caiem.
Sinto que o coração bate com tanta força que parece quer sair da sua prisioneira posição.
Paro. Olho à minha volta como a querer reconhecer o lugar onde estou. Sei que estou aqui, que eu não sou daqui mas é o sítio onde quero estar agora. Sinto-me um estranho neste lugar como se aqui nunca estivesse estado. Daqui a pouco logo se verá como me sentirei e onde quererei estar.
Acabou o intervalo e é hora de recomeçar.
Tranquilizo-me.
Nada é por nada e só é pena eu não estar contigo ainda.


Sanzalando

Figurado Português 6


1 de abril de 2007

Nada é por nada (3)


Anda, me acompanha neste caminhar para que eu não esteja embebido em solidão. Há momentos em que a maresia e o marulhar devem ser compartilhados, ou porque são belos ou porque existe um transparente e resistente fio que nos une. Um fio que nada nem ninguém pode partir ou cortar. É um fio que atravessa paredes, montanhas, indestrutível porém invisível aos olhos de mortais sem sonhos.

Nunca sentiste esse fio que te amarra de uma forma livre e consciente?

Quando todo o peso da terra parece cair sobre ti, quando as nódoas da vida se parecem afogar, seguras esse fio, dás-lhe um puxão e logo aparece a tua bóia salvadora.

Quando te apetece gritar que não podes mais, quando és invadida por pensamentos negativos que te sufocam e galopam no teu corpo derreando, tens sempre na outra ponta do teu fio a bóia.

Mas nada disto acontece por acaso ou fatalidade. Põe-te à prova a capacidade de reagires, a capacidades de veres soluções, a capacidade de pintar quadros de ilusões e a capacidade de dares a volta utilizando a mente.

Somos nós que complicamos a vida para depois usufruirmos desses momentos com saudade até. Recebes prémios e descobres que a vida, mesmo com os seus pequenos passo na selva das desilusões, nos mostra momentos de grandeza indescritíveis.

Um dia de sol na praia, um sorriso de criança, uma conversa agradável, uma carícia inocente. É a vida feita de pequenos nadas que não se fazem de acasos.



Sanzalando

Figurado Português 5



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